terça-feira, abril 17, 2007



FOTO BY

Luna Alba

- Se quiser almoçar connosco terei todo o prazer em a convidar – disse eu – e simultaneamente poderei fazer-lhe algumas perguntas sobre o meu amigo.
Os seus olhos ganharam vida e foi sem surpresa que a ouvi dizer
- Terei todo o prazer, isto é se não existirem objecções – e olhou para a Isabel. Esta corou um pouco mas depressa respondeu:
- Claro que ficas, vamos almoçar a um local lindo, perto do rio. Tu conheces ele é que não. Olha, agora tenho de ir. Deixo-vos sozinhos. Tu vê lá nada de seres abusador – simultaneamente soltou uma ruidosa gargalhada como só ela o fazia.
Fiquei só com ela. Confesso que estava um pouco intimidado, desde há algum tempo que ficava assim quando me via junto a mulheres mais jovens. A idade prega-nos destas partidas.
- Estava aqui a mexer nas coisas do Rodrigo na esperança de encontrar algo que me dissesse onde poderá estar se é que está vivo – disse eu.- Acredite que ele está vivo, não tenho dúvidas disso, resolveu deixar a vida que tinha e partir para outro mundo, outra realidade. Estava sozinho, não tinha ninguém e estava farto da nossa sociedade. Não ficava admirada se o soubesse em África ou em qualquer outro local do mundo. Um local onde se sentisse útil e onde encontrasse sentido para a sua vida. – Disse ela

segunda-feira, abril 16, 2007



foto by carlos pereira

Nos teus lábios
De romã
Bebi o ópio
Da minha existência.
Queria pois ser
O teu raio de noite
Numa dança de ventres
Famintos,
Saciar-te essa sede
De águas cálidas e puras,
Invadir-te a alma e
Consumir-te na antecipação
De um olhar
Feito de prazer.

Manuel F. C. Almeida

domingo, abril 15, 2007



foto by Helder Vasconcelos

Agarrei o teu ventre
Pela boca.
Provei-te o ser
Com um olhar.
Soletrei a dois o
Verbo amar.
Fiz da tua púbis
Meu lar,

Meu jardim
Meu universo...

Meu sonhar.

Manuel F.C. Almeida

sábado, abril 14, 2007












Notas soltas
Nas madrugadas agrestes
E sombrias
De um olhar morto
No tempo.
Notas soltas
De uma sinfonia de
Pétalas dançantes
No vento.

Foto by Filipe Pereira

Manuel F.C. Almeida

foto by:
Helena Margarida Pires
de Sousa
- Olha que bela surpresa a Elouise resolveu fazer-nos uma visita.
- Assim vejo – disse a sorrir. Ela também sorriu, era gentil e simpática, diria docemente simpática.
- Boa tarde – disse, ao mesmo tempo que me estendia a mão.
Retribui o gesto e perguntei:
- Que a traz por cá? Ou é visita habitual?
- Quando o Rodrigo por ai andava vinha muitas vezes conversar com ele – respondeu.
Isso aguçou-me a curiosidade. Teria conhecido bem o rapaz? Aquela notícia era duplamente agradável. Ela tinha vindo ao campo e eu tinha uma boa desculpa para passar algum tempo a conversar com ela.
- O Rodrigo costumava dizer que a Elouise era a melhor amiga que poderia ter tido por aqui – disse Isabel.
- Ele é que era um grande amigo, tinha um coração do tamanho do mundo e uma alma de todo o universo – respondeu ela.
Fiquei a olha-la, cabelo negro, solto, comprido, olhos azuis da cor do céu, uma face bonita e uma expressão sempre jovial. Se aliar a tudo isto o interesse do Rodrigo, diria que era forçoso que a conhecesse.

sexta-feira, abril 13, 2007



Foto de A.BRITO

Concebo em mim a existência
De uma mão que se quer nua
Ávida, sedenta e pura
Como sombras vivas
De lua.
Manuel F. C. Almeida



foto by:
Helena Margarida Pires
de Sousa


No meio de tanto livro, uma obra intitulada “A angústia da brancura do papel”, achei curioso o título e tirei a obra. Ao abrir tive uma surpresa. Poesia, estava cheio de poemas escritos pela mão do autor. Alguns com o nome dele outros com um pseudónimo “ Bartolomeu”. Recordei de imediato a mítica passarola do tão célebre Bartolomeu de Gusmão. Curioso o pseudónimo. Afinal o Rodrigo revelava-se algo diferente do que supunha conhecer. Amante de filosofia, amante de poesia, que mais me esperaria? Folheie o livro e fui lendo alguns poemas. Poemas de amor quase todos. Alguma prosa, pouca e algumas cartas ou esboços das mesmas. Endereçava-as sempre a “ meu amor” não colocava nomes.
Procurei vislumbrar algo que me pudesse ajudar na minha procura. Nada me indicava o que teria sucedido. Guardei a obra na minha mala e continuei a mexer nos seus livros. De repente a Isabel voltou. Vinha acompanhada pela Elouise. Estranhamente fiquei duplamente agradado.
Ambas estavam deslumbrantes. E dei comigo a sorrir com o olhar. Um sorriso que vinha de dentro de mim. Um sorriso elaborado com a alma.

