terça-feira, junho 09, 2009












Mil tempestades imensas
Abrigam-se no nosso olhar
Soltam-se os nossos sentidos
Que se derramam no mar

Nem tu os vais entender
Nem eu os quero domar.

Manuel F. C. Almeida.



fotoLuis Gaio

domingo, junho 07, 2009












Guardo no meu olhar
A ternura que
Vivi,
Quando numa noite
De verão
Pelos teus lábios
Bebi
O calor de uma
Paixão.
Que teima em querer-te
Aqui.

Manuel F. C. Almeida



fotoTHE ANYWHEN EXPERIMENT

sexta-feira, junho 05, 2009



















Como dizer-te que o amor
Com o amor se alimenta
Quando o amor para ti
Se escreve numa sebenta.

Manuel F. C. Almeida

quarta-feira, junho 03, 2009



















Das memórias escondidas
Saltam os contornos da cidade,
O som caótico dos dias,
E o sabor a canela do teu
Corpo.

Manuel F. C. Almeida



fotonegateven

segunda-feira, junho 01, 2009


















Percorri com os lábios
Os vales encantados
Do teu corpo.
E nas quedas de água
Do teu ser
Matei a sede de viver.

Manuel F.C. Almeida


foto negateven

sábado, maio 30, 2009













Os meus dedos, camponeses do ser,
Que descobrem em ti terras encantadas
Usam magia em vez de enxadas
A cultivar o teu corpo de prazer
Em campos de papoilas aveludadas.

Manuel F. C. Almeida



fotoSusana Febra Ferreira

quinta-feira, maio 28, 2009

DESCULPEM MAS NÃO POSSO DEIXAR DE POSTAR ISTO. PODE SER TEORIA DA CONSPIRAÇÃO MAS NÃO DEIXA DE APONTAR ALGUNS FACTOS CURIOSOS.



















Tremes sob o peso do vento
Gritas o nome do mundo
Vives no intervalo do tempo
Morres num sono profundo

Iças, a bandeira da vida
Queimas os pulmões ao nascer
Mostras a face escondida
No momento de morrer

E vives sem nunca entender
Que o amor é uma ilusão
Um quadro pra te prender
Na galeria da paixão.



Manuel F.C. Almeida



fotoJET ...

terça-feira, maio 26, 2009




















Perder o tempo nos dentes e cagar-me.
Colher chatos nos tomates.
Contingências
Intemporais?
. Esta é a sublime interrogação da poesia pós modernista ou como diria o ministro:
- Isto é o expoente máximo entre o ser e o ter, uma equação infalível, um teorema matemático. A derradeira interrogação filosófica cabalista.
A reflexão ministerial, como sempre feita a preceito, levantou uma onda de protestos sem precedente. Intelectuais de todos os quadrantes resolveram protestar, eles com uma manifestação junto á assembleia da república, na qual o orador apelou à masturbação colectiva de forma a tornar as escadas escorregadias, facto não totalmente conseguido dado a avançada idade de alguns dos participantes que ao invés de se virem acabaram por se ir, elas avançaram para uma forma de protesto mais radical, mascaram-se de 1º ministro, o que lhes valeu uma noite com bebidas pagas em bares de reputação duvidosa e, pelo menos num caso, o convite para um filme gay, coisa a que a convidada acedeu tendo os participantes do filme protestado pela falta de tratamento igual.
Também nos meios académicos e estudantis a revolta foi grande. Invocaram-se argumentos retirados da suma teológica e da obra poética Pessoana para contrariar as palavras do ministro. Algumas faculdades chegaram mesmo a fazer excursões organizadas ao jardim zoológico, nas quais levavam farnel de feijoada, vinho tinto, cebola crua e arroz de polvo de forma a evitar a flatulência leve. Um caso houve de dois estudantes que chegaram a comer sopa de legumes com lentilhas e acabaram numa sinfonia anal sem precedentes na história da nação.
A revolta alastrou também aos meios operários e camponeses e aqui atingiu uma violência extrema. Em cidades fortemente marcadas pela consciência operária nada foi poupado. As ruas viraram autenticas passadeiras de preservativos tal a violência do protesto. Farto de serem fodidos, os comités operários passaram a foder tudo e todos, havendo inclusive um caso de um operário ter fodido a mulher o que revela a selvajaria do protesto.
Nos campos, a mentalidade mais conservadora levou a episódios rocambolescos nos quais se deu conta da violação de galinhas, porcos, vacas e ovelhas, coisa banal nestas bandas, mas que neste caso assumiu proporções descontroladas e a noticia de um maioral ter sido apanhado a enrabar um padre evangélico foi a gota de água que levou o exercito a intervir.
Numa 1º fase os soldados bem armados conseguiram avanços significativos na repressão à violência instalada, mas mais tarde e em face da aparição de uma prostituta de Lisboa, vestida com roupa de saldos, a parecer uma banal mãe de família, acabaram por mudar a sua posição e deram inicio a uma das mais ferozes e sanguinárias revoluções do mundo. Tudo acabou depressa com uma disseminação de gonorreia por todo o lado, tendo os membros do governo sido infectados através das axilas, um marinheiro cego e barbudo estava infectado.
Por fim o ministro lá explicou que afinal a água mineral gaseificada sempre servira para alguma coisa.
Deu o seu arroto e cagou-se como um valente. Vai ser canonizado na próxima semana devido ao milagre produzido.



