terça-feira, março 13, 2007










- Não come mais nada – perguntou a Fátima – não aprecia as nossas comidas pelo que vejo – rematou.
- Não é isso, sabe que há uns anos fiz uma operação delicada, desde então tenho muito cuidado como que como. – Respondi, olhando novamente os seus olhos em todo o esplendor que os mesmos tinham. De cada vez que os olhava ficava mais incomodado e cada vez mais preso. Era melhor despachar o que tinha ali a fazer e partir. Fugir das garras da paixão era o que melhor sabia fazer. Ninguém entenderia o facto de amar a minha falecida companheira e em simultâneo me apaixonar por alguém vivo. As pessoas tendem a exigir mais que o nosso amor. Tendem a exigir o nosso mundo todo, passado, presente e futuro. trágico mas é assim.
- Então que tipo de alimentação faz? – Era ela novamente.
- Usualmente alimento-me de peixe e de muitas saladas - Isso não alimenta ninguém – disse o chefe da polícia sendo seguido por quase todos com exclamações de riso e de aprovação. Apenas o padre não concordou. Estava com demasiada atenção em mim.

segunda-feira, março 12, 2007


Que fizemos nós do nosso jardim?
Deixámos as rosas morrer
E as glicínias adormecerem
Sem água.

Tu castraste a nossa alegria
E deixaste morrer os malmequeres
No nosso jardim só restam laranjas
Amargas
Que se não podem beber.

E vimos o nosso jardim morrer
Num tempo de enlouquecer.

Manuel F. C. Almeida


E fizeste da tua vida estrada,
Construíste o teu sonho a cantar.
Tu que tens umas mãos de fada ,
nasceste pra enfeitiçar.

E andaste por mil veredas,
Mil montes, mil lugares.
Tens um passado de lendas;
Histórias feitas com olhares.

E quando falas pra mim;
quando te deixas tocar;
É estranho sentir-te assim:
Estás ali, mas a voar.

E eu faço do mundo um baloiço
Como quando era menino.
E as lenga-lengas que te ouço
Fazem de mim pequenino.

Manuel F. C. Almeida


-está deliciosa e por favor trate-me pelo nome, os títulos servem aos medíocres para se destacarem. – Disse. Simultaneamente fixei o olhar nos lábios. Bem desenhados, deliciosamente bem pintados, que me sorriam como um farol. De repente fui invadido pelo cheiro dela. Era natural, um cheiro de mulher inesquecível. Ela também percebeu e a sorrir perguntou baixinho com um sussurro de fazer arrepiar:
- que se passa Manuel? Sente-se bem?
A Isabel viu a forma nervosa como mexia as mãos e o olhar do dono da casa.
- Tem juízo, ainda te recordas do Rodrigo. Desapareceu por estes sítios. – disse-me ao ouvido.
Recordava claro. O Rodrigo tinha sido colocado no campo arqueológico anos antes. Depois de viver cerca de dois anos naquele local. Desapareceu misteriosamente. Nunca foi encontrado corpo. Na altura tinha 27 anos, era um rapaz alto, bem constituído. Gostava de alpinismo e montanhismo, coisas que cultivava com prazer e destreza. Recordava que tinha corrido o boato de que o seu desaparecimento teria algo a ver com questões de mulheres. Fiquei na altura um pouco surpreso. Era um indivíduo pacato. Trabalhador, quase obsessivo nesse campo. Nunca o imaginei d. juan e Nunca me conformei com aquele facto. Aliás um dos motivos que me tinham levado ali era o Rodrigo. Ou antes o seu misterioso desaparecimento.

domingo, março 11, 2007














Olha!
Já sei a cor da tua alma.
Quiseste pinta-la com tinta
Incolor,
Mas ela acabou por se mostrar
No seu arco-íris de pureza.
Tua alma é da cor do amor

A não esquecer
E o teu “eu” só um poema
A despertar no amanhecer.


Manuel F. C. Almeida







Funcionários vindos da cozinha serviram sopa. Finalmente podia pensar em tudo sem me dispersar. Quis raciocinar sobre o que estava a acontecer, mas a imagem dela, a curiosidade eram maiores. Dei comigo a elaborar estratégias de aproximação. Nunca tal tinha feito. Desde a morte da minha companheira que evitava aproximar-me de alguém. Os casos mantidos eram apenas de fruição física e na maior parte das vezes sentia-me mal quando o corpo se dava por saciado. Noutros casos as premissas iniciais eram pervertidas e regra geral acabava por magoar alguém. Estava farto disso. Achava possível um amor. Daqueles amores para uma vida. Era verdade que sentia a Fernanda ainda presente. Mas continuava a acreditar que teria de existir um amor sem fim. Incondicional. Seria naif mas certamente era eu. Genuíno. Transparente. Sincero. No entanto tinha a propensão para momentos impossiveis. Como diriam os poetas era o meu fado. Mas ainda assim tinha em mim espaços vazios. Téria já vivido " o amor" ou apenas tinha vivido um amor? Estas questões há muito que me assltavam o espirito.
- Então Dtº a sopa esta boa? - Perguntou a Fátima. Nem tinha notado ou saboreado a mesma. Limitara-me a comer sem ligar muito ao paladar.

