terça-feira, janeiro 30, 2007


















Humano sou, homem me fiz
Trago um sentir, de coração feito,
Sei falar e ouvir o que diz
Quem me viveu dentro do peito

Amo a poesia e a madrugada,
Amo o vento, o canto e o mar,
Amo a lua, minha namorada,
E trago em mim a brisa a cantar

Tenho um amor no meu passado
Que eu pretendi apagar
Um amor que tenho cantado
Na vã esperança de o negar.

Mas é tão nobre tudo o que sinto,
Tão dolorosa a sua ausência
Que ao mundo penso que minto
Quando nego esta evidencia

Mas amo todos os que são
Dignos da minha amizade
Toco-lhes o coração
Pra esquecer esta saudade.

E aos que costumam passar
Com suas tristezas e dor
Digo que saibam esperar
Talvez reencontrem o amor.

Mas canto e escrevo o sentir
De alguém que a vida tramou.
De alguém que não quis mentir
De alguém que se sacrificou.

Talvez não seja um amigo
Que se queira ter por perto
Trago fantasmas comigo
E o coração num aperto.




(a partir de um tema de Vinicius de Morais)
Manuel F.C. Almeida



Tinhas no olhar uma chama imensa
Nas palavras, um medo que entendo
Afinal fui só mais um remendo?
Ou o sentir de uma ideia intensa?

Nas tuas palavras habitam cautelas
Provocadas por esse teu medo
Mas deixa que te diga um segredo
Também eu penso muito nelas

Porque já chega de sentir tristeza
Onde deveria sentir felicidade.
Amar-te na eternidade
É fazer um poema com tua beleza.

Manuel F. C. Almeida



Pelas noites
Que se vivem em silencio,
Os lobos uivam
E o universo fica vazio,
De sinais que não recordo.
Não suporto que o corpo
Se tenha zangado com o corpo.
Afinal tudo cansa.
A acabamos em trilhos
Estranhos
E adornados por espartilhos.

Manuel F.C. Almeida



Já sinto no ar
O teu aroma.
Escrevo nas águas
Versos para te cantar.
Versos de ternura
Infindável.

Agarro os teus
Movimentos no cérebro
E esqueço
A dor dos meus
Dias de angustia
Intolerável.

Paro ao primeiro sinal.
Olho-te nua
Numa movimento
De aguas sem caudal.
E aí ficaste… humanamente
Imperdoável.

Manuel F.C. Almeida


Ainda recordas as
Palavras simultâneas
Ditas no calor da paixão?
É sempre assim,
Idos os tempos
Deixa-se a mão
Que um dia
Se estendeu,
Cair no vazio.
E assim acontece
O amor.

Nunca é simples saber o lugar que escrevemos. Nada mais somos que alguém sem face mas a quem as palavras descrevem. E a nossa vida sempre se subsume noutra vida, á medida que nos conhecemos. Por vezes creio que a minha escrita nasce onde eu morri. Escritos de água que se espalham com o tempo, como uma onda. Recordas-te de te dizer que não desejava ser conhecido? Era mentira. Motiva-me a ambição de um dia, sim um dia, ver tudo isto publicado. Não vale a pena mascarar o que desejo. Quero morrer todos os dias nas mãos de um leitor anónimo. E ao morrer ressuscitar e trazer novos escritos, qual Fénix. Se mudou de dono um poema, escrevo outro e mais outro, como se uma cornucópia se tratasse. Claro, sei que dessa forma tudo se torna obscuro, já não sou eu que dou ao poema o seu valor conceptual, Mas que fazer? É a vida.
Ontem, por acidente, escrevi no vento um poema de aromas silvestres. Nem sei onde pára. Seres estranhos a mim ocuparam-me o espaço. Fiquei a olhar o ondular das searas,
O assalto das marés e o bambolear gracioso das ancas de uma mulher.
Recordas-te de te olhar como se foras uma traineira em noite de vendaval? É assim que eu a olhei. E de espanto em espanto descobri que afinal o mundo não é feito por poemas meus, antes sou parte de um poema sem título. Anónimo. Como se pode ficar admirado por coisas tão pequenas? Por vezes recordo-me daquelas tardes em que saciávamos os instintos no corpo do outro. Mas é só mesmo memória. E memórias, tenho tantas que confundo os cheiros com os corpos, as faces com o desejo e a suavidade de um olhar com a sinceridade das palavras. Sim as palavras ditas e não ditas costumavam assaltar-me o sono. Felizmente que outras palavras se chegaram, outras faces aconteceram e novos aromas se abriram. Abro agora uma garrafa de vinho. Um vinho saboroso. O vinho de quem ama a vida acima de tudo.

