terça-feira, fevereiro 27, 2007




















ELEGIA.

Não é afeição, é algo mais
Não há palavras pró descobrir
Talvez deslumbre ou amizade
Talvez outro valor, outro sentir

Talvez memória, já saudade
Das belezas que me encantaram.
Talvez tempo, eternidade
De duas almas que se tocaram.

Talvez seja tudo e seja nada
Talvez só viver em cada passo
Talvez ver que nesta estrada
Nada acontece por acaso.


Manuel F. C. Almeida


Suspirei ao antever o tédio que me esperava com gente a dobrar-se para um lado e para o outro, não era meu uso sociabilizar-me com muita gente, mas lá teria de ir.
Arrumei as malas a um canto do quarto, e deitei-me a descansar. A viajem e o calor estavam a fazer mossa em mim. Embora me sentisse bem, os efeitos de uma intervenção cirúrgica efectuada anos atrás faziam sentir-se. Rapidamente adormeci.
O som do telemóvel acordou-me. Era a Isabel a perguntar se estava pronto. Disse-lhe que não, que ia tomar um duche mas que em 10 minutos estaria pronto. Era estranho estar de novo perto dela. O estar só e a fragilidade emocional começavam a fazer-se sentir. E depois era a sua pessoa, a sua beleza, e a armadilha das memórias. Estava ciente de tudo isto, mas ainda assim começava a sentir-me tentado.

segunda-feira, fevereiro 26, 2007





















Tenho um aperto no peito
O coração a sangrar
E as guitarras no meu leito
Não me deixam já cantar.

Digo adeus a um amigo
Que parte, se vai embora
Mas deixa pra sempre comigo
O partilhar de uma hora.

Vai meu lindo rouxinol
Encantar outras paragens
Tens no teu olhar o sol
No teu canto, mil paisagens.

Fica em mim o teu cantar
Guardo-o numa caixinha
Para um dia o recordar
Dizer à caixa: - é minha

Manuel F.C. Almeida



- A limpeza é feita de dois em dois dias, e o melhor é que tratam de tudo, desde a louça à roupa. Não tens de te preocupar com mais nada.
- Desculpa – disse eu – mas onde posso conseguir uma secretária e um computador?
- Já temos tudo isso. Tens um portátil á tua espera, o departamento enviou-o ontem com o teu nome – disse ela.
Fiquei mais descansado, na verdade já não sabia viver sem computador. Hábitos que adquirem.
-Logo á noite tens de me contar algo mais sobre aquela história dos segredos da terra. – Disse eu.
Ela sorriu, os seus olhos brilharam – tens muito tempo para isso,.... ou é grande a pressa?
Respondeu. Senti na sua voz um misto de despeito e de diversão.
- Bom, agora vou. Dorme um pouco, logo á noite temos um jantar a convite da câmara. E não vale a pena tentares desculpas! Aqui tens de os gramar, nem que seja por uma noite. - Finalizou.

(continua)




















Hoje vi cair uma estrela, Corri para lhe tocar com a mão
E quando lhe toquei entendi, Que as estrelas quando se tocam
Enchem-nos
O coração de
De partilha.
E revivi a sensação de
Tocar a liberdade com os dedos, Olhar os seus cabelos
E dizer – obrigado. E na quietude do silencio ver a sua
Ascensão
Como dádiva
Do acontecer,
Tendo a felicidade
De um dia
Ser recordado
Na memória
De uma estrela
Linda
Como o mundo.

Manuel F. C. Almeida

domingo, fevereiro 25, 2007


O carro parou finalmente, diante de mim uma casa pequena pintada de branco com barras amarelas e com portas e janelas de madeira. A Isabel saiu do jipe com uma agilidade surpreendente. Segui-a com a mala na mão. Ela tinha a chave da casa. Entrámos. Senti o contraste do calor da rua com o fresco da casa. Belo, ao menos não ia necessitar de ar condicionado. Há anos que tinha alergias devido a isso. Olhei em redor. A decoração era frugal, a suficiente para mim. Tinha até uma televisão o tal aparelho que, segundo Leo Ferre, não passa de um polícia que temos em casa.
- Aqui vai ser o teu ninho enquanto estiveres connosco. Descansa, logo venho buscar-te para te apresentar o resto da equipa. - Disse ela.E fez questão em me mostrar todas as divisões da casa. Uma pequena casa de banho, uma cozinha com sala comum um quarto amplo e muito fresco

sábado, fevereiro 24, 2007





A POESIA. SEMPRE ELA A LIBERTAR-ME







Nas mil folhas
De cetim que guardas
No peito
Existe um rio
Feito de amor
E de olhares que
As águas esquecem.
Em ti me dilui e me
Desfiz.
Em ti sou apenas
Gota de orvalho
De uma madrugada
Esquecida.


