domingo, fevereiro 25, 2007


O carro parou finalmente, diante de mim uma casa pequena pintada de branco com barras amarelas e com portas e janelas de madeira. A Isabel saiu do jipe com uma agilidade surpreendente. Segui-a com a mala na mão. Ela tinha a chave da casa. Entrámos. Senti o contraste do calor da rua com o fresco da casa. Belo, ao menos não ia necessitar de ar condicionado. Há anos que tinha alergias devido a isso. Olhei em redor. A decoração era frugal, a suficiente para mim. Tinha até uma televisão o tal aparelho que, segundo Leo Ferre, não passa de um polícia que temos em casa.
- Aqui vai ser o teu ninho enquanto estiveres connosco. Descansa, logo venho buscar-te para te apresentar o resto da equipa. - Disse ela.E fez questão em me mostrar todas as divisões da casa. Uma pequena casa de banho, uma cozinha com sala comum um quarto amplo e muito fresco

sábado, fevereiro 24, 2007





A POESIA. SEMPRE ELA A LIBERTAR-ME







Nas mil folhas
De cetim que guardas
No peito
Existe um rio
Feito de amor
E de olhares que
As águas esquecem.
Em ti me dilui e me
Desfiz.
Em ti sou apenas
Gota de orvalho
De uma madrugada
Esquecida.


Manuel F.C. Almeida

- Não te pergunto como nem onde foi – disse. – Basta de palavras que nos façam chorar. Vem vou levar-te à tua nova morada, tenho ali o jipe- disse, mas o seu semblante nao deixava margem para dúvidas. estava profundamente magoada, mas a Isabel era assim mesmo.
Seguimos a rua principal da terra. Casas brancas, de um branco imaculado, ladeavam a rua. Poucas pessoas davam àquele lugar um ar fantasmagórico. O calor fazia sentir-se de uma forma assustadora. De repente vi novamente a minha companheira de viajem. Estava a sair de uma casa imponente. Uma casa que deixava descobrir a sua origem social. Delicadamente acenei-lhe com a cabeça ao que ela retorquiu com um gesto breve e curto.
- Já fizeste amizades? – Perguntou a ela a sorrir – tem cuidado podes vir a dar-te mal – concluiu.
-porquê? – Perguntei
- Logo te digo, mas tem cuidado, esta terra tem segredos que não convém descobrir.
Aquela parte do diálogo fez disparar a minha curiosidade. Que segredos poderiam estar por detrás daquela mulher?
(continua)

sexta-feira, fevereiro 23, 2007

PORQUE A POESIA É UMA ADICÇÃO.


Há palavras que nos roubam horizontes
E nos precipitam da voragem dos sentidos
Agora só, ante mim mesmo tenho
Uma vida colada á pele
À mesma pele onde nos dias
De primavera
Tu passavas o teu olhar de mulher
Apaixonada.
e saciavas a tua sede de amar.
Agora, neste Inverno que é o meu
Sarcófago
Tenho de encerrar o que poderia ser.
E sinto-me como um grão de areia
Face ao Oceano
Um dia nada restará dele.
Um dia nada restará de mim.
A erosão dos sentimentos também
Mata.

Manuel F.C. Almeida

-tens um lenço? Sou um incorrigível chorão – disse.
- Aqui está – retorquiu – sim ainda me recordo bem, foste dos poucos homens que vi chorar num filme – e sorriu como que a convidar-me a fazer o mesmo.
Sequei as lágrimas, esperei que a sensação perturbadora se fosse. E voltei a olha-la de frente. A mesma face bonita, os mesmos olhos cheios de vida, o cabelo mais curto mas sempre cuidado, o corpo pequeno e franzino faziam dela uma boneca de porcelana. Recordei os dias em que a seu lado percorria, alegremente, as areias da ilha de Tavira, ou a loucura que tinha sido o nosso namoro nas ruas do Barreiro. Tinha-mos vivido tanta coisa juntos. Quando nos pareceu que tudo tinha acabado, despedimo-nos com um longo beijo, selando uma amizade que o tempo nunca iria apagar. Continuava linda. Sempre fora uma mulher bonita e jovial mas agora estava mais velha e parecia mais bela ainda.

