quarta-feira, março 07, 2007




- Vê como te portas – segredou-me a Isabel ao ouvido – nada de meteres as mãos onde não deves. Não resisti a recordar-me e a dar uma breve gargalhada. Ela ainda se recordava como tinha-mos começado. Há muito tempo que não sentia o meu riso tão natural, tão meu.
Não sou o que se apelida de bom garfo. Já fui, mas creio que a necessidade obriga-nos a mudar e comigo assim foi. Por isso ao ver o que estava na mesa não pude reprimir um sentimento de náusea. As únicas comidas aceitáveis eram as saladas. Um desperdício obsceno. A minha reflexão foi interrompida pela Fátima.
- Então Dr. o que vem cá fazer? – Olhei para ela. Linda e bela, a seu lado um homem com idade para ser seu pai. A Isabel ouviu a questão e discretamente tocou-me na perna. De imediato fiquei alerta. Esperava que se movessem, não esperava é que fosse assim. se a minha viajem tinha sido comunicada porquê tal pergunta?
- Vim verificar como decorre o levantamento arqueológico. Já tinha saudades do campo! - Respondi. De imediato vi abrir-se um sorriso cúmplice.



Derramo o meu corpo no teu,
E das sinfonias do amor
Farei crescer tulipas rubras,
Transparentes como tu.
Os jardins do mundo,
Vão gritar o teu nome.
E saudar-te, libertando
um arco-íris no céu.

A teus pés, a beleza.
A teu lado, apenas eu.

Manuel F.C.Almeida

terça-feira, março 06, 2007


E ainda me fazia confusão que num estado laico surgissem sempre padres em momentos para os quais era convidado.
A conversa de circunstância instalou-se. Em boa verdade já não suportava nada daquilo. Não queria saber dos projectos de um novo quartel de bombeiros nem do interesse da igreja em recuperar a basílica da terra. Mas com um sorriso na cara dizia que sim sem saber a quê. Era sempre boa política. Tirando a Isabel e a Fátima nada naquela sala valia qualquer tipo de atenção da minha parte.
O jantar começou a ser servido e pela primeira vez dei comigo a pensar no que se seguiria. O costume era abrirem o jogo logo às primeiras conversas. Ali não aconteceu isso. Fiquei na expectativa, sabia que viriam à carga. E não me agradou aquele “ adiar”.
Calhou sentar-me entre a minha cicerone e a minha anfitriã. Calhou não. Por um motivo qualquer a dona da casa tinha-me colocado a seu lado, numa mesa comprida e ampla.

segunda-feira, março 05, 2007









blues
(for you my sweet friend)









I
One last word,
One last kiss,
Let me be the dream
That you missed
II
Eu queria dançar contigo no ar
Ser o futuro em ti adiado
Enlaçar o teu corpo e voar
Ser o sonho um dia sonhado.

Eu posso, sei o que sou.
Sou um presente ao passar;
Presente que colocou
Todo o teu ser a brilhar.

É isto a vida, feita de espanto
Desencontros feitos no tempo
É isto a vida, é isto que canto
Ponho palavras vivas no vento.

to. Manuel F. C. Almeida

PARA FANNY OWEN
(obrigado)
Ouve-me por favor.
A nossa história já aconteceu
E não a quero trágica
Como da ultima vez
Vamos dar beijos
No coração
Sim, no coração
Onde nada mais paire
Que um desejo de fusão.

Manuel F. C. Almeida


Rapidamente todos se aproximaram. O primeiro, presidente da Câmara municipal, homem alto e encorpado, na casa dos 50 e muitos anos, estendeu-me a mão e cumprimentou-me de forma vigorosa e efusiva. Ao mesmo tempo que me dizia – vejo que já conhece a minha esposa. – A primeira parte do puzzle estava acabada. A minha deusa era casada e logo com o presidente. Mentalmente não consegui evitar um sorriso. Ela deveria ter um pouco mais de 30 anos, magra, frágil, ele mais de 50 e com a figura característica dos políticos de província, que fazem politica em meio de petiscos e copos. A Isabel captou o meu momento e tocou-me levemente no braço. Quando a olhei tive a sensação que ia começar a rir desavergonhadamente. Felizmente conteve-se. Os outros convivas aproximaram-se e fiquei a conhecer o comandante do posto da GNR, o comandante dos Bombeiros, a restante vereação e para espanto meu até o padre lá estava. Pessoalmente não suportava tais criaturas.

domingo, março 04, 2007




















Podem roubar-me o tempo
Roubar-me o espaço e o lugar
Podem destruir todo o mundo

Mas não deixarei que me roubem
os sonhos de te sonhar.