quinta-feira, abril 12, 2007


foto ABRITO
Numa barca feita de ventos,
Transporto o meu ser
De tempo erguido.
E desejo que ele
Consiga voar.
Na procura de uma corrente,
Consumo o meu querer
Num gesto esquecido.
E desejo que ele
Consiga navegar.
Na fogueira que me consome,
Tento salvar um sonho
Já quase perdido.
E desejo que ele
Consiga ficar

Um pouco mais que só sonho.
Que fique barca de tempo.
Raio da noite.
Luar.

Manuel F.C. Almeida


foto Alvaro Ennes

- aqui está a estante do Rodrigo. Conservei tudo intacto. – disse a Isabel.
- isso é fantástico. Posso dar uma vista de olhos?
- claro, esta manhã estamos a preparar o relatório pra te apresentar à tarde, por isso fica à vontade.
Foi o que quis ouvir. Ela agarrou numa pasta e saiu deixando-me só. Abri a estante e comecei a ver os livros que tinha. Fernando Pessoa, A. O’Neil, Florbela espanca, Mário de Sá carneiro, Al Berto, o rapaz tinha muita poesia. Noutro local obras de agostinho da silva, Kant, proudon, Sartre, Freud e outros filósofos. Ainda tinha dezenas de livros técnicos e alguns romances. Achei curioso um facto os romances presentes eram todos obras especias. Trópico de câncer, o velho e o mar, 1984, o ano da morte de Ricardo reis, escuta Zé ninguém, as vinhas da ira, os grandes mestre, a náusea, a peste e muitos outros. E o mais curioso, toda a obra de cortomaltese. O rapaz era um libertário, esta palavra nova que pretende designar os anarquistas. Na verdade com a massificarão do valor negativo dado ao conceito “ anarquia” o movimento teve de tentar fugir às garras desta sociedade. Assim criou o conceito de libertário. Inatacável em termos semânticos.

quarta-feira, abril 11, 2007


Foto de A.BRITO
A cor deste poema
Inunda-nos de mar.
Uma maré-alta invade o
Nosso ser
Na derradeira sinfonia
De um olhar
Que se quer presente,
Que se quer real,
que se quer...viver.

Manuel F.C. Almeida


foto Francisco Benveniste

Chegamos, fomos os primeiros à excepção do rapazola que tinha levado as bofetadas.
Veio cumprimentar-me meio desafiante, meio receoso.
- Bom dia professor, então domou a fera?
Olhei o rapaz e não consegui reprimir o asco que me deu.
- Olhe desculpe, mas refere-se a quem? Há mulher que lhe deu uma bofetada devido á sua atitude de criançola? Se é a ela que se refere fique a saber que foram muito bem dadas. Por outro lado e sendo já adulto na aparência, porque se refere a uma mulher como se fosse um animal? Por ultimo, só uma cabeça doentia pode insinuar que conhecer uma mulher tem como fim “ doma-la”. Não sei quem você é. Nem a sua idade mas infelizmente reparo que em matéria de comportamento você é do pior que conheço. E acredite, conheço muita gente medíocre e pequenina como você! – Retorqui, sem lhe apertar a mão que tão solicitamente me estendia.
A Isabel cortou o ar gélido que se tinha formado. E arrastou-me para o seu escritório.Estava indignado. Como era possível que gente com formação superior tivesse aquele tipo de comportamento? Onde se tinha perdido a noção de excelência que era suposto a universidade transmitir? Tínhamos perdido tudo. O saber, o amor ao saber e a capacidade de respeitar o próximo. Afinal em que mundo vivíamos? Uma selva de ignorantes

terça-feira, abril 10, 2007



foto rickybar

Tanto te escrevi
Que a candeia acesa dos meus
Olhos
Se fez farol nos teus.
E as vagas do meu peito
Carregadas de brumas de paixão
Embateram a preceito
E inundaram o teu coração.
Num assomo de almas
Que regressam.


