sexta-feira, maio 18, 2007



foto by: marta

Nua, levitavas numa dança
Tantrica de pernas abertas
E sexo de romã.
E foi em mim que saciaste
O fruto, a sede, a cor.
Ontem, hoje, amanhã.


Manuel F.C. Almeida

quinta-feira, maio 17, 2007



















foto by: sgthotlips
Hoje estás nua, apetecível
Caem-te os cabelos sobre os ombros
E os seios erguem-se para os céus
O teu sexo feito lar
Abre-se em rosa ao meu desejo.
E tudo cresce em nós,
Numa tesão sem medo
E num desejo ensurdecedor
Que a ambos fala em segredo.

Manuel F.C. Almeida


foto by: Dani


E era assim mesmo. Vivia preso aos meus sonhos e aos meus fantasmas. Começar ou tentar começar, recomeçar tudo me parecia impossível. Depois o recomeço é sempre carregado de memórias, de lembranças nem sempre boas. Fica sempre presente a ultima palavra. Seja ela qual for.
Era grande a angustia que me assaltava até ao momento em que a Isabel me interrompeu
- Andas mesmo em baixo meu querido. Estes ares fazem-te mal.
- Eu sei. Termino o relatório hoje e amanhã mesmo parto.
Foi patente a tristeza no seu olhar. Mas ambos sabíamos que não deveríamos recomeçar.

quarta-feira, maio 16, 2007



foto by:http://www.paulocesar.eu

Tenho um rio feito de poesia
Que me sai do ventre
Quando se faz dia.
Um rio de vento
Que me sopra na face
Ao passar do tempo.
Um rio a sonhar
Que me vive na alma
Por tanto te amar.


Manuel F.C. Almeida

terça-feira, maio 15, 2007



foto by:Miguel Delgado e Silva



Ó deuses, vinde até mim
Eu bem sei que me avisaram
Mas esta paixão sem ter fim
Até os meus olhos cegaram.

Manuel F. C. Almeida

segunda-feira, maio 14, 2007



foto by: Eliara

Fiz do deserto o meu refugio
Nas horas de revolta do meu lar
E num balão de ar quente plantei,
Corais reluzentes da cor do mar
Que se davam como mulheres
A quem os vinha cheirar
Fiz do deserto o meu refugio
Nas horas ternas de te amar.


Manuel F.C. Almeida



foto by: Padroense

Olhei para a Elouise. Era maravilhosa. Livre e nada hipócrita. Uma senhora, noutra situação seria interessante aproximar-me dela. Mas com o espírito cheio de outra pessoa seria infame da minha parte. Ninguém merece isso. Ser uma muleta que se abandona depois de nos curar-mos. Eram estes os meus valores. A honestidade intelectual face aos outros. Muito kantiano, diriam alguns, conservador, diriam outros, poucos descortinariam na minha atitude um profundo amor pelos outros e por aquilo que são. E um profundo respeito por mim mesmo.
Mais uma vez fui interrompido nas minhas cogitações.
- Então! O peixe está bom? – Perguntou a Isabel.
- Delicioso – respondi
- está muito calado, parece que não aprecia a nossa companhia disse a Elouise.
- não pense assim, eu sou mesmo calado. Já fui diferente mas aprendi a viver dentro de mim. Não gosto de incomodar os outros com banalidades ou pensamentos meus. Vivo num mosteiro que é o meu “eu”.

domingo, maio 13, 2007



FOTO BY:Erika Assumpção

Foi numa pétala que te achei
E te recolhi no tempo.
Teu aroma embriagou-me,
Tomou-me os sentidos
E voluptuosamente
Entreguei-me á doce loucura
De te amar.


Manuel F.C. Almeida

sábado, maio 12, 2007



Foto by: http://www.paulocesar.eu

Que fazemos nós
Da luta dos corpos no
Silencio das noites?
Quando fechamos os olhos
Ao outro
E no egoísmo dos espasmos
Reencontramos a graciosidade
Da palavra
Vivida a dois.