Manuel F.C. Almeida

- Não te pergunto como nem onde foi – disse. – Basta de palavras que nos façam chorar. Vem vou levar-te à tua nova morada, tenho ali o jipe- disse, mas o seu semblante nao deixava margem para dúvidas. estava profundamente magoada, mas a Isabel era assim mesmo.
Seguimos a rua principal da terra. Casas brancas, de um branco imaculado, ladeavam a rua. Poucas pessoas davam àquele lugar um ar fantasmagórico. O calor fazia sentir-se de uma forma assustadora. De repente vi novamente a minha companheira de viajem. Estava a sair de uma casa imponente. Uma casa que deixava descobrir a sua origem social. Delicadamente acenei-lhe com a cabeça ao que ela retorquiu com um gesto breve e curto.
- Já fizeste amizades? – Perguntou a ela a sorrir – tem cuidado podes vir a dar-te mal – concluiu.
-porquê? – Perguntei
- Logo te digo, mas tem cuidado, esta terra tem segredos que não convém descobrir.
Aquela parte do diálogo fez disparar a minha curiosidade. Que segredos poderiam estar por detrás daquela mulher?
(continua)

sexta-feira, fevereiro 23, 2007

PORQUE A POESIA É UMA ADICÇÃO.


Há palavras que nos roubam horizontes
E nos precipitam da voragem dos sentidos
Agora só, ante mim mesmo tenho
Uma vida colada á pele
À mesma pele onde nos dias
De primavera
Tu passavas o teu olhar de mulher
Apaixonada.
e saciavas a tua sede de amar.
Agora, neste Inverno que é o meu
Sarcófago
Tenho de encerrar o que poderia ser.
E sinto-me como um grão de areia
Face ao Oceano
Um dia nada restará dele.
Um dia nada restará de mim.
A erosão dos sentimentos também
Mata.

Manuel F.C. Almeida

-tens um lenço? Sou um incorrigível chorão – disse.
- Aqui está – retorquiu – sim ainda me recordo bem, foste dos poucos homens que vi chorar num filme – e sorriu como que a convidar-me a fazer o mesmo.
Sequei as lágrimas, esperei que a sensação perturbadora se fosse. E voltei a olha-la de frente. A mesma face bonita, os mesmos olhos cheios de vida, o cabelo mais curto mas sempre cuidado, o corpo pequeno e franzino faziam dela uma boneca de porcelana. Recordei os dias em que a seu lado percorria, alegremente, as areias da ilha de Tavira, ou a loucura que tinha sido o nosso namoro nas ruas do Barreiro. Tinha-mos vivido tanta coisa juntos. Quando nos pareceu que tudo tinha acabado, despedimo-nos com um longo beijo, selando uma amizade que o tempo nunca iria apagar. Continuava linda. Sempre fora uma mulher bonita e jovial mas agora estava mais velha e parecia mais bela ainda.

quinta-feira, fevereiro 22, 2007


HOJE NAO ESCREVO NADA MAIS, FAZ ANOS QUE PERDI UM AMIGO QUE NOS DIZIA:
"AMIGO MAIOR QUE O PENSAMENTO
POR ESSA ESTRADA AMIGO VEM
NAO PERCAS TEMPO QUE O VENTO
É MEU AMIGO TAMBÉM"
Hoje estão de luto todos aqueles que um dia acreditaram no sonho que o Zeca cantava. O mundo livre é cada vez mais uma utopia. Mas saibamos sonhar e ela nunca morrerá.
Manuel F.C. Almeida

quarta-feira, fevereiro 21, 2007

sexta-feira, fevereiro 16, 2007




-como está a Fernanda – perguntou
Obviamente não sabia, respirei fundo. Ela adivinhou que algo não estaria bem.
- que foi? Estás bem?
- a Fernanda morreu num acidente de viação a camiho de Tavira- retorqui.
Ficou a olhar para mim sem querer acreditar no que ouvia. Tinha sido ela a apresentar-me a minha companheira. Tinham sido colegas na faculdade e tinham sido cúmplices em muitos momentos da vida. As lágrimas correram nas nossas faces e foi naturalmente que nos abraçámos um ao outro. Senti-me confortado, amparado. O último ano tinha sido difícil para mim. A morte dos meus pais e a morte da mulher que amava precipitaram a minha vida num inferno do qual começava timidamente a sair.