Manuel F.C. Almeida



foto A.Brito

- Tu és único. Na verdade o tempo fez-te como o vinho do porto. – Falou a sorrir.
Comemos e saímos para o trabalho.
Não lhe disse nada sobre o meu real propósito. Aparentemente eu estava ali para avaliar o avanço das investigações. Mas o Rodrigo continuava a ser o meu objectivo. Tentei ser o mais natural possível quando lhe disse:
- Sabes por acaso que lugares frequentava o Rodrigo?
- Sei, ia muito ao bar onde fomos ontem e a um café meio recatado onde passava horas a escrever. Dizia que estava a escrever o seu testamento.
- Um testamento? Que é feito disso?
- Não sei. A polícia levou quase tudo do apartamento. Só deixaram os móveis e a roupa. Tudo o resto foi retirado.
- mas tudo? Até os livros?
- não os livros só os que estavam em casa, mas ele tinha no campo um pré fabricado, que eu ocupo agora, onde guardava tudo. Nunca toquei em nada dele. Está lá tudo.
Uma boa noticia, pensei. Eu conhecia-o era metódico, arrumado e cauteloso. Se tudo isto se confirmasse talvez obtivesse respostas.

segunda-feira, abril 09, 2007





















E se bastasse abrir os
Olhos ao mundo,
Como se fossem janelas.
Descobrir-te aí, suspensa
No tempo que foi.
Para te resgatar do meu
Medo,
Das coisas vivas, selvagens
E belas.

Manuel F.C. Almeida


foto SorrisoAlegre

Acordei cedo. O cheiro a torradas e a café caseiro despertaram-me o apetite. Estava cansado. Muito cansado mesmo. Começava a ficar preocupado. O cansaço ao acordar poderia querer dizer algo.
- Então? Toca a levantar. Vá, temos o pequeno-almoço na cozinha à espera. – Disse ela. Estava maravilhosa.
- Deixa-me tomar um duche. – Disse-lhe.
- Enquanto te preparas eu vou fazer-te uma torrada. Se necessitares de roupa diz. – Respondeu.
- Na verdade não gosto de usar roupa interior dois dias seguidos – respondi.
De imediato abriu uma gaveta e surgiu com roupa interior de homem nova.
- Eram para o António. Usa, devem servir-te – disse
Tomei duche vesti-me e quando cheguei á cozinha beijei-a a agradecer tudo.
- Meu querido, não precisavas de fazer isso. Surpreendeste-me, sabes? Julgo que não te conheço. Está diferente, ontem foste um Homem. Raramente alguém se expõe como tu o fizeste. Sei agora que a nossa amizade é muito mais sólida que uma noite. Mas que me apetecia não duvides. – Disse enquanto me fazia uma torrada.
- Também me apetecia, sabes? Mas existe em mim um conflito que não consigo resolver. É como uma maldição. Seria magnífico no momento mas seria um inferno durante muito tempo. E nunca seria genuíno. Poderia perder-te como amiga e não quero isso.

domingo, abril 08, 2007




Vive o amante amargurado
Por não saber que pensar.
Se é querido, se é desejado
Em qual é o seu lugar

E nesse eterno sofrer
Que só a si é devido
Vai todos os dias morrer
Numa morte sem sentido

Manuel F. C. Almeida


- Se desejares podes dormir no meu quarto. O Joaquim gostava de dormir só. Tenho duas camas. Uma é tua. – disse. O cansaço, o vinho, as emoções e as violentes contradições ditaram o resto. Com um pijama emprestado deitei-me no seu quarto. Ao pé dela estava sempre bem. É tão difícil fazer amigos verdadeiros e tão fácil perde-los. Basta um momento mal interpretado.
Sabes, costumo ranger os dentes – disse-lhe meio a brincar
- Tu nem dentes já tens meu querido – retorquiu sempre a rir – nem sei como te derreteste pela nossa anfitriã – terminou. Notei na voz o desejo de me provocar. Ela seria sempre assim.
- Que aconteceu ao Joaquim? – Perguntei.
- Acabou, foi-se, é assim desde sempre, não sei porquê. Não me perguntes, mas acabo sempre por me entediar. Depois ele queria ter filhos. E eu não me vejo no papel de mãe – Terminou.
Eu já a ouvia bem longe, mergulhado novamente em mim. Já tinha esquecido o Rodrigo. Já tinha esquecido a Fátima. Em mim só viviam a Elouise e a Isabel e um fantasma. E até elas estavam num limbo. Finalmente o cansaço venceu-me e adormeci.

sábado, abril 07, 2007



O recorte
Do teu corpo
Transpira
De imaginação.
E ele retoma as
Rédeas
Da vida.
planta tulipas
No coração.