sábado, março 10, 2007
















Eu fui ao outro lado do mundo
Vi estrelas novas no céu
E vi no espelho de uns olhos
O reflexo do meu “eu”

Agora sei que no mundo
Há outros que são como eu
Gente que sabe o que quer
O teu mundo é também meu.

Por isso não mais estarei só
Tu estás aqui a meu lado
Plantei uma flor no teu peito
Na boca, um beijo adiado.

MANUEL F.C. ALMEIDA

quarta-feira, março 07, 2007
















PORQUE TODOS NECESSITAMOS DE DESCANSO,
NOS PRÓXIMOS DIAS IREI ESTAR AUSENTE.
FICA A MUSICA DE RY COODER, BANDA SONORA DE " PARIS TEXAS.

FOI COM ESTAS MÃOS QUE OUSEI
AGARRAR A LUA.
E DERAM-ME
O CÉU.

Manuel F.C. Almeida



- Vê como te portas – segredou-me a Isabel ao ouvido – nada de meteres as mãos onde não deves. Não resisti a recordar-me e a dar uma breve gargalhada. Ela ainda se recordava como tinha-mos começado. Há muito tempo que não sentia o meu riso tão natural, tão meu.
Não sou o que se apelida de bom garfo. Já fui, mas creio que a necessidade obriga-nos a mudar e comigo assim foi. Por isso ao ver o que estava na mesa não pude reprimir um sentimento de náusea. As únicas comidas aceitáveis eram as saladas. Um desperdício obsceno. A minha reflexão foi interrompida pela Fátima.
- Então Dr. o que vem cá fazer? – Olhei para ela. Linda e bela, a seu lado um homem com idade para ser seu pai. A Isabel ouviu a questão e discretamente tocou-me na perna. De imediato fiquei alerta. Esperava que se movessem, não esperava é que fosse assim. se a minha viajem tinha sido comunicada porquê tal pergunta?
- Vim verificar como decorre o levantamento arqueológico. Já tinha saudades do campo! - Respondi. De imediato vi abrir-se um sorriso cúmplice.



Derramo o meu corpo no teu,
E das sinfonias do amor
Farei crescer tulipas rubras,
Transparentes como tu.
Os jardins do mundo,
Vão gritar o teu nome.
E saudar-te, libertando
um arco-íris no céu.

A teus pés, a beleza.
A teu lado, apenas eu.

Manuel F.C.Almeida

terça-feira, março 06, 2007


E ainda me fazia confusão que num estado laico surgissem sempre padres em momentos para os quais era convidado.
A conversa de circunstância instalou-se. Em boa verdade já não suportava nada daquilo. Não queria saber dos projectos de um novo quartel de bombeiros nem do interesse da igreja em recuperar a basílica da terra. Mas com um sorriso na cara dizia que sim sem saber a quê. Era sempre boa política. Tirando a Isabel e a Fátima nada naquela sala valia qualquer tipo de atenção da minha parte.
O jantar começou a ser servido e pela primeira vez dei comigo a pensar no que se seguiria. O costume era abrirem o jogo logo às primeiras conversas. Ali não aconteceu isso. Fiquei na expectativa, sabia que viriam à carga. E não me agradou aquele “ adiar”.
Calhou sentar-me entre a minha cicerone e a minha anfitriã. Calhou não. Por um motivo qualquer a dona da casa tinha-me colocado a seu lado, numa mesa comprida e ampla.

segunda-feira, março 05, 2007









blues
(for you my sweet friend)









I
One last word,
One last kiss,
Let me be the dream
That you missed
II
Eu queria dançar contigo no ar
Ser o futuro em ti adiado
Enlaçar o teu corpo e voar
Ser o sonho um dia sonhado.

Eu posso, sei o que sou.
Sou um presente ao passar;
Presente que colocou
Todo o teu ser a brilhar.

É isto a vida, feita de espanto
Desencontros feitos no tempo
É isto a vida, é isto que canto
Ponho palavras vivas no vento.

to. Manuel F. C. Almeida

PARA FANNY OWEN
(obrigado)
Ouve-me por favor.
A nossa história já aconteceu
E não a quero trágica
Como da ultima vez
Vamos dar beijos
No coração
Sim, no coração
Onde nada mais paire
Que um desejo de fusão.

