
Eu pertenço a um outro país que não o vosso, a um outro quarteirão, a uma outra solidão LÈO FERRÉ
quinta-feira, fevereiro 22, 2007

quarta-feira, fevereiro 21, 2007
sexta-feira, fevereiro 16, 2007


Obviamente não sabia, respirei fundo. Ela adivinhou que algo não estaria bem.
- que foi? Estás bem?
- a Fernanda morreu num acidente de viação a camiho de Tavira- retorqui.
Ficou a olhar para mim sem querer acreditar no que ouvia. Tinha sido ela a apresentar-me a minha companheira. Tinham sido colegas na faculdade e tinham sido cúmplices em muitos momentos da vida. As lágrimas correram nas nossas faces e foi naturalmente que nos abraçámos um ao outro. Senti-me confortado, amparado. O último ano tinha sido difícil para mim. A morte dos meus pais e a morte da mulher que amava precipitaram a minha vida num inferno do qual começava timidamente a sair.

Quem se me dirigiu assim foi a funcionária do departamento de historia natural sediado naquele lugar.
A voz era conhecida. Senti o coração a acelerar. Não podia ser. Rodei sobre mim mesmo e encarei-a de frente. Era ela sim. Um pouco mais velha, mas a cara de menina mantinha-se a mesma. Tive dificuldade em responder. Ela apercebeu-se:
- Então já não falas a uma velha amiga –
Acto contínuo piscou-me o olho. Quase que me apanhava desprevenido. Tive vontade de a beijar como anos antes fizera. Recuperei o sangue frio. E finalmente retorqui:
-Olá Isabel, sempre linda e bem disposta.
O sorriso franco e aberto com que sempre me presenteara abriu-se ainda mais. Recordei a forma bonita como tinha terminado a nossa relação. O mesmo sorriso. Beijámo-nos na face como dois desconhecidos. O aproximar do seu cheiro e as minhas memórias fizeram sentir-se em mim. Aspirei bem o seu odor. Sempre me tinha deixado louco e ainda assim era.

Conto
Não retorquiu, tal a convicção que viu nas minhas palavras. O som dos travões do comboio interrompeu aquele momento de algum embaraço para ambos. Havia chegado ao meu destino. Também ela se apressou a sair. Infelizmente calculou mal a altura do degrau e caso eu não a tivesse amparado teria caído. Olhou-me com agradecimento e um leve rubor na face denunciou o quanto se encontrava embaraçada. Devolvi o olhar com um sorriso franco e aberto. Olhei agora de forma demorada a sua face. Era branca, coisa que a escuridão da carruagem não tinha deixado ver. Extremamente magra, a sua silhueta assemelhava-se à de uma bailarina. A iluminar a face uns olhos verdes como nunca tinha visto e um cabelo negro, de um negro poderoso. A minha estadia naquele lugar poderia tornar-se interessante.
Sim, eu sei que partimos,
Tal como um barco
Se faz ao largo, fugindo das suas
Amarras. Ele quer-se
Livre.
Sim eu sei que ficamos
Presos na memória
Como umas algemas
Que colamos à pele.
E quando uma brisa se levanta
É como se o barco ganhasse
Asas e voássemos com ele.
E livres e amarrados
Voamos nessas viajem. Olhando
O passado com um sorriso
Nos lábios
E uma gota de eternidade
Na alma.
Manuel F.C. Almeida

Eu em tempo fui ave
Que suavemente depositava
O seu canto
Na espuma das vagas
E fugia da rebentação.
Saudava sempre a maresia
O luar e a neblina
Como se fossem minhas
Irmãs.
Fazia do meu voo
Livre um convite
Ás almas puras e límpidas
Como a tua.
E convidei-te a voar
E tu voaste,
Não pensei no golpe
Vento
Quando me abandonaste.
Não mais voei livre.
Manuel F. C. Almeida
domingo, fevereiro 11, 2007

