
Olha!
Já sei a cor da tua alma.
Quiseste pinta-la com tinta
Incolor,
Mas ela acabou por se mostrar
No seu arco-íris de pureza.
Tua alma é da cor do amor
A não esquecer
E o teu “eu” só um poema
A despertar no amanhecer.
Manuel F. C. Almeida
Eu pertenço a um outro país que não o vosso, a um outro quarteirão, a uma outra solidão LÈO FERRÉ



- Vê como te portas – segredou-me a Isabel ao ouvido – nada de meteres as mãos onde não deves. Não resisti a recordar-me e a dar uma breve gargalhada. Ela ainda se recordava como tinha-mos começado. Há muito tempo que não sentia o meu riso tão natural, tão meu.
Não sou o que se apelida de bom garfo. Já fui, mas creio que a necessidade obriga-nos a mudar e comigo assim foi. Por isso ao ver o que estava na mesa não pude reprimir um sentimento de náusea. As únicas comidas aceitáveis eram as saladas. Um desperdício obsceno. A minha reflexão foi interrompida pela Fátima.
- Então Dr. o que vem cá fazer? – Olhei para ela. Linda e bela, a seu lado um homem com idade para ser seu pai. A Isabel ouviu a questão e discretamente tocou-me na perna. De imediato fiquei alerta. Esperava que se movessem, não esperava é que fosse assim. se a minha viajem tinha sido comunicada porquê tal pergunta?
- Vim verificar como decorre o levantamento arqueológico. Já tinha saudades do campo! - Respondi. De imediato vi abrir-se um sorriso cúmplice.



Rapidamente todos se aproximaram. O primeiro, presidente da Câmara municipal, homem alto e encorpado, na casa dos 50 e muitos anos, estendeu-me a mão e cumprimentou-me de forma vigorosa e efusiva. Ao mesmo tempo que me dizia – vejo que já conhece a minha esposa. – A primeira parte do puzzle estava acabada. A minha deusa era casada e logo com o presidente. Mentalmente não consegui evitar um sorriso. Ela deveria ter um pouco mais de 30 anos, magra, frágil, ele mais de 50 e com a figura característica dos políticos de província, que fazem politica em meio de petiscos e copos. A Isabel captou o meu momento e tocou-me levemente no braço. Quando a olhei tive a sensação que ia começar a rir desavergonhadamente. Felizmente conteve-se. Os outros convivas aproximaram-se e fiquei a conhecer o comandante do posto da GNR, o comandante dos Bombeiros, a restante vereação e para espanto meu até o padre lá estava. Pessoalmente não suportava tais criaturas.

- Dr! Então como está - disse. Ao mesmo tempo que me estendia a mão. Reparei então nas suas mãos. Brancas, tão brancas que se podia ver de forma clara o azul das veias e artérias. Estava muito bela. Vestia uma roupa preta que contrastava com a sua cor natural, o cabelo solto e longo de um negro hipnotizante, aliado a um par de olhos da cor do mar faziam dela uma brisa no meio de um ambiente demasiado austero e formal como aquele.
- Venha vou apresenta-lo, mas primeiro diga-me o seu nome – disse em ar de cumplicidade. - Diga-me também o seu – interroguei-a – pode chamar-me Fátima – disse
- Eu sou Manuel Carvalho – respondi – para si só Manuel – disse-lhe baixinho
Olhou-me com os seus grandes e belos olhos e sorriu como as Mulheres o fazem quando nos desejam dizer algo sem verbalizar o quê.- Meus amigos tenho a honra de lhes apresentar o Dr. Manuel Carvalho – disse, numa alocução para toda a sala. A Isabel, a meu lado, sorriu e piscou-me o olho, era um trejeito de cumplicidade que tínhamos há anos.



Como é bom sentir-te assim,
Como a neblina do mar
Que Vai e vem sem ter fim
Como é bom ver-te ao partir
Uma caravela de sonhos
Que vai e vem a sorrir
Como é bom estar só contigo
Beber-te o sorriso nos olhos
Que vai e vem, como amigo
Como é bom ter estado aqui
Tocar tua alma em flor
Que vai e vem por ai
Como é bom viver em ti.
Manuel F. C. Almeida


