
Das memórias escondidas
Saltam os contornos da cidade,
O som caótico dos dias,
E o sabor a canela do teu
Corpo.
Manuel F. C. Almeida
fotonegateven
Eu pertenço a um outro país que não o vosso, a um outro quarteirão, a uma outra solidão LÈO FERRÉ

Das memórias escondidas
Saltam os contornos da cidade,
O som caótico dos dias,
E o sabor a canela do teu
Corpo.
Manuel F. C. Almeida
fotonegateven

Percorri com os lábios
Os vales encantados
Do teu corpo.
E nas quedas de água
Do teu ser
Matei a sede de viver.
Manuel F.C. Almeida
foto negateven

Tremes sob o peso do vento
Gritas o nome do mundo
Vives no intervalo do tempo
Morres num sono profundo
Iças, a bandeira da vida
Queimas os pulmões ao nascer
Mostras a face escondida
No momento de morrer
E vives sem nunca entender
Que o amor é uma ilusão
Um quadro pra te prender
Na galeria da paixão.
Manuel F.C. Almeida
fotoJET ...

Perder o tempo nos dentes e cagar-me.
Colher chatos nos tomates.
Contingências
Intemporais?
. Esta é a sublime interrogação da poesia pós modernista ou como diria o ministro:
- Isto é o expoente máximo entre o ser e o ter, uma equação infalível, um teorema matemático. A derradeira interrogação filosófica cabalista.
A reflexão ministerial, como sempre feita a preceito, levantou uma onda de protestos sem precedente. Intelectuais de todos os quadrantes resolveram protestar, eles com uma manifestação junto á assembleia da república, na qual o orador apelou à masturbação colectiva de forma a tornar as escadas escorregadias, facto não totalmente conseguido dado a avançada idade de alguns dos participantes que ao invés de se virem acabaram por se ir, elas avançaram para uma forma de protesto mais radical, mascaram-se de 1º ministro, o que lhes valeu uma noite com bebidas pagas em bares de reputação duvidosa e, pelo menos num caso, o convite para um filme gay, coisa a que a convidada acedeu tendo os participantes do filme protestado pela falta de tratamento igual.
Também nos meios académicos e estudantis a revolta foi grande. Invocaram-se argumentos retirados da suma teológica e da obra poética Pessoana para contrariar as palavras do ministro. Algumas faculdades chegaram mesmo a fazer excursões organizadas ao jardim zoológico, nas quais levavam farnel de feijoada, vinho tinto, cebola crua e arroz de polvo de forma a evitar a flatulência leve. Um caso houve de dois estudantes que chegaram a comer sopa de legumes com lentilhas e acabaram numa sinfonia anal sem precedentes na história da nação.
A revolta alastrou também aos meios operários e camponeses e aqui atingiu uma violência extrema. Em cidades fortemente marcadas pela consciência operária nada foi poupado. As ruas viraram autenticas passadeiras de preservativos tal a violência do protesto. Farto de serem fodidos, os comités operários passaram a foder tudo e todos, havendo inclusive um caso de um operário ter fodido a mulher o que revela a selvajaria do protesto.
Nos campos, a mentalidade mais conservadora levou a episódios rocambolescos nos quais se deu conta da violação de galinhas, porcos, vacas e ovelhas, coisa banal nestas bandas, mas que neste caso assumiu proporções descontroladas e a noticia de um maioral ter sido apanhado a enrabar um padre evangélico foi a gota de água que levou o exercito a intervir.
Numa 1º fase os soldados bem armados conseguiram avanços significativos na repressão à violência instalada, mas mais tarde e em face da aparição de uma prostituta de Lisboa, vestida com roupa de saldos, a parecer uma banal mãe de família, acabaram por mudar a sua posição e deram inicio a uma das mais ferozes e sanguinárias revoluções do mundo. Tudo acabou depressa com uma disseminação de gonorreia por todo o lado, tendo os membros do governo sido infectados através das axilas, um marinheiro cego e barbudo estava infectado.
Por fim o ministro lá explicou que afinal a água mineral gaseificada sempre servira para alguma coisa.
Deu o seu arroto e cagou-se como um valente. Vai ser canonizado na próxima semana devido ao milagre produzido.
Manuel F.C. Almeida

