
CONVITE
FOTO BY:
A Serenidade do olhar
Resolve-se na sensualidade
Do convite à luxúria.
Manuel F. C. Almeida
Eu pertenço a um outro país que não o vosso, a um outro quarteirão, a uma outra solidão LÈO FERRÉ

FADO
Na tua voz encantada
O meu nome soa a espanto
Parece gume de espada
Parece grito de pranto
Não digas pois o meu nome
Trata-me antes por amor
Que assim matas-me a fome
Do teu corpo, teu calor
Que assim matas-me a fome
Do teu corpo, teu calor
Prometo levar-te uma rosa
Ao altar do meu olhar
Prometo levar-te uma rosa
Ao altar do meu olhar
Farei poemas e prosa
Pró nosso amor declamar
Farei poemas e prosa
Pró nosso amor declamar
E se voltares a cantar
Com tua voz encantada
E se voltares a cantar
Com tua voz encantada
Pela certa vais encontrar
A minha alma deslumbrada
Pela certa vais encontrar
A minha alma deslumbrada.
Manuel F.C. Almeida


SOU
foto by: grENDel
Mil marés
Que se renovam
Na rebentação do olhar!
Pedaços do meu viver,
Poemas do meu cantar,
No mistério do meu
Ser.
Manuel F.C. Almeida

Já Morreu e deixou um conselho aos jovens:
- Vão prá puta que os pariu.
Eras poeta, ensaísta,
Chulo e putanheiro
Mulherengo, paneleiro
De Lisboa eras cronista.
Viveste a vida que querias
De costas para o poder
Nunca vendeste o teu ser
A toda a gente fodias
Livre foste camarada
Até ao dia final
Fica cá a carneirada
Neste triste Portugal
Manuel F. C. Almeida






CANTO
foto by:Nuno Manuel Baptista
Estende a tua mão na minha,
Deixa-me colher nela os dias
Que passei sem te conhecer
E descobrir nela o prelúdio
Desta madrugada.
Deixa-me desenhar-te os dedos
Com os dedos.
Tomar-te os seios nos lábios
E o ventre no ventre
Deixa-me respirar o teu perfume
Sobre as águas plácidas do amor
E despertemos de mãos dadas
Numa alvorada imortal.
Manuel F.C. Almeida



REFUGIO
foto by:Margarida Gautier
Procuro sentido
No sentido da vida .
Pergunto perdido
O que não sei encontrar.
Agarro a canção
Que passa no ar e
Com ela me encanto,
No leito do mar.
Manuel F.C. Almeida

ARTE
foto by:Quark
Pintei a noite de prata,
Fiz do teu olhar o meu rio,
No teu corpo cantata,
Com que me corpo sorriu.
Pintei a noite de prata,
Matei assim este frio.
Manuel F.C. Almeida


AUTORETRATO
(PARTE 2)foto by: Heliz
Abraçar os tempos de solidão em que o céu se derrama na nossa alma e o universo se consome dentro de nós. A isto tendo a chamar “eu”. Faço destes longos momentos um trilho de percursos errantes, na esperança vã de encontrar algures a resposta para estar aqui. Sou o que não fui. Fui o que não quis. Quis o que não podia. Uma trilogia Hegeliana que me conduziu ao desespero de existir sem acontecer. Abandono-me na vertigem de querer ser o que não sou. Num registo circular condenado. Um momento perdido, sem face, sem nome, sem vida. Um ensaio testado pelos Deuses. Um excremento químico, animado de vida por cordas de marioneta. Uma singularidade atómica. Vida. Morte. Momentos de desespero, ejaculatórios, orgásmicos, em que tudo termina e reinicia sem formulas conhecidas ou teoremas intricados. Não somos nós que nascemos e só nos conhecemos na morte.
Manuel F. C. Almeida

EM TI
foto by:Heliz
Vivi no teu olhar
as madrugadas,
Feitas de sonhos
e de prazer.
No teu amar
Desenho o trilho
Para me encontrar
E me perder.
Manuel F.C. Almeida


Palavras
foto by:Paulo Madeira - www.paulomadeira.net
Quando as palavras se revelam
Nada mais significar,
Faça-mos delas lições
Que o tempo fará perdurar
E cavalguemos a vida
P’rá vida nos libertar.
Manuel F.C. Almeida



TEU OLHAR
foto:Cristye
Amarro em mim os
Filhos da lua, com fios
Roubados de um casulo
De palavras errantes.
Prateados, os corpos
Elevam-se numa ária
De sensualidade, no desespero
Das palavras que se perderam
No mar.
Tuas lágrimas, mundos
Perfeitos de sal,
Que cintilam na escuridão
Do luar, caem como flocos
Numa manhã que desperta
A cor da vida
Em teu olhar.
Manuel F. C. Almeida



INTERROGAÇÕES
FOTO BY: Heliz
Tenho uma estrada à porta de casa. Uma estrada que me leva para lá dos sonhos vazios e inócuos onde ninguém pode viver. E é assim a vida, corre num sentido só. Ilusoriamente pensamo-nos donos do caminho que se estende sem horizontes. Olhamos os espelhos e pensamo-nos livres nas escolhas, mas não há liberdade na vida, não há liberdade no drama da existência. Mais tortuoso e longo é o caminho cabalístico dos teoremas indecifráveis, segredos de vida, gravados a sangue na pele ao nascer. Choramos no desespero do oxigénio que nos consome as células virgens num primeiro minuto de infelicidade que se perpetuará no tempo até ao derradeiro sopro libertador.
Manuel F. C. Almeida

Fui eu
foto by: Carla Broekhuizen
Sim fui eu que fechei as cortinas
Antes do nascer das águas
E da morte lunar por detrás dos montes.
Quando olhei
Já o sol subia nas asas de uma gaivota
Ao som dos regatos escondidos
No colorido das harpas ao vento
Numa alvorada marinha.
Das margens deste lago invisível
Uma espada cruzou o tempo
E quedou-se
Parada entre a frescura
Da carne e o medo
Da morte.
Quando olhei
Vi o gume dobrar
O poema da vida,
E a canção das areias
Correr em vagas de luz,
Agonizante e bela
Ao encontro da sombra
De mim.
Manuel F. C. Almeida

COMO?
FOTO BY:Nuno Belo
Castanhos, os teus olhos
Entraram em mim e
Devastaram a verdade
Que tinha.
Trocámos as mãos
E os corpos,
Mas o medo do tédio,
E do passado dançava
Diante de nós.
Só este sentir mais que sentir
Pode vencer os fantasmas.
Só ele pode levar-nos de
Viajem.
Manuel F. C. Almeida



CONCEITOS
FOTO BY: Fernando Figueiredo
Nas minhas palavras os nomes surgem dos escombros das memórias e do frio das sombras projectadas em jardins mortos nas ilhas intemporais. Nas minhas palavras as azinheiras crescem lentamente sem sentido e os olhares escondem algumas verdades cruéis. Palavras que se escondem no segredo das palavras contidas noutros olhares. A crueldade dos silêncios faz crescer a crueldade dos olhares. As mãos tingem-se com o sangue derramado nas omissões egoistas que desejamos conseguir.
Como odeio a caridade altruista que se pinta de boas intenções.
Manuel F. C. Almeida