Manuel F.C. Almeida

sexta-feira, maio 11, 2007


Estou cada vez mais farto de tudo isto. Não vejo um único momento em que a cara das pessoas seja tingida com as cores da esperança. Agora temos uma nova técnica de exercer o poder. Chama-se a Denúncia. A denúncia ocupa nos dias de hoje um papel central na governação do País. O partido do governo, neste tempo o PS, dedica-se a convidar as pessoas a denunciarem os seus vizinhos, conhecidos e desconhecidos por tudo e por nada. Aos Funcionários Públicos, segundo dados oficiais 700 mil, estendeu essa recomendação e tornou-a numa OBRIGAÇÃO.
Isso mesmo, segundo O PARTIDO SOCIALISTA e o seu conceito de um socialismo renovado e moderno, a sociedade, o aparelho de estado e toda a vida desta comunidade miserável a que chama-mos Portugal, deve ser gerida pelo principio da denuncia, delação e suspeita. Portugal já viveu esta realidade varias vezes. Aos tempos da SANTA INQUISIÇÃO, era comum a inveja, o ódio, a cobiça e a mesquinhez serem os motivos para denunciar alguém. E para os queimar. Desde sempre o povo português teve esta propensão para a denúncia. No anterior regime, Salazar conhecendo esta realidade explorou-a de forma inteligente. As vilas e cidades operárias eram locais de luta mas também de informadores. A tortura, os maus-tratos e em alguns casos a morte, eram produto de um povo que colaborava.
O poder instalado sabe isso, sabe que nada melhor para controlar uma sociedade que o medo. O medo de perder o emprego, o medo de fumar, de contrariar o politicamente correcto, o medo tomou conta de Portugal inclusive o medo de dizer não.
Por isso, como se sentirá o poeta deputado e vice presidente da A.R, que um dia escreveu “ há sempre alguém que resiste, há sempre alguém que diz não” ao dar o seu apoio a este regresso do medo e da denuncia, quando o seu partido recusou uma proposta de lei que mandava investigar o enriquecimento ilícito? isso som motivo de suspeitas fundadas.
Eu entendo que isto da ética e da lei seja apenas para alguns, mas ao menos tenham o decoro de o não fazer tão explicitamente.

quinta-feira, maio 10, 2007



foto by: miguel pereira

Eu sempre te amei e não sabia
A cor do cabelo, do teu olhar,
Eras ideia que eu sempre via
No meu dormir, no meu sonhar.


Eu sempre soube que te amava
Faltava uma face, um caminhar
Mas naquele dia, que te olhava
Foste um farol a despertar.


Eu sei, tu sabes, ambos sabemos
Que nem tudo é fácil de reconstruir
Mas se sabemos o que queremos
O futuro é feito sempre a sorrir.


Manuel F.C. Almeida

quarta-feira, maio 09, 2007



FOTO BY: Miguel Delgado e Silva

Tomei-te o rosto
De um trago
Aspirei-te o perfume
De fêmea
E desfiz contigo
As nuvens
Do meu horizonte.

Manuel F. C. Almeida



foto by:Paulo Penicheiro

Entrámos num lugar rústico. Agradavelmente decorado com materiais da região. A dona de imediato cumprimentou a Isabel e a Elouise. Indicou-nos uma mesa e por artes mágicas fez surgir uma travessa com queijos e enchidos da região. Olhei para tudo e não consegui evitar uma sensação de revolta. Afinal eu não podia comer nada daquilo e o aspecto era magnífico.
- Em que pensas – perguntou a Isabel
- Em nada de especial, nas minhas limitações.
- Mas que tem? – Perguntou a Elouise.
De forma breve resumi a minha história clínica, que infelizmente não é famosa. Estava a meio da história quando, para espanto meu, a senhora me traz um bom peixe grelhado e para as senhoras umas boas migas com entrecosto de porco preto. Era injusto mas fiquei espantado. A Isabel explicou-me que tinha tomado a liberdade de encomendar peixe para mim. Era uma delícia. Aliás ambas eram uma delícia mas não mais que isso. Eu estava a viver um drama enorme. O trabalho que me propunha fazer estava feito. Era só elaborar um relatório e podia partir. No entanto apetecia-me ficar ali mais uns dias. A companhia da Isabel era tão agradável. Sabia que não era mais que isso. Mas sentia-me em casa quando estava perto dela.

terça-feira, maio 08, 2007

http://www.paulocesar.eu

homenagem aos G.N.R

Vou sonhar que te amei
Que te encontrei
Numa gruta iluminada
Vou cheirar que te amei
Que te tomei
Numa estrela abandonada
Vou cantar que te amei
E que te achei
Á boleia nesta estrada.


