quarta-feira, março 28, 2007


Se tu soubesses como
É bonito amar
Tecias com as mãos
Um quadro de sol
E com a boca desenhavas
Todo o meu corpo.

Manuel F. C. Almeida

- Mas que tem o Manuel a fazer neste fim de mundo? – Perguntou.
- Trabalho de coordenação arqueológica, e você que faz aqui? – Respondi.
- Não sei, vegeto – respondeu.
- Mesmo profissionalmente?
- Sim em Portugal e especialmente neste local qualquer pessoa com ideias é segregada, vive-se no medo com medo e para o medo. É horrível – terminou
Reconhecia nas suas palavras a realidade cruel. Vivia-mos num estado de medo. o poder tinha, de alguma forma, feito regressar as pessoas ao medo do dia 24 de Abril de 74. esse medo sentia-se em tudo. Ninguém ousava levantar a voz contra um estado cada vez mais totalitário. Um totalitarismo neoliberal onde todos éramos sacrificados. Jovens, velhos crianças. O ensino era e é em Portugal mais que medíocre, a sistema de saúde, desmantelado e implodido pelos sucessivos governos, estava um caos, o desemprego alastrava em todas as classes sociais. Diria que éramos e somos um povo triste, sem esperança, governado por terroristas, aliás este é o tempo do terror. De um lado os governos, do outro grupelhos, alimentados não se sabe por quem e nem porquê, praticam actos que apenas têm como consequência a perca de liberdades dos cidadãos.

Límpidas as horas em que recordei
O teu cheiro.
Doces como as pétalas do teu
Corpo,
Embriagantes como o néctar colhido
Em teu vaso.
E foram prenhes de tempo e de sonhos
suspensos.
E como eu gosto
De pintar o céu pela madrugada.
Com a cor do sol
Estilhaçado.
Livre, solto, eternamente
Apaixonado, pelo
passado
Manuel F. C. Almeida

terça-feira, março 27, 2007


Que se calem os silêncios agora.
Deixemos os olhos alimentar a alma,
E as aves povoarem o pensamento.
Brindemos ao que somos, ao que fomos.
Façamos poemas ao mundo e aos amigos.
Saibamos abraçar as almas que passam
E descobrir vielas em cada olhar.
Sejamos certos e sempre honestos
Quando no espelho nos encontrarmos.
Sós.
Não usemos a mascara do medo e do tédio
Saibamos tocar o sol e as estrelas
Pelo simples prazer de os tocar.
Não sujemos com o nosso egoísmo
O mundo dos outros a quem queremos bem
Façamos de cada momento da vida
Um momento de orgulho e comunhão
Saibamos ser gente, saibamos ser homens, saibamos ser
Nós.
Manuel F.C. Almeida

- Incomodei-o? – Perguntou. – Não claro que não, por vezes fico preso nas minhas armadilhas mentais e remeto-me ao silêncio, peço desculpa – disse eu.
- Não tem de quê – disse frontalmente. Gostei da atitude dela, era decidida. Movido pela mórbida curiosidade humana não resisti e perguntei-lhe: - como se chama?
Olhou-me nos olhos e disse:
- Elouise, e não fique pasmado, não nasci em Portugal. Nasci na Bélgica. Estou farta que fiquem de olhos e boca aberta quando digo o meu nome – não consegui evitar um sorriso. – E você como se chama? – Perguntou.
- Manuel, nascido em Portugal, mas não nacionalista - respondi a sorrir.
- Então já conheces a Elouise? – Perguntou a Isabel que entretanto se aproximara. – Olá Elouise, tudo bem? – disse dirigundo-se à minha companhia ocasional.
- Sim tudo, acabo de conhecer o Manuel – disse
- Contava apresentar-to mas parece que o acaso fez esse trabalho por mim. É um grande amigo que vem passar uns dias connosco- repondeu a Isabel, enquanto me piscava o olho.

segunda-feira, março 26, 2007


A palavra rasa
Tudo o que se diz.
Na orla do mar
D’uma alvorada
Feliz.
Manuel F.C. Almeida