- Bem-vindo Dtº, foi boa a viajem?
Quem se me dirigiu assim foi a funcionária do departamento de historia natural sediado naquele lugar.
A voz era conhecida. Senti o coração a acelerar. Não podia ser. Rodei sobre mim mesmo e encarei-a de frente. Era ela sim. Um pouco mais velha, mas a cara de menina mantinha-se a mesma. Tive dificuldade em responder. Ela apercebeu-se:
- Então já não falas a uma velha amiga –
Acto contínuo piscou-me o olho. Quase que me apanhava desprevenido. Tive vontade de a beijar como anos antes fizera. Recuperei o sangue frio. E finalmente retorqui:
-Olá Isabel, sempre linda e bem disposta.
O sorriso franco e aberto com que sempre me presenteara abriu-se ainda mais. Recordei a forma bonita como tinha terminado a nossa relação. O mesmo sorriso. Beijámo-nos na face como dois desconhecidos. O aproximar do seu cheiro e as minhas memórias fizeram sentir-se em mim. Aspirei bem o seu odor. Sempre me tinha deixado louco e ainda assim era.
(continua)

Conto


A mulher olhou-me com espanto. Tinha-lhe dito que não acreditava em deuses nem na vida depois da morte. Logo não acreditava na justiça de Deus. O seu olhar reflectia um misto de condenação, revolta e curiosidade. Afinal quem era eu? Um perfeito desconhecido, vestido de forma diferente e que trazia com ele hábitos e costumes estranhos.
Não retorquiu, tal a convicção que viu nas minhas palavras. O som dos travões do comboio interrompeu aquele momento de algum embaraço para ambos. Havia chegado ao meu destino. Também ela se apressou a sair. Infelizmente calculou mal a altura do degrau e caso eu não a tivesse amparado teria caído. Olhou-me com agradecimento e um leve rubor na face denunciou o quanto se encontrava embaraçada. Devolvi o olhar com um sorriso franco e aberto. Olhei agora de forma demorada a sua face. Era branca, coisa que a escuridão da carruagem não tinha deixado ver. Extremamente magra, a sua silhueta assemelhava-se à de uma bailarina. A iluminar a face uns olhos verdes como nunca tinha visto e um cabelo negro, de um negro poderoso. A minha estadia naquele lugar poderia tornar-se interessante.
(continua)

FOR THE ONE I LOVE

Sim, eu sei que partimos,
Tal como um barco
Se faz ao largo, fugindo das suas
Amarras. Ele quer-se
Livre.
Sim eu sei que ficamos
Presos na memória
Como umas algemas
Que colamos à pele.
E quando uma brisa se levanta
É como se o barco ganhasse
Asas e voássemos com ele.
E livres e amarrados
Voamos nessas viajem. Olhando
O passado com um sorriso
Nos lábios
E uma gota de eternidade
Na alma.

Manuel F.C. Almeida














Eu em tempo fui ave
Que suavemente depositava
O seu canto
Na espuma das vagas
E fugia da rebentação.
Saudava sempre a maresia
O luar e a neblina
Como se fossem minhas
Irmãs.
Fazia do meu voo
Livre um convite
Ás almas puras e límpidas
Como a tua.

E convidei-te a voar
E tu voaste,
Não pensei no golpe
Vento
Quando me abandonaste.
Não mais voei livre.

Manuel F. C. Almeida

domingo, fevereiro 11, 2007
















Já é tempo de acabar com esta sede
De sangue, de morte, de terror.
Já é tempo de viver sem o horror
De pensar que a vida a tudo cede

Já é tempo de acabar com a insanidade
Dos deuses, das pátrias, das bandeiras,
Dos territórios e das fronteiras
Porque o nosso mundo é a humanidade.