O meu caminho
É feito de terra
Crua, nua
Em guerra.
Planície pintada
No pó.
Caminho meu…
Só.
Manuel F. C. almeida
fotoSAGHER

O MINISTRO
(tentar imaginar isto declamado por Mário Viegas)
Hoje o Sr. Ministro arrotou!
Inesperadamente arrotou!
Nada fazia prever tal acontecimento.
Em resultado disso o secretário do Sr. Ministro
Abriu um rigoroso inquérito
Para apurar como tinha acontecido
O ministerial arroto.
Foi criada uma comissão de inquérito
Composta por 10 membros
Responsável pela elaboração de um relatório.
O prazo é de dez dias após a tomada de posse.
Durante esse tempo
Cada membro da comissão
Terá direito a carro, subsídio de renda de casa,
Despesas de representação, subsidio para almoço
E telemóvel sem limite.
Pode ainda nomear uma secretária e contratar
Os serviços de uma call girl.
Isto porque o Sr. Ministro arrotou...
Imaginem agora se ele se tem peidado!
Manuel F. C. Almeida


Foi com ela que abri
As portas do paraíso,
Engalanadas com balões
E papel de embrulho
Colorido.
Foi com ela que encontrei
A imortalidade dos sentidos
Revelados nos beijos
Que animavam nossos corpos.
E foi com ela que perdi
A fé nos amores eternamente
Incertos.
Manuel F. C. Almeida
fotoJoão Camilo

Só a lua é testemunha
Do meu gesto.
Agarro o luar na ponta
Dos dedos.
E com eles encanto o
Teu ventre
Que como uma flor
Se descobre…
Para mim.
Manuel F.C. Almeida
foto:Nuno Bernardo

PORQUE HOJE É DIA DE MUDANÇA
UM POETA DO TAMANHO DO MUNDO
Segue o teu destino
Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.
A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-próprios.
Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.
Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.
Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.
Ricardo Reis

Escrevo
Para te escrever.
Ocaso nu.
Torso a crescer.
Centelha de vida.
Eternamente esquecida.
Manuel F. C. Almeida
foto:DDiArte

O mar
Funde-se com o olhar.
E euperco-me no labirinto
Da palavra...
Universo
Manuel F. C. Almeida
foto:Nuno Miguel Silva

Só. Estou cada dia mais só.
O mundo passa a correr por mim,
E eu parado, vejo as imagens desfilarem
Em quadros, pequenas telas
Animadas de vida.
Tudo me foge, o tempo
A música, o mar.
Aqui estou. Sentado num abismo
Que me é cada dia que passa
Mais exclusivamente meu.
Mas que se passa comigo?
Onde enterrei as orquídeas
Que me animavam?
Onde deixei as canções
Do olhar?
Talvez um dia volte a entrar
Naquele comboio voraz em que
Vejo outros deslizarem.
Mas não quero.
E ninguém se importa com isso…
Felizmente
Manuel F. C. Almeida

Afago a palavra,
O verbo.
Mergulho cego
No sentido.
Sou do conceito
Servo.
Das falácias
Foragido.
Manuel F. C. Almeida
foto:José d' Almeida & Maria Flores

foto:joaopires
E em desespero
Confundiste
A alma com o
Corpo
E a chama de
Outono
Consumiu-me
A face.
Manuel F. C. Almeida

Das sinfonias agitadas
Nos dedos
Restam os momentos
Da água nos lábios.
E a sede que matei em ti
Renova-se na tua sombra.
Manuel F. C. Almeida
foto:Mariana Bravo

Estendo no ar, o olhar
Procuro na noite o meu dia
Um rio que passa a cantar
Soletra a minha agonia
Procuro sentido prá vida
Nesta vida sem sentido
A centelha já perdida
De morto sem ter morrido
Manuel F.C. Almeida
foto:Daniel Pedrogam


É a esperança que
espalha
Um ramo no bico
de pomba.
Farei do corpo
a muralha
Do sonho
que nunca tomba.
Manuel F.C. Almeida.
foto:Fernando Baptista

foto:Nuno Bernardo
Liberto-me no andar
Pelo mundo,
Naquela centelha de tempo
Temperada na tempestade...
Nas sílabas da madrugada
Onde mora a liberdade.
Manuel F.C. Almeida