Era directa, não tinha medo de falar. Sentou-se perto depois de cumprimentar os presentes. Não parecia muito sociável, cigarro na mão, procurava um isqueiro na mala. Adiantei-me e ofereci o meu isqueiro. Olhou-me de frente e com uma voz agradável e límpida agradeceu.
- Obrigado – disse. – Não o conheço, está de passagem?
- Sim – respondi – ando sempre de passagem – atirei para o ar. Ela sorriu de forma estranha.
- Que faz? – Perguntou.
- Pertenço ao departamento de história da faculdade e colaboro com o ministério. E você?
- Eu? Não faço nada. Estou desempregada. Tenho um curso superior mas de nada vale em Portugal. Estou a pensar seriamente em partir.
Era e é o drama dos jovens em Portugal. O desemprego. Terminam os estudos e seja qual for o grau académico o desemprego é a colocação certa. Por isso nos tínhamos tornado num povo triste. Sem esperança. Vitimas da mediocridade dos políticos e da pouca preparação do nosso povo. O golpe de estado tinha-lhes trazido a liberdade por decreto. Infelizmente a liberdade é um valor que tem de ser cultivado culturalmente. Este Portugal onde estava era ainda salazarista, nas mentalidades e nos actos, muitas vezes pensava se a democracia não seria uma armadilha dos poderosos. A meu ver só servia mesmo o interesse dos mesmos. Retirava legitimidade a quem lutasse pela liberdade e controlados os centros de decisão e a comunicação social, liberdade era apenas uma palavra mais. Com papas e bolos se enganam os tolos.

domingo, março 25, 2007


No silencio
Que te esconde
Há o desespero
De te não achar
De te não ver.
De não te amar
De te não ter.
No silencio
Que te esconde
Sinto que me estou
A perder…
Pra me vencer.
Manuel F.C. Almeida

- Chegámos – disse ela. Saltei do jipe, estava cansado mas gostava da companhia dela. Era alguém que me entendia tão bem, e sentia um carinho algo especial por ela.Entrámos no bar, bem decorado. Cor predominante o preto. Bom gosto, pensei. Um grupo de jovens estagiários aproximou-se. Eram conhecidos da Isabel que fez gala em me apresentar a todos. Mas não estava mesmo nada sociável, assim remeti-me a um silêncio que revelava cansaço e pouca paciência. Pedi uma água tónica, vi alguns dos jovens sorrir. Também já tinha feito como eles. Estava sentado a olhar a forma como rodeavam a Isabel quando ouvi aquela música linda que sempre tinha ouvido, Avec le Temps. Leo Férre no seu melhor. O cansaço deu lugar à nostalgia e fui invadido por uma tristeza enorme. Sentia a Fernanda perto de mim. Na minha tristeza não me dei conta da entrada de uma jovem. Só quando me pediu desculpa ao passar me apercebi. Vestia como eu, tinha um cabelo preto e avolumado, olhos azuis como nunca tinha visto, ou parecia-me nunca ter visto, fisicamente agradável, a voz permitia descobrir uma pessoa decidida.

sábado, março 24, 2007


Diz-me, onde deixámos
Pintar as almas de negro
Onde foi?
Naquela tarde em que nos demos
De mãos dadas.
E já mortos de nós,
Virámos o caminho.
E de um fizemos dois
Trilhos?

Manuel F.C. Almeida

Terra estranha, pensei. Terra de segredos também. Mas isso não me interessava, a minha missão era saber o que se passara com o rapaz. Mas as notícias colhidas através da Isabel eram cada vez mais intrigantes. Tudo se parecia confirmar, imaginei o Rodrigo com a mulher em causa. Seria uma coisa interessante, ela seria era mais jovem à data dos factos. A ser verdade afinal ele tinha-se reservado para ela. Conhecia-o bem. Só se interessaria por alguém inteligente. Embora jovem desvalorizava as relações unicamente físicas. Dizia que o amor era como uma obra de arte. Tem de se construir a partir de coisas reais e todos os dias colocar algo de novo na tela. Inteligência, amizade, humor e prazer tinham de estar presentes em simultâneo. Recordo-me de ser tema entre nós e de ficar admirado, dada a sua juventude, pela profundeza do seu pensar.

sexta-feira, março 23, 2007




















Quando os silêncios alagam
A nossa alma empobrecida
Vivem-se tempos de loucos
Em que a vida é esquecida.

Ficamos então condenados
Somos escravos do nada
Temos os olhos fechados
É vazia a nossa estrada.

Plantamos dentro de nós
Um canteiro de vontade
Fazemos dos bons encontros
Hinos feitos de amizade.

E assim escolhemos viver
Escondidos do que somos
Temos medo do perder
E medo daquilo que fomos.

E fazemos do caminho
Um lago de aguas paradas
E tratamos com carinho
Imagens nele espelhadas.

Um carinho de pureza
Um carinho de amizade
Que uma mentira repetida
Nunca chega a ser verdade.