quinta-feira, fevereiro 22, 2007


HOJE NAO ESCREVO NADA MAIS, FAZ ANOS QUE PERDI UM AMIGO QUE NOS DIZIA:
"AMIGO MAIOR QUE O PENSAMENTO
POR ESSA ESTRADA AMIGO VEM
NAO PERCAS TEMPO QUE O VENTO
É MEU AMIGO TAMBÉM"
Hoje estão de luto todos aqueles que um dia acreditaram no sonho que o Zeca cantava. O mundo livre é cada vez mais uma utopia. Mas saibamos sonhar e ela nunca morrerá.
Manuel F.C. Almeida

quarta-feira, fevereiro 21, 2007

sexta-feira, fevereiro 16, 2007




-como está a Fernanda – perguntou
Obviamente não sabia, respirei fundo. Ela adivinhou que algo não estaria bem.
- que foi? Estás bem?
- a Fernanda morreu num acidente de viação a camiho de Tavira- retorqui.
Ficou a olhar para mim sem querer acreditar no que ouvia. Tinha sido ela a apresentar-me a minha companheira. Tinham sido colegas na faculdade e tinham sido cúmplices em muitos momentos da vida. As lágrimas correram nas nossas faces e foi naturalmente que nos abraçámos um ao outro. Senti-me confortado, amparado. O último ano tinha sido difícil para mim. A morte dos meus pais e a morte da mulher que amava precipitaram a minha vida num inferno do qual começava timidamente a sair.

- Bem-vindo Dtº, foi boa a viajem?
Quem se me dirigiu assim foi a funcionária do departamento de historia natural sediado naquele lugar.
A voz era conhecida. Senti o coração a acelerar. Não podia ser. Rodei sobre mim mesmo e encarei-a de frente. Era ela sim. Um pouco mais velha, mas a cara de menina mantinha-se a mesma. Tive dificuldade em responder. Ela apercebeu-se:
- Então já não falas a uma velha amiga –
Acto contínuo piscou-me o olho. Quase que me apanhava desprevenido. Tive vontade de a beijar como anos antes fizera. Recuperei o sangue frio. E finalmente retorqui:
-Olá Isabel, sempre linda e bem disposta.
O sorriso franco e aberto com que sempre me presenteara abriu-se ainda mais. Recordei a forma bonita como tinha terminado a nossa relação. O mesmo sorriso. Beijámo-nos na face como dois desconhecidos. O aproximar do seu cheiro e as minhas memórias fizeram sentir-se em mim. Aspirei bem o seu odor. Sempre me tinha deixado louco e ainda assim era.
(continua)

Conto


A mulher olhou-me com espanto. Tinha-lhe dito que não acreditava em deuses nem na vida depois da morte. Logo não acreditava na justiça de Deus. O seu olhar reflectia um misto de condenação, revolta e curiosidade. Afinal quem era eu? Um perfeito desconhecido, vestido de forma diferente e que trazia com ele hábitos e costumes estranhos.
Não retorquiu, tal a convicção que viu nas minhas palavras. O som dos travões do comboio interrompeu aquele momento de algum embaraço para ambos. Havia chegado ao meu destino. Também ela se apressou a sair. Infelizmente calculou mal a altura do degrau e caso eu não a tivesse amparado teria caído. Olhou-me com agradecimento e um leve rubor na face denunciou o quanto se encontrava embaraçada. Devolvi o olhar com um sorriso franco e aberto. Olhei agora de forma demorada a sua face. Era branca, coisa que a escuridão da carruagem não tinha deixado ver. Extremamente magra, a sua silhueta assemelhava-se à de uma bailarina. A iluminar a face uns olhos verdes como nunca tinha visto e um cabelo negro, de um negro poderoso. A minha estadia naquele lugar poderia tornar-se interessante.
(continua)

FOR THE ONE I LOVE

Sim, eu sei que partimos,
Tal como um barco
Se faz ao largo, fugindo das suas
Amarras. Ele quer-se
Livre.
Sim eu sei que ficamos
Presos na memória
Como umas algemas
Que colamos à pele.
E quando uma brisa se levanta
É como se o barco ganhasse
Asas e voássemos com ele.
E livres e amarrados
Voamos nessas viajem. Olhando
O passado com um sorriso
Nos lábios
E uma gota de eternidade
Na alma.