De sangue, de morte, de terror.
Já é tempo de viver sem o horror
De pensar que a vida a tudo cede
Já é tempo de acabar com a insanidade
Dos deuses, das pátrias, das bandeiras,
Dos territórios e das fronteiras
Porque o nosso mundo é a humanidade.
Já é tempo de agir sobre o que se faz
De plantar no nosso peito uma flor,
Depois, tratar sempre dela com amor
Construir com nossas mãos a nossa paz.
Manuel F.C.Almeida
Poema gentilmente lido pela minha amiga
Maria José na biblioteca onde trabalha
Num encontro temático de poesia
Diz-me, algum dia paraste a ver crianças a brincar? Ou ouviste as gotas de chuva e explodirem em mil pedaços? Ou algum dia tiveste coragem para perseguir uma borboleta? Ou sentiste falta do sol, quando a noite tomou conta da tua alma?Não dances tão depressa, o tempo é curto e a musica não dura sempre.
Passas pelos dias depressa demais, passas como se fosses uma águia no seu voo picado. Quando perguntas “como estás?” consegues ouvir a resposta?
E quando o dia está terminado consegues deitar-te sem mentir e calar os milhões de perguntas que atravessam o teu cérebro? Sempre te disse que o tempo tudo trata, até as feridas feitas com omissões, feitas pelo olhar de pontas aguçadas como mil adagas.
Como sabes todos os pequenos golpes fazem morrer a amizade, e uma amizade só morre se nunca o foi.
Quando fugiste na procura de uma luz renovada sem ao menos dizer “olá” perdeste o melhor da festa. A tua parte ficou inacabada e com o tempo verás que a vida se tornou num presente por abrir.
Sabes a vida não deve ser uma corrida, procura senti-la enquanto podes. Ouve a musica que a natureza faz chegar a todos nós, ouve bem antes que ela acabe.
manuel almeida

Já tantos cantaram o amor
Por tantos olhares já foi visto
Com olhos de luz e de dor
Que não chamo canto a isto
Irei chamar-lhe um lamento
Por de ti ser já ausente
E recordar o momento
Em que em ti era presente
Daqueles dias luminosos
Em que me chamavas amor
Com olhos tão radiosos
Meigos, cheios de calor
Dos momentos sem palavras
Em que me olhavas com paixão
E dos mil beijos que me davas
Cheios com o teu coração
Resta-me pois recordar
Com carinho e com saudade
Os dias em que a amar
Conheci a felicidade
Manuel F. C. Almeida
quarta-feira, fevereiro 07, 2007

Manuel F. C. Almeida

Que cansaço. Diria que beijei
A alma de uma ninfa, e que vi
Brotar desse beijo uma pétala
Pintada de azul-marinho
Dói-me a alma, uma dor tão
Lancinante que me transformou
Num homem feito de palha.
Já não sei o que sinto ou se sinto.
Deixem-me dormir a eternidade.
Eu já não quero acordar.
Tenho um sarcófago feito de mar
Sim! Deixem-me encolher
Neste útero que é só meu
Vida, morte, já tudo aconteceu.
Para quê reviver?
Eu só quero adormecer.
Manuel F. C. Almeida

As peças soltam-se e já não se recuperam. Mecanismos que se perdem, que se deitam fora. Assim me sinto. Talvez me torne num anjo azul. Sim, azul, porque eu gosto de anjos azuis. Gosto da cor da sua pele, e gosto também das suas asas. Como lhes invejo as asas e a silhueta. São todos brancos os anjos, alguns também são azuis, é desses que gosto mais. Se me tornar num anjo quero ter asas azuis também. Azuis e transparentes para ninguém ver. Só eu saberei que sou um anjo. Não me interessam os outros. Serei um anjo egoísta. Sim, é isso que desejo. Ser um anjo azul e egoísta. Amar mil vezes e em todas morrer. Não vale a pena viver depois de amar. Ressuscitar quando se encontra um novo amor. É esse o segredo. Porque quando chega o amor é como uma leve brisa, incerto e incoerente. Uma pétala de sangue que nos sai do querer. Retirada da alma e desfolhada em malmequer até ao momento em que a mão que desfolha nos tira a ultima pétala e a sopra no vento, com um misto de impaciência e tédio. Fomos tudo, somos nada. Que mundo de merda. Todos somos flor e todos somos mão. Deixemos livres as pétalas que voam no vento, talvez os anjos azuis as façam reviver.
terça-feira, janeiro 30, 2007