FLOR
Porque me escrevo plural?
Porque na escrita
Somos tempo
E flor
Somos vento
E amor.
Até o crepitar de um poema
Faz de nós
O seu cantor.
Manuel F.C. Almeida
foto:Daniel Pedrogam

Ser ou não ser
Estar ou não estar
Querer ou não querer
Amar ou não amar
De dúvida em dúvida
Te sinto.
Mas nunca te sinto chegar.
Manuel F. C. Almeida
foto:Giselle Negro Rocha


Desenhei-me sem mim
Numa tela ausente
Num tempo sem fim
Num tempo demente
Desenhei-me criança
E ao sol a sorrir
Meus olhos de esperança
Sonhavam partir
E os barcos do tempo
De velas abertas
Levavam no vento
Ideias desertas
E o desenho cresceu
Numa tela sem gente
E sem gente morreu
O meu sonho demente.
Manuel F. C. Almeida
Crónicas da Liberdade
na avenida da liberdade
É na noite que me sinto livre. Percorrendo as ruas e a avenida perco o olhar nas cores garridas do néon. Em cada anónimo que se cruza comigo adivinho um drama ou um segredo terrível. Também há os que têm histórias felizes. Mas na noite os olhares são todos iguais, por isso parto do princípio que todos comungam os mesmos segredos, os mesmos desejos, as mesmas tragédias.
Uma gaja pede-me lume. Olho para ela. Os lábios pintados, lábios de puta. Para mim, à noite, todas as gajas que comigo se cruzam são putas. Puxo de um velho e engordurado isqueiro e tento aceder aos seus desejos. Uma, duas três vezes dou ao dedo e nada. O cabrão do isqueiro não dá nada. Ela pede o isqueiro. Quer tentar ela. Tudo bem. Dá ao dedo e a chama surge, Acende o cigarro e puxa uma longa e demorada passa. Devolve-me o isqueiro e agradece. Eu tou fodido com o isqueiro. Mas olho para ela sem animosidade. Sorrimos os dois. Entendo de imediato que ambos estamos sós e dispostos a conversar um pouco. Sentamo-nos num velho banco da avenida. A conversa flui em torno do que fazemos. Não dizemos o nome. Isso não é importante. Pergunta que faço ao que respondo, nada. É verdade, não faço nada.
Sou aquilo que toda a gente apelida de parasita. Vivo de noite, e durmo de dia. Não suporto os magotes de gente com cara de sofrimento que a madrugada faz levantar do leito. Eles convencidos de que têm algo para dizer e fazer no mundo. Elas convencidas que o trabalho lhes trouxe mais direitos e as guindou a posições de notoriedade social. Uma merda de vida. Um cinzentismo impressionante. Olhar para esta gente dá-me vómitos. E os jovens? Os jovens numa correria louca através dos corredores de uma qualquer universidade na ânsia de terminar um cursinho qualquer, de forma a ganharem um lugar neste inferno em que transformaram a existência.
Estou implacável, a gaja nem abre a boca, vai fumando o seu cigarro e acenando com a fronha, como se aquilo para ela fosse algo também pensado.
Um velho passa a passear um cão seboso e tão velho quanto ele. Arrastam-se ambos numa caminhada penosa. A gaja sorri para o velho. O infeliz devolve a gentileza e o cão olha-me numa súplica pela morte. Não sei ao certo quem faz um favor a quem. Tenho a sensação de que o cão só vive para dar ao velho o prazer de sair de casa á noite e escapar á mais que previsível velha chata com quem vive. Um carro de polícia passa, devagar. Lá dentro dois polícias olham para nós demoradamente. Eu sou conhecido e com o dedo mando-os pró caralho. Sorriem. Aparentemente a gaja não os incomoda. Ignoram até a sua presença a avançam no seu gastar nocturno de dinheiro aos contribuintes. Filhos da puta, remato eu. Não fazem nada e ainda chulam as gajas que atacam por estas bandas. A tipa volta a pedir-me o isqueiro. Não disse mais nada até agora. Começo a suspeitar que é mais um larilas vestido de gaja, como tantos que deambulam por estas bandas. Outro cigarro. Logo á primeira o isqueiro funciona. De soslaio olho-a melhor. Nariz pequeno, mãos cuidadas, boas tetas. Já pouco tenho para dizer. O silêncio dela começa a irritar-me. Não sou curioso mas foda-se, se estive a falar, o mínimo que a tipa pode fazer é dizer alguma coisa. Começo a ficar nervoso e sem mais nada para dizer. Resolvo calar-me e apreciar o movimento de putas, paneleirios chulos, clientes e policias que, num frenesim, se movem pela avenida. E a puta que não fala. Anos atrás já lhe tinha metido o caralho na boca. Ainda ssim ao menos tava calada por ter a boca cheia. Mas esta merda agora tá mudada. Um gajo já nem pode bater nas putas ou obriga-las ao broche. Por um lado a polícia aparece logo e os chulos davam-me cabo do canastro, por outro lado o perigo da gaja me morder o marzápio era mais que presente. Levantei-me disse-lhe adeus. Então a tipa resolveu dizer-me obrigado. Que tinha sido uma noite agradável. Que há muito não tinha noite tão interessante. Se eu quisesse poderia ir no carro dela até sua casa continuar a conversa. Parei um pouco a pensar na proposta. Com um sorriso declinei o convite. A mim não há puta que me leve para casa. Ainda me recordava do que tinha acontecido ao João. Acedeu ao pedido de uma gaja para ir a casa dela e acabou na igreja, no banco a pedir dinheiro, num emprego e agora costuma passar aqui com uma trela no pescoço.