Manuel F.C. Almeida

sábado, maio 23, 2009



EM JUNHO















O meu caminho
É feito de terra
Crua, nua
Em guerra.
Planície pintada
No pó.
Caminho meu…
Só.

Manuel F. C. almeida



fotoSAGHER

quinta-feira, maio 21, 2009






A Alberto Pimenta.











Colhi o mundo e plantei-o no meu cérebro.
Dentro do meu cérebro está o mundo todo
Que colhi.
Mas se o mundo todo está no meu cérebro!
Puta que pariu!
Que fazes ai?


Manuel F. C. Almeida

terça-feira, maio 19, 2009





O MINISTRO

(tentar imaginar isto declamado por Mário Viegas)



Hoje o Sr. Ministro arrotou!
Inesperadamente arrotou!
Nada fazia prever tal acontecimento.
Em resultado disso o secretário do Sr. Ministro
Abriu um rigoroso inquérito
Para apurar como tinha acontecido
O ministerial arroto.
Foi criada uma comissão de inquérito
Composta por 10 membros
Responsável pela elaboração de um relatório.
O prazo é de dez dias após a tomada de posse.
Durante esse tempo
Cada membro da comissão
Terá direito a carro, subsídio de renda de casa,
Despesas de representação, subsidio para almoço
E telemóvel sem limite.
Pode ainda nomear uma secretária e contratar
Os serviços de uma call girl.

Isto porque o Sr. Ministro arrotou...
Imaginem agora se ele se tem peidado!


Manuel F. C. Almeida

domingo, maio 17, 2009



SEXO













O sexo,
Anexo,
Sem nexo
Ou complexo;
É só reflexo

Do tesão
Corporal
Convexo...

o sexo.


Manuel F. C. Almeida


sexta-feira, maio 15, 2009













“Na Natureza nada se perde, nada se cria, mas tudo se transforma.”

"Lavoisier"

Eu sempre fui, sempre serei
Sempre existi, sempre irei estar
Sou imortal, agora que sei
Que sou só matéria sempre a mudar

Eu era presente no começo do tempo
No instante zero da existência
Meus átomos foram soprados ao vento
Até se encontrarem em coerência

Por isso não creio na vida e na morte
Não creio nos Deuses, no bem ou no mal,
Existir como “ser” é uma questão de sorte
Viver nada tem de transcendental.