Manuel F. C. Almeida


Rapidamente todos se aproximaram. O primeiro, presidente da Câmara municipal, homem alto e encorpado, na casa dos 50 e muitos anos, estendeu-me a mão e cumprimentou-me de forma vigorosa e efusiva. Ao mesmo tempo que me dizia – vejo que já conhece a minha esposa. – A primeira parte do puzzle estava acabada. A minha deusa era casada e logo com o presidente. Mentalmente não consegui evitar um sorriso. Ela deveria ter um pouco mais de 30 anos, magra, frágil, ele mais de 50 e com a figura característica dos políticos de província, que fazem politica em meio de petiscos e copos. A Isabel captou o meu momento e tocou-me levemente no braço. Quando a olhei tive a sensação que ia começar a rir desavergonhadamente. Felizmente conteve-se. Os outros convivas aproximaram-se e fiquei a conhecer o comandante do posto da GNR, o comandante dos Bombeiros, a restante vereação e para espanto meu até o padre lá estava. Pessoalmente não suportava tais criaturas.

domingo, março 04, 2007




















Podem roubar-me o tempo
Roubar-me o espaço e o lugar
Podem destruir todo o mundo

Mas não deixarei que me roubem
os sonhos de te sonhar.

Manuel F.C. Almeida


- Dr! Então como está - disse. Ao mesmo tempo que me estendia a mão. Reparei então nas suas mãos. Brancas, tão brancas que se podia ver de forma clara o azul das veias e artérias. Estava muito bela. Vestia uma roupa preta que contrastava com a sua cor natural, o cabelo solto e longo de um negro hipnotizante, aliado a um par de olhos da cor do mar faziam dela uma brisa no meio de um ambiente demasiado austero e formal como aquele.
- Venha vou apresenta-lo, mas primeiro diga-me o seu nome – disse em ar de cumplicidade. - Diga-me também o seu – interroguei-a – pode chamar-me Fátima – disse
- Eu sou Manuel Carvalho – respondi – para si só Manuel – disse-lhe baixinho
Olhou-me com os seus grandes e belos olhos e sorriu como as Mulheres o fazem quando nos desejam dizer algo sem verbalizar o quê.- Meus amigos tenho a honra de lhes apresentar o Dr. Manuel Carvalho – disse, numa alocução para toda a sala. A Isabel, a meu lado, sorriu e piscou-me o olho, era um trejeito de cumplicidade que tínhamos há anos.

sábado, março 03, 2007





















É na cor esmeralda do teu olhar,
Nas palavras que só tu sabes dizer,
Que descubro este imenso prazer
De te ouvir a falar, pra te cantar.

Não sei que pensar, nem sei que fazer
Estou já perdido, não o vou negar
Nunca na vida eu pude tocar
Alma tão pura com tanto prazer.

E agora que vais, que partes prá vida
Há cravos vermelhos pra te abraçar
E um mundo que se abre ao teu passar
Um mundo que assiste à tua corrida

No desespero de não encontrar
O lugar que um dia ousaste sonhar.


Manuel F. C. Almeida











Seguimos a senhora até ao salão. Quando entrámos senti o olhar de uma dúzia de pessoas pousar em mim. Só então reparei na forma como vinha vestido. Trazia umas jeans já com algum tempo e um velho pullover de lã, que a minha falecida mãe me tinha feito . Na sala pareceu-me que todos estavam vestidos para uma gala. O provincianismo continuava a ser a marca mais importante do País. Senti que algumas pessoas ficaram incomodadas pelo meu aspecto. Nada de importante. Eu nem queria estar com aquela gente. Todos me pareciam saidos de um filme de série B, a pompa, o ar de gente importante, tudo aquilo me deixava cansado, entendiado. Olhei para a Isabel como que a procurar um refúgio, mas ela devolveu-mo sem me acolher. De repente surgiu, vinda do nada, a minha companheira de viajem. Vinha simplesmemte deslumbrante. Aquela sensação incómoda e sempre tão animalesca que surge quando se deseja alguém, brotou em mim como se um novo rio tivesse nascido em mim..
Ainda assim foi a primeira a quebrar o silêncio que se tinha instalado:

sexta-feira, março 02, 2007














Como é bom sentir-te assim,
Como a neblina do mar
Que Vai e vem sem ter fim

Como é bom ver-te ao partir
Uma caravela de sonhos
Que vai e vem a sorrir

Como é bom estar só contigo
Beber-te o sorriso nos olhos
Que vai e vem, como amigo

Como é bom ter estado aqui
Tocar tua alma em flor
Que vai e vem por ai

Como é bom viver em ti.