Manuel F.C. Almeida





- Que foi aquilo – perguntou a Isabel - não me venhas com tretas, tás caído pela Fátima continuou.
- Caído não direi mas que mexeu comigo, mexeu – respondi.
- É bom que penses bem, pode trazer-te problemas e quem efectivamente manda neste local é ela. Por isso cuida-te. O marido é um bronco com poder, capaz de movimentar cordelinhos.
- Que queres dizer com isso?
- Recordas-te do Rodrigo? Por aqui diz-se que teria um romance com a senhora. Nunca vi ou soube de nada que confirmasse esta tese mas da fama não se livram.
- Recordo sim. Era muito amigo dele e não o estou a ver numa situação dessas. Mas deixa-me que te diga que ele é uma das causas que me trouxe aqui.
- Pois vê se tens cuidado com a “senhora”.! - o trejeito na voz e a expressão disseram-me que estava incomodada com os factos. Seria possível que depois de tantos anos ainda……? Não me parecia, mas……….
- Onde vamos? – Perguntei
- A um bar onde costumo ir. Gente com quem se pode falar, nesse aspecto por aqui são pérolas.

quinta-feira, março 22, 2007












Ao meu amor eu quero tanto
Perdoar tudo o que vivi
Até as horas em que vacilando
Estendeu seu braço e eu me feri.

Viver é isto mesmo, acreditar
Que no mundo nada é fechado,
Que há sempre um tempo pra chorar
E outro pra esquecer, que foi chorado.

Mas sabe amor que outro sou.
Vivo mais triste, não vou negar
Eu Sou aquele que muito amou
E que agora terás de reconquistar.
Manuel F.C. Almeida








- vamos? Está a fazer-se tarde – disse.
- sim claro, estou cansado da viajem, a minha saúde é frágil – rematei.
Feitas as despedidas guardei a ultima para a pessoa certa. Esperava a minha passagem perto da porta. Enfrentei-a com o cansaço espelhado no olhar, mas ainda assim com um sorriso na cara. Era um porto de abrigo. Que estranho isto tudo. Sentia que poderia precipitar-me numa loucura, caso ela enviasse algum sinal mais explícito. Felizmente, ou não, o marido e a comitiva seguiam-me assim foi com algum cuidado que lhe peguei nas mãos, a olhei nos olhos e lhe agradeci a companhia. As minhas mãos suavam um pouco e as dela estavam a tremer. Uma fracção de segundos. O suficiente para entender.Despedi-me de todos, alguns já a denotar a presença de vapores etílicos em excesso. Mas e sempre um bando de abutres hierarquizados. Que nojo me davam. Entrámos no jipe e seguimos

quarta-feira, março 21, 2007


Nesta claustrofóbica casa
Num canteiro do planeta
Tento reparar uma asa
Pra alcançar um cometa

E cuido das minhas penas
Feitas de cetim e veludo
Afasto de mim problemas
E aos poucos, eu tudo mudo

E no meu sono profundo
Tive um sonho conselheiro:
- Não queiras mudar o mundo
Sem te mudares em primeiro.
Manuel F.C. Almeida





Aproximaram-se como ovelhas. Todos em rebanho. A visão deixou-me repugnado. Iam voltar as conversas de circunstância, sensaboronas e desinteressantes. Assim foi, num ápice estava rodeado pela fina-flor do concelho, a olhar para mim como se fosse um bicho. Duas pessoas eram diferentes. O padre porque percebeu tudo de uma assentada e estava vigilante o GNR porque era GNR, pouco mais se lhe poderia pedir. Tinha deixado de raciocinar. O que fazia era automático. Um GNR é apenas um cão do poder. Quando este ordena ele obedece. Não existia nele qualquer sinal de eloquência. Isto é deformação pessoal, mas é o que penso.
Assim passei cerca de uma hora em companhia de bêbados, interesseiros e lambe botas. A Isabel e a fátima tinham-se retirado do quadro e não as vi até ao momento em que a Isabel surgiu:

terça-feira, março 20, 2007


Num qualquer ponto suspenso
Do tempo
Vivo adiado de ti

O ponto consome
O tempo, no tempo em
Que estou ai.

E as palavras livres
Reprimem o sentido
Que se deseja vivo. Aqui.
Manuel F.C. Almeida

- Dtº então fugiu de nós? Prefere a companhia feminina como vejo – disse o dono da casa, simultaneamente o bando de abutres que o rodeava sorria como se a frase tivesse alguma piada. Olhei para eles. Todos mais jovens que ele. Só um se destacava pela independência mostrada. O capitão. Todos os outros eram lixo orgânico, seres acéfalos, medíocres e subservientes. Cachorros. E eu prefiro gatos. Jovens velhos, jovens mortos sem alma sem ideais. Fazem carreira em todo o lado. Não acreditam em nada que não seja dinheiro e poder. Outros menos jovens que se tinham vendido ao sistema, pragmáticos, ainda mais desprezíveis que os ignorantes. Estes têm a vantagem de não trair nada. São estúpidos naturalmente, os outros que se venderam sabem o que estão a fazer. São desprezíveis, obscenos. E todos são iguais independentemente da cor politica. A mediocridade era a regra deste país. Os bons homens eram esquecidos e em seu lugar surgiam estas figuras eleitas com base em feudos locais e familiares. Seria para rir caso não fosse tão trágico.

segunda-feira, março 19, 2007



Avidamente percorro
As linhas inexistentes de ti,
E luxuriosamente, o prazer
De não te ter
Amante,
Invade o meu ser.
Povoas-me o espírito,
Povoas-me o espaço.
Onde te querer?