Manuel F. C .Almeida

Ela notou e antes que eu me visse numa situação embaraçosa disse:
- Dorme aqui comigo. Ficarás menos só. – Era extraordinário. Só uma grande mulher poderia dar-me tanto. Beijei-a demoradamente, apenas porque me apeteceu faze-lo. Eram doces o seus lábios.
- Obrigado – retorqui ao mesmo tempo que deitava a cabeça sobre o seu colo e me deixava embalar pelo som de ligth my fire. Ela desligou a luz. E ali ficámos num momento de ternura como há muito não tinha. Quando a musica mudou e os primeiros acordes de the end se fizeram ouvir, fui transportado novamente para o meu mundo, só que agora este era matizado com o suave toque da sua mão no meu cabelo. Acabámos a garrafa de vinho. A música foi-se, e o cansaço tomou conta de mim. Sempre solicita a Isabel sugeriu que nos fossemos deitar.

sexta-feira, abril 06, 2007
















O meu canto é a tristeza
Do tempo que um dia passou
Mesmo se canto a beleza
Canto o que nunca voltou

Canto os dias que pintámos
Com cores feitas de vida.
Canto tudo o que passámos,
Na confiança perdida…

canto o horizonte perdido
na bruma que se levantou.
canto os meses sem sentido
e um sentido... que ficou.

Manuel F.C. Almeida





E quantas se me ofereceriam como ela o fazia? Assim. Sem limites. Sem exigências. Seria isto que eu desejava? Calei o cérebro, e olhei para ela. Estava linda, mantinha uma pele macia, Uns seios pequenos e redondos e firmes. Mergulhei na sua oferta e esqueci o tempo, o espaço e tudo o mais.
Mas algo não estava bem dentro de mim. Eu estava ali e não estava. Era como se quisesse fugir daquele meu eu. Claro que ela acabou por me sentir ausente. As mulheres sabem sempre quando um homem se lhes entrega. Os homens são mais distraídos, concentrados no seu ego, na sua virilidade nem reparam que muitas vezes são apenas um instrumento, vivem na ilusão de que dominam. Perdem toda a vida sem aprender a olhar. Cegos de si mesmos.

quinta-feira, abril 05, 2007
















Numa vaga de emoções
Fui tomado pela tempestade.
E da tormenta que me tomou
Reencontrei-me no prazer
De ser eu.
Assim regressámos ao nosso
Sonho de mil e um locais.
E com o olhar
Suavemente deslizámos
Sobre o outro;
Como se um olhar
Acalmasse as vagas,
Cavalgasse a tempestade,
E fizesse da tormenta
Um espelho mágico.

Manuel F. C. Almeida





Quando me dei conta a Isabel tinha colocado mais bebida no meu copo. Sentada em cima de mim com pernas a abraçarem o meu corpo, convidou-me a beber tudo de um trago. Assim fiz e quase de imediato senti todo o seu corpo colado a mim. Senti o calor dos seus lábios e foi sem limites que a beijei. Um beijo de desejo, um beijo onde seguia parte de mim. Recordava pormenores sobre ela. Mas eram insignificantes para o momento. Nada deve ser planificado. Acontece ou não. Com ela nunca tinha tido receio de nada. Podia ser eu. Com as minhas fantasias e as minhas inseguranças. Desta vez ela tinha começado o jogo. Isso agradou-me, resolvi deixar que fosse ela a conduzir-me. Em boa hora o fiz. Cheirei bem o seu corpo. Beijei-lhe os olhos, afinal ainda a amaria? Mas era estranho, quantas mulheres viviam no silêncio de mim?

quarta-feira, abril 04, 2007


E nos loucos dias
Místicos,
Abri uma cornucópia
De sentimentos;
E dela saíram todas
As células do meu querer-te
Numa explosão solar
Que me fez brilhar
No teu céu.
Agora, numa galáxia
De desejo,
Estou placidamente
Na procura do que se
Perdeu;
Nos loucos dias
Místicos
em que tudo
aconteceu.
Manuel F. C. Almeida








Tentei seguir o conselho dela, mas quando me sentei já o meu espírito deambulava pelo meu universo. Ali estava eu, junto a uma mulher maravilhosa, sedutora, adulta, que me desejava e que o dizia sem meias palavras. Ela sempre fora assim. Quando queria algo, alguém ou alguma coisa, simplesmente dizia. O vinho branco estava deliciosamente fresco. Ela tinha colocado um disco dos Doors. “ People are strange”, a memória trouxe de volta o meu passado. Como me sentia estranho dentro desta pele. Seria eu que estava ali? Ou um clone de mim? Nem eu sabia. Sem que o desejasse a imagem da Fernanda ocupou o espaço em mim. Costumávamos ouvir aquela música. Ia-mos acampar para a costa alentejana e passear pelo último refúgio da Europa. Era um prazer só nosso. Mas até esse prazer ia ficar interditado aos, que como nós, tanto o apreciavam. O tal poder local, supostamente democrático, preparava-se para invadir aquele maravilhoso local com resorts de golfe e milhares de camas turísticas. Tudo com a complacência e o silêncio dos governos eleitos. Que triste País, que triste povo. O meu espírito teimava em voar pelo passado.

terça-feira, abril 03, 2007






















Foi um sorriso a medo
Que me deste.
Eu olhei e só desejei
Fechar-to
Com um beijo
Que recordasse o passado.
Um beijo vivo de memórias.