Manuel F. C. Almeida




- Então ainda dormes. Disse-me a Isabel, interrompendo as minhas reflexões.
- Claro que não, estava aqui a falar com os meus botões respondi. _ agora vê lá, nao te exponhas muito e acima de tudo tem cautela com as mulheres.

- porquê? acaso são muito diferentes das outras?
- Ainda não aprendeste nada na vida meu querido? Todas as mulheres são diferentes – disse a sorrir maliciosamente, enquanto caminhávamos para a porta da casa.
Só naquele momento olhei o edifício. Era uma velha, mas bem recuperada, casa de lavradores. Típica da região. Uma delicia arquitectónica, um legado de um tempo que supostamente estava enterrado.
A Isabel agarrou uma linda maçaneta de cobre e bateu. Pouco tempo depois uma senhora de meia-idade veio abrir:
- Entrem por favor, esperam-nos no salão. – a casa era magnifica, ricamente decorada, pejada de arte e de prata. Muita prata.

quinta-feira, março 01, 2007
















Ouve bem esta guitarra
Ouve a alma que ela tem
É a alma de um amigo
Alma que te quer bem

Parece estar a chorar
Lágrimas por te perder
Mas ela está a cantar
A alegria do teu ser

E na alegria do cantar
Ela parece um cometa
Sabe que o teu lugar
É todo este planeta.


Manuel F.C. Almeida


Era quase sempre assim. Quando chegava o poder tentava aliciar-me. Era, norma geral, uma tentativa de me condicionar. De norte a sul tinha vivido muitos momentos semelhantes. Sabia o que me esperava, ou pensava que sabia.
A viajem foi curta. Quase que não tinha tempo de acabar o meu cigarro. Um dos prazeres que não tinha deixado. Nesses tempos de radicalismos, fumar tinha-se tornado um “crime” em termos sociais. A velha Europa havia descoberto que ganhava milhões em impostos sobre o tabaco e que gastava ainda mais milhões para tratar de doenças provocadas pelo mesmo. No balanço de tudo isso, os governos tinham decidido contra os que fumavam. Fizeram dos fumadores criminosos. Pura hipocrisia, a industria nada sofreu, e um pouco por toda a parte os fumadores começaram a ser ostracizados.
Tempos negros de um moralismo abjecto. Tudo começou a ser contabilizado em termos de custos. Pessoalmente estava a atingir um ponto de saturação face à pequenez do País.
Não a pequenez geográfica, mas sim a pequenez cultural, social, mental. Sufocava-me pensar nisso. Estava a ficar com claustrofobia.

quarta-feira, fevereiro 28, 2007





















Há um tempo em que as palavras
Vivem de silêncios
Presas na tempestade dos
Sentidos.
Um tempo de luta
Um tempo de medos
Um tempo de mil segredos

Há um tempo para tudo
Acontecer
Até ter medo de dizer
O mais óbvio.
Há um tempo de te querer.
Há um tempo, que tem de se
Fazer.

Manuel F. C. Almeida

terça-feira, fevereiro 27, 2007




















ELEGIA.

Não é afeição, é algo mais
Não há palavras pró descobrir
Talvez deslumbre ou amizade
Talvez outro valor, outro sentir

Talvez memória, já saudade
Das belezas que me encantaram.
Talvez tempo, eternidade
De duas almas que se tocaram.

Talvez seja tudo e seja nada
Talvez só viver em cada passo
Talvez ver que nesta estrada
Nada acontece por acaso.


Manuel F. C. Almeida


Suspirei ao antever o tédio que me esperava com gente a dobrar-se para um lado e para o outro, não era meu uso sociabilizar-me com muita gente, mas lá teria de ir.
Arrumei as malas a um canto do quarto, e deitei-me a descansar. A viajem e o calor estavam a fazer mossa em mim. Embora me sentisse bem, os efeitos de uma intervenção cirúrgica efectuada anos atrás faziam sentir-se. Rapidamente adormeci.
O som do telemóvel acordou-me. Era a Isabel a perguntar se estava pronto. Disse-lhe que não, que ia tomar um duche mas que em 10 minutos estaria pronto. Era estranho estar de novo perto dela. O estar só e a fragilidade emocional começavam a fazer-se sentir. E depois era a sua pessoa, a sua beleza, e a armadilha das memórias. Estava ciente de tudo isto, mas ainda assim começava a sentir-me tentado.

segunda-feira, fevereiro 26, 2007





















Tenho um aperto no peito
O coração a sangrar
E as guitarras no meu leito
Não me deixam já cantar.

Digo adeus a um amigo
Que parte, se vai embora
Mas deixa pra sempre comigo
O partilhar de uma hora.

Vai meu lindo rouxinol
Encantar outras paragens
Tens no teu olhar o sol
No teu canto, mil paisagens.