Já é tempo de agir sobre o que se faz
De plantar no nosso peito uma flor,
Depois, tratar sempre dela com amor
Construir com nossas mãos a nossa paz.

Manuel F.C.Almeida

Poema gentilmente lido pela minha amiga
Maria José na biblioteca onde trabalha
Num encontro temático de poesia
Diz-me, algum dia paraste a ver crianças a brincar? Ou ouviste as gotas de chuva e explodirem em mil pedaços? Ou algum dia tiveste coragem para perseguir uma borboleta? Ou sentiste falta do sol, quando a noite tomou conta da tua alma?
Não dances tão depressa, o tempo é curto e a musica não dura sempre.
Passas pelos dias depressa demais, passas como se fosses uma águia no seu voo picado. Quando perguntas “como estás?” consegues ouvir a resposta?
E quando o dia está terminado consegues deitar-te sem mentir e calar os milhões de perguntas que atravessam o teu cérebro? Sempre te disse que o tempo tudo trata, até as feridas feitas com omissões, feitas pelo olhar de pontas aguçadas como mil adagas.
Como sabes todos os pequenos golpes fazem morrer a amizade, e uma amizade só morre se nunca o foi.
Quando fugiste na procura de uma luz renovada sem ao menos dizer “olá” perdeste o melhor da festa. A tua parte ficou inacabada e com o tempo verás que a vida se tornou num presente por abrir.
Sabes a vida não deve ser uma corrida, procura senti-la enquanto podes. Ouve a musica que a natureza faz chegar a todos nós, ouve bem antes que ela acabe.

manuel almeida













Já tantos cantaram o amor
Por tantos olhares já foi visto
Com olhos de luz e de dor
Que não chamo canto a isto

Irei chamar-lhe um lamento
Por de ti ser já ausente
E recordar o momento
Em que em ti era presente

Daqueles dias luminosos
Em que me chamavas amor
Com olhos tão radiosos
Meigos, cheios de calor

Dos momentos sem palavras
Em que me olhavas com paixão
E dos mil beijos que me davas
Cheios com o teu coração

Resta-me pois recordar
Com carinho e com saudade
Os dias em que a amar
Conheci a felicidade

Manuel F. C. Almeida

quarta-feira, fevereiro 07, 2007


Há muito que me perseguiam. Dei conta disso ao virar o monte dos teus seios. Na tentativa de os despistar procurei esconder-me no teu corpo. Ainda assim o som que faziam chegava até mim. Fiquei escondido no aconchego da tua púbis, num vale de caudais incessantes e onde a vida brilhava como um estrela. Estavam cada vez mais próximos. Eles traziam cães de faro apurado e habituados e este trabalho de busca. Cães treinados para acossar pessoas como eu. Felizmente uma leve neblina levantou-se e durante algum tempo protegeu-me. Mas eu pressenti que ia ser sacrificado aos cães. Era uma questão de tempo. Ainda te perguntei se não seria melhor partir de imediato. Mas o teu olhar de mariposa acalmou-me e placidamente não quis acreditar no que era evidente. E adormeci até ao momento em que o silêncio me feriu o coração com tanta ausência. Um rio de prata saia do teu olhar e assim fiquei. Quieto, solicito, mansamente adormecido. E quase esqueci a caçada. Mas eles eram mais poderosos. Tinham notícias frescas e o charme discreto dos cães que vivem para o dono. Sim o dono. Estes cães vivem sempre em torno dos seus donos. Alimentam-se do sangue dos que o dono domina. Exercem a sua influência e com mandíbulas poderosas destroem tudo o que se lhes atravessa no caminho. Mas eu estava escondido, a neblina protegeu-me e fiquei quieto, escondido, adormeci um pouco. Mas eles já tinham entrado na tua casa, eu já era um estranho, um peso morto. Carregaste-me algum tempo, talvez por comodismo ou por agradecimento. Afinal eu sempre te tinha dado o arco-íris da sinceridade, do amor, da amizade. Tinhas percorrido comigo o mapa da tua fuga e juntos tínhamos enfrentado as tempestades mais agrestes. Mas eu não vi o teu querer estar ausente de mim. Nem a nova estrela que plantaste no olhar. Até que os cães me atacaram. Estava nu, como sempre estive para ti. E tu deixaste-os entrar, e nu fui sacrificado no altar do tempo, da omissão e da mentira. Talvez seja o que mais recordo. Aquela mentira nauseabunda que tresandava a esgoto. Uma mentira que não mais viverá perto de mim nem em mim. Escrevo isto exactamente para exorcizar o meu ser. Sarei as feridas, mas as marcas estão ainda presentes. E sei que vão sangrar, como um rio. Um rio amarelo com milhares de pequenas moléculas douradas, que se escapam de mim e vão tingindo o mundo que me rodeia. Mas como rio de caudal violento, não me deterei em lugar algum. Nasci rio na tua ausência, assim ficarei. Sem faltas porque a ausência, essa ausência de que falo, é minha na eternidade.
Manuel F. C. Almeida

