
Não pensem!
Já todos sabemos
Que o caminho
É feito de momentos
Fugazes de alegrias…
E Tristezas
Mas esse é o custo do "eu".
Manuel F. C. Almeida
Eu pertenço a um outro país que não o vosso, a um outro quarteirão, a uma outra solidão LÈO FERRÉ

foto: SAGHER
Sangram-me os dedos do ócio,
No encanto da harpa
A rosa cobre-se de aromas
Sintéticos e chuvosos.
O corpo teima e dobrar-se
Num calmo e intranquilo
Oceano, ao som dos violinos
Encantados e das cinzas magmáticas
Expelidas como polpa do
Ventre.
O nome?
Não tem! Aliás, dizem ser:
-Segredos roubados no vento.
Fogosamente, tomei-lhe o corpo
E a salvação surgiu num
Raio de sol.
Resta apenas o nada na sua
Prenhe existência.
Manuel F. C. Almeida

Perdidamente
foto by:José Manuel Gouveia
Subitamente ergueu-se. Estava cansado, cansado demais. Olhou as paredes da casa na procura de um ponto onde fixar o olhar. Paredes vazias não lhe permitiam isso. Ouviu o cão a ladrar e o vizinho de cima a escarrar. As manhãs eram sempre assim. Desde há anos que acordava na procura de um quadro que uma noite fugira. Animava-o a secreta esperança que um dia voltasse. A cabeça doia-lhe, era o vinho ele sabia. Vestiu a custa a roupa que não mudava havia dias. Um cheiro a suor, nauseabundo, libertou-se dele.
Pegou a custo na garrafa de vinho e de um trago bebeu o que restava. Olhou-a... vazia. Lavou a cara e ajeitou o cabelo. Decidiu sair de casa. Abriu a porta da rua. À sua frente um carreiro sujo e enlameado convidava a ficar parado. Acendeu uma velha beata que guardara no bolso das calças e lá tomou o seu caminho. Tinha sempre um efeito devastador nos bichos. Gatos ou cães evitavam-no como se fosse o tipo que lhes ministrava injecções mortais e que vivia ao fundo da rua. Um proscrito era como lhe chamavam. Não se incomodava. À muito que assim vivia..
(continua um dia)
Desde aquele dia em que o seu quadro tinha fugido e que se sentia um estranho para o mundo.
Manuel F.C. Almeida


Foto: LBorges Alves
Quando o sol morre, no final das tardes,
Com ele morre também um dia mais.
A lua, no seu raiar de prata, ressuscita
O sonho e o mistério das noites.
E nesse momento encontro então
A magia de ser e de não ser
O balanço entre a vida e a morte.
O contraste do sagrado e do profano.
O tempo sem fulgor, pára e abraça
Enfim o aroma das sombras.
Manuel F. C. Almeida


Universo
foto by: SAGHER
Alta luz tingida,
Quimera perdida.
No espaço…
Regaço,
Segredo da vida.
E aqui se encontra
A razão
Que dá ao universo
A pretensa coesão
Da matéria que finda
E se renova sem nexo.
Tudo o que é simples
Parece complexo.
Manuel F. C. Almeida

Verso
foto by:Cristina Afonso
E se um verso escrito,
Uma simples palavra
Descrevesse os olhos aos olhos?
Os sonhos que um homem tem…
Manuel F. C. Almeida



Mãos
foto by:alicina
Salvem – me os deuses da sua incerta
Eternidade,
Eu só quero as mãos vivas para
Encantar o teu corpo.
Manuel F. C. Almeida

Resgate
Foto by:honey
Agarrar a alvorada no olhar
É resgatar a vida
À escuridão da noite
E do medo.
Manuel F. C. Almeida

foto by:beowulf
E tantos os rios
De sangue
Tantas lágrimas
Encantadas
Deixam letras
Incrustadas
Em caixa de pinho
Exangue.
Manuel F. C. Almeida


quadro
foto by:MARIAH
Abstraído do mundo,
Á espera.
A porta aberta, escancarada
Os teus passos já na escada…
Tremeram .
Era grande a minha porta
Grande demais para ti.
A casa quedou-se vazia
De tudo…
Até de mim.
Manuel F. C. Almeida




foto by:
Lá fora o ar
Tem nuvens de desencanto.
O riso é agora proibido.
Os homens e mulheres
Não se conhecem
Vivem na penumbra
Da alma hipotecada
No tempo em que
Os rostos eram um arco-íris
De esperança e tudo parecia
Ser fácil.
E antes do vento ser
Tempo
E do olhar descer
À terra
Senti o assombro
Da guerra
Face fria de um
Momento
Manuel F.C. Almeida