Humano sou, homem me fiz
Trago um sentir, de coração feito,
Sei falar e ouvir o que diz
Quem me viveu dentro do peito
Amo a poesia e a madrugada,
Amo o vento, o canto e o mar,
Amo a lua, minha namorada,
E trago em mim a brisa a cantar
Tenho um amor no meu passado
Que eu pretendi apagar
Um amor que tenho cantado
Na vã esperança de o negar.
Mas é tão nobre tudo o que sinto,
Tão dolorosa a sua ausência
Que ao mundo penso que minto
Quando nego esta evidencia
Mas amo todos os que são
Dignos da minha amizade
Toco-lhes o coração
Pra esquecer esta saudade.
E aos que costumam passar
Com suas tristezas e dor
Digo que saibam esperar
Talvez reencontrem o amor.
Mas canto e escrevo o sentir
De alguém que a vida tramou.
De alguém que não quis mentir
De alguém que se sacrificou.
Talvez não seja um amigo
Que se queira ter por perto
Trago fantasmas comigo
E o coração num aperto.
(a partir de um tema de Vinicius de Morais)
Manuel F.C. Almeida

Tinhas no olhar uma chama imensa
Nas palavras, um medo que entendo
Afinal fui só mais um remendo?
Ou o sentir de uma ideia intensa?
Nas tuas palavras habitam cautelas
Provocadas por esse teu medo
Mas deixa que te diga um segredo
Também eu penso muito nelas
Porque já chega de sentir tristeza
Onde deveria sentir felicidade.
Amar-te na eternidade
É fazer um poema com tua beleza.
Manuel F. C. Almeida

Já sinto no ar
O teu aroma.
Escrevo nas águas
Versos para te cantar.
Versos de ternura
Infindável.
Agarro os teus
Movimentos no cérebro
E esqueço
A dor dos meus
Dias de angustia
Intolerável.
Paro ao primeiro sinal.
Olho-te nua
Numa movimento
De aguas sem caudal.
E aí ficaste… humanamente
Imperdoável.
Manuel F.C. Almeida

Ontem, por acidente, escrevi no vento um poema de aromas silvestres. Nem sei onde pára. Seres estranhos a mim ocuparam-me o espaço. Fiquei a olhar o ondular das searas,
O assalto das marés e o bambolear gracioso das ancas de uma mulher.
Recordas-te de te olhar como se foras uma traineira em noite de vendaval? É assim que eu a olhei. E de espanto em espanto descobri que afinal o mundo não é feito por poemas meus, antes sou parte de um poema sem título. Anónimo. Como se pode ficar admirado por coisas tão pequenas? Por vezes recordo-me daquelas tardes em que saciávamos os instintos no corpo do outro. Mas é só mesmo memória. E memórias, tenho tantas que confundo os cheiros com os corpos, as faces com o desejo e a suavidade de um olhar com a sinceridade das palavras. Sim as palavras ditas e não ditas costumavam assaltar-me o sono. Felizmente que outras palavras se chegaram, outras faces aconteceram e novos aromas se abriram. Abro agora uma garrafa de vinho. Um vinho saboroso. O vinho de quem ama a vida acima de tudo.
segunda-feira, janeiro 29, 2007

EU VI A LUZ QUE TRANSPORTAS
sábado, janeiro 20, 2007

Olha filho, eu sei que o mundo costuma corroer os olhos e a mente de todos. Eu sei como é, como ficamos estranhos a nós mesmos, como deixamos de nos reconhecer no espelho. Sei o que é a culpa e sei o que é vacilar. Não sou um super-homem cheio de certezas ou de glórias. Por isso filho não sigas os meus conselhos, cresce livre e consciente do que és. Cresce e vive o teu momento de vida. É teu, o meu é a minha vida, a minha escolha e não devo querer que vivas o que eu não fiz. Percorre o teu caminho, de cabeça erguida com orgulho em ser humano. E quando a vida parecer que te volta as costas, podes vir conversar comigo, como eu converso com o meu pai. E se eu estiver por perto, sempre terás um braço, um ombro onde pensar.
Manuel F.C. Almeida

Lá fora a noite desce sobre as casas, feitas da pele de outros homens. Argamassa orgânica. O vento, uivante, assola a planície, e o céu está coberto por um manto negro de nuvens, mais parece que irá cair-nos em cima. A chuva cai ininterruptamente, e no entanto tamanho vendaval não apagou o sol dentro de mim. Finalmente tudo esta a ser diferente, a paisagem e a minha alma já se tocam novamente, e foi tão simples de fazer. Limitei-me a mudar a imagem que me ocupava tempo demais. Foi-se o mau tempo, um novo dia despontou cheio de luz. Começo a ser gente outra vez.
E dai...