Manuel F.C. Almeida

quarta-feira, maio 13, 2009


















Foi com ela que abri
As portas do paraíso,
Engalanadas com balões
E papel de embrulho
Colorido.
Foi com ela que encontrei
A imortalidade dos sentidos
Revelados nos beijos
Que animavam nossos corpos.

E foi com ela que perdi
A fé nos amores eternamente
Incertos.

Manuel F. C. Almeida



fotoJoão Camilo

segunda-feira, maio 11, 2009




















Só a lua é testemunha
Do meu gesto.
Agarro o luar na ponta
Dos dedos.
E com eles encanto o
Teu ventre
Que como uma flor
Se descobre…
Para mim.

Manuel F.C. Almeida


foto:Nuno Bernardo

sábado, maio 09, 2009















PORQUE HOJE É DIA DE MUDANÇA


UM POETA DO TAMANHO DO MUNDO



Segue o teu destino



Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.



A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-próprios.



Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.



Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.



Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.



Ricardo Reis

sexta-feira, maio 08, 2009














Escrevo
Para te escrever.
Ocaso nu.
Torso a crescer.
Centelha de vida.
Eternamente esquecida.

Manuel F. C. Almeida


foto:DDiArte

quarta-feira, maio 06, 2009

















Já não me ouvem
Nos becos da cidade
Nem nas avenidas perdidas
Da memória.

O regresso marcado
Nas pedras da calçada
Perdeu-se no rasto
Do tempo de uma vida
Cheia de nada.

Manuel F.C. Almeida

segunda-feira, maio 04, 2009














O mar
Funde-se com o olhar.
E euperco-me no labirinto
Da palavra...
Universo

Manuel F. C. Almeida


foto:Nuno Miguel Silva

sábado, maio 02, 2009














Só. Estou cada dia mais só.
O mundo passa a correr por mim,
E eu parado, vejo as imagens desfilarem
Em quadros, pequenas telas
Animadas de vida.
Tudo me foge, o tempo
A música, o mar.
Aqui estou. Sentado num abismo
Que me é cada dia que passa
Mais exclusivamente meu.
Mas que se passa comigo?
Onde enterrei as orquídeas
Que me animavam?
Onde deixei as canções
Do olhar?
Talvez um dia volte a entrar
Naquele comboio voraz em que
Vejo outros deslizarem.

Mas não quero.
E ninguém se importa com isso…
Felizmente

Manuel F. C. Almeida

sexta-feira, maio 01, 2009

PORQUE HOJE É DIA DO TRABALHADOR:

CELEBRAR MAIO É MANTER VIVA A ESPERANÇA DE UM PLANETA MELHOR

quarta-feira, abril 29, 2009


















Afago a palavra,
O verbo.
Mergulho cego
No sentido.
Sou do conceito
Servo.
Das falácias
Foragido.


Manuel F. C. Almeida
foto:José d' Almeida & Maria Flores

segunda-feira, abril 27, 2009


















foto:joaopires

E em desespero
Confundiste
A alma com o
Corpo
E a chama de
Outono
Consumiu-me
A face.

Manuel F. C. Almeida

sexta-feira, abril 24, 2009















ABRIL

Eu sonho Abril do meu cantar
A liberdade descoberta
A esperança viva no olhar
A mordaça que liberta

Eu sonho um povo a caminhar
Na madrugada encoberta
Rubra flor em rubro andar
Porta fechada, logo aberta.

Sonho a revolução a criar

Sempre renovada e desperta.


Manuel F.C. Almeida

quarta-feira, abril 22, 2009



















Das sinfonias agitadas
Nos dedos
Restam os momentos
Da água nos lábios.
E a sede que matei em ti
Renova-se na tua sombra.

