terça-feira, abril 24, 2007


Começava a fazer sentido o que naquela manhã eu tinha descoberto.
Abri a carta com algum nervosismo. Ela apercebeu-se e disse-me que ia fumar um cigarro. Agradeci-lhe a descrição com o olhar.
A carta era-me dirigida:
“ Amigo Manuel:
Sei que virás um dia. Quando leres esta minha carta estarei algures por esse mundo, a cumprir o meu desejo. Ser útil. Aqui nada me prende. Nada tem valor. Desculpa não me ter despedido, mas não gosto de despedidas. Só me despedi de uma pessoa, da Elouise. É um diamante, uma força da natureza. Não sei se ela sabe isso, mas eu sei. Foi a ela que confiei este meu desejo, porque sei que nunca me trairá. A nossa amizade irá sobreviver ao tempo e à distância. Ambos sabemos isso.
Deves estar a interrogar-te sobre os meus motivos. Tentarei ser sintético, racional no que irei dizer.

segunda-feira, abril 23, 2007


foto by tiago
Eu
Mais não sou que vulcão
Em súbita erupção
De pétalas aveludadas.
Rio que se precipita para a morte
No desejo que em sorte
Lhe calhem margens apertadas.
Centelha de sol que massacra
Minha vida, via-sacra
Meus caminhos, minhas estradas

Eu
Mais não sou que ilusão
Miragem do vento suão
Cheio de tempo e de nadas.
Manuel F.C. Almeida







foto by Carlos Carpier

- E que lhe interessava isso? Ele não pediu a ninguém para o procurar se o fizeram e fazem é por curiosidade e como ele dizia por egoísmo.
- Egoísmo? Eu desde que o caso sucedeu que sinto necessidade de obter respostas, tinha-me por amigo dele, nunca me conformei com o vazio.
- Ele sabia que você viria um dia, sempre me disse isso. Descrevia-o como um bom amigo, alguém em quem se pode confiar. Por isso confidenciou-me uma coisa.
Acto contínuo dirigiu-se ao armário e retirou um livro. “ A Critica da Razão Pura”. Kant, o sistema, o método. O livro tinha uma capa dupla, bonita, protegida. Rapidamente rasgou a capa e na sua mão surgiu uma carta. Era endereçada à minha pessoa.
- Esperei que viesse tal como o Rodrigo me pediu. Disse sempre que viria. – Disse ao mesmo tempo que me estendia a carta.
- Porque não a entregou à polícia? – Perguntei.
- Porque o Rodrigo desejava que fosse entregue a si quando viesse, não gostava de polícias nem de autoridade em geral. Costumava dizer que a autoridade reconhece-se não se impõe. e que não é pelo facto de alguém usar uma farda que ele reconhece-se nesse alguém, qualquer tipo de autoridade.

sábado, abril 21, 2007
















FOTO BY MARIAH

Costumo cantar a amizade
E o amor sempre presente
Também canto a liberdade
Canto a mudança premente
Canto um mundo de valores
Que fui cultivando ao crescer
Canto um universo de amores
Que vivem no meu viver.
Canto a liberdade a passar.
Um mundo a existir
Canto o eterno mudar
Neste constante devir.
Faço da vida um cantar
Tento fazê-lo com arte
Sou coerente a amar
Amigo do amigo que parte.


Manuel F.C. Almeida

sexta-feira, abril 20, 2007









foto by João Camilo

Suave como a paisagem
Nos campos do sul
Tu vieste como sempre
Foste;
E do choque do passado
Com o presente
Ousámos reconstruir
O futuro,
Num querer que nos
Enlaçou num oceano de
Duvidas e temores.


Mas que sabor teria a vida
Se de certezas tratássemos?

Manuel F.C. Almeida

quinta-feira, abril 19, 2007


FOTO BY:
Luis Gonzaga Ribeiro
Devorei-te o corpo
Naquela madrugada
Em que os espíritos
Habitaram
A minha vontade.


Manuel F.C. Almeida


foto by Angelica

Olhei para ela. Parecia tão certa de tudo o que dizia respeito ao desaparecimento do Rodrigo que pela certa saberia muito mais. Era estranho, afinal eu não conhecia nada do rapaz. Cada passo, pequenino que fosse, revelava-se um mundo novo, um homem desconhecido.
- Porque diz isso com tanta certeza? – Perguntei.
- Pelo simples facto de ter sido a confidente dele durante meses. De ter partilhado os seus sonhos, os seus medos um pouco da sua vida. – Respondeu
- Amaram-se?
- Sim! Como amigos, confidentes, como ombro do outro. Nada físico, éramos profundamente semelhantes em muita coisa, no entanto a paixão romântica nunca nos tocou. Devorávamos as horas a conversar, excomungámos muitos fantasmas, enfim, de alguma forma éramos almas gémeas que se encontraram, mas unicamente amigos.
- se sabe assim tanto sobre ele saberá ao menos porque simplesmente resolveu desaparecer sabendo que isso iria trazer trabalhos a muita gente?

quarta-feira, abril 18, 2007



foto by:

MARIAH

Chegaste no ventre do
Tempo,
Como um qualquer
Alquimista do amor.
Transmutas-te o teu ser
Em mil sentidos
Numa alegoria cabalista
E eu bebi-te num cálice
De escrituras celestes
Saído da dança previsível
Dos planetas.
E enlaçados numa valsa
De olhares
Fizemos dos sonhos
acontecimentos, lugares.