E sempre que te olhar
Vou-me encontrar.
Nesta vida amortalhada
E sempre que te olhar
Vou-me encontrar
Nesta vida adiada.


Vou sonhar que te amei
Que te olhei
Estavas nua, convidada
Vou sonhar que te amei
E que cheirei
Tua púbis orvalhada
Vou sonhar que te amei
Que te beijei
Numa ânsia entesada.


E sempre que te olhar
Vou recordar
Uma promessa adiada.
E sempre que te olhar
Vou recordar
Uma face calculada.


Vou sonhar que te amei
Que te matei
Numa hora malfadada.
Vou sonhar que te amei
Que te deixei
A canção está terminada.

Manuel F.C. Almeida

segunda-feira, maio 07, 2007



Foto by: helena margarida pires de sousa

A teu favor tinha,
A sensação de verdade.
O querer acreditar ser possível
Nem sabia se tinha o teu amor
Impossível.
A meu favor, tinha
A honestidade do olhar
O querer estar, acreditar
E todo este amor
Pronto explodir.
A nosso favor tínhamos
Tudo e nada
E quando vislumbrámos um rochedo
Eu… fiquei só.
Tu foste... o meu olhar ganhou medo.
A meu favor só me posso ter a mim

O caminho feito só, feito segredo..

Manuel F. C. Almeida

(a partir de alexandre O'Neill)


Mas a verdade no meu interior era a presença de quem eu tinha perdido. Não ia trair-me por nada deste mundo. E era tão doce e tão presente que queria vive-lo para sempre.
-chegámos, isto hoje ta ainda mais bonito – disse a Isabel
- Sim está maravilhoso, há tempos que não vinha aqui – respondeu a elouise.
Olhei para a paisagem. Estávamos numa das abas que ladeavam o rio. Cá de cima o rio via-se a serpentear por entre o recorte do seu antigo leito. As últimas chuvas tinham-lhe dado algum caudal e nas suas margens a natureza manifestava-se de maneira generosa e linda. Era um local maravilhoso sem duvida. Afastei-me um pouco delas e dissimuladamente voltei a olha-las. Ambas jovens, ambas belas, ambas desejáveis ambas inacessíveis para mim. Vivia uma maldição.
- vamos entrar – disse a Isabel – vens ou não?
- desculpa, claro que sim.

sábado, maio 05, 2007



foto by: helena margarida pires de sousa

Tenho um sonho:
Um dia vou fugir de todos vós.
Vou fugir de todas as coisas.
Das obrigações, das obrigações..

Irei em direção ao sol
Para o esquecer,
Subirei a montanha
Para a perder
Olharei o céu
Para ficar ausente.
E só,
lograrei fugir de mim
Lograrei fugir de mim………
No presente, para sempre.

Manuel F. C. Almeida.

sexta-feira, maio 04, 2007


Há uma lenda em cada olhar
Que se perde no horizonte
Historias lindas de encantar
Que fazem do olhar uma fonte.
Umas falam só de esperança
Num novo dia a nascer
Outras de amor e lembrança
Histórias tristes de morrer.
Há lendas que fazem os tempos
Mais cinzentos ou coloridos
Lendas que chegam nos ventos
Que me sopram aos ouvidos.
Manuel F.C. Almeida

foto by: Sérgio P.
A Isabel conduziu-nos pelos campos que começavam a apresentar o tom colorido das pequenas flores campestres. Eu seguia em silêncio. Eram muitas as coisas que me assaltavam o pensamento. Aparentemente tudo estava explicado. Tinha agora a difícil tarefa de comunicar tudo à Policia. Tinha também pela frente algumas decisões difíceis. Era óbvio para mim que me sentia deslumbrado por três pessoas. Isabel, Fatima e Elouise. Também tinha a certeza que uma outra pessoa vivia dentro de mim. Por quanto tempo mais? Não sabia. No entanto sabia que não seria honesto caso iniciasse algo sem que me sentisse preparado para tal. Sentia atracção por três mulheres, uma já presente no meu passado, outra que ocasionalmente conhecera mas que não significava mais que deslumbre a ultima era na verdade diferente. Tão diferente, que me apercebi disso no exacto momento em que a conheci. Tão diferente que me deslumbrou.

