quarta-feira, março 14, 2007


Eu tinha notado isso havia algum tempo e estava a ficar incomodado. Felizmente estavamos já nas sobremesas. E não me apetecia comer mais nada. Estava bem. Olhei para a Isabel. Pareceu-me incomodada. Eu também o estava, sentia que algo não estava certo. Não sabia o quê. Mas era a sensação que tinha. Os convivas, que mal tinham falado para mim começaram a levantar-se. Ao canto da sala uma caixa de charutos. Num ápice grande parte dos presentes ostentavam na mão um charuto imenso e nauseabundo que pretendiam fumar com prazer. Como é idiota a sociabilização. Tudo tem horas próprias. Esqueci-me deles e virei a atenção para as duas pessoas lindas que estavam comigo. Tínhamos saído de casa, passeávamos pelo jardim da casa. Bem cuidado e muito bonito.
- Manuel, posso chamar-lhe assim?
- Claro que sim - respondi.
- Diga-me que pensa do poder local?
Era uma questão difícil. Eu tinha visto o melhor e o pior. Gente honestíssima e gente cuprrupta. Gente com verticalidade e gente que tinha cedido em tudo. Foi com naturalidade que respondi:

terça-feira, março 13, 2007











Eu escrevia-te versos todos os dias
Na candura de um olhar apaixonado
Mas tu não estavas
Tudo era só passado.

E eu encantei-me nas palavras,
Nos gestos de grinalda colorida.
E quando foste,
Nem vi que estiveste sempre
De partida

Manuel F.C. Almeida









- Não come mais nada – perguntou a Fátima – não aprecia as nossas comidas pelo que vejo – rematou.
- Não é isso, sabe que há uns anos fiz uma operação delicada, desde então tenho muito cuidado como que como. – Respondi, olhando novamente os seus olhos em todo o esplendor que os mesmos tinham. De cada vez que os olhava ficava mais incomodado e cada vez mais preso. Era melhor despachar o que tinha ali a fazer e partir. Fugir das garras da paixão era o que melhor sabia fazer. Ninguém entenderia o facto de amar a minha falecida companheira e em simultâneo me apaixonar por alguém vivo. As pessoas tendem a exigir mais que o nosso amor. Tendem a exigir o nosso mundo todo, passado, presente e futuro. trágico mas é assim.
- Então que tipo de alimentação faz? – Era ela novamente.
- Usualmente alimento-me de peixe e de muitas saladas - Isso não alimenta ninguém – disse o chefe da polícia sendo seguido por quase todos com exclamações de riso e de aprovação. Apenas o padre não concordou. Estava com demasiada atenção em mim.

segunda-feira, março 12, 2007


Que fizemos nós do nosso jardim?
Deixámos as rosas morrer
E as glicínias adormecerem
Sem água.

Tu castraste a nossa alegria
E deixaste morrer os malmequeres
No nosso jardim só restam laranjas
Amargas
Que se não podem beber.

E vimos o nosso jardim morrer
Num tempo de enlouquecer.

Manuel F. C. Almeida


E fizeste da tua vida estrada,
Construíste o teu sonho a cantar.
Tu que tens umas mãos de fada ,
nasceste pra enfeitiçar.

E andaste por mil veredas,
Mil montes, mil lugares.
Tens um passado de lendas;
Histórias feitas com olhares.

E quando falas pra mim;
quando te deixas tocar;
É estranho sentir-te assim:
Estás ali, mas a voar.

E eu faço do mundo um baloiço
Como quando era menino.
E as lenga-lengas que te ouço
Fazem de mim pequenino.

Manuel F. C. Almeida


-está deliciosa e por favor trate-me pelo nome, os títulos servem aos medíocres para se destacarem. – Disse. Simultaneamente fixei o olhar nos lábios. Bem desenhados, deliciosamente bem pintados, que me sorriam como um farol. De repente fui invadido pelo cheiro dela. Era natural, um cheiro de mulher inesquecível. Ela também percebeu e a sorrir perguntou baixinho com um sussurro de fazer arrepiar:
- que se passa Manuel? Sente-se bem?
A Isabel viu a forma nervosa como mexia as mãos e o olhar do dono da casa.
- Tem juízo, ainda te recordas do Rodrigo. Desapareceu por estes sítios. – disse-me ao ouvido.
Recordava claro. O Rodrigo tinha sido colocado no campo arqueológico anos antes. Depois de viver cerca de dois anos naquele local. Desapareceu misteriosamente. Nunca foi encontrado corpo. Na altura tinha 27 anos, era um rapaz alto, bem constituído. Gostava de alpinismo e montanhismo, coisas que cultivava com prazer e destreza. Recordava que tinha corrido o boato de que o seu desaparecimento teria algo a ver com questões de mulheres. Fiquei na altura um pouco surpreso. Era um indivíduo pacato. Trabalhador, quase obsessivo nesse campo. Nunca o imaginei d. juan e Nunca me conformei com aquele facto. Aliás um dos motivos que me tinham levado ali era o Rodrigo. Ou antes o seu misterioso desaparecimento.

domingo, março 11, 2007














Olha!
Já sei a cor da tua alma.
Quiseste pinta-la com tinta
Incolor,
Mas ela acabou por se mostrar
No seu arco-íris de pureza.
Tua alma é da cor do amor

A não esquecer
E o teu “eu” só um poema
A despertar no amanhecer.