Fica em mim o teu cantar
Guardo-o numa caixinha
Para um dia o recordar
Dizer à caixa: - é minha

Manuel F.C. Almeida



- A limpeza é feita de dois em dois dias, e o melhor é que tratam de tudo, desde a louça à roupa. Não tens de te preocupar com mais nada.
- Desculpa – disse eu – mas onde posso conseguir uma secretária e um computador?
- Já temos tudo isso. Tens um portátil á tua espera, o departamento enviou-o ontem com o teu nome – disse ela.
Fiquei mais descansado, na verdade já não sabia viver sem computador. Hábitos que adquirem.
-Logo á noite tens de me contar algo mais sobre aquela história dos segredos da terra. – Disse eu.
Ela sorriu, os seus olhos brilharam – tens muito tempo para isso,.... ou é grande a pressa?
Respondeu. Senti na sua voz um misto de despeito e de diversão.
- Bom, agora vou. Dorme um pouco, logo á noite temos um jantar a convite da câmara. E não vale a pena tentares desculpas! Aqui tens de os gramar, nem que seja por uma noite. - Finalizou.

(continua)




















Hoje vi cair uma estrela, Corri para lhe tocar com a mão
E quando lhe toquei entendi, Que as estrelas quando se tocam
Enchem-nos
O coração de
De partilha.
E revivi a sensação de
Tocar a liberdade com os dedos, Olhar os seus cabelos
E dizer – obrigado. E na quietude do silencio ver a sua
Ascensão
Como dádiva
Do acontecer,
Tendo a felicidade
De um dia
Ser recordado
Na memória
De uma estrela
Linda
Como o mundo.

Manuel F. C. Almeida

domingo, fevereiro 25, 2007


O carro parou finalmente, diante de mim uma casa pequena pintada de branco com barras amarelas e com portas e janelas de madeira. A Isabel saiu do jipe com uma agilidade surpreendente. Segui-a com a mala na mão. Ela tinha a chave da casa. Entrámos. Senti o contraste do calor da rua com o fresco da casa. Belo, ao menos não ia necessitar de ar condicionado. Há anos que tinha alergias devido a isso. Olhei em redor. A decoração era frugal, a suficiente para mim. Tinha até uma televisão o tal aparelho que, segundo Leo Ferre, não passa de um polícia que temos em casa.
- Aqui vai ser o teu ninho enquanto estiveres connosco. Descansa, logo venho buscar-te para te apresentar o resto da equipa. - Disse ela.E fez questão em me mostrar todas as divisões da casa. Uma pequena casa de banho, uma cozinha com sala comum um quarto amplo e muito fresco

sábado, fevereiro 24, 2007





A POESIA. SEMPRE ELA A LIBERTAR-ME







Nas mil folhas
De cetim que guardas
No peito
Existe um rio
Feito de amor
E de olhares que
As águas esquecem.
Em ti me dilui e me
Desfiz.
Em ti sou apenas
Gota de orvalho
De uma madrugada
Esquecida.


Manuel F.C. Almeida

- Não te pergunto como nem onde foi – disse. – Basta de palavras que nos façam chorar. Vem vou levar-te à tua nova morada, tenho ali o jipe- disse, mas o seu semblante nao deixava margem para dúvidas. estava profundamente magoada, mas a Isabel era assim mesmo.
Seguimos a rua principal da terra. Casas brancas, de um branco imaculado, ladeavam a rua. Poucas pessoas davam àquele lugar um ar fantasmagórico. O calor fazia sentir-se de uma forma assustadora. De repente vi novamente a minha companheira de viajem. Estava a sair de uma casa imponente. Uma casa que deixava descobrir a sua origem social. Delicadamente acenei-lhe com a cabeça ao que ela retorquiu com um gesto breve e curto.
- Já fizeste amizades? – Perguntou a ela a sorrir – tem cuidado podes vir a dar-te mal – concluiu.
-porquê? – Perguntei
- Logo te digo, mas tem cuidado, esta terra tem segredos que não convém descobrir.
Aquela parte do diálogo fez disparar a minha curiosidade. Que segredos poderiam estar por detrás daquela mulher?
(continua)

sexta-feira, fevereiro 23, 2007

PORQUE A POESIA É UMA ADICÇÃO.


Há palavras que nos roubam horizontes
E nos precipitam da voragem dos sentidos
Agora só, ante mim mesmo tenho
Uma vida colada á pele
À mesma pele onde nos dias
De primavera
Tu passavas o teu olhar de mulher
Apaixonada.
e saciavas a tua sede de amar.
Agora, neste Inverno que é o meu
Sarcófago
Tenho de encerrar o que poderia ser.
E sinto-me como um grão de areia
Face ao Oceano
Um dia nada restará dele.
Um dia nada restará de mim.
A erosão dos sentimentos também
Mata.