quinta-feira, maio 03, 2007


foto by MARIAH
Escrito o poema,
A maldição renova-se.
Um novo frenesim se manifesta
E se precipita na
Ânsia de um novo poema
A nascer.
Tudo se assemelha a uma
epidemia .
O poema,
O próximo poema
Todos os poemas.

Ser poeta é estar doente.

Manuel F. C. Almeida.

quarta-feira, maio 02, 2007








Dança minha concubina
Remexe o teu ventre
De encontro ao meu.
Não pares de dançar
Dança o verde da floresta
O azul do horizonte, o mar
Dança o abraço eterno do sol
Ao calor da mãe gaia

Dança minha concubina
Meu raio de tempestade,
Minha sorte, minha sina
Meu horizonte perdido
Minha praia.
Minha tocha olímpica
Minha deusa grega
Meu luar.

Dança até ser dia
Esgota-me no teu dançar.

Manuel F. C. Almeida.


Foto by:

Alba Luna

Se um dia desejares juntar-te a mim, deixo-te um segredo. Estarei sempre ao sul. No sul de Corto Maltese.
E só mais uma coisa. Diz aos meus amigos, mas aos que tu sabes que o eram de verdade, que estou na estrada que escolhi, que aparentemente estarei sozinho mas que guardo sempre comigo, a voz, a imagem dos que comigo pugnaram de perto. A minha única riqueza são as memórias que tenho. E os amigos que sempre terei.
Agora chega. Nada mais há a dizer.
Até um dia………………………..

Rodrigo Almeida

“Estarei sempre ao sul. No sul de Corto Maltese”. Argentina ou algures na América do sul?. Isto ficou-me na cabeça. Ele estava a dizer-me onde estava ou poderia estar.

Não dei pelo tempo passar, a Isabel e a Elouise interromperam-me o pensamento. Era tempo de almoçar. Fomos no jipe. Eu ia em silêncio. A minha tarefa estava terminada. Rápido demais. Teria de justificar a vinda com um relatório.

terça-feira, maio 01, 2007


É rubra a voz que levantas
No calor da tua batalha
Canta camarada, que encantas
Com canto esta muralha.

Temos de a fazer muito forte
De a construir com verdade
Façamos dela um forte
Defesa da liberdade.
Manuel F.C. Almeida

segunda-feira, abril 30, 2007



foto by: carlos pereira

Vem! Surpreende-me com o teu ar
De felino na caçada.
Toma-me numa cornucópia
De luxúria insaciável.
Sacia a tua sede neste oásis
Que sempre fui em ti.
Mata a tua fome de corpo
Em mim.

Agora sabemos os dois a cor do
Frio nas noites tristes
Quando voltámos as costas ao outro.
Vamos refazer aquela tela que ambos
Pintámos de natureza.
Vamos colocar o coração no
Lugar do coração.
E fazer das nossas mãos
Minhas mãos e tuas mãos.

Manuel F.C. Almeida


Foto by:
Como sabes passei os melhores anos da minha vida, ou os que o deveriam ter sido, embrenhado nas diferentes escolas. Da primária até terminar a faculdade passei cerca de 20 anos da minha vida a ser formatado. Raramente de deparei com alguém digno de registo. Raramente me deparei com um mestre. Fui crescendo com valores impostos e hipócritas. Os conselhos familiares para ser honesto contrastavam com uma sociedade das mais corruptas que conheço. Ao exemplo familiar de amor à liberdade sobrepunha-se a vivência social pejada de gente mesquinha e com espírito delator. Na escola tudo era igual. Poucos se importavam com o saber ou se sabiam. O interesse era todo e só virado para o resultado numérico obtido. Os professores na generalidade eram uma extensão medíocre de um mundo medíocre. Ainda assim fiz o que me era pedido. Fiz tudo, como um bom rapaz. A família ficou medianamente feliz, os amigos também. Só eu continuei infeliz. Não sabia porquê, só sabia que me sentia miserável.

sábado, abril 28, 2007



Foto by

betho feliciano

Curiosas, as
Palavras procuram-se
Em telas de todas as cores.
Lá, onde se escondem
Os sentidos,
Seguem embriagadas
O conceito de um corpo,
De um amor.
E como nuvens
Dissolvem-se, em gotas
De esperança, de amizade
E de tempo.

