quarta-feira, fevereiro 07, 2007


Há muito que me perseguiam. Dei conta disso ao virar o monte dos teus seios. Na tentativa de os despistar procurei esconder-me no teu corpo. Ainda assim o som que faziam chegava até mim. Fiquei escondido no aconchego da tua púbis, num vale de caudais incessantes e onde a vida brilhava como um estrela. Estavam cada vez mais próximos. Eles traziam cães de faro apurado e habituados e este trabalho de busca. Cães treinados para acossar pessoas como eu. Felizmente uma leve neblina levantou-se e durante algum tempo protegeu-me. Mas eu pressenti que ia ser sacrificado aos cães. Era uma questão de tempo. Ainda te perguntei se não seria melhor partir de imediato. Mas o teu olhar de mariposa acalmou-me e placidamente não quis acreditar no que era evidente. E adormeci até ao momento em que o silêncio me feriu o coração com tanta ausência. Um rio de prata saia do teu olhar e assim fiquei. Quieto, solicito, mansamente adormecido. E quase esqueci a caçada. Mas eles eram mais poderosos. Tinham notícias frescas e o charme discreto dos cães que vivem para o dono. Sim o dono. Estes cães vivem sempre em torno dos seus donos. Alimentam-se do sangue dos que o dono domina. Exercem a sua influência e com mandíbulas poderosas destroem tudo o que se lhes atravessa no caminho. Mas eu estava escondido, a neblina protegeu-me e fiquei quieto, escondido, adormeci um pouco. Mas eles já tinham entrado na tua casa, eu já era um estranho, um peso morto. Carregaste-me algum tempo, talvez por comodismo ou por agradecimento. Afinal eu sempre te tinha dado o arco-íris da sinceridade, do amor, da amizade. Tinhas percorrido comigo o mapa da tua fuga e juntos tínhamos enfrentado as tempestades mais agrestes. Mas eu não vi o teu querer estar ausente de mim. Nem a nova estrela que plantaste no olhar. Até que os cães me atacaram. Estava nu, como sempre estive para ti. E tu deixaste-os entrar, e nu fui sacrificado no altar do tempo, da omissão e da mentira. Talvez seja o que mais recordo. Aquela mentira nauseabunda que tresandava a esgoto. Uma mentira que não mais viverá perto de mim nem em mim. Escrevo isto exactamente para exorcizar o meu ser. Sarei as feridas, mas as marcas estão ainda presentes. E sei que vão sangrar, como um rio. Um rio amarelo com milhares de pequenas moléculas douradas, que se escapam de mim e vão tingindo o mundo que me rodeia. Mas como rio de caudal violento, não me deterei em lugar algum. Nasci rio na tua ausência, assim ficarei. Sem faltas porque a ausência, essa ausência de que falo, é minha na eternidade.
Manuel F. C. Almeida

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