Acordo, olho o maldito relógio. É hora, mas hora de quê? De não fazer a ponta de um corno, de me recusar a pensar ou a agir. De não sorrir, de desejar estar só, de não esperar por nada ou por alguém. É hora de não ambicionar, de não sonhar mais, de nada desejar ter. É hora de olhar e ver que nada disto tem sentido, que não sou importante ao mundo ou há vida. É hora de “ não ser”. Mas se morro nesta hora terei de ressuscitar, renascer, de começar a reaprender a falar, a andar, a abraçar, a sorrir, a viver. E sobretudo (não é casaco não) a Amar. E isso está a ser feito.
noites

Continuo sem sono. As noites são longas e frias. Deixo o tempo correr ao sabor do meu sentir.
Se escrevo um poema, apenas procuro uma forma de enganar o cérebro e dormir.
Teimosamente fico a converter esperanças em memórias e vice-versa. Deixo que o vento e o tempo cavalguem na minha vontade e no meu pensamento.
É tarde, a lua já está alta e estou cansado, revejo o último pensamento e fico feliz por ter sonhado acordado.
quarta-feira, janeiro 17, 2007

Sonhei em te ter aqui.
Agora,
Espero, falo só para te encontrar.
Um entardecer, sim
Dá-me o doce completo
Desse teu olhar
Sonhei em te ter aqui
Agora
Anseio, canto só para te beijar
Uma madrugada, sim
Dá-me os cheiros acres
Desse teu amar.
Sonhei em te ter aqui
Agora,
Sei pela certa que vamos cantar
Pela noite dentro, sim
Carícias e beijos
Vamos partilhar.
Manuel F.C. Almeida

Não te esqueças meu amor
Das tardes
Passadas a ver o sol dançar.
E quando recordares o cheiro
Dos loendros em flor
Deixa-te impregnar de
Alentejo,
E deixa que as memorias
Repousem nas pedras
Da planície.
Sim!
Não deixes de recordar
O despertar de cada dia
Nem o canto alegre
E fresco da cotovia
Na manhã.
E quando um novo dia chegar
Deixa que a tua alma se encante
E segue-o no seu andar.
Manuel F. C. Almeida
terça-feira, janeiro 16, 2007

Comigo estão os meus versos
Companheiros sem ter fim.
Meus desejos estão dispersos
O meu mundo é feito assim
Canto os amores que perdi
E os que eu sinto nascer
Canto por mim e por ti
Pôr-do-sol, entardecer
E quem deles não gostar
Que tenha criticas a fazer
Convido-o agora a falar
Diga o que tem a dizer.
Fale bem na minha cara
Seja honesto e frontal
Que a amizade não para
Quando se é vertical


Dizem que amar é viver
E que o viver é lutar.
que de amor se pode morrer
só então, ressuscitar.
Dizem que ganhar é perder
Que perder é recordar
Que recordar é sofrer
E que sofrer é chorar
Dizem que chorar é sorrir
Que sorrir já é pedir
E que pedir é encontrar
Dizem que correr é cair,
Levantar é perseguir
o desejo de te amar.
sexta-feira, janeiro 12, 2007