Está a chover algures.

Tudo é eterno regresso a ti...

Manuel F.C. Almeida.

sexta-feira, abril 27, 2007


FOTO BY :
E sinto o teu regressar
Tacteando devagar
A minha alma tão diferente.

Não sei o que desejar
Muito menos que pensar
Do passado, estou ausente.

E faço dos dias poemas
Complexos teoremas
De palavras com presente

Manuel F.C. Almeida.

quinta-feira, abril 26, 2007



foto by: www.paulocesar.

Escrevo páginas com o teu nome.
Debruado com palavras mágicas,
Aquelas palavras que tudo dizem,
E nada fazem sozinhas.
Invento assim novas frases
Sem rumo certo, antes palavras sós,
Incoerentes, inconsequentes.
Frases sem sentido, que se querem
Vivas, reais e presentes.

Manuel F. C. Almeida



foto by

Marcos S. Sousa

A vinda para este lugar, o contacto com pessoas de mundos diferentes e com perspectivas diferentes acabou por me acordar. Embrenhei-me na vida como nunca o tinha feito. Dei largas à minha paixão pela poesia e pela filosofia. Apaixonei-me, vivi relações fantásticas com pessoas fantásticas. Acima de tudo aprendi a ouvir. E foi a ouvir que descobri um mundo que me esperava algures. Um mundo onde os jovens não se hipotecam aos bancos desde tenra idade, um mundo onde a noite não é passada em frente de uma caixa colorida. Não sou naif, sei que essas pessoas, provável mente, desejarão tudo isto, mas a verdade é que o seu mundo ainda está livre de tudo isto. Vivem com muitas dificuldades e superam-nas. É para um local desses que vou. Não vale a pena procurar-me, se desejar ser encontrado eu darei sinais. Tens agora a espinhosa tarefa de encerrar o que julgo vir a ser um problema de polícia. Só tu o podes fazer de forma a evitar mais complicações. Soube antes de partir da tragédia que te sucedeu. Lamento, mas a vida para ti não acabou.

terça-feira, abril 24, 2007


Já me soa no olhar
A cor de mil ilusões
Vai um Abril a passar
Vai um sonhador a chorar
As suas traídas paixões.

E chora o seu sonho traído
Sem saber mais que fazer
Chora pelo que lhe é devido
Chora por não ter agido
Na defesa do seu querer.

Manuel F.C. Almeida.


foto by Luis Miguel Mateus

Nem sempre me recordo dos minutos
Bebidos em teus seios.
Muitas vezes abandono-te e fico refém
Dos meus medos, meus receios.

Nem sempre me recordo dos tempos
Perdidos em teu sexo.
Muitas vezes deixo-me só…
Revelo-me complexo.

Pois!
Nem sempre te recordo ou me recordo
Dos dias de inocência
Muitas vezes só está presente
A cor da nossa imprudência….

Manuel F. C. Almeida


Começava a fazer sentido o que naquela manhã eu tinha descoberto.
Abri a carta com algum nervosismo. Ela apercebeu-se e disse-me que ia fumar um cigarro. Agradeci-lhe a descrição com o olhar.
A carta era-me dirigida:
“ Amigo Manuel:
Sei que virás um dia. Quando leres esta minha carta estarei algures por esse mundo, a cumprir o meu desejo. Ser útil. Aqui nada me prende. Nada tem valor. Desculpa não me ter despedido, mas não gosto de despedidas. Só me despedi de uma pessoa, da Elouise. É um diamante, uma força da natureza. Não sei se ela sabe isso, mas eu sei. Foi a ela que confiei este meu desejo, porque sei que nunca me trairá. A nossa amizade irá sobreviver ao tempo e à distância. Ambos sabemos isso.
Deves estar a interrogar-te sobre os meus motivos. Tentarei ser sintético, racional no que irei dizer.