Na liberdade de te livre

Saber.

Manuel F.C. Almeida



- Lamento vê-lo tão frio, mas em face da companhia entendo que preferiria outro tipo de debate – disse ele com um sorriso. Tinha entendido. Mais uma surpresa. Este estava a revelar-se perspicaz. Estendeu-me a mão. Ainda pensei se corresponderia ao gesto de forma cordial. Senti que aquelas mãos estavam carregadas de sangue de milhares de inocentes. Não tive coragem de ser sincero. Apertei-lhe a mão. Merda de vida esta. As piores traições que fazemos são as que praticamos com nós mesmos.
Finalmente partiu, tendo-se despedido da senhoras e com particular atenção da Fátima, a noite ia já adiantada e nem tempo tive de conversar com ela. Quando me vltei a concentrar nela, senti que estava ausente, a minha atitude perante a religião tinha-a assustado ou algo de estranho tinha acontecido entretanto. A Isabel também notou que tudo se tinha alterado. Ao cimo das escadas vi surgir o resto dos convivas.

domingo, março 18, 2007
















Bebemos nos caminhos da palavra
O elixir da vivência
E tomamos os sentidos
por existência.

Cortamos sempre a direito
Sem nunca olharmos para o lado
E assim vamos fazendo o
sentido amordaçado

Andamos sempre á procura
Do mundo por nós desejado
Dizemos cheios de pena-
mas que triste é o meu fado

E ficamos como estatuas
Num jardim pintado a preceito
Com rosas de todas as cores, roubadas
ao nosso peito.


Manuel F. C. Almeida


- a mesma razão que leva as pessoas a separem os seus caminhos. A incoerência patenteada entre a tésis e a praxis.
Fiquei-me por aqui. Não me apetecia falar. Nem me apetecia dissertar sobre o valor real que dava à Religião na história humana. Recordei com nostalgia uma frase de uma amiga sobre o tema, costumava dizer que “ não existem religiões apenas religião” radicalmente correcta.
- Mas os caminhos de Deus não devem ser confundidos com a voracidade das sociedades – respondeu. Reconheci mérito ao termo voracidade. Na verdade vivia hoje num mundo mais pobre. Menos espiritual. Tudo se compra, tudo se vende. O advento das novas formas de comunicação apenas tinha colocado a nu o vazio que cada um de nós encerra. Muitas vezes questiono-me sobre o resultado da desumanização provocada pelo falar com alguém através de um monitor.
Olhei novamente o meu interlocutor, senti o olhar das mulheres em mim. Não era agradável começar uma discussão com quem não me iria entender. Resolvi dar por terminada a conversa.
- Os caminhos da religião chacinaram milhões de seres humanos. Dispenso-os. – Respondi rápido e incisivo. Queria acabar aquilo, estava a roubar-me tempo.

sábado, março 17, 2007



- Dtº é um prazer conhece-lo. – Disse o padre. Não comungava da mesma opinião e na frieza que mostrei ficou tudo bem patente.
- Sim e a que devo a honra de tanta atenção? – Perguntei.
Olhou para mim de forma curiosa. Senti que fazia um esforço de avaliação, tentava enquadrar-me nos seus esquemas mentais. Finalmente respondeu:
- Curiosidade, simples curiosidade. Sei que não aprecia as pessoas da igreja, o que não me impede de sentir curiosidade pela sua forma de estar.
Foi surpreendentemente honesto. Coisa rara nestes personagens.
- Curiosidade em quê? – Perguntei
- em saber a razão que terá levado um homem educado no seio da igreja a trilhar outro caminho - respondeu. Mais uma vez honesto. Estava surpreendido, o mundo tem destas coisas. E o espanto é o motor do mundo segundo os gregos.
A resposta foi curta e cruel:

sexta-feira, março 16, 2007



















Na noite que me levaram ao outro lado da terra
Eu vi mortos, eu vi guerra
Vi homens com aço nos olhos
Vi todos sonhos desfeitos
De mil corpos estropiados,
Vi a morte bem presente nuns olhos amordaçados.

E os homens levavam bandeiras, hinos e mapas na mão
Levavam réguas e esquadros Pra dividir o quinhão
E tudo estava arrumado
Preparada outra guerra
Soltámos a besta no mundo
E Libertámos a fera


E em tantos anos de história afinal nada mudou:
- Um homem naquele lugar em nome de deus se imolou
- Há uma criança a morrer p’la doença que o tomou
- O herói condecorado porque outro homem matou
- O pobre que arrasta a vivência na fome que o baptizou
- O rico que nada em suor, no dinheiro que roubou.

Somos o mesmo selvagem que tudo isto alagou.