Manuel F.C. Almeida


- Dr! Então como está - disse. Ao mesmo tempo que me estendia a mão. Reparei então nas suas mãos. Brancas, tão brancas que se podia ver de forma clara o azul das veias e artérias. Estava muito bela. Vestia uma roupa preta que contrastava com a sua cor natural, o cabelo solto e longo de um negro hipnotizante, aliado a um par de olhos da cor do mar faziam dela uma brisa no meio de um ambiente demasiado austero e formal como aquele.
- Venha vou apresenta-lo, mas primeiro diga-me o seu nome – disse em ar de cumplicidade. - Diga-me também o seu – interroguei-a – pode chamar-me Fátima – disse
- Eu sou Manuel Carvalho – respondi – para si só Manuel – disse-lhe baixinho
Olhou-me com os seus grandes e belos olhos e sorriu como as Mulheres o fazem quando nos desejam dizer algo sem verbalizar o quê.- Meus amigos tenho a honra de lhes apresentar o Dr. Manuel Carvalho – disse, numa alocução para toda a sala. A Isabel, a meu lado, sorriu e piscou-me o olho, era um trejeito de cumplicidade que tínhamos há anos.

sábado, março 03, 2007





















É na cor esmeralda do teu olhar,
Nas palavras que só tu sabes dizer,
Que descubro este imenso prazer
De te ouvir a falar, pra te cantar.

Não sei que pensar, nem sei que fazer
Estou já perdido, não o vou negar
Nunca na vida eu pude tocar
Alma tão pura com tanto prazer.

E agora que vais, que partes prá vida
Há cravos vermelhos pra te abraçar
E um mundo que se abre ao teu passar
Um mundo que assiste à tua corrida

No desespero de não encontrar
O lugar que um dia ousaste sonhar.


Manuel F. C. Almeida











Seguimos a senhora até ao salão. Quando entrámos senti o olhar de uma dúzia de pessoas pousar em mim. Só então reparei na forma como vinha vestido. Trazia umas jeans já com algum tempo e um velho pullover de lã, que a minha falecida mãe me tinha feito . Na sala pareceu-me que todos estavam vestidos para uma gala. O provincianismo continuava a ser a marca mais importante do País. Senti que algumas pessoas ficaram incomodadas pelo meu aspecto. Nada de importante. Eu nem queria estar com aquela gente. Todos me pareciam saidos de um filme de série B, a pompa, o ar de gente importante, tudo aquilo me deixava cansado, entendiado. Olhei para a Isabel como que a procurar um refúgio, mas ela devolveu-mo sem me acolher. De repente surgiu, vinda do nada, a minha companheira de viajem. Vinha simplesmemte deslumbrante. Aquela sensação incómoda e sempre tão animalesca que surge quando se deseja alguém, brotou em mim como se um novo rio tivesse nascido em mim..
Ainda assim foi a primeira a quebrar o silêncio que se tinha instalado:

sexta-feira, março 02, 2007














Como é bom sentir-te assim,
Como a neblina do mar
Que Vai e vem sem ter fim

Como é bom ver-te ao partir
Uma caravela de sonhos
Que vai e vem a sorrir

Como é bom estar só contigo
Beber-te o sorriso nos olhos
Que vai e vem, como amigo

Como é bom ter estado aqui
Tocar tua alma em flor
Que vai e vem por ai

Como é bom viver em ti.


Manuel F. C. Almeida




- Então ainda dormes. Disse-me a Isabel, interrompendo as minhas reflexões.
- Claro que não, estava aqui a falar com os meus botões respondi. _ agora vê lá, nao te exponhas muito e acima de tudo tem cautela com as mulheres.

- porquê? acaso são muito diferentes das outras?
- Ainda não aprendeste nada na vida meu querido? Todas as mulheres são diferentes – disse a sorrir maliciosamente, enquanto caminhávamos para a porta da casa.
Só naquele momento olhei o edifício. Era uma velha, mas bem recuperada, casa de lavradores. Típica da região. Uma delicia arquitectónica, um legado de um tempo que supostamente estava enterrado.
A Isabel agarrou uma linda maçaneta de cobre e bateu. Pouco tempo depois uma senhora de meia-idade veio abrir:
- Entrem por favor, esperam-nos no salão. – a casa era magnifica, ricamente decorada, pejada de arte e de prata. Muita prata.

quinta-feira, março 01, 2007
















Ouve bem esta guitarra
Ouve a alma que ela tem
É a alma de um amigo
Alma que te quer bem

Parece estar a chorar
Lágrimas por te perder
Mas ela está a cantar
A alegria do teu ser

E na alegria do cantar
Ela parece um cometa
Sabe que o teu lugar
É todo este planeta.