Manuel F. C. Almeida







Funcionários vindos da cozinha serviram sopa. Finalmente podia pensar em tudo sem me dispersar. Quis raciocinar sobre o que estava a acontecer, mas a imagem dela, a curiosidade eram maiores. Dei comigo a elaborar estratégias de aproximação. Nunca tal tinha feito. Desde a morte da minha companheira que evitava aproximar-me de alguém. Os casos mantidos eram apenas de fruição física e na maior parte das vezes sentia-me mal quando o corpo se dava por saciado. Noutros casos as premissas iniciais eram pervertidas e regra geral acabava por magoar alguém. Estava farto disso. Achava possível um amor. Daqueles amores para uma vida. Era verdade que sentia a Fernanda ainda presente. Mas continuava a acreditar que teria de existir um amor sem fim. Incondicional. Seria naif mas certamente era eu. Genuíno. Transparente. Sincero. No entanto tinha a propensão para momentos impossiveis. Como diriam os poetas era o meu fado. Mas ainda assim tinha em mim espaços vazios. Téria já vivido " o amor" ou apenas tinha vivido um amor? Estas questões há muito que me assltavam o espirito.
- Então Dtº a sopa esta boa? - Perguntou a Fátima. Nem tinha notado ou saboreado a mesma. Limitara-me a comer sem ligar muito ao paladar.

sábado, março 10, 2007
















Eu fui ao outro lado do mundo
Vi estrelas novas no céu
E vi no espelho de uns olhos
O reflexo do meu “eu”

Agora sei que no mundo
Há outros que são como eu
Gente que sabe o que quer
O teu mundo é também meu.

Por isso não mais estarei só
Tu estás aqui a meu lado
Plantei uma flor no teu peito
Na boca, um beijo adiado.

MANUEL F.C. ALMEIDA

quarta-feira, março 07, 2007
















PORQUE TODOS NECESSITAMOS DE DESCANSO,
NOS PRÓXIMOS DIAS IREI ESTAR AUSENTE.
FICA A MUSICA DE RY COODER, BANDA SONORA DE " PARIS TEXAS.

FOI COM ESTAS MÃOS QUE OUSEI
AGARRAR A LUA.
E DERAM-ME
O CÉU.

Manuel F.C. Almeida



- Vê como te portas – segredou-me a Isabel ao ouvido – nada de meteres as mãos onde não deves. Não resisti a recordar-me e a dar uma breve gargalhada. Ela ainda se recordava como tinha-mos começado. Há muito tempo que não sentia o meu riso tão natural, tão meu.
Não sou o que se apelida de bom garfo. Já fui, mas creio que a necessidade obriga-nos a mudar e comigo assim foi. Por isso ao ver o que estava na mesa não pude reprimir um sentimento de náusea. As únicas comidas aceitáveis eram as saladas. Um desperdício obsceno. A minha reflexão foi interrompida pela Fátima.
- Então Dr. o que vem cá fazer? – Olhei para ela. Linda e bela, a seu lado um homem com idade para ser seu pai. A Isabel ouviu a questão e discretamente tocou-me na perna. De imediato fiquei alerta. Esperava que se movessem, não esperava é que fosse assim. se a minha viajem tinha sido comunicada porquê tal pergunta?
- Vim verificar como decorre o levantamento arqueológico. Já tinha saudades do campo! - Respondi. De imediato vi abrir-se um sorriso cúmplice.



Derramo o meu corpo no teu,
E das sinfonias do amor
Farei crescer tulipas rubras,
Transparentes como tu.
Os jardins do mundo,
Vão gritar o teu nome.
E saudar-te, libertando
um arco-íris no céu.

A teus pés, a beleza.
A teu lado, apenas eu.

Manuel F.C.Almeida

terça-feira, março 06, 2007


E ainda me fazia confusão que num estado laico surgissem sempre padres em momentos para os quais era convidado.
A conversa de circunstância instalou-se. Em boa verdade já não suportava nada daquilo. Não queria saber dos projectos de um novo quartel de bombeiros nem do interesse da igreja em recuperar a basílica da terra. Mas com um sorriso na cara dizia que sim sem saber a quê. Era sempre boa política. Tirando a Isabel e a Fátima nada naquela sala valia qualquer tipo de atenção da minha parte.
O jantar começou a ser servido e pela primeira vez dei comigo a pensar no que se seguiria. O costume era abrirem o jogo logo às primeiras conversas. Ali não aconteceu isso. Fiquei na expectativa, sabia que viriam à carga. E não me agradou aquele “ adiar”.
Calhou sentar-me entre a minha cicerone e a minha anfitriã. Calhou não. Por um motivo qualquer a dona da casa tinha-me colocado a seu lado, numa mesa comprida e ampla.

segunda-feira, março 05, 2007









blues
(for you my sweet friend)









I
One last word,
One last kiss,
Let me be the dream
That you missed
II
Eu queria dançar contigo no ar
Ser o futuro em ti adiado
Enlaçar o teu corpo e voar
Ser o sonho um dia sonhado.