Agora já tinha tudo nas mãos. A ele se devia o conjunto de fornos que intoxicavam o povoado. Orgulhoso olhou a beleza de uma nuvem de gás que se espalhava pela cidade e que aqui e ali provocava os desmaios de gentes e animais. Era agora o senhor do fumo. Olhou os dedos tapados de anéis com rubis e esmeraldas. Era rico. O presidente de burgo e todo o seu séquito dobravam-se á sua passagem. Ao longe o filho brincava num prado amarelo queimado pelas nuvens de acido, atirava um pau ao gato e o gato não morria. Ao canto sossegada, dona xica continuamente se assustava com os berros que o gato dava.
Voltou para dentro de casa. E consultou o desenho da sua casa de campo. O local era agradável. Um riacho nada poluído, diziam, montanhas a perder de vista cheias de árvores e até, diziam alguns, existiam aves reais por lá. Custava-lhe a crer, mas ter esperança não custa.
Subiu ao 1º andar para ver melhor a ruas. Um bando de estropiados arrastava-se num murmúrio sem fim. Odiava-os do fundo do coração. Comiam-lhe as vísceras e bebiam-lhe o sangue. Carregou a arma. Uma oferta do presidente para momentos destes. Recordou a medalha recebida e o título de comendador. Tanto que gostava dele. Apontou e disparou. Caíram três o que precipitou o resto do bando num festim nu. No ar elevaram-se urras e o sangue jorrou a rodos. Estavam descansados e entretidos. Resolveu ir mudar de fígado. O médico esperava-o e ia ser fácil. Entrou no carro e saiu de casa. A turba olhou para ele. Mas a gárgula pendurada no carro vomitou o resto do almoço. Uma rapariga resolveu passear com o sexo preso por uma trela. Diziam que era amor, não acreditava em coisas dessas. Afinal isso do amor fora a perdição dos seus antepassados. Abraços com doenças venéreas, todos tinham resolvido partir para a guerra contra os seres islâmicos, de pontos na cabeça e caudas de demónios. Felizmente ele tivera cuidado. E podia viver nas fronteiras do império. Sem notar atropelou uma orquídea. Imperdoável, talvez fosse o último exemplar. Mas quem se importava com isso? Guardou o ódio numa caixinha, e pediu à gargula que o engolisse para mais tarde regogitar. O carro parou. Olhou em frente e lá estavam dois cisnes brancos. Deu-lhes um tiro e transformaram-se em flamingos. Finalmente tinha poder.
amar a vida num soneto

Já sinto algo de novo, maresia
Um poema a brotar, novidade
Um olhar que se cruza, saudade
Uma manha renovada, alegria.
Um sol que renasce, outro dia
Um desejo presente, ansiedade
Uma luz que se acende, claridade
Uma força interior, que porfia.
E em cada momento que é passado
Está parte de mim, é o meu legado,
Uma canção que recorda o meu viver
Mas na vida tudo deve ser cantado,
Procurar nela sempre o melhor lado,
E ama-la sempre com todo o querer
Manuel F.C. Almeida
quinta-feira, janeiro 11, 2007

Como foi possível o mundo mentir?
Talvez como eu menti.
E que foi que o mundo fez ao amor?
Ou eu?
Porque se deseja mal a outros?
Como eu desejei.
Porque se adora a destruição e o ódio
Como eu adorei?
Deixem-me dizer-vos
Que me não arrependo.
Que faria tudo igual.
Não tenho álibis de louco e
Muito menos de bêbado.
Confesso aqui as minhas
Culpas.
Como se de um espelho
Já vazio de ser,
Se tratasse.
Sim! assumo as minhas culpas
Por ter estado longe,
Arredado do mundo,
Preso nos meus moinhos
Ou nas minhas fortalezas
De papel de arroz.
Sim!
Confesso as minhas culpas
Por amar a vida.
Manuel F. C. Almeida
quarta-feira, janeiro 10, 2007