Manuel F. C. Almeida



foto:Mariana Bravo

segunda-feira, abril 20, 2009















Estendo no ar, o olhar
Procuro na noite o meu dia
Um rio que passa a cantar
Soletra a minha agonia
Procuro sentido prá vida
Nesta vida sem sentido
A centelha já perdida
De morto sem ter morrido


Manuel F.C. Almeida


foto:Daniel Pedrogam

sábado, abril 18, 2009











Primavera


Na primavera reinvento a vida
E tudo começa a brilhar.
Num sopro
Toda a paisagem se altera,
O verde nas árvores,
As mil cores na terra.
E no ar,
O canto das aves
Traz música
Ao olhar.




Manuel F.C. Almeida

quarta-feira, abril 15, 2009


















Á minha frente o caminho
Abriu portas ao destino
(Se é que tal coisa existe)
E o cansaço tomou-me
O corpo nu.
Nos olhos, o mar
Florido e cintilante
Devolveu-me
A flor de prata
Numa pérola...
Tu.


Manuel F. C. Almeida


foto:Nuno Bernardo

segunda-feira, abril 13, 2009















Vivo e acredito
No acaso do viver
Ao nascer sou já maldito.
Só me liberto ao morrer.



Manuel F. C. Almeida


foto:António Manuel Pinto da Silva

sábado, abril 11, 2009




















É a esperança que
espalha
Um ramo no bico
de pomba.
Farei do corpo
a muralha
Do sonho
que nunca tomba.


Manuel F.C. Almeida.



foto:Fernando Baptista

quinta-feira, abril 09, 2009








foto:Nuno Bernardo










Liberto-me no andar
Pelo mundo,
Naquela centelha de tempo
Temperada na tempestade...
Nas sílabas da madrugada
Onde mora a liberdade.

Manuel F.C. Almeida

terça-feira, abril 07, 2009












FLOR





Porque me escrevo plural?
Porque na escrita
Somos tempo
E flor
Somos vento
E amor.
Até o crepitar de um poema
Faz de nós
O seu cantor.


Manuel F.C. Almeida


foto:Daniel Pedrogam

domingo, abril 05, 2009















Vivo na ilusão de uma luz
Eterna!
Nascida nas sombras da culpa.




Manuel F. C. Almeida



foto:Nuno Duarte

sexta-feira, abril 03, 2009


















Ser ou não ser
Estar ou não estar
Querer ou não querer
Amar ou não amar
De dúvida em dúvida
Te sinto.

Mas nunca te sinto chegar.


Manuel F. C. Almeida


foto:Giselle Negro Rocha

quarta-feira, abril 01, 2009
















Comprei uma máscara
De azul e carmim
Escondi-me do ter
Do ser e de mim
Vivi sem viver
Convencido que era
Um pobre cordeiro
Em paz e sem guerra
Mas a mão do real
De um sonho saída
Tirou-me o disfarce
Devolveu-me á vida



Manuel F. C. Almeida

segunda-feira, março 30, 2009









foto:Fabi Olive






Só a liberdade
Não tem guias.
Nem mapas
Ou receitas mágicas.




Manuel F.C. Almeida

sábado, março 28, 2009


















Conchas de luz
Um olhar frio
No som de um búzio
Roubado ao rio
Esperei pela lua
Agitando varas
Curei a cegueira
Transplantando caras
Agarrei uma flauta
Toquei-a bem alto
Da outra falésia
Libertou-se um salto
A concha partiu-se
O olhar aqueceu
O canto do búzio
Segui-me e morreu.
Manuel F. C. Almeida

