
E se bastasse abrir os
Olhos ao mundo,
Como se fossem janelas.
Descobrir-te aí, suspensa
No tempo que foi.
Para te resgatar do meu
Medo,
Das coisas vivas, selvagens
E belas.
Manuel F.C. Almeida
Eu pertenço a um outro país que não o vosso, a um outro quarteirão, a uma outra solidão LÈO FERRÉ

foto SorrisoAlegre
Acordei cedo. O cheiro a torradas e a café caseiro despertaram-me o apetite. Estava cansado. Muito cansado mesmo. Começava a ficar preocupado. O cansaço ao acordar poderia querer dizer algo.
- Então? Toca a levantar. Vá, temos o pequeno-almoço na cozinha à espera. – Disse ela. Estava maravilhosa.
- Deixa-me tomar um duche. – Disse-lhe.
- Enquanto te preparas eu vou fazer-te uma torrada. Se necessitares de roupa diz. – Respondeu.
- Na verdade não gosto de usar roupa interior dois dias seguidos – respondi.
De imediato abriu uma gaveta e surgiu com roupa interior de homem nova.
- Eram para o António. Usa, devem servir-te – disse
Tomei duche vesti-me e quando cheguei á cozinha beijei-a a agradecer tudo.
- Meu querido, não precisavas de fazer isso. Surpreendeste-me, sabes? Julgo que não te conheço. Está diferente, ontem foste um Homem. Raramente alguém se expõe como tu o fizeste. Sei agora que a nossa amizade é muito mais sólida que uma noite. Mas que me apetecia não duvides. – Disse enquanto me fazia uma torrada.
- Também me apetecia, sabes? Mas existe em mim um conflito que não consigo resolver. É como uma maldição. Seria magnífico no momento mas seria um inferno durante muito tempo. E nunca seria genuíno. Poderia perder-te como amiga e não quero isso.




E quantas se me ofereceriam como ela o fazia? Assim. Sem limites. Sem exigências. Seria isto que eu desejava? Calei o cérebro, e olhei para ela. Estava linda, mantinha uma pele macia, Uns seios pequenos e redondos e firmes. Mergulhei na sua oferta e esqueci o tempo, o espaço e tudo o mais.
Mas algo não estava bem dentro de mim. Eu estava ali e não estava. Era como se quisesse fugir daquele meu eu. Claro que ela acabou por me sentir ausente. As mulheres sabem sempre quando um homem se lhes entrega. Os homens são mais distraídos, concentrados no seu ego, na sua virilidade nem reparam que muitas vezes são apenas um instrumento, vivem na ilusão de que dominam. Perdem toda a vida sem aprender a olhar. Cegos de si mesmos.




O jipe parou junto de uma casa semelhante à que me estava destinada. Sempre ágil saiu do carro. Segui-a como um menino. Quando entramos em casa nem tive tempo pra ver as paredes. Enlaçamo-nos de imediato num beijo que levava parte de nós. Senti que o mundo desaparecia e que estava no paraíso. Quem precisa de uma, dez ou dez mil virgens no paraíso? Nós precisamos é de criar paraísos na terra. Paraísos feitos com pessoas. Pode ser um paraíso de amor platónico, de amor consequente ou de pura amizade, seja como for com ela tinha tudo. Era o conceito de três em um. E falava a mesma linguagem que eu. Sem pudores ou moralismos. Se queria uma coisa dizia-o se não queria, fazia sentir isso.
- Estás certa de tudo? – Perguntei – não te prometo mais que umas noites, sabes que não estou preparado para relações muito profundas. Tornam-se monótonas e acabam por nos entediar. Depois sempre acontecem as rotinas e o que é belo fica banal e por vezes pesado – terminei.
Olhou para mim. Sorriu. Estendeu-me o copo convidou-me a beber
- Manuel não penses. Vive agora. Se o faço é porque quero. Tu não me obrigas a nada e sei perfeitamente quais as regras do teu jogo. Não temas gosto de tanto de ti que nunca te pediria o que não me podes dar. – Disse de forma pausada e sempre decidida. – Mas o que puderes dar eu vou aproveitar - terminou com uma sonora gargalhada. Acto contínuo senti-me ser empurrado para um magnífico sofá.

Nunca se secam as palavras
Nos rios de peito do poeta
É nesse rio que tu lavras
A palavra simples e certa
De nada vale já não querer
Todas a letras no papel
O poeta tem que escrever
Trabalha a palavra a cinzel
É pois temível a maldição
De quem na palavra se encanta.
Bate forte o coração
Quando um poeta se canta.
Manuel F. C. Almeida





Tu foste em mim a luz do sol
Foste toda a beleza do mar
Por ti fui ao fim do mundo
Soletrei o verbo amar.
Tu foste em mim rosa florida
O rio de sal do meu olhar
Foste minha verdade polida
Meu ser, meu sentir, meu pensar.
Tu foste em mim mais do eu
Foste toda a vida a brilhar
Foste a faca que me deu
Um corte no meu sonhar.
Manuel F.C. Almeida















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Aproximaram-se como ovelhas. Todos em rebanho. A visão deixou-me repugnado. Iam voltar as conversas de circunstância, sensaboronas e desinteressantes. Assim foi, num ápice estava rodeado pela fina-flor do concelho, a olhar para mim como se fosse um bicho. Duas pessoas eram diferentes. O padre porque percebeu tudo de uma assentada e estava vigilante o GNR porque era GNR, pouco mais se lhe poderia pedir. Tinha deixado de raciocinar. O que fazia era automático. Um GNR é apenas um cão do poder. Quando este ordena ele obedece. Não existia nele qualquer sinal de eloquência. Isto é deformação pessoal, mas é o que penso.
Assim passei cerca de uma hora em companhia de bêbados, interesseiros e lambe botas. A Isabel e a fátima tinham-se retirado do quadro e não as vi até ao momento em que a Isabel surgiu:

- Dtº então fugiu de nós? Prefere a companhia feminina como vejo – disse o dono da casa, simultaneamente o bando de abutres que o rodeava sorria como se a frase tivesse alguma piada. Olhei para eles. Todos mais jovens que ele. Só um se destacava pela independência mostrada. O capitão. Todos os outros eram lixo orgânico, seres acéfalos, medíocres e subservientes. Cachorros. E eu prefiro gatos. Jovens velhos, jovens mortos sem alma sem ideais. Fazem carreira em todo o lado. Não acreditam em nada que não seja dinheiro e poder. Outros menos jovens que se tinham vendido ao sistema, pragmáticos, ainda mais desprezíveis que os ignorantes. Estes têm a vantagem de não trair nada. São estúpidos naturalmente, os outros que se venderam sabem o que estão a fazer. São desprezíveis, obscenos. E todos são iguais independentemente da cor politica. A mediocridade era a regra deste país. Os bons homens eram esquecidos e em seu lugar surgiam estas figuras eleitas com base em feudos locais e familiares. Seria para rir caso não fosse tão trágico.

- Lamento vê-lo tão frio, mas em face da companhia entendo que preferiria outro tipo de debate – disse ele com um sorriso. Tinha entendido. Mais uma surpresa. Este estava a revelar-se perspicaz. Estendeu-me a mão. Ainda pensei se corresponderia ao gesto de forma cordial. Senti que aquelas mãos estavam carregadas de sangue de milhares de inocentes. Não tive coragem de ser sincero. Apertei-lhe a mão. Merda de vida esta. As piores traições que fazemos são as que praticamos com nós mesmos.
Finalmente partiu, tendo-se despedido da senhoras e com particular atenção da Fátima, a noite ia já adiantada e nem tempo tive de conversar com ela. Quando me vltei a concentrar nela, senti que estava ausente, a minha atitude perante a religião tinha-a assustado ou algo de estranho tinha acontecido entretanto. A Isabel também notou que tudo se tinha alterado. Ao cimo das escadas vi surgir o resto dos convivas.


- a mesma razão que leva as pessoas a separem os seus caminhos. A incoerência patenteada entre a tésis e a praxis.
Fiquei-me por aqui. Não me apetecia falar. Nem me apetecia dissertar sobre o valor real que dava à Religião na história humana. Recordei com nostalgia uma frase de uma amiga sobre o tema, costumava dizer que “ não existem religiões apenas religião” radicalmente correcta.
- Mas os caminhos de Deus não devem ser confundidos com a voracidade das sociedades – respondeu. Reconheci mérito ao termo voracidade. Na verdade vivia hoje num mundo mais pobre. Menos espiritual. Tudo se compra, tudo se vende. O advento das novas formas de comunicação apenas tinha colocado a nu o vazio que cada um de nós encerra. Muitas vezes questiono-me sobre o resultado da desumanização provocada pelo falar com alguém através de um monitor.
Olhei novamente o meu interlocutor, senti o olhar das mulheres em mim. Não era agradável começar uma discussão com quem não me iria entender. Resolvi dar por terminada a conversa.
- Os caminhos da religião chacinaram milhões de seres humanos. Dispenso-os. – Respondi rápido e incisivo. Queria acabar aquilo, estava a roubar-me tempo.

- Dtº é um prazer conhece-lo. – Disse o padre. Não comungava da mesma opinião e na frieza que mostrei ficou tudo bem patente.
- Sim e a que devo a honra de tanta atenção? – Perguntei.
Olhou para mim de forma curiosa. Senti que fazia um esforço de avaliação, tentava enquadrar-me nos seus esquemas mentais. Finalmente respondeu:
- Curiosidade, simples curiosidade. Sei que não aprecia as pessoas da igreja, o que não me impede de sentir curiosidade pela sua forma de estar.
Foi surpreendentemente honesto. Coisa rara nestes personagens.
- Curiosidade em quê? – Perguntei
- em saber a razão que terá levado um homem educado no seio da igreja a trilhar outro caminho - respondeu. Mais uma vez honesto. Estava surpreendido, o mundo tem destas coisas. E o espanto é o motor do mundo segundo os gregos.
A resposta foi curta e cruel:

Na noite que me levaram ao outro lado da terra
Eu vi mortos, eu vi guerra
Vi homens com aço nos olhos
Vi todos sonhos desfeitos
De mil corpos estropiados,
Vi a morte bem presente nuns olhos amordaçados.
E os homens levavam bandeiras, hinos e mapas na mão
Levavam réguas e esquadros Pra dividir o quinhão
E tudo estava arrumado
Preparada outra guerra
Soltámos a besta no mundo
E Libertámos a fera
E em tantos anos de história afinal nada mudou:
- Um homem naquele lugar em nome de deus se imolou
- Há uma criança a morrer p’la doença que o tomou
- O herói condecorado porque outro homem matou
- O pobre que arrasta a vivência na fome que o baptizou
- O rico que nada em suor, no dinheiro que roubou.
Somos o mesmo selvagem que tudo isto alagou.
Manuel F. C. Almeida