Manuel F.C. Almeida

terça-feira, abril 17, 2007



foto by

Kazuo Okubo

Suspenso em ti
Vivi
A tormenta de não
Existir.
Agora, insaciável
Me fiz
No desejo de te ter...
feliz.

Manuel F.C. Almeida



FOTO BY

Luna Alba

- Se quiser almoçar connosco terei todo o prazer em a convidar – disse eu – e simultaneamente poderei fazer-lhe algumas perguntas sobre o meu amigo.
Os seus olhos ganharam vida e foi sem surpresa que a ouvi dizer
- Terei todo o prazer, isto é se não existirem objecções – e olhou para a Isabel. Esta corou um pouco mas depressa respondeu:
- Claro que ficas, vamos almoçar a um local lindo, perto do rio. Tu conheces ele é que não. Olha, agora tenho de ir. Deixo-vos sozinhos. Tu vê lá nada de seres abusador – simultaneamente soltou uma ruidosa gargalhada como só ela o fazia.
Fiquei só com ela. Confesso que estava um pouco intimidado, desde há algum tempo que ficava assim quando me via junto a mulheres mais jovens. A idade prega-nos destas partidas.
- Estava aqui a mexer nas coisas do Rodrigo na esperança de encontrar algo que me dissesse onde poderá estar se é que está vivo – disse eu.- Acredite que ele está vivo, não tenho dúvidas disso, resolveu deixar a vida que tinha e partir para outro mundo, outra realidade. Estava sozinho, não tinha ninguém e estava farto da nossa sociedade. Não ficava admirada se o soubesse em África ou em qualquer outro local do mundo. Um local onde se sentisse útil e onde encontrasse sentido para a sua vida. – Disse ela

segunda-feira, abril 16, 2007



foto by carlos pereira

Nos teus lábios
De romã
Bebi o ópio
Da minha existência.
Queria pois ser
O teu raio de noite
Numa dança de ventres
Famintos,
Saciar-te essa sede
De águas cálidas e puras,
Invadir-te a alma e
Consumir-te na antecipação
De um olhar
Feito de prazer.

Manuel F. C. Almeida

domingo, abril 15, 2007



foto by Helder Vasconcelos

Agarrei o teu ventre
Pela boca.
Provei-te o ser
Com um olhar.
Soletrei a dois o
Verbo amar.
Fiz da tua púbis
Meu lar,

Meu jardim
Meu universo...

Meu sonhar.

Manuel F.C. Almeida

sábado, abril 14, 2007












Notas soltas
Nas madrugadas agrestes
E sombrias
De um olhar morto
No tempo.
Notas soltas
De uma sinfonia de
Pétalas dançantes
No vento.

Foto by Filipe Pereira

Manuel F.C. Almeida

foto by:
Helena Margarida Pires
de Sousa
- Olha que bela surpresa a Elouise resolveu fazer-nos uma visita.
- Assim vejo – disse a sorrir. Ela também sorriu, era gentil e simpática, diria docemente simpática.
- Boa tarde – disse, ao mesmo tempo que me estendia a mão.
Retribui o gesto e perguntei:
- Que a traz por cá? Ou é visita habitual?
- Quando o Rodrigo por ai andava vinha muitas vezes conversar com ele – respondeu.
Isso aguçou-me a curiosidade. Teria conhecido bem o rapaz? Aquela notícia era duplamente agradável. Ela tinha vindo ao campo e eu tinha uma boa desculpa para passar algum tempo a conversar com ela.
- O Rodrigo costumava dizer que a Elouise era a melhor amiga que poderia ter tido por aqui – disse Isabel.
- Ele é que era um grande amigo, tinha um coração do tamanho do mundo e uma alma de todo o universo – respondeu ela.
Fiquei a olha-la, cabelo negro, solto, comprido, olhos azuis da cor do céu, uma face bonita e uma expressão sempre jovial. Se aliar a tudo isto o interesse do Rodrigo, diria que era forçoso que a conhecesse.