Manuel F. C. Almeida


O jipe parou junto de uma casa semelhante à que me estava destinada. Sempre ágil saiu do carro. Segui-a como um menino. Quando entramos em casa nem tive tempo pra ver as paredes. Enlaçamo-nos de imediato num beijo que levava parte de nós. Senti que o mundo desaparecia e que estava no paraíso. Quem precisa de uma, dez ou dez mil virgens no paraíso? Nós precisamos é de criar paraísos na terra. Paraísos feitos com pessoas. Pode ser um paraíso de amor platónico, de amor consequente ou de pura amizade, seja como for com ela tinha tudo. Era o conceito de três em um. E falava a mesma linguagem que eu. Sem pudores ou moralismos. Se queria uma coisa dizia-o se não queria, fazia sentir isso.
- Estás certa de tudo? – Perguntei – não te prometo mais que umas noites, sabes que não estou preparado para relações muito profundas. Tornam-se monótonas e acabam por nos entediar. Depois sempre acontecem as rotinas e o que é belo fica banal e por vezes pesado – terminei.
Olhou para mim. Sorriu. Estendeu-me o copo convidou-me a beber
- Manuel não penses. Vive agora. Se o faço é porque quero. Tu não me obrigas a nada e sei perfeitamente quais as regras do teu jogo. Não temas gosto de tanto de ti que nunca te pediria o que não me podes dar. – Disse de forma pausada e sempre decidida. – Mas o que puderes dar eu vou aproveitar - terminou com uma sonora gargalhada. Acto contínuo senti-me ser empurrado para um magnífico sofá.

segunda-feira, abril 02, 2007






Nunca se secam as palavras
Nos rios de peito do poeta
É nesse rio que tu lavras
A palavra simples e certa

De nada vale já não querer
Todas a letras no papel
O poeta tem que escrever
Trabalha a palavra a cinzel

É pois temível a maldição
De quem na palavra se encanta.
Bate forte o coração
Quando um poeta se canta.

Manuel F. C. Almeida


- Onde vamos? – Perguntei.
- Pra minha casa, sempre esta mais arrumada e tenho um bom vinho branco no frigorifico à nossa espera. Sempre tinha gostado de vinho branco e ela sabia. Olhei-a de perfil. A fraca luminosidade dava-lhe um ar ainda mais sensual. Era estranho. Chegado aos 40 e tal anos continuava sem conhecer as mulheres. Que desejaria ela de mim? Fomos amantes, agora só amigos e daqui a algum tempo novamente amantes? Eu desejava-a, não tinha dúvidas, mas porquê? Seria só necessidade hormonal? Ou algum resto da loucura vivida por ambos? Não sabia. Nem queria saber. Todas as pessoas que me povoaram o espírito ficaram ausentes. Só ela existia.
- Que te deu? – Perguntou.
- Não sei, foi selvagem, instintivo – respondi
- Bem podias ter levado uma galheta. – disse a rir.
- Duvido! quando te sentaste, foi como um regresso ao passado. Eu senti isso e tu também. - Respondi. Ela olhou-me e o seu sorriso era o mesmo que tinha quando nos despedimos

domingo, abril 01, 2007















Sim!
Sei que me vês como um louco
Um louco apaixonado.
Um dom Quixote qualquer
Sem rocinante nem
Sancho pança.
Um amante ridículo...
Pateticamente ridículo.

Sim!
Sei que sou tudo isso
Mas que me importa
Se te amo?

E ridículos são todos
Os que não sabem amar.

Manuel F. C. Almeida

Com um o passo certo e altivo. Fiquei a olhar com um misto de admiração, curiosidade e algo mais indefinido. A chegada a esta terra tinha-me feito algo diferente. Até todo o carinho e luxúria vividos com a Isabel estavam agora a assaltar-me os sentidos. E quedei-me a olhar para ela. Estava agora na casa dos 38 ou 39 anos era mais nova que eu alguns anos. Tinha a idade certa, por outras palavras estava bonita, linda, deslumbrante. Pedi um café, a Isabel apercebeu-se que eu tinha ficado só e resolveu aproximar-se.
- Então conheceste a elouise no que de melhor tem de si mesma. Gosto muito dela. É frontal, não liga a ninharias nem perde tempo com banalidades – dizia ao mesmo tempo que se sentava bem junto a mim. O calor do corpo dela agradava-me, o cheiro também. Não era dada a perfumes, o cheiro que tinha era mesmo o dela. Não sei como reagiam os outros homens. Sei como reagi. Aproximei-me dela e, como se fora dizer-lhe um segredo, beijei-a levemente na orelha. Não fez menção de se afastar, bem pelo contrário, fez questão em me pegar na mão. Olhámos um para o outro. Já éramos crescidos e ambos sabíamos ler no olhar o que se quer. Levantei-me, pagámos, despedi-me de todos e partimos.

