quinta-feira, abril 26, 2007



foto by

Marcos S. Sousa

A vinda para este lugar, o contacto com pessoas de mundos diferentes e com perspectivas diferentes acabou por me acordar. Embrenhei-me na vida como nunca o tinha feito. Dei largas à minha paixão pela poesia e pela filosofia. Apaixonei-me, vivi relações fantásticas com pessoas fantásticas. Acima de tudo aprendi a ouvir. E foi a ouvir que descobri um mundo que me esperava algures. Um mundo onde os jovens não se hipotecam aos bancos desde tenra idade, um mundo onde a noite não é passada em frente de uma caixa colorida. Não sou naif, sei que essas pessoas, provável mente, desejarão tudo isto, mas a verdade é que o seu mundo ainda está livre de tudo isto. Vivem com muitas dificuldades e superam-nas. É para um local desses que vou. Não vale a pena procurar-me, se desejar ser encontrado eu darei sinais. Tens agora a espinhosa tarefa de encerrar o que julgo vir a ser um problema de polícia. Só tu o podes fazer de forma a evitar mais complicações. Soube antes de partir da tragédia que te sucedeu. Lamento, mas a vida para ti não acabou.

terça-feira, abril 24, 2007


Já me soa no olhar
A cor de mil ilusões
Vai um Abril a passar
Vai um sonhador a chorar
As suas traídas paixões.

E chora o seu sonho traído
Sem saber mais que fazer
Chora pelo que lhe é devido
Chora por não ter agido
Na defesa do seu querer.

Manuel F.C. Almeida.


foto by Luis Miguel Mateus

Nem sempre me recordo dos minutos
Bebidos em teus seios.
Muitas vezes abandono-te e fico refém
Dos meus medos, meus receios.

Nem sempre me recordo dos tempos
Perdidos em teu sexo.
Muitas vezes deixo-me só…
Revelo-me complexo.

Pois!
Nem sempre te recordo ou me recordo
Dos dias de inocência
Muitas vezes só está presente
A cor da nossa imprudência….

Manuel F. C. Almeida


Começava a fazer sentido o que naquela manhã eu tinha descoberto.
Abri a carta com algum nervosismo. Ela apercebeu-se e disse-me que ia fumar um cigarro. Agradeci-lhe a descrição com o olhar.
A carta era-me dirigida:
“ Amigo Manuel:
Sei que virás um dia. Quando leres esta minha carta estarei algures por esse mundo, a cumprir o meu desejo. Ser útil. Aqui nada me prende. Nada tem valor. Desculpa não me ter despedido, mas não gosto de despedidas. Só me despedi de uma pessoa, da Elouise. É um diamante, uma força da natureza. Não sei se ela sabe isso, mas eu sei. Foi a ela que confiei este meu desejo, porque sei que nunca me trairá. A nossa amizade irá sobreviver ao tempo e à distância. Ambos sabemos isso.
Deves estar a interrogar-te sobre os meus motivos. Tentarei ser sintético, racional no que irei dizer.

segunda-feira, abril 23, 2007


foto by tiago
Eu
Mais não sou que vulcão
Em súbita erupção
De pétalas aveludadas.
Rio que se precipita para a morte
No desejo que em sorte
Lhe calhem margens apertadas.
Centelha de sol que massacra
Minha vida, via-sacra
Meus caminhos, minhas estradas

Eu
Mais não sou que ilusão
Miragem do vento suão
Cheio de tempo e de nadas.
Manuel F.C. Almeida







foto by Carlos Carpier

- E que lhe interessava isso? Ele não pediu a ninguém para o procurar se o fizeram e fazem é por curiosidade e como ele dizia por egoísmo.
- Egoísmo? Eu desde que o caso sucedeu que sinto necessidade de obter respostas, tinha-me por amigo dele, nunca me conformei com o vazio.
- Ele sabia que você viria um dia, sempre me disse isso. Descrevia-o como um bom amigo, alguém em quem se pode confiar. Por isso confidenciou-me uma coisa.
Acto contínuo dirigiu-se ao armário e retirou um livro. “ A Critica da Razão Pura”. Kant, o sistema, o método. O livro tinha uma capa dupla, bonita, protegida. Rapidamente rasgou a capa e na sua mão surgiu uma carta. Era endereçada à minha pessoa.
- Esperei que viesse tal como o Rodrigo me pediu. Disse sempre que viria. – Disse ao mesmo tempo que me estendia a carta.
- Porque não a entregou à polícia? – Perguntei.
- Porque o Rodrigo desejava que fosse entregue a si quando viesse, não gostava de polícias nem de autoridade em geral. Costumava dizer que a autoridade reconhece-se não se impõe. e que não é pelo facto de alguém usar uma farda que ele reconhece-se nesse alguém, qualquer tipo de autoridade.