foto:Catarina Cesteiro
Chegaste com a brisa do sul
No mistério do tempo e
Diluíste-te na linha invisível
Do horizonte,
E eu contemplo a tua face
Nua.
O teu odor e o teu cabelo
Teimam em se revelar
Na tela do teu corpo
Que se debruça sobre
A minha adolescência
Tardia.
Manuel F. C. Almeida
foto:X.Maya
Todo o destino se faz
No agir
Nem deuses, nem anjos
Para culpar
A minha vontade cumpre
O meu cantar
E os meus poemas
Espelham o meu sentir.
Manuel F. C. Almeida

foto:http://www.paulocesar.eu%20-%20paulo%20cesar/
O sabor da tua boca, esse teu riso
Que trocas comigo, rente ao luar
A cor desses teus lábios, um sorriso
Que se transforma no momento do gozar
O canto dos teus olhos, que preciso
Para sentir na minha noite o teu calor
O deleite do teu corpo onde me fixo
No momento de te dar o meu amor
E vencidas que são as madrugadas
Na ternura cristalina do sonhar
Crescem em nós mil alvoradas
E nelas mil poemas vão voar.
Manuel F.C. Almeida

foto:Daniel Oliveira
E se os lábios percorrem
As avenidas do teu corpo
Só param no florir
Da maré.
Manuel F. C. Almeida

foto:DDiArte
Em silêncio
Liberta-se o olhar
Do desejo,
Ergue-se um altar
Aos corpos
E aguarda-se
Pelo renovar
Da primavera.
Manuel F. C. Almeida

foto: Marta Ferreira - www.mfotografia.com
A pele contra pele
Suaviza
A vontade
E o ventre em
Fogo
Celebra a saudade…
De nós.
Manuel F. C. Almeida

Caí em mim.
Na sedução da penumbra
A silhueta move-se
Numa dança natural.
E o meu corpo,
Numa lascívia antecipação,
Espera o encontro
Com o universo do desejo.
Manuel F. C. Almeida

foto Valter Okumoto
Soltas no vento, as folhas dançam
Ao sabor dos dias de invernia
E em teus olhos as aves cantam
Canções passadas, melancolia
Não trazes flores presas no olhar
E nas mãos dissolves o ocaso
Teus lábios recordam a cantar
Aquele amor vivido por acaso
Pudesse eu esquecer o teu sabor
Seria livre, e não um escravo
Das memórias vivas, teu amor
Dos mil odores, rubro cravo
Manuel F. C. Almeida

foto:SAGHER
Os olhos. Sim
Os olhos de quem
Me escreveu
São olhos
Que me contam
Os segredos de um Outono
De folhas caídas,
De gotas que
Vivem nas teias
Da madrugada
E se escondem na
Dança obscena
Do ventre.
Manuel F. C. Almeida