segunda-feira, janeiro 29, 2007


poema
EU VI A LUZ QUE TRANSPORTAS
SOBREVOAR A VIDA POR ENTRE
O RUMOR DA MULTIDÃO.
CAMINHAVAS SÓ.
DISCRETA, COMO UMAPRINCESA
NUM CONTO DE FADAS.
PAREI A OLHAR-TE.
MANIETADO.
NA ESPERANÇA DO MEU OLHAR
TOCAR TUA ALMA.
E TAL COMO AS ONDAS NO MAR
GRAVAR EM TI SULCOS
AO MORRER.
E TU SEGUIS-TE.
CHOREI NA ALMA.
CHOREI POR MIM
Manuel F.C. Almeida
2004

sábado, janeiro 20, 2007


Olha filho, eu sei que o mundo costuma corroer os olhos e a mente de todos. Eu sei como é, como ficamos estranhos a nós mesmos, como deixamos de nos reconhecer no espelho. Sei o que é a culpa e sei o que é vacilar. Não sou um super-homem cheio de certezas ou de glórias. Por isso filho não sigas os meus conselhos, cresce livre e consciente do que és. Cresce e vive o teu momento de vida. É teu, o meu é a minha vida, a minha escolha e não devo querer que vivas o que eu não fiz. Percorre o teu caminho, de cabeça erguida com orgulho em ser humano. E quando a vida parecer que te volta as costas, podes vir conversar comigo, como eu converso com o meu pai. E se eu estiver por perto, sempre terás um braço, um ombro onde pensar.

Manuel F.C. Almeida

Lá fora a noite desce sobre as casas, feitas da pele de outros homens. Argamassa orgânica. O vento, uivante, assola a planície, e o céu está coberto por um manto negro de nuvens, mais parece que irá cair-nos em cima. A chuva cai ininterruptamente, e no entanto tamanho vendaval não apagou o sol dentro de mim. Finalmente tudo esta a ser diferente, a paisagem e a minha alma já se tocam novamente, e foi tão simples de fazer. Limitei-me a mudar a imagem que me ocupava tempo demais. Foi-se o mau tempo, um novo dia despontou cheio de luz. Começo a ser gente outra vez.
E dai...


Acordo, olho o maldito relógio. É hora, mas hora de quê? De não fazer a ponta de um corno, de me recusar a pensar ou a agir. De não sorrir, de desejar estar só, de não esperar por nada ou por alguém. É hora de não ambicionar, de não sonhar mais, de nada desejar ter. É hora de olhar e ver que nada disto tem sentido, que não sou importante ao mundo ou há vida. É hora de “ não ser”. Mas se morro nesta hora terei de ressuscitar, renascer, de começar a reaprender a falar, a andar, a abraçar, a sorrir, a viver. E sobretudo (não é casaco não) a Amar. E isso está a ser feito.

noites
















Continuo sem sono. As noites são longas e frias. Deixo o tempo correr ao sabor do meu sentir.
Se escrevo um poema, apenas procuro uma forma de enganar o cérebro e dormir.
Teimosamente fico a converter esperanças em memórias e vice-versa. Deixo que o vento e o tempo cavalguem na minha vontade e no meu pensamento.
É tarde, a lua já está alta e estou cansado, revejo o último pensamento e fico feliz por ter sonhado acordado.

quarta-feira, janeiro 17, 2007





















Dá-me o nome
Sem pudor

Deixa teu corpo nu
Tua alma livre

Entrega-te
Nos meus lábios
Ávidos de ti.

Manuel F.C. Almeida















Sonhei em te ter aqui.
Agora,
Espero, falo só para te encontrar.
Um entardecer, sim
Dá-me o doce completo
Desse teu olhar
Sonhei em te ter aqui
Agora
Anseio, canto só para te beijar
Uma madrugada, sim
Dá-me os cheiros acres
Desse teu amar.
Sonhei em te ter aqui
Agora,
Sei pela certa que vamos cantar
Pela noite dentro, sim
Carícias e beijos
Vamos partilhar.