Eu escrevo poemas sobre mim.
Poemas esdrúxulos, pintados
Pelos meus olhos. Talvez seja
Só para mim que escrevo poemas
Sem sentido para outros.
Se fosse um poeta
Todos entenderiam o que escrevo
Assim limito-me a escrever para mim.
Poemas, pedaços de mim
Poemas que não têm fim.

Manuel F. C. Almeida















Que cansaço. Diria que beijei
A alma de uma ninfa, e que vi
Brotar desse beijo uma pétala
Pintada de azul-marinho
Dói-me a alma, uma dor tão
Lancinante que me transformou
Num homem feito de palha.
Já não sei o que sinto ou se sinto.
Deixem-me dormir a eternidade.
Eu já não quero acordar.
Tenho um sarcófago feito de mar
Sim! Deixem-me encolher
Neste útero que é só meu
Vida, morte, já tudo aconteceu.
Para quê reviver?
Eu só quero adormecer.

Manuel F. C. Almeida

Estou a desagregar-me. Sinto-me como um relógio nas mãos de um pequeno curioso.
As peças soltam-se e já não se recuperam. Mecanismos que se perdem, que se deitam fora. Assim me sinto. Talvez me torne num anjo azul. Sim, azul, porque eu gosto de anjos azuis. Gosto da cor da sua pele, e gosto também das suas asas. Como lhes invejo as asas e a silhueta. São todos brancos os anjos, alguns também são azuis, é desses que gosto mais. Se me tornar num anjo quero ter asas azuis também. Azuis e transparentes para ninguém ver. Só eu saberei que sou um anjo. Não me interessam os outros. Serei um anjo egoísta. Sim, é isso que desejo. Ser um anjo azul e egoísta. Amar mil vezes e em todas morrer. Não vale a pena viver depois de amar. Ressuscitar quando se encontra um novo amor. É esse o segredo. Porque quando chega o amor é como uma leve brisa, incerto e incoerente. Uma pétala de sangue que nos sai do querer. Retirada da alma e desfolhada em malmequer até ao momento em que a mão que desfolha nos tira a ultima pétala e a sopra no vento, com um misto de impaciência e tédio. Fomos tudo, somos nada. Que mundo de merda. Todos somos flor e todos somos mão. Deixemos livres as pétalas que voam no vento, talvez os anjos azuis as façam reviver.
Manuel F.C. Almeida
















Tempos idos
Em que a vida sorria
Ao sol de cada dia
A terra era uma cornucópia
De flores, de frutos, de mel
Que eu sempre percorria.

Agora cavo
Funda a minha sepultura
E a minha enxada,
Revolve cada dia mais terra
Inerte.
Na busca de um tesouro
Que perdi.
Ao ver-te partir
No olhar da guerra.

Manuel F. C. Almeida

terça-feira, janeiro 30, 2007


















Humano sou, homem me fiz
Trago um sentir, de coração feito,
Sei falar e ouvir o que diz
Quem me viveu dentro do peito

Amo a poesia e a madrugada,
Amo o vento, o canto e o mar,
Amo a lua, minha namorada,
E trago em mim a brisa a cantar

Tenho um amor no meu passado
Que eu pretendi apagar
Um amor que tenho cantado
Na vã esperança de o negar.

Mas é tão nobre tudo o que sinto,
Tão dolorosa a sua ausência
Que ao mundo penso que minto
Quando nego esta evidencia

Mas amo todos os que são
Dignos da minha amizade
Toco-lhes o coração
Pra esquecer esta saudade.

E aos que costumam passar
Com suas tristezas e dor
Digo que saibam esperar
Talvez reencontrem o amor.