sábado, abril 21, 2007
















FOTO BY MARIAH

Costumo cantar a amizade
E o amor sempre presente
Também canto a liberdade
Canto a mudança premente
Canto um mundo de valores
Que fui cultivando ao crescer
Canto um universo de amores
Que vivem no meu viver.
Canto a liberdade a passar.
Um mundo a existir
Canto o eterno mudar
Neste constante devir.
Faço da vida um cantar
Tento fazê-lo com arte
Sou coerente a amar
Amigo do amigo que parte.


Manuel F.C. Almeida

sexta-feira, abril 20, 2007









foto by João Camilo

Suave como a paisagem
Nos campos do sul
Tu vieste como sempre
Foste;
E do choque do passado
Com o presente
Ousámos reconstruir
O futuro,
Num querer que nos
Enlaçou num oceano de
Duvidas e temores.


Mas que sabor teria a vida
Se de certezas tratássemos?

Manuel F.C. Almeida

quinta-feira, abril 19, 2007


FOTO BY:
Luis Gonzaga Ribeiro
Devorei-te o corpo
Naquela madrugada
Em que os espíritos
Habitaram
A minha vontade.


Manuel F.C. Almeida


foto by Angelica

Olhei para ela. Parecia tão certa de tudo o que dizia respeito ao desaparecimento do Rodrigo que pela certa saberia muito mais. Era estranho, afinal eu não conhecia nada do rapaz. Cada passo, pequenino que fosse, revelava-se um mundo novo, um homem desconhecido.
- Porque diz isso com tanta certeza? – Perguntei.
- Pelo simples facto de ter sido a confidente dele durante meses. De ter partilhado os seus sonhos, os seus medos um pouco da sua vida. – Respondeu
- Amaram-se?
- Sim! Como amigos, confidentes, como ombro do outro. Nada físico, éramos profundamente semelhantes em muita coisa, no entanto a paixão romântica nunca nos tocou. Devorávamos as horas a conversar, excomungámos muitos fantasmas, enfim, de alguma forma éramos almas gémeas que se encontraram, mas unicamente amigos.
- se sabe assim tanto sobre ele saberá ao menos porque simplesmente resolveu desaparecer sabendo que isso iria trazer trabalhos a muita gente?

quarta-feira, abril 18, 2007



foto by:

MARIAH

Chegaste no ventre do
Tempo,
Como um qualquer
Alquimista do amor.
Transmutas-te o teu ser
Em mil sentidos
Numa alegoria cabalista
E eu bebi-te num cálice
De escrituras celestes
Saído da dança previsível
Dos planetas.
E enlaçados numa valsa
De olhares
Fizemos dos sonhos
acontecimentos, lugares.


Manuel F.C. Almeida

terça-feira, abril 17, 2007



foto by

Kazuo Okubo

Suspenso em ti
Vivi
A tormenta de não
Existir.
Agora, insaciável
Me fiz
No desejo de te ter...
feliz.

Manuel F.C. Almeida



FOTO BY

Luna Alba

- Se quiser almoçar connosco terei todo o prazer em a convidar – disse eu – e simultaneamente poderei fazer-lhe algumas perguntas sobre o meu amigo.
Os seus olhos ganharam vida e foi sem surpresa que a ouvi dizer
- Terei todo o prazer, isto é se não existirem objecções – e olhou para a Isabel. Esta corou um pouco mas depressa respondeu:
- Claro que ficas, vamos almoçar a um local lindo, perto do rio. Tu conheces ele é que não. Olha, agora tenho de ir. Deixo-vos sozinhos. Tu vê lá nada de seres abusador – simultaneamente soltou uma ruidosa gargalhada como só ela o fazia.
Fiquei só com ela. Confesso que estava um pouco intimidado, desde há algum tempo que ficava assim quando me via junto a mulheres mais jovens. A idade prega-nos destas partidas.
- Estava aqui a mexer nas coisas do Rodrigo na esperança de encontrar algo que me dissesse onde poderá estar se é que está vivo – disse eu.- Acredite que ele está vivo, não tenho dúvidas disso, resolveu deixar a vida que tinha e partir para outro mundo, outra realidade. Estava sozinho, não tinha ninguém e estava farto da nossa sociedade. Não ficava admirada se o soubesse em África ou em qualquer outro local do mundo. Um local onde se sentisse útil e onde encontrasse sentido para a sua vida. – Disse ela

segunda-feira, abril 16, 2007



foto by carlos pereira

Nos teus lábios
De romã
Bebi o ópio
Da minha existência.
Queria pois ser
O teu raio de noite
Numa dança de ventres
Famintos,
Saciar-te essa sede
De águas cálidas e puras,
Invadir-te a alma e
Consumir-te na antecipação
De um olhar
Feito de prazer.

