sexta-feira, fevereiro 16, 2007


Conto


A mulher olhou-me com espanto. Tinha-lhe dito que não acreditava em deuses nem na vida depois da morte. Logo não acreditava na justiça de Deus. O seu olhar reflectia um misto de condenação, revolta e curiosidade. Afinal quem era eu? Um perfeito desconhecido, vestido de forma diferente e que trazia com ele hábitos e costumes estranhos.
Não retorquiu, tal a convicção que viu nas minhas palavras. O som dos travões do comboio interrompeu aquele momento de algum embaraço para ambos. Havia chegado ao meu destino. Também ela se apressou a sair. Infelizmente calculou mal a altura do degrau e caso eu não a tivesse amparado teria caído. Olhou-me com agradecimento e um leve rubor na face denunciou o quanto se encontrava embaraçada. Devolvi o olhar com um sorriso franco e aberto. Olhei agora de forma demorada a sua face. Era branca, coisa que a escuridão da carruagem não tinha deixado ver. Extremamente magra, a sua silhueta assemelhava-se à de uma bailarina. A iluminar a face uns olhos verdes como nunca tinha visto e um cabelo negro, de um negro poderoso. A minha estadia naquele lugar poderia tornar-se interessante.
(continua)

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