Mas canto e escrevo o sentir
De alguém que a vida tramou.
De alguém que não quis mentir
De alguém que se sacrificou.

Talvez não seja um amigo
Que se queira ter por perto
Trago fantasmas comigo
E o coração num aperto.




(a partir de um tema de Vinicius de Morais)
Manuel F.C. Almeida



Tinhas no olhar uma chama imensa
Nas palavras, um medo que entendo
Afinal fui só mais um remendo?
Ou o sentir de uma ideia intensa?

Nas tuas palavras habitam cautelas
Provocadas por esse teu medo
Mas deixa que te diga um segredo
Também eu penso muito nelas

Porque já chega de sentir tristeza
Onde deveria sentir felicidade.
Amar-te na eternidade
É fazer um poema com tua beleza.

Manuel F. C. Almeida



Pelas noites
Que se vivem em silencio,
Os lobos uivam
E o universo fica vazio,
De sinais que não recordo.
Não suporto que o corpo
Se tenha zangado com o corpo.
Afinal tudo cansa.
A acabamos em trilhos
Estranhos
E adornados por espartilhos.

Manuel F.C. Almeida



Já sinto no ar
O teu aroma.
Escrevo nas águas
Versos para te cantar.
Versos de ternura
Infindável.

Agarro os teus
Movimentos no cérebro
E esqueço
A dor dos meus
Dias de angustia
Intolerável.

Paro ao primeiro sinal.
Olho-te nua
Numa movimento
De aguas sem caudal.
E aí ficaste… humanamente
Imperdoável.

Manuel F.C. Almeida


Ainda recordas as
Palavras simultâneas
Ditas no calor da paixão?
É sempre assim,
Idos os tempos
Deixa-se a mão
Que um dia
Se estendeu,
Cair no vazio.
E assim acontece
O amor.

Nunca é simples saber o lugar que escrevemos. Nada mais somos que alguém sem face mas a quem as palavras descrevem. E a nossa vida sempre se subsume noutra vida, á medida que nos conhecemos. Por vezes creio que a minha escrita nasce onde eu morri. Escritos de água que se espalham com o tempo, como uma onda. Recordas-te de te dizer que não desejava ser conhecido? Era mentira. Motiva-me a ambição de um dia, sim um dia, ver tudo isto publicado. Não vale a pena mascarar o que desejo. Quero morrer todos os dias nas mãos de um leitor anónimo. E ao morrer ressuscitar e trazer novos escritos, qual Fénix. Se mudou de dono um poema, escrevo outro e mais outro, como se uma cornucópia se tratasse. Claro, sei que dessa forma tudo se torna obscuro, já não sou eu que dou ao poema o seu valor conceptual, Mas que fazer? É a vida.
Ontem, por acidente, escrevi no vento um poema de aromas silvestres. Nem sei onde pára. Seres estranhos a mim ocuparam-me o espaço. Fiquei a olhar o ondular das searas,
O assalto das marés e o bambolear gracioso das ancas de uma mulher.
Recordas-te de te olhar como se foras uma traineira em noite de vendaval? É assim que eu a olhei. E de espanto em espanto descobri que afinal o mundo não é feito por poemas meus, antes sou parte de um poema sem título. Anónimo. Como se pode ficar admirado por coisas tão pequenas? Por vezes recordo-me daquelas tardes em que saciávamos os instintos no corpo do outro. Mas é só mesmo memória. E memórias, tenho tantas que confundo os cheiros com os corpos, as faces com o desejo e a suavidade de um olhar com a sinceridade das palavras. Sim as palavras ditas e não ditas costumavam assaltar-me o sono. Felizmente que outras palavras se chegaram, outras faces aconteceram e novos aromas se abriram. Abro agora uma garrafa de vinho. Um vinho saboroso. O vinho de quem ama a vida acima de tudo.