sexta-feira, abril 13, 2007



Foto de A.BRITO

Concebo em mim a existência
De uma mão que se quer nua
Ávida, sedenta e pura
Como sombras vivas
De lua.
Manuel F. C. Almeida



foto by:
Helena Margarida Pires
de Sousa


No meio de tanto livro, uma obra intitulada “A angústia da brancura do papel”, achei curioso o título e tirei a obra. Ao abrir tive uma surpresa. Poesia, estava cheio de poemas escritos pela mão do autor. Alguns com o nome dele outros com um pseudónimo “ Bartolomeu”. Recordei de imediato a mítica passarola do tão célebre Bartolomeu de Gusmão. Curioso o pseudónimo. Afinal o Rodrigo revelava-se algo diferente do que supunha conhecer. Amante de filosofia, amante de poesia, que mais me esperaria? Folheie o livro e fui lendo alguns poemas. Poemas de amor quase todos. Alguma prosa, pouca e algumas cartas ou esboços das mesmas. Endereçava-as sempre a “ meu amor” não colocava nomes.
Procurei vislumbrar algo que me pudesse ajudar na minha procura. Nada me indicava o que teria sucedido. Guardei a obra na minha mala e continuei a mexer nos seus livros. De repente a Isabel voltou. Vinha acompanhada pela Elouise. Estranhamente fiquei duplamente agradado.
Ambas estavam deslumbrantes. E dei comigo a sorrir com o olhar. Um sorriso que vinha de dentro de mim. Um sorriso elaborado com a alma.

quinta-feira, abril 12, 2007


foto ABRITO
Numa barca feita de ventos,
Transporto o meu ser
De tempo erguido.
E desejo que ele
Consiga voar.
Na procura de uma corrente,
Consumo o meu querer
Num gesto esquecido.
E desejo que ele
Consiga navegar.
Na fogueira que me consome,
Tento salvar um sonho
Já quase perdido.
E desejo que ele
Consiga ficar

Um pouco mais que só sonho.
Que fique barca de tempo.
Raio da noite.
Luar.

Manuel F.C. Almeida


foto Alvaro Ennes

- aqui está a estante do Rodrigo. Conservei tudo intacto. – disse a Isabel.
- isso é fantástico. Posso dar uma vista de olhos?
- claro, esta manhã estamos a preparar o relatório pra te apresentar à tarde, por isso fica à vontade.
Foi o que quis ouvir. Ela agarrou numa pasta e saiu deixando-me só. Abri a estante e comecei a ver os livros que tinha. Fernando Pessoa, A. O’Neil, Florbela espanca, Mário de Sá carneiro, Al Berto, o rapaz tinha muita poesia. Noutro local obras de agostinho da silva, Kant, proudon, Sartre, Freud e outros filósofos. Ainda tinha dezenas de livros técnicos e alguns romances. Achei curioso um facto os romances presentes eram todos obras especias. Trópico de câncer, o velho e o mar, 1984, o ano da morte de Ricardo reis, escuta Zé ninguém, as vinhas da ira, os grandes mestre, a náusea, a peste e muitos outros. E o mais curioso, toda a obra de cortomaltese. O rapaz era um libertário, esta palavra nova que pretende designar os anarquistas. Na verdade com a massificarão do valor negativo dado ao conceito “ anarquia” o movimento teve de tentar fugir às garras desta sociedade. Assim criou o conceito de libertário. Inatacável em termos semânticos.

quarta-feira, abril 11, 2007


Foto de A.BRITO
A cor deste poema
Inunda-nos de mar.
Uma maré-alta invade o
Nosso ser
Na derradeira sinfonia
De um olhar
Que se quer presente,
Que se quer real,
que se quer...viver.

Manuel F.C. Almeida


foto Francisco Benveniste

Chegamos, fomos os primeiros à excepção do rapazola que tinha levado as bofetadas.
Veio cumprimentar-me meio desafiante, meio receoso.
- Bom dia professor, então domou a fera?
Olhei o rapaz e não consegui reprimir o asco que me deu.
- Olhe desculpe, mas refere-se a quem? Há mulher que lhe deu uma bofetada devido á sua atitude de criançola? Se é a ela que se refere fique a saber que foram muito bem dadas. Por outro lado e sendo já adulto na aparência, porque se refere a uma mulher como se fosse um animal? Por ultimo, só uma cabeça doentia pode insinuar que conhecer uma mulher tem como fim “ doma-la”. Não sei quem você é. Nem a sua idade mas infelizmente reparo que em matéria de comportamento você é do pior que conheço. E acredite, conheço muita gente medíocre e pequenina como você! – Retorqui, sem lhe apertar a mão que tão solicitamente me estendia.
A Isabel cortou o ar gélido que se tinha formado. E arrastou-me para o seu escritório.Estava indignado. Como era possível que gente com formação superior tivesse aquele tipo de comportamento? Onde se tinha perdido a noção de excelência que era suposto a universidade transmitir? Tínhamos perdido tudo. O saber, o amor ao saber e a capacidade de respeitar o próximo. Afinal em que mundo vivíamos? Uma selva de ignorantes