Manuel F. C. Almeida

domingo, abril 15, 2007



foto by Helder Vasconcelos

Agarrei o teu ventre
Pela boca.
Provei-te o ser
Com um olhar.
Soletrei a dois o
Verbo amar.
Fiz da tua púbis
Meu lar,

Meu jardim
Meu universo...

Meu sonhar.

Manuel F.C. Almeida

sábado, abril 14, 2007












Notas soltas
Nas madrugadas agrestes
E sombrias
De um olhar morto
No tempo.
Notas soltas
De uma sinfonia de
Pétalas dançantes
No vento.

Foto by Filipe Pereira

Manuel F.C. Almeida

foto by:
Helena Margarida Pires
de Sousa
- Olha que bela surpresa a Elouise resolveu fazer-nos uma visita.
- Assim vejo – disse a sorrir. Ela também sorriu, era gentil e simpática, diria docemente simpática.
- Boa tarde – disse, ao mesmo tempo que me estendia a mão.
Retribui o gesto e perguntei:
- Que a traz por cá? Ou é visita habitual?
- Quando o Rodrigo por ai andava vinha muitas vezes conversar com ele – respondeu.
Isso aguçou-me a curiosidade. Teria conhecido bem o rapaz? Aquela notícia era duplamente agradável. Ela tinha vindo ao campo e eu tinha uma boa desculpa para passar algum tempo a conversar com ela.
- O Rodrigo costumava dizer que a Elouise era a melhor amiga que poderia ter tido por aqui – disse Isabel.
- Ele é que era um grande amigo, tinha um coração do tamanho do mundo e uma alma de todo o universo – respondeu ela.
Fiquei a olha-la, cabelo negro, solto, comprido, olhos azuis da cor do céu, uma face bonita e uma expressão sempre jovial. Se aliar a tudo isto o interesse do Rodrigo, diria que era forçoso que a conhecesse.

sexta-feira, abril 13, 2007



Foto de A.BRITO

Concebo em mim a existência
De uma mão que se quer nua
Ávida, sedenta e pura
Como sombras vivas
De lua.
Manuel F. C. Almeida



foto by:
Helena Margarida Pires
de Sousa


No meio de tanto livro, uma obra intitulada “A angústia da brancura do papel”, achei curioso o título e tirei a obra. Ao abrir tive uma surpresa. Poesia, estava cheio de poemas escritos pela mão do autor. Alguns com o nome dele outros com um pseudónimo “ Bartolomeu”. Recordei de imediato a mítica passarola do tão célebre Bartolomeu de Gusmão. Curioso o pseudónimo. Afinal o Rodrigo revelava-se algo diferente do que supunha conhecer. Amante de filosofia, amante de poesia, que mais me esperaria? Folheie o livro e fui lendo alguns poemas. Poemas de amor quase todos. Alguma prosa, pouca e algumas cartas ou esboços das mesmas. Endereçava-as sempre a “ meu amor” não colocava nomes.
Procurei vislumbrar algo que me pudesse ajudar na minha procura. Nada me indicava o que teria sucedido. Guardei a obra na minha mala e continuei a mexer nos seus livros. De repente a Isabel voltou. Vinha acompanhada pela Elouise. Estranhamente fiquei duplamente agradado.
Ambas estavam deslumbrantes. E dei comigo a sorrir com o olhar. Um sorriso que vinha de dentro de mim. Um sorriso elaborado com a alma.

quinta-feira, abril 12, 2007


foto ABRITO
Numa barca feita de ventos,
Transporto o meu ser
De tempo erguido.
E desejo que ele
Consiga voar.
Na procura de uma corrente,
Consumo o meu querer
Num gesto esquecido.
E desejo que ele
Consiga navegar.
Na fogueira que me consome,
Tento salvar um sonho
Já quase perdido.
E desejo que ele
Consiga ficar

Um pouco mais que só sonho.
Que fique barca de tempo.
Raio da noite.
Luar.

Manuel F.C. Almeida