Manuel F.C. Almeida
















Não te esqueças meu amor
Das tardes
Passadas a ver o sol dançar.
E quando recordares o cheiro
Dos loendros em flor
Deixa-te impregnar de
Alentejo,
E deixa que as memorias
Repousem nas pedras
Da planície.
Sim!
Não deixes de recordar
O despertar de cada dia
Nem o canto alegre
E fresco da cotovia
Na manhã.
E quando um novo dia chegar
Deixa que a tua alma se encante
E segue-o no seu andar.

Manuel F. C. Almeida

terça-feira, janeiro 16, 2007















Comigo estão os meus versos
Companheiros sem ter fim.
Meus desejos estão dispersos
O meu mundo é feito assim

Canto os amores que perdi
E os que eu sinto nascer
Canto por mim e por ti
Pôr-do-sol, entardecer

E quem deles não gostar
Que tenha criticas a fazer
Convido-o agora a falar
Diga o que tem a dizer.

Fale bem na minha cara
Seja honesto e frontal
Que a amizade não para
Quando se é vertical



















Perdido de mim
Vivo na ausência
De uma presença
Que teve o seu fim
Tudo parece ser novo
Tudo é existência.

No ar há um novo cheiro
De alecrim.

Manuel F.C. Almeida




















Invado o meu
Próprio eu
De nada arrumado

No abandono
De mim
Redescubro
O outro

Lago de
Aguas plácidas
Um canto, um fado.

Manuel F.C. Almeida



















Dizem que amar é viver
E que o viver é lutar.
que de amor se pode morrer
só então, ressuscitar.

Dizem que ganhar é perder
Que perder é recordar
Que recordar é sofrer
E que sofrer é chorar

Dizem que chorar é sorrir
Que sorrir já é pedir
E que pedir é encontrar

Dizem que correr é cair,
Levantar é perseguir
o desejo de te amar.





















Os sonhos incompletos
São raios de luz
Ao acordar

Retomar o sono
E o mesmo sonho
É apenas ficar refém
Do despertar.



















Assim chegavam
As águas
A gritar bem
Bem junto ás rochas.

E as aves em tardes
Calmas
Esvoaçavam livres
Pela costa.

E a minha sombra
Parada
Sonhava com o teu seio
Desnudado.

Estás ai?

Manuel F.C. almeida

sexta-feira, janeiro 12, 2007

















Agora já tinha tudo nas mãos. A ele se devia o conjunto de fornos que intoxicavam o povoado. Orgulhoso olhou a beleza de uma nuvem de gás que se espalhava pela cidade e que aqui e ali provocava os desmaios de gentes e animais. Era agora o senhor do fumo. Olhou os dedos tapados de anéis com rubis e esmeraldas. Era rico. O presidente de burgo e todo o seu séquito dobravam-se á sua passagem. Ao longe o filho brincava num prado amarelo queimado pelas nuvens de acido, atirava um pau ao gato e o gato não morria. Ao canto sossegada, dona xica continuamente se assustava com os berros que o gato dava.
Voltou para dentro de casa. E consultou o desenho da sua casa de campo. O local era agradável. Um riacho nada poluído, diziam, montanhas a perder de vista cheias de árvores e até, diziam alguns, existiam aves reais por lá. Custava-lhe a crer, mas ter esperança não custa.
Subiu ao 1º andar para ver melhor a ruas. Um bando de estropiados arrastava-se num murmúrio sem fim. Odiava-os do fundo do coração. Comiam-lhe as vísceras e bebiam-lhe o sangue. Carregou a arma. Uma oferta do presidente para momentos destes. Recordou a medalha recebida e o título de comendador. Tanto que gostava dele. Apontou e disparou. Caíram três o que precipitou o resto do bando num festim nu. No ar elevaram-se urras e o sangue jorrou a rodos. Estavam descansados e entretidos. Resolveu ir mudar de fígado. O médico esperava-o e ia ser fácil. Entrou no carro e saiu de casa. A turba olhou para ele. Mas a gárgula pendurada no carro vomitou o resto do almoço. Uma rapariga resolveu passear com o sexo preso por uma trela. Diziam que era amor, não acreditava em coisas dessas. Afinal isso do amor fora a perdição dos seus antepassados. Abraços com doenças venéreas, todos tinham resolvido partir para a guerra contra os seres islâmicos, de pontos na cabeça e caudas de demónios. Felizmente ele tivera cuidado. E podia viver nas fronteiras do império. Sem notar atropelou uma orquídea. Imperdoável, talvez fosse o último exemplar. Mas quem se importava com isso? Guardou o ódio numa caixinha, e pediu à gargula que o engolisse para mais tarde regogitar. O carro parou. Olhou em frente e lá estavam dois cisnes brancos. Deu-lhes um tiro e transformaram-se em flamingos. Finalmente tinha poder.



















