
Manuel F. C. Almeida
Eu pertenço a um outro país que não o vosso, a um outro quarteirão, a uma outra solidão LÈO FERRÉ


Regresso da guerra
Das ruas de Bagdad, de Cabul
Ou de New Orleans,
Transporto no olhar o
Respirar lento dos que
Desesperam
E as lágrimas dos que
Chamam a morte.
Regresso cobardemente
Sorridente,
E trago comigo a lembrança
Dos olhares audazes
Dos mil heróis que pereceram
Por nada.
Trago também o colorido
Das medalhas
E o som abafado da fome
No olhar das crianças.
Regresso com o peso
Dos que ficaram
Dos que erguem a bandeira
Estúpida dos hinos e
Das cores garridas
Tatuadas na fé.
Regresso sujo pelo pó
Das vitimas colaterais
No Sudão, na Sérvia ou
São Paulo.
Marcado em brasa nas
Memórias lancinantes
Dos gritos de revolta
Do Tibete em silêncio.
Regresso com um rastilho
Nas palavras e a
Revolta de fogo nas mãos
Assassinas.
Manuel F.C. Almeida


Margens
Foto by:Alba Luna
As margens deste rio apertam-se na linha do horizonte desenhando trilhos e caminhos secretos na procura do meu elo perdido. Os cisnes, brancos, desfilam nas aguas serenas, desenhando ondas que se repetem sem cessar como raios de sol. Sentado nas margens, fixo o olhar na plenitude do rio e na serenidade sensual da corrente. Encontrei o limite das minhas memórias neste espelho sem fim que se alonga na paisagem. As águas devolvem-me o olhar com a interrogação que lhes coloco. Nada mais pode interromper este último acto. Fecho os olhos na esperança de que tudo encontre o seu lugar dentro de mim. O ar, a terra, o fogo, a água. Finalmente sinto-me eu. Acaricio na memória o teu cabelo e tomo-te o corpo num sonho presente.
Serás para sempre.
Uma primeira ultima vez.
Manuel F. C. Almeida

POETAS
MINEIROS DOS CONCEITOS
QUE SE ESCONDEM E SE ENCOBREM
NAS PALAVRAS QUE SE DESPEM
DE REALIDADES ILUSÓRIAS.
DA NOITE CONSTREM O DIA E
DOS OLHOS, FAZEM UM REFUGIO
COM MIL DESENHOS, ERÓTICAMENTE,
SONHADOS.
DOS BRAÇOS ABERTOS FAZEM AVES,
E COM ELAS VIVEM LIBERDADES
EM CORPOS, LUXURIOSAMENTE,
SUADOS.
E CAVAM FUNDO NOS SEGREDOS
QUE OS SENTIDOS INDICAM
NAS PALAVRAS E SENTIMENTOS
MUDADOS.
MANUEL F C ALMEIDA


Dizer lutar
foto by: RAPHAEL o pensativo
A luxúria dos movimentos
e do olhar
Desperta a leveza livre
dos desejos
Da negação das divindades
solta-se o fulgor
dos corpos em bruto
E da volúpia egoísta
da carne,
solta-se o amor
pelo qual eu luto.
Manuel F.C. Almeida

Tela
foto by:MARIAH
Na paisagem de uma tela insensível
Erguem-se muros sobre os sentidos.
Os silêncios tocam o desejo
E o vento embala os sonhos e o prazer.
Constrói-se o nome dos nomes
E sobre ele o amor dos amores.
Os rostos tomam a cor da luxúria
Como cavalos selvagens nas pradarias
Desaparecidas.
Nos lábios repousa a fragilidade da vida,
Já nada resta do que fomos.
Manuel F. C. Almeida

SENTIDOS
FOTO BY: avalon [paulo franco]
Os meus dedos desenharam-te
e os meus olhos encheram-se de ti.
As mãos contornaram a tua figura,
os lábios uniram as bocas
e fundimos os corpos
na leitura de um poema…
Deste poema.
Manuel F. C. Almeida

HUMANOS
Foto by:
Que me dizem deste trilho de fórmulas escondidas onde se tropeça no sentido da palavra vida?
Olhem bem dos homens, as sombras projectadas de uma dança selvaticamente colorida pelo suor dos bailarinos.
Olhem bem para esta sinfonia de lírios em movimento circular na tentativa de abrir assim um caminho em direcção ao infinito, e a angustia das libelinhas sem rios para ocupar.
Neste trilho tudo se repete e acontece numa fusão orgânica livre de espécies e de tipos.
Neste trilho que teimamos em queimar mais não somos que coveiros da vida.
Da nossa vida.
De toda a vida.
Manuel F. C. Almeida

Caminho
Foto by: Bruno Abreu
Nada mais procuro que um pouco de paz
Nas aguas límpidas de um rio que penso meu.
Caminho, cego, em direcção a faces que não vejo
Guiado pelo cheiro de quem julgo que me quer.
Pretensão sublime conhecer alguém
Neste turbilhão humano que teima em fazer
Da vida artigo para vender.
Manuel F. C. Almeida

Foto by:
Ergue-se no altar do mármore primordial um corpo sem face, pintado com algas e com o sangue dos deuses de Asgard. A primavera tarda e as flores não abrem em honra dos animais cegos e sangrados em mil rituais civilizados. O glaciar verte as suas lágrimas, límpidas e puras nas correntes de lama civilizacional.
Num dos lados, a mensagem abre-se em remoinhos de vento, na volatilidade dos conceitos emocionalmente abertos à vida. No outro toma forma o quadro final. Aquele em que a renuncia se consome em momentos de solidão e de prazer honanistico. Falos gigantes como menires erguem-se em homenagem às virgens perdidas e clitóricamente habladas. Os xamãs dançam ao som das aves do paraíso e untam-se com o liquido seminal de mil ejaculações falhadas e perdidas entre as coxas da deusa sem face. Sinto-me levitar num mundo cruel e injusto onde Moisés, Maomé, Cristo e os outros profetas da guerra se deleitam com o sangue de inocente dos assassinos humanos.
Manuel F. C. Almeida

onde?
foto by:Heliz
Amor!
Porque me encontro perdido
Neste local onde me achaste?
Sabes...
Ele há imagens que nos mentem,
Pinturas do que fomos e que não
Se recuperam depois de assassinadas.
Ele há fantasmas que se reavivam
Como o fogo.
Basta que os alimentemos na
Dança dos olhares ternos.
Na dança das espigas em dias
De vento suão, onde
O ouro dos campos mais não é
Que uma miragem.
Manuel F.C. Almeida

Suspensão
Foto by:bernardo coelho
Teus olhos trémulos queimam as horas que habitam o sol.
Dos dedos, finos e cuidados,
Correm riachos que se precipitam
Na luxúria dos corpos
Suados.
Avidamente aspiras o ar que te sustêm
Num tempo sem tempo,
Alegóricamente colorido de
Mil incensos e aromas perdidos,
Nos corpos.
Nos corpos sem alento para os corpos,
Resta agora a magia dos sons e
A memória do tempo com tempo.
Nos corpos.
Vivos.
Cintilantes.
Pungentes.
Cerimoniosamente lascivos.
Nos corpos...
Cósmicamente vivos.
Manuel F. C. Almeida

FOTO BY:bernardo coelho
Na sombra da memória
Vivemos o renascer
Da ternura.
Agua, ar,
Terra, fogo.
Magia pura.
Manuel F C. Almeida