sábado, março 31, 2007


- Pois não. Também não é a primeira vez que me agridem. Quando assim é, respondo sempre. – E os seus olhos ganharam vida e cor. A voz elevou-se um pouco. A face iluminou-se. Gostava de agitar, gostava de marcar a diferença, aliás nem sei se teria consciência disso. Era de outra cultura que não a nossa. Nós somos mais pacíficos. Em bom português somos um povo sereno. Por isso somos tratados como esterco, pelo poder, tenha ele a cor que tiver, se é que em Portugal, tirando a direita e a esquerda, alguém tem consciência de alguma coisa. O centro do espectro político alberga toda a cáfila de oportunista, vazios de ideias e cheios de sonhos de poder. Não mentiria se disse-se que na população portuguesa, em 80% dos casos, existe um potencial ditador e um potencial escravo. Acho que é genético.
Mas ela não era deste mundo. Isso estava já um pouco claro.
- Bom então passe uma boa noite. Foi um prazer conhece-lo espero que conversemos mais vezes. Eu venho algumas vezes aqui. Poucas porque não aprecio a companhia das pessoas. Já viu porquê. Não viu?
- Entendo, também não sou dado a sociabilizações mas terei todo o prazer em conversar consigo. - Então boa noite Manuel até um dia destes. – E saiu sem olhar para mais ninguém

Cada minuto dos
Teus olhos,
Sabe a frutos
Do paraíso.
Cada segundo no
Teu corpo,
Cala o desejo
Em que vivo.
Mas esta falta
Que sinto
De me sentir
Em ti,
Mata esta tela
Que pinto.

Manuel F.C. Almeida











O rapaz, consciente de que tinha agido mal, mas despeitado e ferido no seu ego de macho, só um tempo depois esboçou reacção, acho que mais para se justificar do que outra coisa, mas já era tarde. Trataram de o acalmar e ouvi várias pessoas a dizer:
- É bem feito luís, já sabes como ela é. Porque te foste meter onde não eras chamado? – No entanto julgo que estaria apaixonado, é o tipo de frase e de entoação que os amantes usam quando se sentem rejeitados. A rapariga preparava-se para sair:
- Será que os homens em Portugal primam pela idiotice? - Perguntou-me - Enquanto colocava as coisas na mala.
- Não sei fazer esse tipo de juízos mas nem sempre podemos julgar os outros de forma tão severa. Reconheço que a entrada dele foi rude e desagradável. E pelo que ouço não será a 1ª vez que algo semelhante lhe sucede. – Respondi.
Olhou bem para mim, era na verdade radiosa.

sexta-feira, março 30, 2007











Tu foste em mim a luz do sol
Foste toda a beleza do mar
Por ti fui ao fim do mundo
Soletrei o verbo amar.

Tu foste em mim rosa florida
O rio de sal do meu olhar
Foste minha verdade polida
Meu ser, meu sentir, meu pensar.

Tu foste em mim mais do eu
Foste toda a vida a brilhar
Foste a faca que me deu
Um corte no meu sonhar.

Manuel F.C. Almeida








- Dr. então já conhece a beldade mais selvagem da terra? – Perguntou um jovem estagiário que deixava adivinhar encanto e ressentimento na voz.
- Desculpe? – Disse-lhe. Antes que dissesse algo mais ela esbofeteou-o com toda a naturalidade. Levantei-me de imediato de forma a por cobro ao que previa que sucedesse a seguir. Mas a atitude dela nem tinha permitido reacção alguma. À agressão de que tinha sido vitima, respondeu com a mesma violência. Mais uma vez denotava um enorme grau de consciência e também toda a imaturidade de quem age de forma voluntária. Ele há coisas que nunca devem ser perdidas. A dignidade e a capacidade de ignorar personagens que nos incomodam eram de há anos a esta parte tudo o que tentava preservar. Vi de imediato que os valores dela eram diferentes dos meus.

quinta-feira, março 29, 2007


















Quando timidamente
Me ressurgiste vinda do nada
Tremi por não saber o que dizer.

Afinal tudo foi fácil.
Recomeçámos no desejo
Incontido de um beijo.

E deixamos o silêncio
Correr a imensidão de um olhar
E espraiar-se na nossa alma.

E do silêncio se fez musica.
E a mais bela canção que escrevi
Fez-se vida em teus lábios.