Manuel F.C. Almeida














Eu em tempo fui ave
Que suavemente depositava
O seu canto
Na espuma das vagas
E fugia da rebentação.
Saudava sempre a maresia
O luar e a neblina
Como se fossem minhas
Irmãs.
Fazia do meu voo
Livre um convite
Ás almas puras e límpidas
Como a tua.

E convidei-te a voar
E tu voaste,
Não pensei no golpe
Vento
Quando me abandonaste.
Não mais voei livre.

Manuel F. C. Almeida

domingo, fevereiro 11, 2007
















Já é tempo de acabar com esta sede
De sangue, de morte, de terror.
Já é tempo de viver sem o horror
De pensar que a vida a tudo cede

Já é tempo de acabar com a insanidade
Dos deuses, das pátrias, das bandeiras,
Dos territórios e das fronteiras
Porque o nosso mundo é a humanidade.

Já é tempo de agir sobre o que se faz
De plantar no nosso peito uma flor,
Depois, tratar sempre dela com amor
Construir com nossas mãos a nossa paz.

Manuel F.C.Almeida

Poema gentilmente lido pela minha amiga
Maria José na biblioteca onde trabalha
Num encontro temático de poesia
Diz-me, algum dia paraste a ver crianças a brincar? Ou ouviste as gotas de chuva e explodirem em mil pedaços? Ou algum dia tiveste coragem para perseguir uma borboleta? Ou sentiste falta do sol, quando a noite tomou conta da tua alma?
Não dances tão depressa, o tempo é curto e a musica não dura sempre.
Passas pelos dias depressa demais, passas como se fosses uma águia no seu voo picado. Quando perguntas “como estás?” consegues ouvir a resposta?
E quando o dia está terminado consegues deitar-te sem mentir e calar os milhões de perguntas que atravessam o teu cérebro? Sempre te disse que o tempo tudo trata, até as feridas feitas com omissões, feitas pelo olhar de pontas aguçadas como mil adagas.
Como sabes todos os pequenos golpes fazem morrer a amizade, e uma amizade só morre se nunca o foi.
Quando fugiste na procura de uma luz renovada sem ao menos dizer “olá” perdeste o melhor da festa. A tua parte ficou inacabada e com o tempo verás que a vida se tornou num presente por abrir.
Sabes a vida não deve ser uma corrida, procura senti-la enquanto podes. Ouve a musica que a natureza faz chegar a todos nós, ouve bem antes que ela acabe.

manuel almeida













Já tantos cantaram o amor
Por tantos olhares já foi visto
Com olhos de luz e de dor
Que não chamo canto a isto

Irei chamar-lhe um lamento
Por de ti ser já ausente
E recordar o momento
Em que em ti era presente

Daqueles dias luminosos
Em que me chamavas amor
Com olhos tão radiosos
Meigos, cheios de calor

Dos momentos sem palavras
Em que me olhavas com paixão
E dos mil beijos que me davas
Cheios com o teu coração

Resta-me pois recordar
Com carinho e com saudade
Os dias em que a amar
Conheci a felicidade