Manuel F.C. Almeida

-tens um lenço? Sou um incorrigível chorão – disse.
- Aqui está – retorquiu – sim ainda me recordo bem, foste dos poucos homens que vi chorar num filme – e sorriu como que a convidar-me a fazer o mesmo.
Sequei as lágrimas, esperei que a sensação perturbadora se fosse. E voltei a olha-la de frente. A mesma face bonita, os mesmos olhos cheios de vida, o cabelo mais curto mas sempre cuidado, o corpo pequeno e franzino faziam dela uma boneca de porcelana. Recordei os dias em que a seu lado percorria, alegremente, as areias da ilha de Tavira, ou a loucura que tinha sido o nosso namoro nas ruas do Barreiro. Tinha-mos vivido tanta coisa juntos. Quando nos pareceu que tudo tinha acabado, despedimo-nos com um longo beijo, selando uma amizade que o tempo nunca iria apagar. Continuava linda. Sempre fora uma mulher bonita e jovial mas agora estava mais velha e parecia mais bela ainda.

quinta-feira, fevereiro 22, 2007


HOJE NAO ESCREVO NADA MAIS, FAZ ANOS QUE PERDI UM AMIGO QUE NOS DIZIA:
"AMIGO MAIOR QUE O PENSAMENTO
POR ESSA ESTRADA AMIGO VEM
NAO PERCAS TEMPO QUE O VENTO
É MEU AMIGO TAMBÉM"
Hoje estão de luto todos aqueles que um dia acreditaram no sonho que o Zeca cantava. O mundo livre é cada vez mais uma utopia. Mas saibamos sonhar e ela nunca morrerá.
Manuel F.C. Almeida

quarta-feira, fevereiro 21, 2007

sexta-feira, fevereiro 16, 2007




-como está a Fernanda – perguntou
Obviamente não sabia, respirei fundo. Ela adivinhou que algo não estaria bem.
- que foi? Estás bem?
- a Fernanda morreu num acidente de viação a camiho de Tavira- retorqui.
Ficou a olhar para mim sem querer acreditar no que ouvia. Tinha sido ela a apresentar-me a minha companheira. Tinham sido colegas na faculdade e tinham sido cúmplices em muitos momentos da vida. As lágrimas correram nas nossas faces e foi naturalmente que nos abraçámos um ao outro. Senti-me confortado, amparado. O último ano tinha sido difícil para mim. A morte dos meus pais e a morte da mulher que amava precipitaram a minha vida num inferno do qual começava timidamente a sair.

- Bem-vindo Dtº, foi boa a viajem?
Quem se me dirigiu assim foi a funcionária do departamento de historia natural sediado naquele lugar.
A voz era conhecida. Senti o coração a acelerar. Não podia ser. Rodei sobre mim mesmo e encarei-a de frente. Era ela sim. Um pouco mais velha, mas a cara de menina mantinha-se a mesma. Tive dificuldade em responder. Ela apercebeu-se:
- Então já não falas a uma velha amiga –
Acto contínuo piscou-me o olho. Quase que me apanhava desprevenido. Tive vontade de a beijar como anos antes fizera. Recuperei o sangue frio. E finalmente retorqui:
-Olá Isabel, sempre linda e bem disposta.
O sorriso franco e aberto com que sempre me presenteara abriu-se ainda mais. Recordei a forma bonita como tinha terminado a nossa relação. O mesmo sorriso. Beijámo-nos na face como dois desconhecidos. O aproximar do seu cheiro e as minhas memórias fizeram sentir-se em mim. Aspirei bem o seu odor. Sempre me tinha deixado louco e ainda assim era.
(continua)

Conto


A mulher olhou-me com espanto. Tinha-lhe dito que não acreditava em deuses nem na vida depois da morte. Logo não acreditava na justiça de Deus. O seu olhar reflectia um misto de condenação, revolta e curiosidade. Afinal quem era eu? Um perfeito desconhecido, vestido de forma diferente e que trazia com ele hábitos e costumes estranhos.
Não retorquiu, tal a convicção que viu nas minhas palavras. O som dos travões do comboio interrompeu aquele momento de algum embaraço para ambos. Havia chegado ao meu destino. Também ela se apressou a sair. Infelizmente calculou mal a altura do degrau e caso eu não a tivesse amparado teria caído. Olhou-me com agradecimento e um leve rubor na face denunciou o quanto se encontrava embaraçada. Devolvi o olhar com um sorriso franco e aberto. Olhei agora de forma demorada a sua face. Era branca, coisa que a escuridão da carruagem não tinha deixado ver. Extremamente magra, a sua silhueta assemelhava-se à de uma bailarina. A iluminar a face uns olhos verdes como nunca tinha visto e um cabelo negro, de um negro poderoso. A minha estadia naquele lugar poderia tornar-se interessante.
(continua)