segunda-feira, abril 23, 2007


foto by tiago
Eu
Mais não sou que vulcão
Em súbita erupção
De pétalas aveludadas.
Rio que se precipita para a morte
No desejo que em sorte
Lhe calhem margens apertadas.
Centelha de sol que massacra
Minha vida, via-sacra
Meus caminhos, minhas estradas

Eu
Mais não sou que ilusão
Miragem do vento suão
Cheio de tempo e de nadas.
Manuel F.C. Almeida







foto by Carlos Carpier

- E que lhe interessava isso? Ele não pediu a ninguém para o procurar se o fizeram e fazem é por curiosidade e como ele dizia por egoísmo.
- Egoísmo? Eu desde que o caso sucedeu que sinto necessidade de obter respostas, tinha-me por amigo dele, nunca me conformei com o vazio.
- Ele sabia que você viria um dia, sempre me disse isso. Descrevia-o como um bom amigo, alguém em quem se pode confiar. Por isso confidenciou-me uma coisa.
Acto contínuo dirigiu-se ao armário e retirou um livro. “ A Critica da Razão Pura”. Kant, o sistema, o método. O livro tinha uma capa dupla, bonita, protegida. Rapidamente rasgou a capa e na sua mão surgiu uma carta. Era endereçada à minha pessoa.
- Esperei que viesse tal como o Rodrigo me pediu. Disse sempre que viria. – Disse ao mesmo tempo que me estendia a carta.
- Porque não a entregou à polícia? – Perguntei.
- Porque o Rodrigo desejava que fosse entregue a si quando viesse, não gostava de polícias nem de autoridade em geral. Costumava dizer que a autoridade reconhece-se não se impõe. e que não é pelo facto de alguém usar uma farda que ele reconhece-se nesse alguém, qualquer tipo de autoridade.

sábado, abril 21, 2007
















FOTO BY MARIAH

Costumo cantar a amizade
E o amor sempre presente
Também canto a liberdade
Canto a mudança premente
Canto um mundo de valores
Que fui cultivando ao crescer
Canto um universo de amores
Que vivem no meu viver.
Canto a liberdade a passar.
Um mundo a existir
Canto o eterno mudar
Neste constante devir.
Faço da vida um cantar
Tento fazê-lo com arte
Sou coerente a amar
Amigo do amigo que parte.


Manuel F.C. Almeida

sexta-feira, abril 20, 2007









foto by João Camilo

Suave como a paisagem
Nos campos do sul
Tu vieste como sempre
Foste;
E do choque do passado
Com o presente
Ousámos reconstruir
O futuro,
Num querer que nos
Enlaçou num oceano de
Duvidas e temores.


Mas que sabor teria a vida
Se de certezas tratássemos?

Manuel F.C. Almeida

quinta-feira, abril 19, 2007


FOTO BY:
Luis Gonzaga Ribeiro
Devorei-te o corpo
Naquela madrugada
Em que os espíritos
Habitaram
A minha vontade.


Manuel F.C. Almeida


foto by Angelica

Olhei para ela. Parecia tão certa de tudo o que dizia respeito ao desaparecimento do Rodrigo que pela certa saberia muito mais. Era estranho, afinal eu não conhecia nada do rapaz. Cada passo, pequenino que fosse, revelava-se um mundo novo, um homem desconhecido.
- Porque diz isso com tanta certeza? – Perguntei.
- Pelo simples facto de ter sido a confidente dele durante meses. De ter partilhado os seus sonhos, os seus medos um pouco da sua vida. – Respondeu
- Amaram-se?
- Sim! Como amigos, confidentes, como ombro do outro. Nada físico, éramos profundamente semelhantes em muita coisa, no entanto a paixão romântica nunca nos tocou. Devorávamos as horas a conversar, excomungámos muitos fantasmas, enfim, de alguma forma éramos almas gémeas que se encontraram, mas unicamente amigos.
- se sabe assim tanto sobre ele saberá ao menos porque simplesmente resolveu desaparecer sabendo que isso iria trazer trabalhos a muita gente?

quarta-feira, abril 18, 2007



foto by:

MARIAH

Chegaste no ventre do
Tempo,
Como um qualquer
Alquimista do amor.
Transmutas-te o teu ser
Em mil sentidos
Numa alegoria cabalista
E eu bebi-te num cálice
De escrituras celestes
Saído da dança previsível
Dos planetas.
E enlaçados numa valsa
De olhares
Fizemos dos sonhos
acontecimentos, lugares.