quinta-feira, março 26, 2009




Crónicas da liberdade





No jardim da liberdade

Como sempre a noite torna a vida mais completa. Tinha andado o tempo suficiente para apreciar um velho banco de jardim. Não era um banco qualquer nem um jardim qualquer, era o meu banco e o meu jardim. Meu e de todas as memórias que tinha. O banco dos Chapas, das Anas, das Beatrizes, das Isabeis, dos Migueis, dos Marrecos e de tantos outros que se consumiam no tempo sem darem noticia de que o tempo é uma avenida na qual só se caminha num sentido.
Era doce a sensação de estar ali. Á minha frente, um pequeno lago artificial servia de refugio a alguns patos coloridos que me pareciam os mesmos de há anos atrás. No meio do lago um bar. Tempos houve em que não existia, e o silêncio daquele jardim era ouro para uns quantos grupos de rapazes e raparigas que faziam daquele jardim o seu refúgio das realidades familiares ou simplesmente o seu refúgio para uma boa noite de conversa. Também recordo os tempos em que o bar se transformou no aglutinar de novas gentes e de lindas trocas de olhos, de cumplicidades ingénuas e de enamoramento.
Agora ali estava eu. Sozinho, e as vozes que ouvia não eram desconhecidas. Eram vozes daqueles tempos. Foda-se. Foi tão bom ter vivido ali, ter os amigos que tive. Os jovens nunca se apercebem da importância dos lugares, antes de deixarem de ser jovens.
Perdido na imensidão das memórias, nem dei pela presença de uma figura feminina que se tinha aproximado. Só quando perguntou se podia sentar-se, olhei para ela. Não muito alta, de cabelos pretos e compridos, nariz não muito grande mas arrebitado, um ainda belo par de tetas. Vestia umas jeans e uma camisa branca, um casaco de cabedal, ou a imitar, protegia-a do frio.
Respondi que sim, que o lugar era de todos, como sempre tinha sido. Nunca se negou a ninguém o direito a se sentar ali. Perguntou-me se tinha lume. Procurei nos bolsos e encontrei um velho isqueiro. Não pude deixar de sorrir, era o meu velho isqueiro alimentado a petróleo. Uma raridade e preciosidade. Acendi-lhe o cigarro que ela tinha colocado nos lábios. Uns lábios cheios, carnudos que me faziam recordar alguém. Mas a noite era das minhas memórias. Não me apetecia falar, por isso permaneci em silêncio. Um silêncio que ela interrompeu quando me perguntou onde vivia. Olhei para ela devagar e sem pensar muito respondi que ali, aquele lugar era a minha casa. Ficou espantada, há anos que frequentava o sítio, quando vinha passear o seu cão, e não se recordava de me ver. Eu quis então saber se o há anos representava muitos ou poucos. Trinta e cinco, respondeu, com um sorriso. Mentalmente voltei aos meus doze ou treze anos e fui percorrendo o caminho das memórias nos anos que se seguiram. Nada. Não me recordava dela, ou pelo menos de nenhuma miúda com uma face semelhante. Só os lábios me faziam aproximar de alguém, disse-lhe que desde há muitos anos, embora ausente daquele lugar, lá tinha deixado a minha alma. Sorriu-me com um brilho nos lábios e no olhar. Olhou para o chão e quando voltou a levantar os olhos eu sabia o que ela ia dizer. Manel! Disse, já nem dos amigos te recordas? Fiquei sem palavras, quem seria esta mulher que me conhecia tão bem e que eu aparentemente desconhecia? Voltou a sorrir face ao meu espanto. Apanhou o cabelo com as mãos tornando-o um pouco menos volumoso, comecei a recordar a face de uma menina, a irmã mais nova de uma das minhas melhores amigas. Olhei novamente pra ela, agora sim recordava aquela miúda franzina que costumava aparecer agarrada á irmã.
Afinal a minha casa ainda tinha gente conhecida. E pelo aspecto dela valia a pena passar a noite ali, a conversar sobre o tempo em que o tempo não existia.


Manuel F. C. Almeida


terça-feira, março 24, 2009



















É meu dever
Ser homem
Cumprir o meu pacto
Com a vida
E limpar do meu existir
O odor do ópio
E da ilusão.