Abandono o texto
Na brancura de uma pagina.
Esquecido algures
Repousa o texto.
Incógnito.
Espera por quem
O encontre,
Como sempre acontece
Com os textos.

E a esperança que encontrem
O texto que vive na alma
Renova-se
Em cada olhar que cruzamos.




















Saibamos escrever
A nossa lápide
Amar a vida
Amar viver
Morrer é só
Mais um acto.


A vida é um instante
E já nasceste.
A vida é outro instante
E já morreste.
Ficas só com o cheiro
A flores.
















Eu hoje estou cansado.
Tudo me dói
Dói-me o presente
Dói-me o passado
Dói-me o que penso e não penso
Dói-me a alma e a palavra mundo

Dói-me o ser e o não ser
Até me dói o simples querer
Voltar a ser, “ SER”

amar a vida num soneto





















Já sinto algo de novo, maresia
Um poema a brotar, novidade
Um olhar que se cruza, saudade
Uma manha renovada, alegria.

Um sol que renasce, outro dia
Um desejo presente, ansiedade
Uma luz que se acende, claridade
Uma força interior, que porfia.

E em cada momento que é passado
Está parte de mim, é o meu legado,
Uma canção que recorda o meu viver

Mas na vida tudo deve ser cantado,
Procurar nela sempre o melhor lado,
E ama-la sempre com todo o querer

Manuel F.C. Almeida

quinta-feira, janeiro 11, 2007

















Como foi possível o mundo mentir?
Talvez como eu menti.
E que foi que o mundo fez ao amor?
Ou eu?
Porque se deseja mal a outros?
Como eu desejei.
Porque se adora a destruição e o ódio
Como eu adorei?
Deixem-me dizer-vos
Que me não arrependo.
Que faria tudo igual.
Não tenho álibis de louco e
Muito menos de bêbado.

Confesso aqui as minhas
Culpas.
Como se de um espelho
Já vazio de ser,
Se tratasse.
Sim! assumo as minhas culpas
Por ter estado longe,
Arredado do mundo,
Preso nos meus moinhos
Ou nas minhas fortalezas
De papel de arroz.

Sim!
Confesso as minhas culpas
Por amar a vida.