Manuel F. C. Almeida

quarta-feira, fevereiro 07, 2007


Há muito que me perseguiam. Dei conta disso ao virar o monte dos teus seios. Na tentativa de os despistar procurei esconder-me no teu corpo. Ainda assim o som que faziam chegava até mim. Fiquei escondido no aconchego da tua púbis, num vale de caudais incessantes e onde a vida brilhava como um estrela. Estavam cada vez mais próximos. Eles traziam cães de faro apurado e habituados e este trabalho de busca. Cães treinados para acossar pessoas como eu. Felizmente uma leve neblina levantou-se e durante algum tempo protegeu-me. Mas eu pressenti que ia ser sacrificado aos cães. Era uma questão de tempo. Ainda te perguntei se não seria melhor partir de imediato. Mas o teu olhar de mariposa acalmou-me e placidamente não quis acreditar no que era evidente. E adormeci até ao momento em que o silêncio me feriu o coração com tanta ausência. Um rio de prata saia do teu olhar e assim fiquei. Quieto, solicito, mansamente adormecido. E quase esqueci a caçada. Mas eles eram mais poderosos. Tinham notícias frescas e o charme discreto dos cães que vivem para o dono. Sim o dono. Estes cães vivem sempre em torno dos seus donos. Alimentam-se do sangue dos que o dono domina. Exercem a sua influência e com mandíbulas poderosas destroem tudo o que se lhes atravessa no caminho. Mas eu estava escondido, a neblina protegeu-me e fiquei quieto, escondido, adormeci um pouco. Mas eles já tinham entrado na tua casa, eu já era um estranho, um peso morto. Carregaste-me algum tempo, talvez por comodismo ou por agradecimento. Afinal eu sempre te tinha dado o arco-íris da sinceridade, do amor, da amizade. Tinhas percorrido comigo o mapa da tua fuga e juntos tínhamos enfrentado as tempestades mais agrestes. Mas eu não vi o teu querer estar ausente de mim. Nem a nova estrela que plantaste no olhar. Até que os cães me atacaram. Estava nu, como sempre estive para ti. E tu deixaste-os entrar, e nu fui sacrificado no altar do tempo, da omissão e da mentira. Talvez seja o que mais recordo. Aquela mentira nauseabunda que tresandava a esgoto. Uma mentira que não mais viverá perto de mim nem em mim. Escrevo isto exactamente para exorcizar o meu ser. Sarei as feridas, mas as marcas estão ainda presentes. E sei que vão sangrar, como um rio. Um rio amarelo com milhares de pequenas moléculas douradas, que se escapam de mim e vão tingindo o mundo que me rodeia. Mas como rio de caudal violento, não me deterei em lugar algum. Nasci rio na tua ausência, assim ficarei. Sem faltas porque a ausência, essa ausência de que falo, é minha na eternidade.
Manuel F. C. Almeida

Eu escrevo poemas sobre mim.
Poemas esdrúxulos, pintados
Pelos meus olhos. Talvez seja
Só para mim que escrevo poemas
Sem sentido para outros.
Se fosse um poeta
Todos entenderiam o que escrevo
Assim limito-me a escrever para mim.
Poemas, pedaços de mim
Poemas que não têm fim.

Manuel F. C. Almeida















Que cansaço. Diria que beijei
A alma de uma ninfa, e que vi
Brotar desse beijo uma pétala
Pintada de azul-marinho
Dói-me a alma, uma dor tão
Lancinante que me transformou
Num homem feito de palha.
Já não sei o que sinto ou se sinto.
Deixem-me dormir a eternidade.
Eu já não quero acordar.
Tenho um sarcófago feito de mar
Sim! Deixem-me encolher
Neste útero que é só meu
Vida, morte, já tudo aconteceu.
Para quê reviver?
Eu só quero adormecer.

Manuel F. C. Almeida

Estou a desagregar-me. Sinto-me como um relógio nas mãos de um pequeno curioso.
As peças soltam-se e já não se recuperam. Mecanismos que se perdem, que se deitam fora. Assim me sinto. Talvez me torne num anjo azul. Sim, azul, porque eu gosto de anjos azuis. Gosto da cor da sua pele, e gosto também das suas asas. Como lhes invejo as asas e a silhueta. São todos brancos os anjos, alguns também são azuis, é desses que gosto mais. Se me tornar num anjo quero ter asas azuis também. Azuis e transparentes para ninguém ver. Só eu saberei que sou um anjo. Não me interessam os outros. Serei um anjo egoísta. Sim, é isso que desejo. Ser um anjo azul e egoísta. Amar mil vezes e em todas morrer. Não vale a pena viver depois de amar. Ressuscitar quando se encontra um novo amor. É esse o segredo. Porque quando chega o amor é como uma leve brisa, incerto e incoerente. Uma pétala de sangue que nos sai do querer. Retirada da alma e desfolhada em malmequer até ao momento em que a mão que desfolha nos tira a ultima pétala e a sopra no vento, com um misto de impaciência e tédio. Fomos tudo, somos nada. Que mundo de merda. Todos somos flor e todos somos mão. Deixemos livres as pétalas que voam no vento, talvez os anjos azuis as façam reviver.
Manuel F.C. Almeida
















Tempos idos
Em que a vida sorria
Ao sol de cada dia
A terra era uma cornucópia
De flores, de frutos, de mel
Que eu sempre percorria.

Agora cavo
Funda a minha sepultura
E a minha enxada,
Revolve cada dia mais terra
Inerte.
Na busca de um tesouro
Que perdi.
Ao ver-te partir
No olhar da guerra.

Manuel F. C. Almeida