FOR THE ONE I LOVE

Sim, eu sei que partimos,
Tal como um barco
Se faz ao largo, fugindo das suas
Amarras. Ele quer-se
Livre.
Sim eu sei que ficamos
Presos na memória
Como umas algemas
Que colamos à pele.
E quando uma brisa se levanta
É como se o barco ganhasse
Asas e voássemos com ele.
E livres e amarrados
Voamos nessas viajem. Olhando
O passado com um sorriso
Nos lábios
E uma gota de eternidade
Na alma.

Manuel F.C. Almeida














Eu em tempo fui ave
Que suavemente depositava
O seu canto
Na espuma das vagas
E fugia da rebentação.
Saudava sempre a maresia
O luar e a neblina
Como se fossem minhas
Irmãs.
Fazia do meu voo
Livre um convite
Ás almas puras e límpidas
Como a tua.

E convidei-te a voar
E tu voaste,
Não pensei no golpe
Vento
Quando me abandonaste.
Não mais voei livre.

Manuel F. C. Almeida

domingo, fevereiro 11, 2007
















Já é tempo de acabar com esta sede
De sangue, de morte, de terror.
Já é tempo de viver sem o horror
De pensar que a vida a tudo cede

Já é tempo de acabar com a insanidade
Dos deuses, das pátrias, das bandeiras,
Dos territórios e das fronteiras
Porque o nosso mundo é a humanidade.

Já é tempo de agir sobre o que se faz
De plantar no nosso peito uma flor,
Depois, tratar sempre dela com amor
Construir com nossas mãos a nossa paz.

Manuel F.C.Almeida

Poema gentilmente lido pela minha amiga
Maria José na biblioteca onde trabalha
Num encontro temático de poesia
Diz-me, algum dia paraste a ver crianças a brincar? Ou ouviste as gotas de chuva e explodirem em mil pedaços? Ou algum dia tiveste coragem para perseguir uma borboleta? Ou sentiste falta do sol, quando a noite tomou conta da tua alma?
Não dances tão depressa, o tempo é curto e a musica não dura sempre.
Passas pelos dias depressa demais, passas como se fosses uma águia no seu voo picado. Quando perguntas “como estás?” consegues ouvir a resposta?
E quando o dia está terminado consegues deitar-te sem mentir e calar os milhões de perguntas que atravessam o teu cérebro? Sempre te disse que o tempo tudo trata, até as feridas feitas com omissões, feitas pelo olhar de pontas aguçadas como mil adagas.
Como sabes todos os pequenos golpes fazem morrer a amizade, e uma amizade só morre se nunca o foi.
Quando fugiste na procura de uma luz renovada sem ao menos dizer “olá” perdeste o melhor da festa. A tua parte ficou inacabada e com o tempo verás que a vida se tornou num presente por abrir.
Sabes a vida não deve ser uma corrida, procura senti-la enquanto podes. Ouve a musica que a natureza faz chegar a todos nós, ouve bem antes que ela acabe.

manuel almeida













Já tantos cantaram o amor
Por tantos olhares já foi visto
Com olhos de luz e de dor
Que não chamo canto a isto

Irei chamar-lhe um lamento
Por de ti ser já ausente
E recordar o momento
Em que em ti era presente

Daqueles dias luminosos
Em que me chamavas amor
Com olhos tão radiosos
Meigos, cheios de calor

Dos momentos sem palavras
Em que me olhavas com paixão
E dos mil beijos que me davas
Cheios com o teu coração

Resta-me pois recordar
Com carinho e com saudade
Os dias em que a amar
Conheci a felicidade