São quatro da manhã, teimosamente continuo acordado. A televisão do hotel passa um clássico do cinema. Casablanca. Bogart no seu melhor. Lá fora o frio faz-se sentir. Passeio o olhar pelas paredes do quarto como se fosse possível materializar ali alguém para conversar. Visto-me e desço ao bar. Sentados numa mesa um casal de namorados delicia-se a trocar beijos apaixonados e pelos vistos bêbados. Como estão belos naquela sua paixão. Na penumbra nem as suas caras vejo. Apenas os vultos. Chego ao balcão. Amplo, com uma garrafeira bem servida, é um bar aceitável, com uma funcionária linda. Os olhos verdes fazem-me lembrar uma deusa á muito partida. Peço um malte com gelo e fico a apreciar a beleza física daquela mulher. Ao fundo, sentada ao balcão, reparo pela 1ª vez numa outra mulher. Cabelos pretos e curtos, silhueta ainda jovem. Talvez na casa dos trinta. Tem um cigarro aceso numa mão e um copo na outra. Espero pela funcionária que me trás a bebida e pergunto-lhe quem é a senhora. Os olhos verdes e grandes sorriem e a sua resposta é enigmática, costuma aparecer, fuma, bebe e ocasionalmente conversa com quem está. Pouca coisa e nada de substancial. Agarro o meu copo e provo o sabor da bebida. É boa companhia a bebida. Sem que me aperceba a mulher aproxima-se e apresenta-se. Chamava-se Fátima e pergunta-me se pode fazer-me companhia. Aceito, embora com reservas. Não é usual serem as mulheres a tomar a iniciativa. Rapidamente nos apresentamos. Fico a saber que é nascida em 62 mas que gosta de dizer que nasceu em 66, pergunto-lhe porquê, responde que é uma questão psicológica. Ter 40 é diferente de ter 44. Sorriu de forma enigmática como todas as mulheres sorriem. Perguntou-me que fazia ali. Disse-lhe que nem eu sabia. Algo me tinha empurrado para aquele lugar e eu tinha vindo. De repente a sua pessoa pareceu-me surpreendentemente familiar. Algo naquela mulher me fazia recordar alguém. Os olhos, o cabelo, a face, tudo nela existia em mim. Fiquei assustado. Eu estava a milhares de km do meu passado e das pessoas que algum dia tinha conhecido. Pedi outra bebida, a mulher do bar veio, solícita, servir-me e voltei a reparar nos seus olhos cor esperança, lindos. Volto a atenção para a mulher enigmática. E reparo que aquela sensação de dejá vú se começa a dissipar. Trocamos palavras banais, sobre coisas banais. Rimos e nem ficamos a saber o nome do outro, Não me parece já tão familiar, ao invés a mulher do bar desperta-me para o que de belo a vida tem. Os seus olhos sorriem-me como á meses eu não via olhos a sorrir. A minha companhia despede-se, diz-me que é tempo de se recolher e agradece a conversa. Cordialmente despeço-me e encaro a funcionaria de frente. Os olhos eram lindos. O corpo apetecível, faltava agora conhece-la. Olhei para a porta do bar, novamente a figura que se afastava me parecia familiar. Olhou para traz, acenou-me e partiu. Olhei para o copo que tinha deixado. Preso ao mesmo, um papel com o meu nome escrito. Ainda nem sei como sabia o meu nome. No papel uma mensagem deixou-me curioso. People are strange whem you were a stranger. Faces are ugly whem you’re alone.
Manuel Filipe Carvalho de Almeida
terça-feira, janeiro 09, 2007
versos pra Malibú

Recitavam Brecht e Baudelaire as duas aves canoras que se passeavam pela Av. da Liberdade. Curiosas as pessoas iam chegando em grupos de dois e nunca mais de 5.
E ouviam extasiadas as duas aves canoras a recitar. Assisti a tudo do alto de um candeeiro, da Av. da Liberdade. A polícia resolveu interromper aquele momento de cultura.
Uma das aves recitou Brecht:
-do rio que tudo arrasta se diz que é violento.
-Mas ninguém diz violentas
-As margens que o comprimem.
E olhou o polícia. Um mar de sangue brotou-lhe da cabeça. Tinha sido atingido por uma bala disparada para o ar. A multidão enfurecida esventrou o polícia e num ápice ordas de sem abrigos iniciaram o banquete. A outra ave quedou-se pálida a olhar o amigo no chão. A multidão estava enfurecida. Porque razão não deixavam as aves recitar? Corajosa a outra ave agarrou no livro de Brecht e recitou mais um poema.
- Dos tubarões fugi eu
- Os tigres matei-os eu
- Devorado fui eu
- Pelos percevejos.
A multidão despedaçou os últimos homens de farda e quedou-se espantada a olhar. Dois cisnes brancos destacaram-se. Eram eles. Alguém de turba os agarrou, arrancou-lhe as asas e voou. Mal o vi passar. Queixava-se de dores de cabeça. E disse-me que tinha uma casa em Malibú. Foda-se, outro com poder.
segunda-feira, janeiro 08, 2007
LILIPUT

