terça-feira, abril 17, 2007



FOTO BY

Luna Alba

- Se quiser almoçar connosco terei todo o prazer em a convidar – disse eu – e simultaneamente poderei fazer-lhe algumas perguntas sobre o meu amigo.
Os seus olhos ganharam vida e foi sem surpresa que a ouvi dizer
- Terei todo o prazer, isto é se não existirem objecções – e olhou para a Isabel. Esta corou um pouco mas depressa respondeu:
- Claro que ficas, vamos almoçar a um local lindo, perto do rio. Tu conheces ele é que não. Olha, agora tenho de ir. Deixo-vos sozinhos. Tu vê lá nada de seres abusador – simultaneamente soltou uma ruidosa gargalhada como só ela o fazia.
Fiquei só com ela. Confesso que estava um pouco intimidado, desde há algum tempo que ficava assim quando me via junto a mulheres mais jovens. A idade prega-nos destas partidas.
- Estava aqui a mexer nas coisas do Rodrigo na esperança de encontrar algo que me dissesse onde poderá estar se é que está vivo – disse eu.- Acredite que ele está vivo, não tenho dúvidas disso, resolveu deixar a vida que tinha e partir para outro mundo, outra realidade. Estava sozinho, não tinha ninguém e estava farto da nossa sociedade. Não ficava admirada se o soubesse em África ou em qualquer outro local do mundo. Um local onde se sentisse útil e onde encontrasse sentido para a sua vida. – Disse ela

segunda-feira, abril 16, 2007



foto by carlos pereira

Nos teus lábios
De romã
Bebi o ópio
Da minha existência.
Queria pois ser
O teu raio de noite
Numa dança de ventres
Famintos,
Saciar-te essa sede
De águas cálidas e puras,
Invadir-te a alma e
Consumir-te na antecipação
De um olhar
Feito de prazer.

Manuel F. C. Almeida

domingo, abril 15, 2007



foto by Helder Vasconcelos

Agarrei o teu ventre
Pela boca.
Provei-te o ser
Com um olhar.
Soletrei a dois o
Verbo amar.
Fiz da tua púbis
Meu lar,

Meu jardim
Meu universo...

Meu sonhar.

Manuel F.C. Almeida

sábado, abril 14, 2007












Notas soltas
Nas madrugadas agrestes
E sombrias
De um olhar morto
No tempo.
Notas soltas
De uma sinfonia de
Pétalas dançantes
No vento.

Foto by Filipe Pereira

Manuel F.C. Almeida

foto by:
Helena Margarida Pires
de Sousa
- Olha que bela surpresa a Elouise resolveu fazer-nos uma visita.
- Assim vejo – disse a sorrir. Ela também sorriu, era gentil e simpática, diria docemente simpática.
- Boa tarde – disse, ao mesmo tempo que me estendia a mão.
Retribui o gesto e perguntei:
- Que a traz por cá? Ou é visita habitual?
- Quando o Rodrigo por ai andava vinha muitas vezes conversar com ele – respondeu.
Isso aguçou-me a curiosidade. Teria conhecido bem o rapaz? Aquela notícia era duplamente agradável. Ela tinha vindo ao campo e eu tinha uma boa desculpa para passar algum tempo a conversar com ela.
- O Rodrigo costumava dizer que a Elouise era a melhor amiga que poderia ter tido por aqui – disse Isabel.
- Ele é que era um grande amigo, tinha um coração do tamanho do mundo e uma alma de todo o universo – respondeu ela.
Fiquei a olha-la, cabelo negro, solto, comprido, olhos azuis da cor do céu, uma face bonita e uma expressão sempre jovial. Se aliar a tudo isto o interesse do Rodrigo, diria que era forçoso que a conhecesse.

sexta-feira, abril 13, 2007



Foto de A.BRITO

Concebo em mim a existência
De uma mão que se quer nua
Ávida, sedenta e pura
Como sombras vivas
De lua.
Manuel F. C. Almeida



foto by:
Helena Margarida Pires
de Sousa


No meio de tanto livro, uma obra intitulada “A angústia da brancura do papel”, achei curioso o título e tirei a obra. Ao abrir tive uma surpresa. Poesia, estava cheio de poemas escritos pela mão do autor. Alguns com o nome dele outros com um pseudónimo “ Bartolomeu”. Recordei de imediato a mítica passarola do tão célebre Bartolomeu de Gusmão. Curioso o pseudónimo. Afinal o Rodrigo revelava-se algo diferente do que supunha conhecer. Amante de filosofia, amante de poesia, que mais me esperaria? Folheie o livro e fui lendo alguns poemas. Poemas de amor quase todos. Alguma prosa, pouca e algumas cartas ou esboços das mesmas. Endereçava-as sempre a “ meu amor” não colocava nomes.
Procurei vislumbrar algo que me pudesse ajudar na minha procura. Nada me indicava o que teria sucedido. Guardei a obra na minha mala e continuei a mexer nos seus livros. De repente a Isabel voltou. Vinha acompanhada pela Elouise. Estranhamente fiquei duplamente agradado.
Ambas estavam deslumbrantes. E dei comigo a sorrir com o olhar. Um sorriso que vinha de dentro de mim. Um sorriso elaborado com a alma.

quinta-feira, abril 12, 2007


foto ABRITO
Numa barca feita de ventos,
Transporto o meu ser
De tempo erguido.
E desejo que ele
Consiga voar.
Na procura de uma corrente,
Consumo o meu querer
Num gesto esquecido.
E desejo que ele
Consiga navegar.
Na fogueira que me consome,
Tento salvar um sonho
Já quase perdido.
E desejo que ele
Consiga ficar

Um pouco mais que só sonho.
Que fique barca de tempo.
Raio da noite.
Luar.