Manuel F. C. Almeida

quarta-feira, fevereiro 07, 2007


Há muito que me perseguiam. Dei conta disso ao virar o monte dos teus seios. Na tentativa de os despistar procurei esconder-me no teu corpo. Ainda assim o som que faziam chegava até mim. Fiquei escondido no aconchego da tua púbis, num vale de caudais incessantes e onde a vida brilhava como um estrela. Estavam cada vez mais próximos. Eles traziam cães de faro apurado e habituados e este trabalho de busca. Cães treinados para acossar pessoas como eu. Felizmente uma leve neblina levantou-se e durante algum tempo protegeu-me. Mas eu pressenti que ia ser sacrificado aos cães. Era uma questão de tempo. Ainda te perguntei se não seria melhor partir de imediato. Mas o teu olhar de mariposa acalmou-me e placidamente não quis acreditar no que era evidente. E adormeci até ao momento em que o silêncio me feriu o coração com tanta ausência. Um rio de prata saia do teu olhar e assim fiquei. Quieto, solicito, mansamente adormecido. E quase esqueci a caçada. Mas eles eram mais poderosos. Tinham notícias frescas e o charme discreto dos cães que vivem para o dono. Sim o dono. Estes cães vivem sempre em torno dos seus donos. Alimentam-se do sangue dos que o dono domina. Exercem a sua influência e com mandíbulas poderosas destroem tudo o que se lhes atravessa no caminho. Mas eu estava escondido, a neblina protegeu-me e fiquei quieto, escondido, adormeci um pouco. Mas eles já tinham entrado na tua casa, eu já era um estranho, um peso morto. Carregaste-me algum tempo, talvez por comodismo ou por agradecimento. Afinal eu sempre te tinha dado o arco-íris da sinceridade, do amor, da amizade. Tinhas percorrido comigo o mapa da tua fuga e juntos tínhamos enfrentado as tempestades mais agrestes. Mas eu não vi o teu querer estar ausente de mim. Nem a nova estrela que plantaste no olhar. Até que os cães me atacaram. Estava nu, como sempre estive para ti. E tu deixaste-os entrar, e nu fui sacrificado no altar do tempo, da omissão e da mentira. Talvez seja o que mais recordo. Aquela mentira nauseabunda que tresandava a esgoto. Uma mentira que não mais viverá perto de mim nem em mim. Escrevo isto exactamente para exorcizar o meu ser. Sarei as feridas, mas as marcas estão ainda presentes. E sei que vão sangrar, como um rio. Um rio amarelo com milhares de pequenas moléculas douradas, que se escapam de mim e vão tingindo o mundo que me rodeia. Mas como rio de caudal violento, não me deterei em lugar algum. Nasci rio na tua ausência, assim ficarei. Sem faltas porque a ausência, essa ausência de que falo, é minha na eternidade.
Manuel F. C. Almeida

Eu escrevo poemas sobre mim.
Poemas esdrúxulos, pintados
Pelos meus olhos. Talvez seja
Só para mim que escrevo poemas
Sem sentido para outros.
Se fosse um poeta
Todos entenderiam o que escrevo
Assim limito-me a escrever para mim.
Poemas, pedaços de mim
Poemas que não têm fim.

Manuel F. C. Almeida















Que cansaço. Diria que beijei
A alma de uma ninfa, e que vi
Brotar desse beijo uma pétala
Pintada de azul-marinho
Dói-me a alma, uma dor tão
Lancinante que me transformou
Num homem feito de palha.
Já não sei o que sinto ou se sinto.
Deixem-me dormir a eternidade.
Eu já não quero acordar.
Tenho um sarcófago feito de mar
Sim! Deixem-me encolher
Neste útero que é só meu
Vida, morte, já tudo aconteceu.
Para quê reviver?
Eu só quero adormecer.

Manuel F. C. Almeida

Estou a desagregar-me. Sinto-me como um relógio nas mãos de um pequeno curioso.
As peças soltam-se e já não se recuperam. Mecanismos que se perdem, que se deitam fora. Assim me sinto. Talvez me torne num anjo azul. Sim, azul, porque eu gosto de anjos azuis. Gosto da cor da sua pele, e gosto também das suas asas. Como lhes invejo as asas e a silhueta. São todos brancos os anjos, alguns também são azuis, é desses que gosto mais. Se me tornar num anjo quero ter asas azuis também. Azuis e transparentes para ninguém ver. Só eu saberei que sou um anjo. Não me interessam os outros. Serei um anjo egoísta. Sim, é isso que desejo. Ser um anjo azul e egoísta. Amar mil vezes e em todas morrer. Não vale a pena viver depois de amar. Ressuscitar quando se encontra um novo amor. É esse o segredo. Porque quando chega o amor é como uma leve brisa, incerto e incoerente. Uma pétala de sangue que nos sai do querer. Retirada da alma e desfolhada em malmequer até ao momento em que a mão que desfolha nos tira a ultima pétala e a sopra no vento, com um misto de impaciência e tédio. Fomos tudo, somos nada. Que mundo de merda. Todos somos flor e todos somos mão. Deixemos livres as pétalas que voam no vento, talvez os anjos azuis as façam reviver.
Manuel F.C. Almeida
















Tempos idos
Em que a vida sorria
Ao sol de cada dia
A terra era uma cornucópia
De flores, de frutos, de mel
Que eu sempre percorria.

Agora cavo
Funda a minha sepultura
E a minha enxada,
Revolve cada dia mais terra
Inerte.
Na busca de um tesouro
Que perdi.
Ao ver-te partir
No olhar da guerra.

Manuel F. C. Almeida