Manuel F. C. Almeida



Como já afirmei tenho urticária a estas personagens. Este ainda me fazia mais. Magro, com óculos, um pouco calvo, de aparência cuidada, relativamente novo e sem a farpela que os costuma caracterizar. Estava disfarçado. Foi sem admiração que viajei até á minha meninice e ao colégio de Salesianos que frequentei em criança. Espartanos, repressivos, castradores mas claramente mais eficazes como educadores que os dias de hoje. Detinha-me por vezes a pensar nisso. Que mudança horrenda tinha acontecido neste País. A liberdade por decreto traz destas coisas. E um povo culturalmente idiota a quem entregam a liberdade numa bandeja só pode ter uma forma de agir: destruir a liberdade. O comportamento dos jovens indiciava isso mesmo, o dos professores assustava. Alguns professores formados nas fábricas de produção em massa a que chama-mos faculdades, nunca leram nada de nada. Se lhes falar-mos em Victor Hugo, Descartes , Kant, Sartre ou Platão julgam que tratamos de gente do desporto, ou de alguma banda dos anos 60. Uma tristeza.

quinta-feira, março 15, 2007



( leiam o texto rápido, nao soube dar-lhe a pontuação correcta. resultaria bem em palco com alguns arranjos) foi de rajada.será um esboço a trabalhar.


Ás vezes tenho destas coisas! Vivia mais um dia sem sabor, igual a todos os outros, quando dei comigo a pensar como seria bom não amar. sim não amar. Ou antes, amar sem amar. Sei que é complicado pensar nestes termos. Afinal ama-se ou não se ama? Pode amar-se no passado, o que não implica amar no presente. Pode amar-se no presente amando o eterno passado. Pode inda amar-se o futuro, amando o nosso presente sem renegar o passado. Dirão: - complicado. Mas não, a reflexão é coisa séria. Nada disto é a brincar. Pensam que escrevo estas coisas prá vida vos complicar? Não pensem isso de mim. Não quero mudar as pessoas. Aqui está cada um por si. Com as minhas asas não voas!
Eu só pretendo afinal que pensemos mais um pouco, se existe sentido na vida e creiam que não estou louco. E faço perguntas ao mundo. Coloco várias questões. Será licito viver agarrado a ilusões? Depois vem a questão de saber o que se trata, será errado o prazer de ver quem em potencia nos mata. Mas que coisa esta agora, porque falei eu da morte. Mas eu Já sei porque foi. Há tempos eu descobri quem morreu e se fez forte. Eu explico. Existem alguns seres Humanos que em nome da sua verdade, viram as costas ao mundo, fazem do ódio vontade. É claro que se consomem na esperança de matar, os fantasmas que criaram e vivem para os julgar. Não julguem ser coisa rara, em cada pessoa que passa, existe um mundo de medos, de tragédias e de graça. Mas isto já vai compridinho e não vejo como sair, desta terrivel questão de onde todos vão fugir. Porque isto, pensar o amor vivendo cheio de mágoa e como estar no deserto e não ter onde beber..... Água. Estamos mortos sem saber. Vivemos numa prisão. Odiamos todo o mundo. Num mundo que é nosso irmão. Ou então deambulamos no meio da multidão, saciamos nossos corpos mas nunca o coração.
E aqueles que nos querem trazer palavras cheias de esperanças, são sempre -nossos inimigos, querem matar-nos as lembranças. Por ultimo resta dizer que há casos mais complicados, são casos de gente que ama uma só vez. Casos desesperados, porque de isto de amar muitas vezes só me revela afinal, que quem muitas vezes diz que amou, nunca teve o gosto pra tal.

Manuel F. c. Almeida








- Bom! Temos várias realidades neste país. Se olhar-mos para a orla costeira, deveriam ser todos presos. Os atentados ao meio ambiente e às pessoas foram tantos que me deixam chocado. As cidades costeiras perderam qualidade de vida. As pessoas foram despejadas lá sem preocupações de qualquer espécie. Por isso são locais violentos e nos quais a aculturação é gritante. Se olharmos para o interior verificamos uma outra realidade. O êxodo das pessoas facilitou a vida aos autarcas, de um modo geral mantiveram-se fiéis a si mesmos e o resultado foi um melhorar das condições de vida da população. Mas ainda assim existem coisas que deixam muito a desejar e que encerram alguns mistérios.
A Isabel limitava-se a ouvir com um sorriso a pairar-lhe na face.
- Tão critico e mordaz doutor. - disse o padre acabado de surgir sem se saber de onde.















Eu canto todo o meu ser
Meu mundo de aventuras;
Canto as gentes, as figuras
Presentes no meu querer

Canto alegrias, tristezas
Amores e desventuras
Canto risos e agruras
Segredos de mil belezas

Faço da vida o meu canto
Em toda a beleza que tem
Na procura de um alguém
Que faça de mim… o seu espanto.

