segunda-feira, março 26, 2007


Era directa, não tinha medo de falar. Sentou-se perto depois de cumprimentar os presentes. Não parecia muito sociável, cigarro na mão, procurava um isqueiro na mala. Adiantei-me e ofereci o meu isqueiro. Olhou-me de frente e com uma voz agradável e límpida agradeceu.
- Obrigado – disse. – Não o conheço, está de passagem?
- Sim – respondi – ando sempre de passagem – atirei para o ar. Ela sorriu de forma estranha.
- Que faz? – Perguntou.
- Pertenço ao departamento de história da faculdade e colaboro com o ministério. E você?
- Eu? Não faço nada. Estou desempregada. Tenho um curso superior mas de nada vale em Portugal. Estou a pensar seriamente em partir.
Era e é o drama dos jovens em Portugal. O desemprego. Terminam os estudos e seja qual for o grau académico o desemprego é a colocação certa. Por isso nos tínhamos tornado num povo triste. Sem esperança. Vitimas da mediocridade dos políticos e da pouca preparação do nosso povo. O golpe de estado tinha-lhes trazido a liberdade por decreto. Infelizmente a liberdade é um valor que tem de ser cultivado culturalmente. Este Portugal onde estava era ainda salazarista, nas mentalidades e nos actos, muitas vezes pensava se a democracia não seria uma armadilha dos poderosos. A meu ver só servia mesmo o interesse dos mesmos. Retirava legitimidade a quem lutasse pela liberdade e controlados os centros de decisão e a comunicação social, liberdade era apenas uma palavra mais. Com papas e bolos se enganam os tolos.

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