Manuel F. C. Almeida

domingo, março 22, 2009





foto:João Neves dos Santos





Desenhei-me sem mim
Numa tela ausente
Num tempo sem fim
Num tempo demente

Desenhei-me criança
E ao sol a sorrir
Meus olhos de esperança
Sonhavam partir

E os barcos do tempo
De velas abertas
Levavam no vento
Ideias desertas

E o desenho cresceu
Numa tela sem gente
E sem gente morreu
O meu sonho demente.

Manuel F. C. Almeida

sexta-feira, março 20, 2009


Crónicas da Liberdade

na avenida da liberdade






É na noite que me sinto livre. Percorrendo as ruas e a avenida perco o olhar nas cores garridas do néon. Em cada anónimo que se cruza comigo adivinho um drama ou um segredo terrível. Também há os que têm histórias felizes. Mas na noite os olhares são todos iguais, por isso parto do princípio que todos comungam os mesmos segredos, os mesmos desejos, as mesmas tragédias.

Uma gaja pede-me lume. Olho para ela. Os lábios pintados, lábios de puta. Para mim, à noite, todas as gajas que comigo se cruzam são putas. Puxo de um velho e engordurado isqueiro e tento aceder aos seus desejos. Uma, duas três vezes dou ao dedo e nada. O cabrão do isqueiro não dá nada. Ela pede o isqueiro. Quer tentar ela. Tudo bem. Dá ao dedo e a chama surge, Acende o cigarro e puxa uma longa e demorada passa. Devolve-me o isqueiro e agradece. Eu tou fodido com o isqueiro. Mas olho para ela sem animosidade. Sorrimos os dois. Entendo de imediato que ambos estamos sós e dispostos a conversar um pouco. Sentamo-nos num velho banco da avenida. A conversa flui em torno do que fazemos. Não dizemos o nome. Isso não é importante. Pergunta que faço ao que respondo, nada. É verdade, não faço nada.
Sou aquilo que toda a gente apelida de parasita. Vivo de noite, e durmo de dia. Não suporto os magotes de gente com cara de sofrimento que a madrugada faz levantar do leito. Eles convencidos de que têm algo para dizer e fazer no mundo. Elas convencidas que o trabalho lhes trouxe mais direitos e as guindou a posições de notoriedade social. Uma merda de vida. Um cinzentismo impressionante. Olhar para esta gente dá-me vómitos. E os jovens? Os jovens numa correria louca através dos corredores de uma qualquer universidade na ânsia de terminar um cursinho qualquer, de forma a ganharem um lugar neste inferno em que transformaram a existência.
Estou implacável, a gaja nem abre a boca, vai fumando o seu cigarro e acenando com a fronha, como se aquilo para ela fosse algo também pensado.
Um velho passa a passear um cão seboso e tão velho quanto ele. Arrastam-se ambos numa caminhada penosa. A gaja sorri para o velho. O infeliz devolve a gentileza e o cão olha-me numa súplica pela morte. Não sei ao certo quem faz um favor a quem. Tenho a sensação de que o cão só vive para dar ao velho o prazer de sair de casa á noite e escapar á mais que previsível velha chata com quem vive. Um carro de polícia passa, devagar. Lá dentro dois polícias olham para nós demoradamente. Eu sou conhecido e com o dedo mando-os pró caralho. Sorriem. Aparentemente a gaja não os incomoda. Ignoram até a sua presença a avançam no seu gastar nocturno de dinheiro aos contribuintes. Filhos da puta, remato eu. Não fazem nada e ainda chulam as gajas que atacam por estas bandas. A tipa volta a pedir-me o isqueiro. Não disse mais nada até agora. Começo a suspeitar que é mais um larilas vestido de gaja, como tantos que deambulam por estas bandas. Outro cigarro. Logo á primeira o isqueiro funciona. De soslaio olho-a melhor. Nariz pequeno, mãos cuidadas, boas tetas. Já pouco tenho para dizer. O silêncio dela começa a irritar-me. Não sou curioso mas foda-se, se estive a falar, o mínimo que a tipa pode fazer é dizer alguma coisa. Começo a ficar nervoso e sem mais nada para dizer. Resolvo calar-me e apreciar o movimento de putas, paneleirios chulos, clientes e policias que, num frenesim, se movem pela avenida. E a puta que não fala. Anos atrás já lhe tinha metido o caralho na boca. Ainda ssim ao menos tava calada por ter a boca cheia. Mas esta merda agora tá mudada. Um gajo já nem pode bater nas putas ou obriga-las ao broche. Por um lado a polícia aparece logo e os chulos davam-me cabo do canastro, por outro lado o perigo da gaja me morder o marzápio era mais que presente. Levantei-me disse-lhe adeus. Então a tipa resolveu dizer-me obrigado. Que tinha sido uma noite agradável. Que há muito não tinha noite tão interessante. Se eu quisesse poderia ir no carro dela até sua casa continuar a conversa. Parei um pouco a pensar na proposta. Com um sorriso declinei o convite. A mim não há puta que me leve para casa. Ainda me recordava do que tinha acontecido ao João. Acedeu ao pedido de uma gaja para ir a casa dela e acabou na igreja, no banco a pedir dinheiro, num emprego e agora costuma passar aqui com uma trela no pescoço.