Manuel F. C. Almeida

quarta-feira, janeiro 10, 2007

ouçam a musica e leiam o texto em baixo
















São quatro da manhã, teimosamente continuo acordado. A televisão do hotel passa um clássico do cinema. Casablanca. Bogart no seu melhor. Lá fora o frio faz-se sentir. Passeio o olhar pelas paredes do quarto como se fosse possível materializar ali alguém para conversar. Visto-me e desço ao bar. Sentados numa mesa um casal de namorados delicia-se a trocar beijos apaixonados e pelos vistos bêbados. Como estão belos naquela sua paixão. Na penumbra nem as suas caras vejo. Apenas os vultos. Chego ao balcão. Amplo, com uma garrafeira bem servida, é um bar aceitável, com uma funcionária linda. Os olhos verdes fazem-me lembrar uma deusa á muito partida. Peço um malte com gelo e fico a apreciar a beleza física daquela mulher. Ao fundo, sentada ao balcão, reparo pela 1ª vez numa outra mulher. Cabelos pretos e curtos, silhueta ainda jovem. Talvez na casa dos trinta. Tem um cigarro aceso numa mão e um copo na outra. Espero pela funcionária que me trás a bebida e pergunto-lhe quem é a senhora. Os olhos verdes e grandes sorriem e a sua resposta é enigmática, costuma aparecer, fuma, bebe e ocasionalmente conversa com quem está. Pouca coisa e nada de substancial. Agarro o meu copo e provo o sabor da bebida. É boa companhia a bebida. Sem que me aperceba a mulher aproxima-se e apresenta-se. Chamava-se Fátima e pergunta-me se pode fazer-me companhia. Aceito, embora com reservas. Não é usual serem as mulheres a tomar a iniciativa. Rapidamente nos apresentamos. Fico a saber que é nascida em 62 mas que gosta de dizer que nasceu em 66, pergunto-lhe porquê, responde que é uma questão psicológica. Ter 40 é diferente de ter 44. Sorriu de forma enigmática como todas as mulheres sorriem. Perguntou-me que fazia ali. Disse-lhe que nem eu sabia. Algo me tinha empurrado para aquele lugar e eu tinha vindo. De repente a sua pessoa pareceu-me surpreendentemente familiar. Algo naquela mulher me fazia recordar alguém. Os olhos, o cabelo, a face, tudo nela existia em mim. Fiquei assustado. Eu estava a milhares de km do meu passado e das pessoas que algum dia tinha conhecido. Pedi outra bebida, a mulher do bar veio, solícita, servir-me e voltei a reparar nos seus olhos cor esperança, lindos. Volto a atenção para a mulher enigmática. E reparo que aquela sensação de dejá vú se começa a dissipar. Trocamos palavras banais, sobre coisas banais. Rimos e nem ficamos a saber o nome do outro, Não me parece já tão familiar, ao invés a mulher do bar desperta-me para o que de belo a vida tem. Os seus olhos sorriem-me como á meses eu não via olhos a sorrir. A minha companhia despede-se, diz-me que é tempo de se recolher e agradece a conversa. Cordialmente despeço-me e encaro a funcionaria de frente. Os olhos eram lindos. O corpo apetecível, faltava agora conhece-la. Olhei para a porta do bar, novamente a figura que se afastava me parecia familiar. Olhou para traz, acenou-me e partiu. Olhei para o copo que tinha deixado. Preso ao mesmo, um papel com o meu nome escrito. Ainda nem sei como sabia o meu nome. No papel uma mensagem deixou-me curioso. People are strange whem you were a stranger. Faces are ugly whem you’re alone.

Manuel Filipe Carvalho de Almeida

terça-feira, janeiro 09, 2007

versos pra Malibú





















Recitavam Brecht e Baudelaire as duas aves canoras que se passeavam pela Av. da Liberdade. Curiosas as pessoas iam chegando em grupos de dois e nunca mais de 5.
E ouviam extasiadas as duas aves canoras a recitar. Assisti a tudo do alto de um candeeiro, da Av. da Liberdade. A polícia resolveu interromper aquele momento de cultura.
Uma das aves recitou Brecht:

-do rio que tudo arrasta se diz que é violento.
-Mas ninguém diz violentas
-As margens que o comprimem.

E olhou o polícia. Um mar de sangue brotou-lhe da cabeça. Tinha sido atingido por uma bala disparada para o ar. A multidão enfurecida esventrou o polícia e num ápice ordas de sem abrigos iniciaram o banquete. A outra ave quedou-se pálida a olhar o amigo no chão. A multidão estava enfurecida. Porque razão não deixavam as aves recitar? Corajosa a outra ave agarrou no livro de Brecht e recitou mais um poema.

- Dos tubarões fugi eu
- Os tigres matei-os eu
- Devorado fui eu
- Pelos percevejos.

