sexta-feira, janeiro 05, 2007





















Era chegada a hora. Finalmente as ultimas gotas de orvalho tinham desaparecido. Meteu a mão nos bolsos e procurou ansiosamente o último livro. Encontrou-o num compartimento pequeno ao lado da última join. Era um livro de poemas sobre a importância de ser crisálida. Leu um pequeno verso:
“ Rastejei por mil locais, em mil locais me encontrei. Fechei-me no meu casulo e dele estou quase liberta”.
Era estranho o mundo das crisálidas. Guardou o livro. Incomodava-o sem saber porquê. Felizmente que ar estava prenhe de fumo e o horizonte era composto pelas fachadas de enormes edifícios. O anonimato estava garantido. Caminhou ao longo da avenida. Deserta de gente. Deserta de tudo. Um velho ao fundo, vestido de forma andrajosa, acenou-lhe. Ignorou o gesto. Na porta à sua frente duas garotas ensaiavam os 1ª passos da obra o lago dos cisnes. Outra vez os malditos cisnes. O velho foi-se. Uma negra, com a pele linda de um azul que só os negros têm, surgiu a seu lado. Tinha os olhos negros e tristes. Sentou-se a olhar os olhos dela. Estendeu a mão. Ela com cuidado partiu uma maçã que trazia no peito e deu-lhe metade. Suculenta. Não conseguiu articular palavra. E ali ficou até o sol lhe queimar a pele. A negra foi-se. Cambaleante acendeu a joint. De repente tudo começou a fazer sentido. Viu o Drº chegar, vestir a bata branca, agarrar os cisnes pela cabeça e decepa-la. E assim todos os dias novas asas lhe chegavam. Não fora a merda da dor de cabeça e as coisas corriam pelo melhor.

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