Manuel F. C. Almeida

quarta-feira, março 14, 2007


















Que pensas fazer com as palavras?
Deixa-las presas a silêncios por abrir?
E nós? Seguiremos amarrados a elas?
Ou deixaremos soltar as asas que escondem,
E iremos beber a Ambrósia
Que escorre dos corpos?

Que faremos nós com as palavras?
Não sei,
Mas quero apenas falar.

Manuel F. C. Almeida


Eu tinha notado isso havia algum tempo e estava a ficar incomodado. Felizmente estavamos já nas sobremesas. E não me apetecia comer mais nada. Estava bem. Olhei para a Isabel. Pareceu-me incomodada. Eu também o estava, sentia que algo não estava certo. Não sabia o quê. Mas era a sensação que tinha. Os convivas, que mal tinham falado para mim começaram a levantar-se. Ao canto da sala uma caixa de charutos. Num ápice grande parte dos presentes ostentavam na mão um charuto imenso e nauseabundo que pretendiam fumar com prazer. Como é idiota a sociabilização. Tudo tem horas próprias. Esqueci-me deles e virei a atenção para as duas pessoas lindas que estavam comigo. Tínhamos saído de casa, passeávamos pelo jardim da casa. Bem cuidado e muito bonito.
- Manuel, posso chamar-lhe assim?
- Claro que sim - respondi.
- Diga-me que pensa do poder local?
Era uma questão difícil. Eu tinha visto o melhor e o pior. Gente honestíssima e gente cuprrupta. Gente com verticalidade e gente que tinha cedido em tudo. Foi com naturalidade que respondi:

terça-feira, março 13, 2007











Eu escrevia-te versos todos os dias
Na candura de um olhar apaixonado
Mas tu não estavas
Tudo era só passado.

E eu encantei-me nas palavras,
Nos gestos de grinalda colorida.
E quando foste,
Nem vi que estiveste sempre
De partida

Manuel F.C. Almeida









- Não come mais nada – perguntou a Fátima – não aprecia as nossas comidas pelo que vejo – rematou.
- Não é isso, sabe que há uns anos fiz uma operação delicada, desde então tenho muito cuidado como que como. – Respondi, olhando novamente os seus olhos em todo o esplendor que os mesmos tinham. De cada vez que os olhava ficava mais incomodado e cada vez mais preso. Era melhor despachar o que tinha ali a fazer e partir. Fugir das garras da paixão era o que melhor sabia fazer. Ninguém entenderia o facto de amar a minha falecida companheira e em simultâneo me apaixonar por alguém vivo. As pessoas tendem a exigir mais que o nosso amor. Tendem a exigir o nosso mundo todo, passado, presente e futuro. trágico mas é assim.
- Então que tipo de alimentação faz? – Era ela novamente.
- Usualmente alimento-me de peixe e de muitas saladas - Isso não alimenta ninguém – disse o chefe da polícia sendo seguido por quase todos com exclamações de riso e de aprovação. Apenas o padre não concordou. Estava com demasiada atenção em mim.

segunda-feira, março 12, 2007


Que fizemos nós do nosso jardim?
Deixámos as rosas morrer
E as glicínias adormecerem
Sem água.

Tu castraste a nossa alegria
E deixaste morrer os malmequeres
No nosso jardim só restam laranjas
Amargas
Que se não podem beber.

E vimos o nosso jardim morrer
Num tempo de enlouquecer.

Manuel F. C. Almeida


E fizeste da tua vida estrada,
Construíste o teu sonho a cantar.
Tu que tens umas mãos de fada ,
nasceste pra enfeitiçar.

E andaste por mil veredas,
Mil montes, mil lugares.
Tens um passado de lendas;
Histórias feitas com olhares.

E quando falas pra mim;
quando te deixas tocar;
É estranho sentir-te assim:
Estás ali, mas a voar.

E eu faço do mundo um baloiço
Como quando era menino.
E as lenga-lengas que te ouço
Fazem de mim pequenino.

Manuel F. C. Almeida


-está deliciosa e por favor trate-me pelo nome, os títulos servem aos medíocres para se destacarem. – Disse. Simultaneamente fixei o olhar nos lábios. Bem desenhados, deliciosamente bem pintados, que me sorriam como um farol. De repente fui invadido pelo cheiro dela. Era natural, um cheiro de mulher inesquecível. Ela também percebeu e a sorrir perguntou baixinho com um sussurro de fazer arrepiar:
- que se passa Manuel? Sente-se bem?
A Isabel viu a forma nervosa como mexia as mãos e o olhar do dono da casa.
- Tem juízo, ainda te recordas do Rodrigo. Desapareceu por estes sítios. – disse-me ao ouvido.
Recordava claro. O Rodrigo tinha sido colocado no campo arqueológico anos antes. Depois de viver cerca de dois anos naquele local. Desapareceu misteriosamente. Nunca foi encontrado corpo. Na altura tinha 27 anos, era um rapaz alto, bem constituído. Gostava de alpinismo e montanhismo, coisas que cultivava com prazer e destreza. Recordava que tinha corrido o boato de que o seu desaparecimento teria algo a ver com questões de mulheres. Fiquei na altura um pouco surpreso. Era um indivíduo pacato. Trabalhador, quase obsessivo nesse campo. Nunca o imaginei d. juan e Nunca me conformei com aquele facto. Aliás um dos motivos que me tinham levado ali era o Rodrigo. Ou antes o seu misterioso desaparecimento.