quarta-feira, março 18, 2009


















Tenho uma paisagem inundada de gente
Num quadro calmo e demente
UM velho homem sentado, dormita.
Algures um cão uiva e um comboio apita.
No carreiro um velho burro passeia,
Um padre de pança cheia.
Nas margens do lago, ao longe
A pescar avisto um monge.
Há duas mulheres a dançar,
Há tanta luxúria no ar.
Olho de novo a paisagem,
Afinal era miragem.

E Jesus Cristo no peito
Sempre que me dá jeito

Manuel F.C. Almeida

segunda-feira, março 16, 2009





foto:Catarina Cesteiro







Chegaste com a brisa do sul
No mistério do tempo e
Diluíste-te na linha invisível
Do horizonte,
E eu contemplo a tua face
Nua.
O teu odor e o teu cabelo
Teimam em se revelar
Na tela do teu corpo
Que se debruça sobre
A minha adolescência
Tardia.

Manuel F. C. Almeida

sábado, março 14, 2009




foto:X.Maya












Todo o destino se faz
No agir
Nem deuses, nem anjos
Para culpar
A minha vontade cumpre
O meu cantar
E os meus poemas
Espelham o meu sentir.


Manuel F. C. Almeida

quinta-feira, março 12, 2009







foto:http://www.paulocesar.eu%20-%20paulo%20cesar/







O sabor da tua boca, esse teu riso
Que trocas comigo, rente ao luar
A cor desses teus lábios, um sorriso
Que se transforma no momento do gozar
O canto dos teus olhos, que preciso
Para sentir na minha noite o teu calor
O deleite do teu corpo onde me fixo
No momento de te dar o meu amor

E vencidas que são as madrugadas
Na ternura cristalina do sonhar
Crescem em nós mil alvoradas
E nelas mil poemas vão voar.

Manuel F.C. Almeida

terça-feira, março 10, 2009





foto:Daniel Oliveira







E se os lábios percorrem
As avenidas do teu corpo
Só param no florir
Da maré.


Manuel F. C. Almeida


domingo, março 08, 2009





foto:DDiArte










Em silêncio
Liberta-se o olhar
Do desejo,
Ergue-se um altar
Aos corpos
E aguarda-se
Pelo renovar
Da primavera.

Manuel F. C. Almeida

sexta-feira, março 06, 2009








foto: Paulo Silva









Tomar-te a
Boca
Na língua
E a vida
Nos lábios
Em flor.

Manuel F. C. Almeida

quarta-feira, março 04, 2009






foto: Marta Ferreira - www.mfotografia.com




A pele contra pele
Suaviza
A vontade

E o ventre em
Fogo
Celebra a saudade…
De nós.

Manuel F. C. Almeida