Manuel F. C. Almeida









E os cidadãos concordam com tudo. Vivem no medo como, ela dizia. O estado está ao serviço dos poderosos e serve apenas os seus interesses. Era uma vergonha, mas revoluções por decreto dão nisto invariavelmente.
Ela tinha continuado a falar sem se dar conta de que me tinha ausentado.
- Depois sabe estou cansada das mentalidades. Cresci na Bélgica, num meio em que se preservam valores culturais, comportamentais e éticos que nada têm com Portugal. –
Disse a terminar.
- Desculpe não ouvi tudo – disse eu. - Estava mais uma vez com os meus botões, é um defeito meu. – Terminei.- Não se desculpe por pensar. Se algo de errado fizesse era não o fazer – respondeu-me a sorrir. Era bom ver alguém a sorrir genuinamente, sem constrangimentos

quarta-feira, março 28, 2007


Se tu soubesses como
É bonito amar
Tecias com as mãos
Um quadro de sol
E com a boca desenhavas
Todo o meu corpo.

Manuel F. C. Almeida

- Mas que tem o Manuel a fazer neste fim de mundo? – Perguntou.
- Trabalho de coordenação arqueológica, e você que faz aqui? – Respondi.
- Não sei, vegeto – respondeu.
- Mesmo profissionalmente?
- Sim em Portugal e especialmente neste local qualquer pessoa com ideias é segregada, vive-se no medo com medo e para o medo. É horrível – terminou
Reconhecia nas suas palavras a realidade cruel. Vivia-mos num estado de medo. o poder tinha, de alguma forma, feito regressar as pessoas ao medo do dia 24 de Abril de 74. esse medo sentia-se em tudo. Ninguém ousava levantar a voz contra um estado cada vez mais totalitário. Um totalitarismo neoliberal onde todos éramos sacrificados. Jovens, velhos crianças. O ensino era e é em Portugal mais que medíocre, a sistema de saúde, desmantelado e implodido pelos sucessivos governos, estava um caos, o desemprego alastrava em todas as classes sociais. Diria que éramos e somos um povo triste, sem esperança, governado por terroristas, aliás este é o tempo do terror. De um lado os governos, do outro grupelhos, alimentados não se sabe por quem e nem porquê, praticam actos que apenas têm como consequência a perca de liberdades dos cidadãos.

Límpidas as horas em que recordei
O teu cheiro.
Doces como as pétalas do teu
Corpo,
Embriagantes como o néctar colhido
Em teu vaso.
E foram prenhes de tempo e de sonhos
suspensos.
E como eu gosto
De pintar o céu pela madrugada.
Com a cor do sol
Estilhaçado.
Livre, solto, eternamente
Apaixonado, pelo
passado
Manuel F. C. Almeida

terça-feira, março 27, 2007


Que se calem os silêncios agora.
Deixemos os olhos alimentar a alma,
E as aves povoarem o pensamento.
Brindemos ao que somos, ao que fomos.
Façamos poemas ao mundo e aos amigos.
Saibamos abraçar as almas que passam
E descobrir vielas em cada olhar.
Sejamos certos e sempre honestos
Quando no espelho nos encontrarmos.
Sós.
Não usemos a mascara do medo e do tédio
Saibamos tocar o sol e as estrelas
Pelo simples prazer de os tocar.
Não sujemos com o nosso egoísmo
O mundo dos outros a quem queremos bem
Façamos de cada momento da vida
Um momento de orgulho e comunhão
Saibamos ser gente, saibamos ser homens, saibamos ser
Nós.
Manuel F.C. Almeida

- Incomodei-o? – Perguntou. – Não claro que não, por vezes fico preso nas minhas armadilhas mentais e remeto-me ao silêncio, peço desculpa – disse eu.
- Não tem de quê – disse frontalmente. Gostei da atitude dela, era decidida. Movido pela mórbida curiosidade humana não resisti e perguntei-lhe: - como se chama?
Olhou-me nos olhos e disse:
- Elouise, e não fique pasmado, não nasci em Portugal. Nasci na Bélgica. Estou farta que fiquem de olhos e boca aberta quando digo o meu nome – não consegui evitar um sorriso. – E você como se chama? – Perguntou.
- Manuel, nascido em Portugal, mas não nacionalista - respondi a sorrir.
- Então já conheces a Elouise? – Perguntou a Isabel que entretanto se aproximara. – Olá Elouise, tudo bem? – disse dirigundo-se à minha companhia ocasional.
- Sim tudo, acabo de conhecer o Manuel – disse
- Contava apresentar-to mas parece que o acaso fez esse trabalho por mim. É um grande amigo que vem passar uns dias connosco- repondeu a Isabel, enquanto me piscava o olho.

segunda-feira, março 26, 2007


A palavra rasa
Tudo o que se diz.
Na orla do mar
D’uma alvorada
Feliz.
Manuel F.C. Almeida