Acordou com a cara fria e molhada. Abriu os olhos. A tempo de ver a próxima onda a aproximar-se. A água bateu-lhe na face e ajudou-o a despertar. Onde estava? Parecia uma praia, mas não sabia onde. Nada recordava da noite anterior. Umas vozes ao fundo despertaram-lhe os sentidos. Dois vultos ao longe brincavam na areia da praia deserta. Pareciam estar a divertir-se. Que lhe importava isso? Ele só queria recordar. Sentia o cérebro ainda meio adormecido. Uma gaivota passou e saudou-o com o seu canto. Afastou-se das ondas. Não ouvia nada. Só o troar amigo do mar lhe dava a certeza de estar vivo. As duas figuras estavam agora por detrás de uma duna. Calmos e deitados. Que se fodam, pensou. Olhou a escarpa que o esperava de braços abertos. Ao cimo um pequeno ogre fazia adeus. Nem se dignou a acenar. Baixou a cabeça e um tufo de erva estava a seus pés. Cheiro-a. Era erva da boa. Com um bocado de papel higiénico tratou de fazer um charro. Acendeu aquilo mas a boca ficou a saber mal. Baixou-se para apagar o charro. Quando se levantou á sua frente estavam dois cisnes brancos. Foda-se, pensou, mas ainda aqui andam? Rápido como um lince cortou-lhes a goela e ficou a vê-los esvaírem-se em sangue. A areia tingiu-se de verde, cortou-lhes as asas colocou-as e voou em direcção a LILIPUT, lá acreditava, seria feliz. Não fora a dor de cabeça e tudo seria ainda melhor. Só não tinha era um mapa até LILIPUT
domingo, janeiro 07, 2007

A lua fez a sua aparição. Estava a olhar para o céu. Perdido, diriam que estava louco. Ninguém sabia. No ar havia um cheiro pestilento. Nauseabundo. A cidade estava mergulhada na penumbra e as luzes eram fracas. Sentou-se nos degraus de uma escadaria. Á sua frente duas raparigas faziam o possível e impossível para lhe chamar a atenção. Nem as olhava. Ou antes, ele via para lá delas. Eram transparências no cérebro. Nada mais. Ao fundo soou uma sirene. Alguém deitara fogo a um consultório de advogados. Nada de mais. Era até moda. Durante anos senhores, em dias estupores. Suou que tudo começara com um advogado em zanzibar. Nunca se preocupara com isso. A porta atrás de si abriu-se. De rompante um frade, de habito logo e austero, saiu para a rua. Trazia cm ele uma cruz e um relicário. Mais um ladrão pensou. Há Séculos que faziam isto. Um carro parou. As duas miúdas foram-se com o carro. A rua voltava a estar deserta. Baixou a cabeça apanhou uma beata do chão e acendeu-a. Quando voltou a erguer os olhos, viu dois cisnes brancos. Irritado queimou-os logo ali. Antes arrancou-lhes as asas. Tudo corria bem. Não fora a puta da dor de cabeça e estaria tudo em ordem. Mas a merda dos cisnes outra vez. Parecia obsessão
sexta-feira, janeiro 05, 2007

Era chegada a hora. Finalmente as ultimas gotas de orvalho tinham desaparecido. Meteu a mão nos bolsos e procurou ansiosamente o último livro. Encontrou-o num compartimento pequeno ao lado da última join. Era um livro de poemas sobre a importância de ser crisálida. Leu um pequeno verso:
“ Rastejei por mil locais, em mil locais me encontrei. Fechei-me no meu casulo e dele estou quase liberta”.
Era estranho o mundo das crisálidas. Guardou o livro. Incomodava-o sem saber porquê. Felizmente que ar estava prenhe de fumo e o horizonte era composto pelas fachadas de enormes edifícios. O anonimato estava garantido. Caminhou ao longo da avenida. Deserta de gente. Deserta de tudo. Um velho ao fundo, vestido de forma andrajosa, acenou-lhe. Ignorou o gesto. Na porta à sua frente duas garotas ensaiavam os 1ª passos da obra o lago dos cisnes. Outra vez os malditos cisnes. O velho foi-se. Uma negra, com a pele linda de um azul que só os negros têm, surgiu a seu lado. Tinha os olhos negros e tristes. Sentou-se a olhar os olhos dela. Estendeu a mão. Ela com cuidado partiu uma maçã que trazia no peito e deu-lhe metade. Suculenta. Não conseguiu articular palavra. E ali ficou até o sol lhe queimar a pele. A negra foi-se. Cambaleante acendeu a joint. De repente tudo começou a fazer sentido. Viu o Drº chegar, vestir a bata branca, agarrar os cisnes pela cabeça e decepa-la. E assim todos os dias novas asas lhe chegavam. Não fora a merda da dor de cabeça e as coisas corriam pelo melhor.














