
Agora já tinha tudo nas mãos. A ele se devia o conjunto de fornos que intoxicavam o povoado. Orgulhoso olhou a beleza de uma nuvem de gás que se espalhava pela cidade e que aqui e ali provocava os desmaios de gentes e animais. Era agora o senhor do fumo. Olhou os dedos tapados de anéis com rubis e esmeraldas. Era rico. O presidente de burgo e todo o seu séquito dobravam-se á sua passagem. Ao longe o filho brincava num prado amarelo queimado pelas nuvens de acido, atirava um pau ao gato e o gato não morria. Ao canto sossegada, dona xica continuamente se assustava com os berros que o gato dava.
Voltou para dentro de casa. E consultou o desenho da sua casa de campo. O local era agradável. Um riacho nada poluído, diziam, montanhas a perder de vista cheias de árvores e até, diziam alguns, existiam aves reais por lá. Custava-lhe a crer, mas ter esperança não custa.
Subiu ao 1º andar para ver melhor a ruas. Um bando de estropiados arrastava-se num murmúrio sem fim. Odiava-os do fundo do coração. Comiam-lhe as vísceras e bebiam-lhe o sangue. Carregou a arma. Uma oferta do presidente para momentos destes. Recordou a medalha recebida e o título de comendador. Tanto que gostava dele. Apontou e disparou. Caíram três o que precipitou o resto do bando num festim nu. No ar elevaram-se urras e o sangue jorrou a rodos. Estavam descansados e entretidos. Resolveu ir mudar de fígado. O médico esperava-o e ia ser fácil. Entrou no carro e saiu de casa. A turba olhou para ele. Mas a gárgula pendurada no carro vomitou o resto do almoço. Uma rapariga resolveu passear com o sexo preso por uma trela. Diziam que era amor, não acreditava em coisas dessas. Afinal isso do amor fora a perdição dos seus antepassados. Abraços com doenças venéreas, todos tinham resolvido partir para a guerra contra os seres islâmicos, de pontos na cabeça e caudas de demónios. Felizmente ele tivera cuidado. E podia viver nas fronteiras do império. Sem notar atropelou uma orquídea. Imperdoável, talvez fosse o último exemplar. Mas quem se importava com isso? Guardou o ódio numa caixinha, e pediu à gargula que o engolisse para mais tarde regogitar. O carro parou. Olhou em frente e lá estavam dois cisnes brancos. Deu-lhes um tiro e transformaram-se em flamingos. Finalmente tinha poder.
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