A multidão despedaçou os últimos homens de farda e quedou-se espantada a olhar. Dois cisnes brancos destacaram-se. Eram eles. Alguém de turba os agarrou, arrancou-lhe as asas e voou. Mal o vi passar. Queixava-se de dores de cabeça. E disse-me que tinha uma casa em Malibú. Foda-se, outro com poder.

segunda-feira, janeiro 08, 2007

LILIPUT






















Acordou com a cara fria e molhada. Abriu os olhos. A tempo de ver a próxima onda a aproximar-se. A água bateu-lhe na face e ajudou-o a despertar. Onde estava? Parecia uma praia, mas não sabia onde. Nada recordava da noite anterior. Umas vozes ao fundo despertaram-lhe os sentidos. Dois vultos ao longe brincavam na areia da praia deserta. Pareciam estar a divertir-se. Que lhe importava isso? Ele só queria recordar. Sentia o cérebro ainda meio adormecido. Uma gaivota passou e saudou-o com o seu canto. Afastou-se das ondas. Não ouvia nada. Só o troar amigo do mar lhe dava a certeza de estar vivo. As duas figuras estavam agora por detrás de uma duna. Calmos e deitados. Que se fodam, pensou. Olhou a escarpa que o esperava de braços abertos. Ao cimo um pequeno ogre fazia adeus. Nem se dignou a acenar. Baixou a cabeça e um tufo de erva estava a seus pés. Cheiro-a. Era erva da boa. Com um bocado de papel higiénico tratou de fazer um charro. Acendeu aquilo mas a boca ficou a saber mal. Baixou-se para apagar o charro. Quando se levantou á sua frente estavam dois cisnes brancos. Foda-se, pensou, mas ainda aqui andam? Rápido como um lince cortou-lhes a goela e ficou a vê-los esvaírem-se em sangue. A areia tingiu-se de verde, cortou-lhes as asas colocou-as e voou em direcção a LILIPUT, lá acreditava, seria feliz. Não fora a dor de cabeça e tudo seria ainda melhor. Só não tinha era um mapa até LILIPUT

domingo, janeiro 07, 2007

she. uma grande canção

dois senhores.






















A lua fez a sua aparição. Estava a olhar para o céu. Perdido, diriam que estava louco. Ninguém sabia. No ar havia um cheiro pestilento. Nauseabundo. A cidade estava mergulhada na penumbra e as luzes eram fracas. Sentou-se nos degraus de uma escadaria. Á sua frente duas raparigas faziam o possível e impossível para lhe chamar a atenção. Nem as olhava. Ou antes, ele via para lá delas. Eram transparências no cérebro. Nada mais. Ao fundo soou uma sirene. Alguém deitara fogo a um consultório de advogados. Nada de mais. Era até moda. Durante anos senhores, em dias estupores. Suou que tudo começara com um advogado em zanzibar. Nunca se preocupara com isso. A porta atrás de si abriu-se. De rompante um frade, de habito logo e austero, saiu para a rua. Trazia cm ele uma cruz e um relicário. Mais um ladrão pensou. Há Séculos que faziam isto. Um carro parou. As duas miúdas foram-se com o carro. A rua voltava a estar deserta. Baixou a cabeça apanhou uma beata do chão e acendeu-a. Quando voltou a erguer os olhos, viu dois cisnes brancos. Irritado queimou-os logo ali. Antes arrancou-lhes as asas. Tudo corria bem. Não fora a puta da dor de cabeça e estaria tudo em ordem. Mas a merda dos cisnes outra vez. Parecia obsessão

sexta-feira, janeiro 05, 2007





















Era chegada a hora. Finalmente as ultimas gotas de orvalho tinham desaparecido. Meteu a mão nos bolsos e procurou ansiosamente o último livro. Encontrou-o num compartimento pequeno ao lado da última join. Era um livro de poemas sobre a importância de ser crisálida. Leu um pequeno verso:
“ Rastejei por mil locais, em mil locais me encontrei. Fechei-me no meu casulo e dele estou quase liberta”.
Era estranho o mundo das crisálidas. Guardou o livro. Incomodava-o sem saber porquê. Felizmente que ar estava prenhe de fumo e o horizonte era composto pelas fachadas de enormes edifícios. O anonimato estava garantido. Caminhou ao longo da avenida. Deserta de gente. Deserta de tudo. Um velho ao fundo, vestido de forma andrajosa, acenou-lhe. Ignorou o gesto. Na porta à sua frente duas garotas ensaiavam os 1ª passos da obra o lago dos cisnes. Outra vez os malditos cisnes. O velho foi-se. Uma negra, com a pele linda de um azul que só os negros têm, surgiu a seu lado. Tinha os olhos negros e tristes. Sentou-se a olhar os olhos dela. Estendeu a mão. Ela com cuidado partiu uma maçã que trazia no peito e deu-lhe metade. Suculenta. Não conseguiu articular palavra. E ali ficou até o sol lhe queimar a pele. A negra foi-se. Cambaleante acendeu a joint. De repente tudo começou a fazer sentido. Viu o Drº chegar, vestir a bata branca, agarrar os cisnes pela cabeça e decepa-la. E assim todos os dias novas asas lhe chegavam. Não fora a merda da dor de cabeça e as coisas corriam pelo melhor.