Manuel F.C. Almeida


Era quase sempre assim. Quando chegava o poder tentava aliciar-me. Era, norma geral, uma tentativa de me condicionar. De norte a sul tinha vivido muitos momentos semelhantes. Sabia o que me esperava, ou pensava que sabia.
A viajem foi curta. Quase que não tinha tempo de acabar o meu cigarro. Um dos prazeres que não tinha deixado. Nesses tempos de radicalismos, fumar tinha-se tornado um “crime” em termos sociais. A velha Europa havia descoberto que ganhava milhões em impostos sobre o tabaco e que gastava ainda mais milhões para tratar de doenças provocadas pelo mesmo. No balanço de tudo isso, os governos tinham decidido contra os que fumavam. Fizeram dos fumadores criminosos. Pura hipocrisia, a industria nada sofreu, e um pouco por toda a parte os fumadores começaram a ser ostracizados.
Tempos negros de um moralismo abjecto. Tudo começou a ser contabilizado em termos de custos. Pessoalmente estava a atingir um ponto de saturação face à pequenez do País.
Não a pequenez geográfica, mas sim a pequenez cultural, social, mental. Sufocava-me pensar nisso. Estava a ficar com claustrofobia.

quarta-feira, fevereiro 28, 2007





















Há um tempo em que as palavras
Vivem de silêncios
Presas na tempestade dos
Sentidos.
Um tempo de luta
Um tempo de medos
Um tempo de mil segredos

Há um tempo para tudo
Acontecer
Até ter medo de dizer
O mais óbvio.
Há um tempo de te querer.
Há um tempo, que tem de se
Fazer.

Manuel F. C. Almeida

terça-feira, fevereiro 27, 2007




















ELEGIA.

Não é afeição, é algo mais
Não há palavras pró descobrir
Talvez deslumbre ou amizade
Talvez outro valor, outro sentir

Talvez memória, já saudade
Das belezas que me encantaram.
Talvez tempo, eternidade
De duas almas que se tocaram.

Talvez seja tudo e seja nada
Talvez só viver em cada passo
Talvez ver que nesta estrada
Nada acontece por acaso.


Manuel F. C. Almeida


Suspirei ao antever o tédio que me esperava com gente a dobrar-se para um lado e para o outro, não era meu uso sociabilizar-me com muita gente, mas lá teria de ir.
Arrumei as malas a um canto do quarto, e deitei-me a descansar. A viajem e o calor estavam a fazer mossa em mim. Embora me sentisse bem, os efeitos de uma intervenção cirúrgica efectuada anos atrás faziam sentir-se. Rapidamente adormeci.
O som do telemóvel acordou-me. Era a Isabel a perguntar se estava pronto. Disse-lhe que não, que ia tomar um duche mas que em 10 minutos estaria pronto. Era estranho estar de novo perto dela. O estar só e a fragilidade emocional começavam a fazer-se sentir. E depois era a sua pessoa, a sua beleza, e a armadilha das memórias. Estava ciente de tudo isto, mas ainda assim começava a sentir-me tentado.

segunda-feira, fevereiro 26, 2007





















Tenho um aperto no peito
O coração a sangrar
E as guitarras no meu leito
Não me deixam já cantar.

Digo adeus a um amigo
Que parte, se vai embora
Mas deixa pra sempre comigo
O partilhar de uma hora.

Vai meu lindo rouxinol
Encantar outras paragens
Tens no teu olhar o sol
No teu canto, mil paisagens.

Fica em mim o teu cantar
Guardo-o numa caixinha
Para um dia o recordar
Dizer à caixa: - é minha

Manuel F.C. Almeida



- A limpeza é feita de dois em dois dias, e o melhor é que tratam de tudo, desde a louça à roupa. Não tens de te preocupar com mais nada.
- Desculpa – disse eu – mas onde posso conseguir uma secretária e um computador?
- Já temos tudo isso. Tens um portátil á tua espera, o departamento enviou-o ontem com o teu nome – disse ela.
Fiquei mais descansado, na verdade já não sabia viver sem computador. Hábitos que adquirem.
-Logo á noite tens de me contar algo mais sobre aquela história dos segredos da terra. – Disse eu.
Ela sorriu, os seus olhos brilharam – tens muito tempo para isso,.... ou é grande a pressa?
Respondeu. Senti na sua voz um misto de despeito e de diversão.
- Bom, agora vou. Dorme um pouco, logo á noite temos um jantar a convite da câmara. E não vale a pena tentares desculpas! Aqui tens de os gramar, nem que seja por uma noite. - Finalizou.

(continua)




















Hoje vi cair uma estrela, Corri para lhe tocar com a mão
E quando lhe toquei entendi, Que as estrelas quando se tocam
Enchem-nos
O coração de
De partilha.
E revivi a sensação de
Tocar a liberdade com os dedos, Olhar os seus cabelos
E dizer – obrigado. E na quietude do silencio ver a sua
Ascensão
Como dádiva
Do acontecer,
Tendo a felicidade
De um dia
Ser recordado
Na memória
De uma estrela
Linda
Como o mundo.

Manuel F. C. Almeida