Manuel F.C. Almeida

terça-feira, abril 17, 2007



foto by

Kazuo Okubo

Suspenso em ti
Vivi
A tormenta de não
Existir.
Agora, insaciável
Me fiz
No desejo de te ter...
feliz.

Manuel F.C. Almeida



FOTO BY

Luna Alba

- Se quiser almoçar connosco terei todo o prazer em a convidar – disse eu – e simultaneamente poderei fazer-lhe algumas perguntas sobre o meu amigo.
Os seus olhos ganharam vida e foi sem surpresa que a ouvi dizer
- Terei todo o prazer, isto é se não existirem objecções – e olhou para a Isabel. Esta corou um pouco mas depressa respondeu:
- Claro que ficas, vamos almoçar a um local lindo, perto do rio. Tu conheces ele é que não. Olha, agora tenho de ir. Deixo-vos sozinhos. Tu vê lá nada de seres abusador – simultaneamente soltou uma ruidosa gargalhada como só ela o fazia.
Fiquei só com ela. Confesso que estava um pouco intimidado, desde há algum tempo que ficava assim quando me via junto a mulheres mais jovens. A idade prega-nos destas partidas.
- Estava aqui a mexer nas coisas do Rodrigo na esperança de encontrar algo que me dissesse onde poderá estar se é que está vivo – disse eu.- Acredite que ele está vivo, não tenho dúvidas disso, resolveu deixar a vida que tinha e partir para outro mundo, outra realidade. Estava sozinho, não tinha ninguém e estava farto da nossa sociedade. Não ficava admirada se o soubesse em África ou em qualquer outro local do mundo. Um local onde se sentisse útil e onde encontrasse sentido para a sua vida. – Disse ela

segunda-feira, abril 16, 2007



foto by carlos pereira

Nos teus lábios
De romã
Bebi o ópio
Da minha existência.
Queria pois ser
O teu raio de noite
Numa dança de ventres
Famintos,
Saciar-te essa sede
De águas cálidas e puras,
Invadir-te a alma e
Consumir-te na antecipação
De um olhar
Feito de prazer.

Manuel F. C. Almeida

domingo, abril 15, 2007



foto by Helder Vasconcelos

Agarrei o teu ventre
Pela boca.
Provei-te o ser
Com um olhar.
Soletrei a dois o
Verbo amar.
Fiz da tua púbis
Meu lar,

Meu jardim
Meu universo...

Meu sonhar.

Manuel F.C. Almeida

sábado, abril 14, 2007












Notas soltas
Nas madrugadas agrestes
E sombrias
De um olhar morto
No tempo.
Notas soltas
De uma sinfonia de
Pétalas dançantes
No vento.

Foto by Filipe Pereira

Manuel F.C. Almeida

foto by:
Helena Margarida Pires
de Sousa
- Olha que bela surpresa a Elouise resolveu fazer-nos uma visita.
- Assim vejo – disse a sorrir. Ela também sorriu, era gentil e simpática, diria docemente simpática.
- Boa tarde – disse, ao mesmo tempo que me estendia a mão.
Retribui o gesto e perguntei:
- Que a traz por cá? Ou é visita habitual?
- Quando o Rodrigo por ai andava vinha muitas vezes conversar com ele – respondeu.
Isso aguçou-me a curiosidade. Teria conhecido bem o rapaz? Aquela notícia era duplamente agradável. Ela tinha vindo ao campo e eu tinha uma boa desculpa para passar algum tempo a conversar com ela.
- O Rodrigo costumava dizer que a Elouise era a melhor amiga que poderia ter tido por aqui – disse Isabel.
- Ele é que era um grande amigo, tinha um coração do tamanho do mundo e uma alma de todo o universo – respondeu ela.
Fiquei a olha-la, cabelo negro, solto, comprido, olhos azuis da cor do céu, uma face bonita e uma expressão sempre jovial. Se aliar a tudo isto o interesse do Rodrigo, diria que era forçoso que a conhecesse.