Fogo
Foto by:Ricardo Costa
Nos lábios
A flor aberta…
Nas mãos
O mar revolto…
Nos olhos
Ilha deserta…
No ventre
Todo o teu fogo.
Manuel F.C. Almeida

EMPTY DREAM
A noite dos sentidos, chegou á beira dos olhos. Na cabeça o som de tom waiths, no seu piano demoníaco, martelava o tempo. Ao olhar, a imagem daquela lap dancer, transmutava a passividade em luxúria. O som arfante das coxas em movimento assemelhava-se ao ritmo espiritual dos tambores africanos.- Tamtam, tamtam. Tamtam, tarataratamtam.
A imagem dela projectava-se, no ar e na luz vibrante dos corpos em êxtase. A percussão dos sentidos deu lugar á percussão dos corpos. E o ritmo alucinante dos amantes anónimos libertou-se num grito profundo de prazer.
Na casa onde não vive ninguém.
Manuel F. C. Almeida

PONTE PARA LADO NENHUM
FOTO BY:Eliane
Não sou de lado nenhum
Não tenho hino
Ou bandeira
O meu lugar é a Terra
Por isso não entro na guerra
Da geografia dos mapas.
Que toda a pátria que tenho
Tem um nome…
Universo.
Manuel F.C. Almeida





encontro:
foto b:Quark
Foi num grito
Que seguiste
Até á beira do mar.
E na cadencia das ondas,
No mistério do olhar
Fui encontrar-te
Perdida
Ausente do meu andar.
Manuel F. C. Almeida




Contraluz
Foto by: Espírito da Luz
Silhueta
Contraluz,
Teia feita
De palavras,
Corpo que me
Seduz,
Luxúria na terra
Que lavras.
Manuel F.C. Almeida

Quadra
foto by:Hugo Macedo
Tens a esperança no olhar,
Nos lábios a cor da romã.
E o teu corpo ao acordar
Tem o sabor da maçã.
Manuel F. C. Almeida

selvagem
Funde-se com o olhar a imagem
Que guardamos dentro de nós.
Memórias vivas, miragem,
Segredos que não têm voz.
Só na noite e no silencio,
Que vive quando encontramos,
O momento de estar sós…,
Se liberta, enfim, no vento
O corcel que vive em nós,
Que cavalga o frio e o tempo
Em que calámos a voz.
Manuel F. C. Almeida





INTERLUDIO
Foto b: Joana
Um Inverno…
Um piano…
O canto das ondas
No olhar de um homem.
E dos dedos gelados,
Libertam-se as notas de abismos
E algas ancoradas nos sonhos.
E nos ventos sibilantes
O grito surdo de uma partitura
Em espera…
Desespera.
Manuel F.C. Almeida

AUSÊNCIA
Foto by:Dorival Zucatto
Do suave pousar dos teus olhos
Ficou em mim a marca da tua
Ausência, uma primavera sem cor,
Uma paz sem harmonia,
Uma valsa
Em contratempo, um momento,
De agonia.
No suave pousar dos teus olhos...
Minha noite faz-se dia
Manuel F. C. Almeida

Quadra
foto by:Eliana Braga
Eu colhi um malmequer
Folha a folha o desnudei
Pra saber se quem me quer
Foi quem um dia beijei.
Manuel F. C. Almeida

AREIAS
foto by:Dorival Zucatto
Acaso julgas que eu ignoro a verdade sobre o deserto? Tão leve como o canto das areias e o delírio presente nos ventos, só a aurora do teu corpo, coberto de mistérios, me traz o real da vida.
Manuel F. C. Almeida

SIMPLICIDADE
foto by:Luis Mendonça
O que de belo tem o mundo
No seu rodopiar temporal
É a simplicidade que tem
Tudo o que é natural
Estrelas, galáxias planetas
Plantas, pedras, animais.
Somos apenas matéria
E em tudo à matéria iguais.
Manuel F. C. Almeida

O VERBO
foto by:ricardo canhoto
O verbo é a doença do ser e do não ser
canto entusiasmado da noite em que a lua
é a esperança da vida e da memória dos
dias em fonte. E o verbo foi o início dos tempos
de angustia, da terra iluminada de razões
que se fundem insondáveis, que a razão
ultima não se vislumbra numa pedra
suspensa no universo gravitacional.
Nem no conjunto de átomos animados
pela magia do carbono.
Manuel F. C. Almeida