Era directa, não tinha medo de falar. Sentou-se perto depois de cumprimentar os presentes. Não parecia muito sociável, cigarro na mão, procurava um isqueiro na mala. Adiantei-me e ofereci o meu isqueiro. Olhou-me de frente e com uma voz agradável e límpida agradeceu.
- Obrigado – disse. – Não o conheço, está de passagem?
- Sim – respondi – ando sempre de passagem – atirei para o ar. Ela sorriu de forma estranha.
- Que faz? – Perguntou.
- Pertenço ao departamento de história da faculdade e colaboro com o ministério. E você?
- Eu? Não faço nada. Estou desempregada. Tenho um curso superior mas de nada vale em Portugal. Estou a pensar seriamente em partir.
Era e é o drama dos jovens em Portugal. O desemprego. Terminam os estudos e seja qual for o grau académico o desemprego é a colocação certa. Por isso nos tínhamos tornado num povo triste. Sem esperança. Vitimas da mediocridade dos políticos e da pouca preparação do nosso povo. O golpe de estado tinha-lhes trazido a liberdade por decreto. Infelizmente a liberdade é um valor que tem de ser cultivado culturalmente. Este Portugal onde estava era ainda salazarista, nas mentalidades e nos actos, muitas vezes pensava se a democracia não seria uma armadilha dos poderosos. A meu ver só servia mesmo o interesse dos mesmos. Retirava legitimidade a quem lutasse pela liberdade e controlados os centros de decisão e a comunicação social, liberdade era apenas uma palavra mais. Com papas e bolos se enganam os tolos.

domingo, março 25, 2007


No silencio
Que te esconde
Há o desespero
De te não achar
De te não ver.
De não te amar
De te não ter.
No silencio
Que te esconde
Sinto que me estou
A perder…
Pra me vencer.
Manuel F.C. Almeida

- Chegámos – disse ela. Saltei do jipe, estava cansado mas gostava da companhia dela. Era alguém que me entendia tão bem, e sentia um carinho algo especial por ela.Entrámos no bar, bem decorado. Cor predominante o preto. Bom gosto, pensei. Um grupo de jovens estagiários aproximou-se. Eram conhecidos da Isabel que fez gala em me apresentar a todos. Mas não estava mesmo nada sociável, assim remeti-me a um silêncio que revelava cansaço e pouca paciência. Pedi uma água tónica, vi alguns dos jovens sorrir. Também já tinha feito como eles. Estava sentado a olhar a forma como rodeavam a Isabel quando ouvi aquela música linda que sempre tinha ouvido, Avec le Temps. Leo Férre no seu melhor. O cansaço deu lugar à nostalgia e fui invadido por uma tristeza enorme. Sentia a Fernanda perto de mim. Na minha tristeza não me dei conta da entrada de uma jovem. Só quando me pediu desculpa ao passar me apercebi. Vestia como eu, tinha um cabelo preto e avolumado, olhos azuis como nunca tinha visto, ou parecia-me nunca ter visto, fisicamente agradável, a voz permitia descobrir uma pessoa decidida.

sábado, março 24, 2007


Diz-me, onde deixámos
Pintar as almas de negro
Onde foi?
Naquela tarde em que nos demos
De mãos dadas.
E já mortos de nós,
Virámos o caminho.
E de um fizemos dois
Trilhos?

Manuel F.C. Almeida

Terra estranha, pensei. Terra de segredos também. Mas isso não me interessava, a minha missão era saber o que se passara com o rapaz. Mas as notícias colhidas através da Isabel eram cada vez mais intrigantes. Tudo se parecia confirmar, imaginei o Rodrigo com a mulher em causa. Seria uma coisa interessante, ela seria era mais jovem à data dos factos. A ser verdade afinal ele tinha-se reservado para ela. Conhecia-o bem. Só se interessaria por alguém inteligente. Embora jovem desvalorizava as relações unicamente físicas. Dizia que o amor era como uma obra de arte. Tem de se construir a partir de coisas reais e todos os dias colocar algo de novo na tela. Inteligência, amizade, humor e prazer tinham de estar presentes em simultâneo. Recordo-me de ser tema entre nós e de ficar admirado, dada a sua juventude, pela profundeza do seu pensar.

sexta-feira, março 23, 2007




















Quando os silêncios alagam
A nossa alma empobrecida
Vivem-se tempos de loucos
Em que a vida é esquecida.

Ficamos então condenados
Somos escravos do nada
Temos os olhos fechados
É vazia a nossa estrada.

Plantamos dentro de nós
Um canteiro de vontade
Fazemos dos bons encontros
Hinos feitos de amizade.

E assim escolhemos viver
Escondidos do que somos
Temos medo do perder
E medo daquilo que fomos.

E fazemos do caminho
Um lago de aguas paradas
E tratamos com carinho
Imagens nele espelhadas.

Um carinho de pureza
Um carinho de amizade
Que uma mentira repetida
Nunca chega a ser verdade.


Manuel F.C. Almeida