Manuel F.C. Almeida


foto Alvaro Ennes

- aqui está a estante do Rodrigo. Conservei tudo intacto. – disse a Isabel.
- isso é fantástico. Posso dar uma vista de olhos?
- claro, esta manhã estamos a preparar o relatório pra te apresentar à tarde, por isso fica à vontade.
Foi o que quis ouvir. Ela agarrou numa pasta e saiu deixando-me só. Abri a estante e comecei a ver os livros que tinha. Fernando Pessoa, A. O’Neil, Florbela espanca, Mário de Sá carneiro, Al Berto, o rapaz tinha muita poesia. Noutro local obras de agostinho da silva, Kant, proudon, Sartre, Freud e outros filósofos. Ainda tinha dezenas de livros técnicos e alguns romances. Achei curioso um facto os romances presentes eram todos obras especias. Trópico de câncer, o velho e o mar, 1984, o ano da morte de Ricardo reis, escuta Zé ninguém, as vinhas da ira, os grandes mestre, a náusea, a peste e muitos outros. E o mais curioso, toda a obra de cortomaltese. O rapaz era um libertário, esta palavra nova que pretende designar os anarquistas. Na verdade com a massificarão do valor negativo dado ao conceito “ anarquia” o movimento teve de tentar fugir às garras desta sociedade. Assim criou o conceito de libertário. Inatacável em termos semânticos.

quarta-feira, abril 11, 2007


Foto de A.BRITO
A cor deste poema
Inunda-nos de mar.
Uma maré-alta invade o
Nosso ser
Na derradeira sinfonia
De um olhar
Que se quer presente,
Que se quer real,
que se quer...viver.

Manuel F.C. Almeida


foto Francisco Benveniste

Chegamos, fomos os primeiros à excepção do rapazola que tinha levado as bofetadas.
Veio cumprimentar-me meio desafiante, meio receoso.
- Bom dia professor, então domou a fera?
Olhei o rapaz e não consegui reprimir o asco que me deu.
- Olhe desculpe, mas refere-se a quem? Há mulher que lhe deu uma bofetada devido á sua atitude de criançola? Se é a ela que se refere fique a saber que foram muito bem dadas. Por outro lado e sendo já adulto na aparência, porque se refere a uma mulher como se fosse um animal? Por ultimo, só uma cabeça doentia pode insinuar que conhecer uma mulher tem como fim “ doma-la”. Não sei quem você é. Nem a sua idade mas infelizmente reparo que em matéria de comportamento você é do pior que conheço. E acredite, conheço muita gente medíocre e pequenina como você! – Retorqui, sem lhe apertar a mão que tão solicitamente me estendia.
A Isabel cortou o ar gélido que se tinha formado. E arrastou-me para o seu escritório.Estava indignado. Como era possível que gente com formação superior tivesse aquele tipo de comportamento? Onde se tinha perdido a noção de excelência que era suposto a universidade transmitir? Tínhamos perdido tudo. O saber, o amor ao saber e a capacidade de respeitar o próximo. Afinal em que mundo vivíamos? Uma selva de ignorantes

terça-feira, abril 10, 2007



foto rickybar

Tanto te escrevi
Que a candeia acesa dos meus
Olhos
Se fez farol nos teus.
E as vagas do meu peito
Carregadas de brumas de paixão
Embateram a preceito
E inundaram o teu coração.
Num assomo de almas
Que regressam.


Manuel F.C. Almeida



foto A.Brito

- Tu és único. Na verdade o tempo fez-te como o vinho do porto. – Falou a sorrir.
Comemos e saímos para o trabalho.
Não lhe disse nada sobre o meu real propósito. Aparentemente eu estava ali para avaliar o avanço das investigações. Mas o Rodrigo continuava a ser o meu objectivo. Tentei ser o mais natural possível quando lhe disse:
- Sabes por acaso que lugares frequentava o Rodrigo?
- Sei, ia muito ao bar onde fomos ontem e a um café meio recatado onde passava horas a escrever. Dizia que estava a escrever o seu testamento.
- Um testamento? Que é feito disso?
- Não sei. A polícia levou quase tudo do apartamento. Só deixaram os móveis e a roupa. Tudo o resto foi retirado.
- mas tudo? Até os livros?
- não os livros só os que estavam em casa, mas ele tinha no campo um pré fabricado, que eu ocupo agora, onde guardava tudo. Nunca toquei em nada dele. Está lá tudo.
Uma boa noticia, pensei. Eu conhecia-o era metódico, arrumado e cauteloso. Se tudo isto se confirmasse talvez obtivesse respostas.

segunda-feira, abril 09, 2007





















E se bastasse abrir os
Olhos ao mundo,
Como se fossem janelas.
Descobrir-te aí, suspensa
No tempo que foi.
Para te resgatar do meu
Medo,
Das coisas vivas, selvagens
E belas.