quinta-feira, janeiro 04, 2007

Os cisnes

















Finalmente o autocarro chegou. Era o último passageiro, na última paragem. Olhei para o motorista, um tipo calvo que me recordava um tipo calvo que anos antes conhecera.
As luzes da cidade eram agressivas, e as putas deambulavam por ali. O motorista fez-me sinal para sair. Desci do autocarro onde fui o último passageiro. Um cisne aproximou-se e lançou-me um olhar fulminante. Não costumo falar com eles. E também desta vez não lhe falei. Não gosto de cisnes falantes. São chatos. Do círculo de putas uma se destacou e logo o cisne a insultou. Bati-lhe. Como já disse não gosto de cisnes falantes e ainda por cima moralistas. A puta agradeceu. Beijei-a nos olhos. Toda a gente gosto de beijos nos olhos. Ofereceu-me o seu corpo. Declinei a oferta. Ainda não sei porquê. Era honesta. Não me pediu filhos, nem passeatas, nem fez juras de amor. Queria apenas agradecer-me. Tinha olhos cor de romã. Era bonita, como são as pessoas honestas. Mas eu não queria mais nada que um braço para me afagar o diafragma. Ficou comigo, de mão dada. Passou um carro e outro e outro. E ela ali, parada a olhar para mim. Não trabalhou nessa noite. Uma desconhecida aproximou-se. Não trazia toga nem o livro das leis. Perguntou-me se desejava voar um pouco. Eu aceitei. Beijei a mulher que estava de mão dada comigo e arranquei as asas ao cisne. Transformou-se numa hárpia. Ajeitei as asas ao corpo e voei.
É, isto de voar requer sempre que se arranquem as asas dos cisnes. Vão ver como mudam.

Manuel F.C. Almeida

where




Tenho na voz um novelo
Feito de dias.
Calaram-se as palavras
Que voam.
Só o querer quebra
Os silêncios.
Uma gaivota plana
Não ar.
Há pedaços de mim
Em mil lugares,
E no bar os homens cantam
Ao sabor de Baco...


(cantam os homens)
" Tens contigo a maldição
Da dança macabra da morte.
Dá-nos o teu coração
E voltarás a ter sorte."
(fim)


Tenho na voz um novelo
Feito de imagens.
Umas chegam, outras partem,
Outras que se alimentam
Do tempo presente.
Mas todas são apenas
Miragens.
E tu estas ai?


Manuel F. c. Almeida

terça-feira, janeiro 02, 2007

tank you
















Tank you pela chuva que cai
Tank you pela brisa que corre
Tank you pela vida que vai
Tank you pelo sonho que morre

Tank you pelo sopro do ar
Tank you pela bela madrugada
Tank you pela beleza do mar
Tank you pela mulher amada

Tank you por tudo e por nada


Manuel F.C. Almeida

want



Há uma brisa que corre
Ao sabor dos dias.
Nos olhares que se cruzam
Só o tempo parece
Dar sentido à existência,
Que teima em não se encontrar.
O verme da aparência,
Perfura os sentidos.
Até o olhar se desvanece
E mortifica.
Tudo se resume
A ser,
A querer ser,
unicamente

humano.

Manuel F.C. Almeida

segunda-feira, janeiro 01, 2007

HOJE MERECEM UM BOM POETA

















Nos jardins municipais
As flores também são flores.
Assim, na vida e no mais,
Que a vida é de estupores

Podemos todos ser nossos
E fluir como quem somos.
Quando a casa é só destroços
É que fruta é só de gomos.

FERNANDO PESSOA

and grow up





















O ano novo já chegou
E o ano velho já partiu
E quando este chorou
O novo então sorriu

Manuel F.C. Almeida