segunda-feira, janeiro 29, 2007


poema
EU VI A LUZ QUE TRANSPORTAS
SOBREVOAR A VIDA POR ENTRE
O RUMOR DA MULTIDÃO.
CAMINHAVAS SÓ.
DISCRETA, COMO UMAPRINCESA
NUM CONTO DE FADAS.
PAREI A OLHAR-TE.
MANIETADO.
NA ESPERANÇA DO MEU OLHAR
TOCAR TUA ALMA.
E TAL COMO AS ONDAS NO MAR
GRAVAR EM TI SULCOS
AO MORRER.
E TU SEGUIS-TE.
CHOREI NA ALMA.
CHOREI POR MIM
Manuel F.C. Almeida
2004

sábado, janeiro 20, 2007


Olha filho, eu sei que o mundo costuma corroer os olhos e a mente de todos. Eu sei como é, como ficamos estranhos a nós mesmos, como deixamos de nos reconhecer no espelho. Sei o que é a culpa e sei o que é vacilar. Não sou um super-homem cheio de certezas ou de glórias. Por isso filho não sigas os meus conselhos, cresce livre e consciente do que és. Cresce e vive o teu momento de vida. É teu, o meu é a minha vida, a minha escolha e não devo querer que vivas o que eu não fiz. Percorre o teu caminho, de cabeça erguida com orgulho em ser humano. E quando a vida parecer que te volta as costas, podes vir conversar comigo, como eu converso com o meu pai. E se eu estiver por perto, sempre terás um braço, um ombro onde pensar.

Manuel F.C. Almeida

Lá fora a noite desce sobre as casas, feitas da pele de outros homens. Argamassa orgânica. O vento, uivante, assola a planície, e o céu está coberto por um manto negro de nuvens, mais parece que irá cair-nos em cima. A chuva cai ininterruptamente, e no entanto tamanho vendaval não apagou o sol dentro de mim. Finalmente tudo esta a ser diferente, a paisagem e a minha alma já se tocam novamente, e foi tão simples de fazer. Limitei-me a mudar a imagem que me ocupava tempo demais. Foi-se o mau tempo, um novo dia despontou cheio de luz. Começo a ser gente outra vez.
E dai...


Acordo, olho o maldito relógio. É hora, mas hora de quê? De não fazer a ponta de um corno, de me recusar a pensar ou a agir. De não sorrir, de desejar estar só, de não esperar por nada ou por alguém. É hora de não ambicionar, de não sonhar mais, de nada desejar ter. É hora de olhar e ver que nada disto tem sentido, que não sou importante ao mundo ou há vida. É hora de “ não ser”. Mas se morro nesta hora terei de ressuscitar, renascer, de começar a reaprender a falar, a andar, a abraçar, a sorrir, a viver. E sobretudo (não é casaco não) a Amar. E isso está a ser feito.

noites
















Continuo sem sono. As noites são longas e frias. Deixo o tempo correr ao sabor do meu sentir.
Se escrevo um poema, apenas procuro uma forma de enganar o cérebro e dormir.
Teimosamente fico a converter esperanças em memórias e vice-versa. Deixo que o vento e o tempo cavalguem na minha vontade e no meu pensamento.
É tarde, a lua já está alta e estou cansado, revejo o último pensamento e fico feliz por ter sonhado acordado.

quarta-feira, janeiro 17, 2007





















Dá-me o nome
Sem pudor

Deixa teu corpo nu
Tua alma livre

Entrega-te
Nos meus lábios
Ávidos de ti.

Manuel F.C. Almeida















Sonhei em te ter aqui.
Agora,
Espero, falo só para te encontrar.
Um entardecer, sim
Dá-me o doce completo
Desse teu olhar
Sonhei em te ter aqui
Agora
Anseio, canto só para te beijar
Uma madrugada, sim
Dá-me os cheiros acres
Desse teu amar.
Sonhei em te ter aqui
Agora,
Sei pela certa que vamos cantar
Pela noite dentro, sim
Carícias e beijos
Vamos partilhar.

Manuel F.C. Almeida
















Não te esqueças meu amor
Das tardes
Passadas a ver o sol dançar.
E quando recordares o cheiro
Dos loendros em flor
Deixa-te impregnar de
Alentejo,
E deixa que as memorias
Repousem nas pedras
Da planície.
Sim!
Não deixes de recordar
O despertar de cada dia
Nem o canto alegre
E fresco da cotovia
Na manhã.
E quando um novo dia chegar
Deixa que a tua alma se encante
E segue-o no seu andar.

Manuel F. C. Almeida

terça-feira, janeiro 16, 2007















Comigo estão os meus versos
Companheiros sem ter fim.
Meus desejos estão dispersos
O meu mundo é feito assim

Canto os amores que perdi
E os que eu sinto nascer
Canto por mim e por ti
Pôr-do-sol, entardecer

E quem deles não gostar
Que tenha criticas a fazer
Convido-o agora a falar
Diga o que tem a dizer.