domingo, março 11, 2007














Olha!
Já sei a cor da tua alma.
Quiseste pinta-la com tinta
Incolor,
Mas ela acabou por se mostrar
No seu arco-íris de pureza.
Tua alma é da cor do amor

A não esquecer
E o teu “eu” só um poema
A despertar no amanhecer.


Manuel F. C. Almeida







Funcionários vindos da cozinha serviram sopa. Finalmente podia pensar em tudo sem me dispersar. Quis raciocinar sobre o que estava a acontecer, mas a imagem dela, a curiosidade eram maiores. Dei comigo a elaborar estratégias de aproximação. Nunca tal tinha feito. Desde a morte da minha companheira que evitava aproximar-me de alguém. Os casos mantidos eram apenas de fruição física e na maior parte das vezes sentia-me mal quando o corpo se dava por saciado. Noutros casos as premissas iniciais eram pervertidas e regra geral acabava por magoar alguém. Estava farto disso. Achava possível um amor. Daqueles amores para uma vida. Era verdade que sentia a Fernanda ainda presente. Mas continuava a acreditar que teria de existir um amor sem fim. Incondicional. Seria naif mas certamente era eu. Genuíno. Transparente. Sincero. No entanto tinha a propensão para momentos impossiveis. Como diriam os poetas era o meu fado. Mas ainda assim tinha em mim espaços vazios. Téria já vivido " o amor" ou apenas tinha vivido um amor? Estas questões há muito que me assltavam o espirito.
- Então Dtº a sopa esta boa? - Perguntou a Fátima. Nem tinha notado ou saboreado a mesma. Limitara-me a comer sem ligar muito ao paladar.

sábado, março 10, 2007
















Eu fui ao outro lado do mundo
Vi estrelas novas no céu
E vi no espelho de uns olhos
O reflexo do meu “eu”

Agora sei que no mundo
Há outros que são como eu
Gente que sabe o que quer
O teu mundo é também meu.

Por isso não mais estarei só
Tu estás aqui a meu lado
Plantei uma flor no teu peito
Na boca, um beijo adiado.

MANUEL F.C. ALMEIDA

quarta-feira, março 07, 2007
















PORQUE TODOS NECESSITAMOS DE DESCANSO,
NOS PRÓXIMOS DIAS IREI ESTAR AUSENTE.
FICA A MUSICA DE RY COODER, BANDA SONORA DE " PARIS TEXAS.

FOI COM ESTAS MÃOS QUE OUSEI
AGARRAR A LUA.
E DERAM-ME
O CÉU.

Manuel F.C. Almeida



- Vê como te portas – segredou-me a Isabel ao ouvido – nada de meteres as mãos onde não deves. Não resisti a recordar-me e a dar uma breve gargalhada. Ela ainda se recordava como tinha-mos começado. Há muito tempo que não sentia o meu riso tão natural, tão meu.
Não sou o que se apelida de bom garfo. Já fui, mas creio que a necessidade obriga-nos a mudar e comigo assim foi. Por isso ao ver o que estava na mesa não pude reprimir um sentimento de náusea. As únicas comidas aceitáveis eram as saladas. Um desperdício obsceno. A minha reflexão foi interrompida pela Fátima.
- Então Dr. o que vem cá fazer? – Olhei para ela. Linda e bela, a seu lado um homem com idade para ser seu pai. A Isabel ouviu a questão e discretamente tocou-me na perna. De imediato fiquei alerta. Esperava que se movessem, não esperava é que fosse assim. se a minha viajem tinha sido comunicada porquê tal pergunta?
- Vim verificar como decorre o levantamento arqueológico. Já tinha saudades do campo! - Respondi. De imediato vi abrir-se um sorriso cúmplice.



Derramo o meu corpo no teu,
E das sinfonias do amor
Farei crescer tulipas rubras,
Transparentes como tu.
Os jardins do mundo,
Vão gritar o teu nome.
E saudar-te, libertando
um arco-íris no céu.

A teus pés, a beleza.
A teu lado, apenas eu.