sexta-feira, abril 13, 2007



Foto de A.BRITO

Concebo em mim a existência
De uma mão que se quer nua
Ávida, sedenta e pura
Como sombras vivas
De lua.
Manuel F. C. Almeida



foto by:
Helena Margarida Pires
de Sousa


No meio de tanto livro, uma obra intitulada “A angústia da brancura do papel”, achei curioso o título e tirei a obra. Ao abrir tive uma surpresa. Poesia, estava cheio de poemas escritos pela mão do autor. Alguns com o nome dele outros com um pseudónimo “ Bartolomeu”. Recordei de imediato a mítica passarola do tão célebre Bartolomeu de Gusmão. Curioso o pseudónimo. Afinal o Rodrigo revelava-se algo diferente do que supunha conhecer. Amante de filosofia, amante de poesia, que mais me esperaria? Folheie o livro e fui lendo alguns poemas. Poemas de amor quase todos. Alguma prosa, pouca e algumas cartas ou esboços das mesmas. Endereçava-as sempre a “ meu amor” não colocava nomes.
Procurei vislumbrar algo que me pudesse ajudar na minha procura. Nada me indicava o que teria sucedido. Guardei a obra na minha mala e continuei a mexer nos seus livros. De repente a Isabel voltou. Vinha acompanhada pela Elouise. Estranhamente fiquei duplamente agradado.
Ambas estavam deslumbrantes. E dei comigo a sorrir com o olhar. Um sorriso que vinha de dentro de mim. Um sorriso elaborado com a alma.

quinta-feira, abril 12, 2007


foto ABRITO
Numa barca feita de ventos,
Transporto o meu ser
De tempo erguido.
E desejo que ele
Consiga voar.
Na procura de uma corrente,
Consumo o meu querer
Num gesto esquecido.
E desejo que ele
Consiga navegar.
Na fogueira que me consome,
Tento salvar um sonho
Já quase perdido.
E desejo que ele
Consiga ficar

Um pouco mais que só sonho.
Que fique barca de tempo.
Raio da noite.
Luar.

Manuel F.C. Almeida


foto Alvaro Ennes

- aqui está a estante do Rodrigo. Conservei tudo intacto. – disse a Isabel.
- isso é fantástico. Posso dar uma vista de olhos?
- claro, esta manhã estamos a preparar o relatório pra te apresentar à tarde, por isso fica à vontade.
Foi o que quis ouvir. Ela agarrou numa pasta e saiu deixando-me só. Abri a estante e comecei a ver os livros que tinha. Fernando Pessoa, A. O’Neil, Florbela espanca, Mário de Sá carneiro, Al Berto, o rapaz tinha muita poesia. Noutro local obras de agostinho da silva, Kant, proudon, Sartre, Freud e outros filósofos. Ainda tinha dezenas de livros técnicos e alguns romances. Achei curioso um facto os romances presentes eram todos obras especias. Trópico de câncer, o velho e o mar, 1984, o ano da morte de Ricardo reis, escuta Zé ninguém, as vinhas da ira, os grandes mestre, a náusea, a peste e muitos outros. E o mais curioso, toda a obra de cortomaltese. O rapaz era um libertário, esta palavra nova que pretende designar os anarquistas. Na verdade com a massificarão do valor negativo dado ao conceito “ anarquia” o movimento teve de tentar fugir às garras desta sociedade. Assim criou o conceito de libertário. Inatacável em termos semânticos.

quarta-feira, abril 11, 2007


Foto de A.BRITO
A cor deste poema
Inunda-nos de mar.
Uma maré-alta invade o
Nosso ser
Na derradeira sinfonia
De um olhar
Que se quer presente,
Que se quer real,
que se quer...viver.

Manuel F.C. Almeida