Fale bem na minha cara
Seja honesto e frontal
Que a amizade não para
Quando se é vertical



















Perdido de mim
Vivo na ausência
De uma presença
Que teve o seu fim
Tudo parece ser novo
Tudo é existência.

No ar há um novo cheiro
De alecrim.

Manuel F.C. Almeida




















Invado o meu
Próprio eu
De nada arrumado

No abandono
De mim
Redescubro
O outro

Lago de
Aguas plácidas
Um canto, um fado.

Manuel F.C. Almeida



















Dizem que amar é viver
E que o viver é lutar.
que de amor se pode morrer
só então, ressuscitar.

Dizem que ganhar é perder
Que perder é recordar
Que recordar é sofrer
E que sofrer é chorar

Dizem que chorar é sorrir
Que sorrir já é pedir
E que pedir é encontrar

Dizem que correr é cair,
Levantar é perseguir
o desejo de te amar.





















Os sonhos incompletos
São raios de luz
Ao acordar

Retomar o sono
E o mesmo sonho
É apenas ficar refém
Do despertar.



















Assim chegavam
As águas
A gritar bem
Bem junto ás rochas.

E as aves em tardes
Calmas
Esvoaçavam livres
Pela costa.

E a minha sombra
Parada
Sonhava com o teu seio
Desnudado.

Estás ai?

Manuel F.C. almeida

sexta-feira, janeiro 12, 2007

















Agora já tinha tudo nas mãos. A ele se devia o conjunto de fornos que intoxicavam o povoado. Orgulhoso olhou a beleza de uma nuvem de gás que se espalhava pela cidade e que aqui e ali provocava os desmaios de gentes e animais. Era agora o senhor do fumo. Olhou os dedos tapados de anéis com rubis e esmeraldas. Era rico. O presidente de burgo e todo o seu séquito dobravam-se á sua passagem. Ao longe o filho brincava num prado amarelo queimado pelas nuvens de acido, atirava um pau ao gato e o gato não morria. Ao canto sossegada, dona xica continuamente se assustava com os berros que o gato dava.
Voltou para dentro de casa. E consultou o desenho da sua casa de campo. O local era agradável. Um riacho nada poluído, diziam, montanhas a perder de vista cheias de árvores e até, diziam alguns, existiam aves reais por lá. Custava-lhe a crer, mas ter esperança não custa.
Subiu ao 1º andar para ver melhor a ruas. Um bando de estropiados arrastava-se num murmúrio sem fim. Odiava-os do fundo do coração. Comiam-lhe as vísceras e bebiam-lhe o sangue. Carregou a arma. Uma oferta do presidente para momentos destes. Recordou a medalha recebida e o título de comendador. Tanto que gostava dele. Apontou e disparou. Caíram três o que precipitou o resto do bando num festim nu. No ar elevaram-se urras e o sangue jorrou a rodos. Estavam descansados e entretidos. Resolveu ir mudar de fígado. O médico esperava-o e ia ser fácil. Entrou no carro e saiu de casa. A turba olhou para ele. Mas a gárgula pendurada no carro vomitou o resto do almoço. Uma rapariga resolveu passear com o sexo preso por uma trela. Diziam que era amor, não acreditava em coisas dessas. Afinal isso do amor fora a perdição dos seus antepassados. Abraços com doenças venéreas, todos tinham resolvido partir para a guerra contra os seres islâmicos, de pontos na cabeça e caudas de demónios. Felizmente ele tivera cuidado. E podia viver nas fronteiras do império. Sem notar atropelou uma orquídea. Imperdoável, talvez fosse o último exemplar. Mas quem se importava com isso? Guardou o ódio numa caixinha, e pediu à gargula que o engolisse para mais tarde regogitar. O carro parou. Olhou em frente e lá estavam dois cisnes brancos. Deu-lhes um tiro e transformaram-se em flamingos. Finalmente tinha poder.



















Abandono o texto
Na brancura de uma pagina.
Esquecido algures
Repousa o texto.
Incógnito.
Espera por quem
O encontre,
Como sempre acontece
Com os textos.

E a esperança que encontrem
O texto que vive na alma
Renova-se
Em cada olhar que cruzamos.