Manuel F.C.Almeida

terça-feira, março 06, 2007


E ainda me fazia confusão que num estado laico surgissem sempre padres em momentos para os quais era convidado.
A conversa de circunstância instalou-se. Em boa verdade já não suportava nada daquilo. Não queria saber dos projectos de um novo quartel de bombeiros nem do interesse da igreja em recuperar a basílica da terra. Mas com um sorriso na cara dizia que sim sem saber a quê. Era sempre boa política. Tirando a Isabel e a Fátima nada naquela sala valia qualquer tipo de atenção da minha parte.
O jantar começou a ser servido e pela primeira vez dei comigo a pensar no que se seguiria. O costume era abrirem o jogo logo às primeiras conversas. Ali não aconteceu isso. Fiquei na expectativa, sabia que viriam à carga. E não me agradou aquele “ adiar”.
Calhou sentar-me entre a minha cicerone e a minha anfitriã. Calhou não. Por um motivo qualquer a dona da casa tinha-me colocado a seu lado, numa mesa comprida e ampla.

segunda-feira, março 05, 2007









blues
(for you my sweet friend)









I
One last word,
One last kiss,
Let me be the dream
That you missed
II
Eu queria dançar contigo no ar
Ser o futuro em ti adiado
Enlaçar o teu corpo e voar
Ser o sonho um dia sonhado.

Eu posso, sei o que sou.
Sou um presente ao passar;
Presente que colocou
Todo o teu ser a brilhar.

É isto a vida, feita de espanto
Desencontros feitos no tempo
É isto a vida, é isto que canto
Ponho palavras vivas no vento.

to. Manuel F. C. Almeida

PARA FANNY OWEN
(obrigado)
Ouve-me por favor.
A nossa história já aconteceu
E não a quero trágica
Como da ultima vez
Vamos dar beijos
No coração
Sim, no coração
Onde nada mais paire
Que um desejo de fusão.

Manuel F. C. Almeida


Rapidamente todos se aproximaram. O primeiro, presidente da Câmara municipal, homem alto e encorpado, na casa dos 50 e muitos anos, estendeu-me a mão e cumprimentou-me de forma vigorosa e efusiva. Ao mesmo tempo que me dizia – vejo que já conhece a minha esposa. – A primeira parte do puzzle estava acabada. A minha deusa era casada e logo com o presidente. Mentalmente não consegui evitar um sorriso. Ela deveria ter um pouco mais de 30 anos, magra, frágil, ele mais de 50 e com a figura característica dos políticos de província, que fazem politica em meio de petiscos e copos. A Isabel captou o meu momento e tocou-me levemente no braço. Quando a olhei tive a sensação que ia começar a rir desavergonhadamente. Felizmente conteve-se. Os outros convivas aproximaram-se e fiquei a conhecer o comandante do posto da GNR, o comandante dos Bombeiros, a restante vereação e para espanto meu até o padre lá estava. Pessoalmente não suportava tais criaturas.

domingo, março 04, 2007




















Podem roubar-me o tempo
Roubar-me o espaço e o lugar
Podem destruir todo o mundo

Mas não deixarei que me roubem
os sonhos de te sonhar.

Manuel F.C. Almeida


- Dr! Então como está - disse. Ao mesmo tempo que me estendia a mão. Reparei então nas suas mãos. Brancas, tão brancas que se podia ver de forma clara o azul das veias e artérias. Estava muito bela. Vestia uma roupa preta que contrastava com a sua cor natural, o cabelo solto e longo de um negro hipnotizante, aliado a um par de olhos da cor do mar faziam dela uma brisa no meio de um ambiente demasiado austero e formal como aquele.
- Venha vou apresenta-lo, mas primeiro diga-me o seu nome – disse em ar de cumplicidade. - Diga-me também o seu – interroguei-a – pode chamar-me Fátima – disse
- Eu sou Manuel Carvalho – respondi – para si só Manuel – disse-lhe baixinho
Olhou-me com os seus grandes e belos olhos e sorriu como as Mulheres o fazem quando nos desejam dizer algo sem verbalizar o quê.- Meus amigos tenho a honra de lhes apresentar o Dr. Manuel Carvalho – disse, numa alocução para toda a sala. A Isabel, a meu lado, sorriu e piscou-me o olho, era um trejeito de cumplicidade que tínhamos há anos.

sábado, março 03, 2007





















É na cor esmeralda do teu olhar,
Nas palavras que só tu sabes dizer,
Que descubro este imenso prazer
De te ouvir a falar, pra te cantar.

Não sei que pensar, nem sei que fazer
Estou já perdido, não o vou negar
Nunca na vida eu pude tocar
Alma tão pura com tanto prazer.

E agora que vais, que partes prá vida
Há cravos vermelhos pra te abraçar
E um mundo que se abre ao teu passar
Um mundo que assiste à tua corrida

No desespero de não encontrar
O lugar que um dia ousaste sonhar.


Manuel F. C. Almeida