Manuel F.C. Almeida


foto SorrisoAlegre

Acordei cedo. O cheiro a torradas e a café caseiro despertaram-me o apetite. Estava cansado. Muito cansado mesmo. Começava a ficar preocupado. O cansaço ao acordar poderia querer dizer algo.
- Então? Toca a levantar. Vá, temos o pequeno-almoço na cozinha à espera. – Disse ela. Estava maravilhosa.
- Deixa-me tomar um duche. – Disse-lhe.
- Enquanto te preparas eu vou fazer-te uma torrada. Se necessitares de roupa diz. – Respondeu.
- Na verdade não gosto de usar roupa interior dois dias seguidos – respondi.
De imediato abriu uma gaveta e surgiu com roupa interior de homem nova.
- Eram para o António. Usa, devem servir-te – disse
Tomei duche vesti-me e quando cheguei á cozinha beijei-a a agradecer tudo.
- Meu querido, não precisavas de fazer isso. Surpreendeste-me, sabes? Julgo que não te conheço. Está diferente, ontem foste um Homem. Raramente alguém se expõe como tu o fizeste. Sei agora que a nossa amizade é muito mais sólida que uma noite. Mas que me apetecia não duvides. – Disse enquanto me fazia uma torrada.
- Também me apetecia, sabes? Mas existe em mim um conflito que não consigo resolver. É como uma maldição. Seria magnífico no momento mas seria um inferno durante muito tempo. E nunca seria genuíno. Poderia perder-te como amiga e não quero isso.

domingo, abril 08, 2007




Vive o amante amargurado
Por não saber que pensar.
Se é querido, se é desejado
Em qual é o seu lugar

E nesse eterno sofrer
Que só a si é devido
Vai todos os dias morrer
Numa morte sem sentido

Manuel F. C. Almeida


- Se desejares podes dormir no meu quarto. O Joaquim gostava de dormir só. Tenho duas camas. Uma é tua. – disse. O cansaço, o vinho, as emoções e as violentes contradições ditaram o resto. Com um pijama emprestado deitei-me no seu quarto. Ao pé dela estava sempre bem. É tão difícil fazer amigos verdadeiros e tão fácil perde-los. Basta um momento mal interpretado.
Sabes, costumo ranger os dentes – disse-lhe meio a brincar
- Tu nem dentes já tens meu querido – retorquiu sempre a rir – nem sei como te derreteste pela nossa anfitriã – terminou. Notei na voz o desejo de me provocar. Ela seria sempre assim.
- Que aconteceu ao Joaquim? – Perguntei.
- Acabou, foi-se, é assim desde sempre, não sei porquê. Não me perguntes, mas acabo sempre por me entediar. Depois ele queria ter filhos. E eu não me vejo no papel de mãe – Terminou.
Eu já a ouvia bem longe, mergulhado novamente em mim. Já tinha esquecido o Rodrigo. Já tinha esquecido a Fátima. Em mim só viviam a Elouise e a Isabel e um fantasma. E até elas estavam num limbo. Finalmente o cansaço venceu-me e adormeci.

sábado, abril 07, 2007



O recorte
Do teu corpo
Transpira
De imaginação.
E ele retoma as
Rédeas
Da vida.
planta tulipas
No coração.

Manuel F. C .Almeida

Ela notou e antes que eu me visse numa situação embaraçosa disse:
- Dorme aqui comigo. Ficarás menos só. – Era extraordinário. Só uma grande mulher poderia dar-me tanto. Beijei-a demoradamente, apenas porque me apeteceu faze-lo. Eram doces o seus lábios.
- Obrigado – retorqui ao mesmo tempo que deitava a cabeça sobre o seu colo e me deixava embalar pelo som de ligth my fire. Ela desligou a luz. E ali ficámos num momento de ternura como há muito não tinha. Quando a musica mudou e os primeiros acordes de the end se fizeram ouvir, fui transportado novamente para o meu mundo, só que agora este era matizado com o suave toque da sua mão no meu cabelo. Acabámos a garrafa de vinho. A música foi-se, e o cansaço tomou conta de mim. Sempre solicita a Isabel sugeriu que nos fossemos deitar.

sexta-feira, abril 06, 2007
















O meu canto é a tristeza
Do tempo que um dia passou
Mesmo se canto a beleza
Canto o que nunca voltou

Canto os dias que pintámos
Com cores feitas de vida.
Canto tudo o que passámos,
Na confiança perdida…

canto o horizonte perdido
na bruma que se levantou.
canto os meses sem sentido
e um sentido... que ficou.

Manuel F.C. Almeida