Eu posso, sei o que sou.
Sou um presente ao passar;
Presente que colocou
Todo o teu ser a brilhar.

É isto a vida, feita de espanto
Desencontros feitos no tempo
É isto a vida, é isto que canto
Ponho palavras vivas no vento.

to. Manuel F. C. Almeida

PARA FANNY OWEN
(obrigado)
Ouve-me por favor.
A nossa história já aconteceu
E não a quero trágica
Como da ultima vez
Vamos dar beijos
No coração
Sim, no coração
Onde nada mais paire
Que um desejo de fusão.

Manuel F. C. Almeida


Rapidamente todos se aproximaram. O primeiro, presidente da Câmara municipal, homem alto e encorpado, na casa dos 50 e muitos anos, estendeu-me a mão e cumprimentou-me de forma vigorosa e efusiva. Ao mesmo tempo que me dizia – vejo que já conhece a minha esposa. – A primeira parte do puzzle estava acabada. A minha deusa era casada e logo com o presidente. Mentalmente não consegui evitar um sorriso. Ela deveria ter um pouco mais de 30 anos, magra, frágil, ele mais de 50 e com a figura característica dos políticos de província, que fazem politica em meio de petiscos e copos. A Isabel captou o meu momento e tocou-me levemente no braço. Quando a olhei tive a sensação que ia começar a rir desavergonhadamente. Felizmente conteve-se. Os outros convivas aproximaram-se e fiquei a conhecer o comandante do posto da GNR, o comandante dos Bombeiros, a restante vereação e para espanto meu até o padre lá estava. Pessoalmente não suportava tais criaturas.

domingo, março 04, 2007




















Podem roubar-me o tempo
Roubar-me o espaço e o lugar
Podem destruir todo o mundo

Mas não deixarei que me roubem
os sonhos de te sonhar.

Manuel F.C. Almeida


- Dr! Então como está - disse. Ao mesmo tempo que me estendia a mão. Reparei então nas suas mãos. Brancas, tão brancas que se podia ver de forma clara o azul das veias e artérias. Estava muito bela. Vestia uma roupa preta que contrastava com a sua cor natural, o cabelo solto e longo de um negro hipnotizante, aliado a um par de olhos da cor do mar faziam dela uma brisa no meio de um ambiente demasiado austero e formal como aquele.
- Venha vou apresenta-lo, mas primeiro diga-me o seu nome – disse em ar de cumplicidade. - Diga-me também o seu – interroguei-a – pode chamar-me Fátima – disse
- Eu sou Manuel Carvalho – respondi – para si só Manuel – disse-lhe baixinho
Olhou-me com os seus grandes e belos olhos e sorriu como as Mulheres o fazem quando nos desejam dizer algo sem verbalizar o quê.- Meus amigos tenho a honra de lhes apresentar o Dr. Manuel Carvalho – disse, numa alocução para toda a sala. A Isabel, a meu lado, sorriu e piscou-me o olho, era um trejeito de cumplicidade que tínhamos há anos.

sábado, março 03, 2007





















É na cor esmeralda do teu olhar,
Nas palavras que só tu sabes dizer,
Que descubro este imenso prazer
De te ouvir a falar, pra te cantar.

Não sei que pensar, nem sei que fazer
Estou já perdido, não o vou negar
Nunca na vida eu pude tocar
Alma tão pura com tanto prazer.

E agora que vais, que partes prá vida
Há cravos vermelhos pra te abraçar
E um mundo que se abre ao teu passar
Um mundo que assiste à tua corrida

No desespero de não encontrar
O lugar que um dia ousaste sonhar.


Manuel F. C. Almeida











Seguimos a senhora até ao salão. Quando entrámos senti o olhar de uma dúzia de pessoas pousar em mim. Só então reparei na forma como vinha vestido. Trazia umas jeans já com algum tempo e um velho pullover de lã, que a minha falecida mãe me tinha feito . Na sala pareceu-me que todos estavam vestidos para uma gala. O provincianismo continuava a ser a marca mais importante do País. Senti que algumas pessoas ficaram incomodadas pelo meu aspecto. Nada de importante. Eu nem queria estar com aquela gente. Todos me pareciam saidos de um filme de série B, a pompa, o ar de gente importante, tudo aquilo me deixava cansado, entendiado. Olhei para a Isabel como que a procurar um refúgio, mas ela devolveu-mo sem me acolher. De repente surgiu, vinda do nada, a minha companheira de viajem. Vinha simplesmemte deslumbrante. Aquela sensação incómoda e sempre tão animalesca que surge quando se deseja alguém, brotou em mim como se um novo rio tivesse nascido em mim..
Ainda assim foi a primeira a quebrar o silêncio que se tinha instalado: