
Ao correr da seara
Que se colhe,
E o cantar, o cantar
Espalha-se pelos
Campos de fogo
Celeste, erguidos
Pelas brumas
Da manhã.
Manuel F.C. Almeida
Eu pertenço a um outro país que não o vosso, a um outro quarteirão, a uma outra solidão LÈO FERRÉ


POEMA IMPERFEITO
A minha vida é caravela sem vento
Que no mistério do mar teima em navegar
Sem velas vivas para desfraldar,
Avança a apalpar os medos do tempo.
Assim construí todo o meu pensamento.
Desenhando moinhos, que derrubo no ar,
Vou pintando telas, sem tintas usar...
Em cada segundo, vivo cada momento
E em tudo o que faço, eu canto este fado
Sem dor, mágoa, muito menos tristeza
Porque triste seria não ter encontrado
O amargo sabor da minha existência
Viver ignorando a enorme beleza
De viver tudo isto em consciência.
Manuel F. C. Almeida




SEDE DE TI
FOTO BY:luis azevedo
E foi na noite
Povoada por sons ausentes
Que escalei o teu corpo
Em mil sentidos deleites.
E se o sentir a madrugada fria
Me devolveu jovialidade
Teu corpo, idolatria,
Resolveu a saciedade...
De ti.
Manuel F. C. Almeida

TEU NOME
foto by:Nuno Manuel Baptista
E no mistério das palavras
Que encobrem as coisas,
Ouvi o canto do mar
No tom das vagas
Que soletravam
O teu nome.
Manuel F. C. Almeida






foto by:Luis Mendonça
Já não há rios de fogo
Nos teus olhos
Nem riachos de lava
Para agitar a paisagem
Resta agora
O arar da luxúria;
O germinar das sementes
Nos corpos exaustos.
Manuel F. C. Almeida


quadras soltas
(para cantar sobre a musica de Sergio Godinho)
Livres são as quadras soltas
que um dia todos cantaram
Menos livres são as gentes
Que nelas acreditaram
Falavam de liberdade
De educação para todos
Prometiam igualdade
E Felicidade… a rodos
Ó i o ai, aí está o engenheiro
Ó i ó ái pra nossa vida tratar
Ó i ó aí mas que grande embusteiro
Mas que grande embusteiro
Em que o povo foi votar
A liberdade foi morta
A igualdade foi esquecida
Nos direitos tudo corta
A educação foi perdida
Tem amigos poderosos
Que lhe pagam as campanhas
E um partido de medrosos
Que lhe apara sempre as manhas
Ó i ó ai mas o que deu ao povo
Ó i ó ai pra se deixar enganar
Ó i ó ai isto precisa de novo
Isto precisa de novo
Duma revolução pra mudar
Manuel F. C. Almeida








RESOLUÇÃO
FOTO BY:grENDel
Há flores que foram corpos
E foram terra foram montes.
Há flores que foram rios
Há flores que foram fontes…
Mas sempre que um vento agita
As suas pétalas de cor
Há sempre um homem que fita
O fim eterno da dor
E a flor será caminho
O homem cinza de terra
Irmãos feitos no trilho
Neste mistério de guerra
Numa centelha de tempo
Na eternidade das estrelas
A vida é só um momento,
Simple flor feita de velas.
Manuel F.C. Almeida

Meu mundo
Procuro viver, cultivando arte
Na vida que eu sempre desenhei
Num mundo com que sonhei
Situado entre Vénus e Marte
Vivo o que quero, de mim orgulhoso
Semeio em redor oásis de cores
Recordo a doçura de tantos amores
De mãos partilhadas, de noites de gozo
E assim construí este meu universo
De olhares que encontrei e que perdi
E que agora canto em cada verso
Em memória de tudo o que vivi.
Manuel F.C. Almeida

DESPERTAR
FOTO BY:luis azevedo
Foi num sonho
Algures no centro da alma
Caminhavas lentamente
De encontro ao sol
As tuas mãos vertiam
As cores do arco-íris
E os teus olhos, os teus olhos
Sabiam a mar...
Foi num sonho
A despertar.
Manuel F.C. Almeida

Pétala
foto by:bernardo coelho
Floresta viva
Despida e nua
Tua sombra esquiva
Teu sexo…
Semente crua.
Manuel F.C. Almeida

Memória
foto by:Helder Vasconcelos
Nada mais resta que recordar,
Se o tempo existir,
O assomo de uma face, um olhar
No momento de quase partir.
Um espaço para ocupar
Num corpo a resistir.
E a memória que teima em ficar
De um corpo de deusa a sorrir.
Manuel F.C. Almeida



ACONTECER
FOTO BY:bernardo coelho
No espasmo
Corporal
De um orgasmo
Infernal
O teu corpo de fera
Rugiu
Na minha mão.
Manuel F. C. Almeida

Alquimia
foto by:Tuta
Foi com estas mãos
que percorri
Os secretos caminhos
do teu perfume
Foi com elas que agarrei
a tua alma
E toquei a crisálida
em formação.
Agora, qual alquimista
Do amor,
Faço dos meus dias
A descoberta
Dos segredos que o teu
Corpo esconde.
Manuel F. C. Almeida


RESUMO
foto by:Nuno Manuel Baptista
Não faço promessas vãs, quando te amo.
Faço do meu amor só um poema
De rimas e estrofes enviesadas,
Um estranho e complicado teorema
Que se descobre no ar quando te chamo.
Mas creio que tudo se pode resumir
Num poema feito beijo
Que em nós dois se vai abrir.
Manuel F. C. Almeida

VIDA
Foto: DDiArte
Do tempo fiz meu aliado
Nesta batalha da vida
Mas dela estou alheado
E sinto-a quase perdida
Mantenho a face no ar
A esperança no vencer
Tenho a vida no olhar
Do nascer até morrer.
Manuel F. C. Almeida


A Florbela
Desenhavas sonetos no olhar
E sentimentos nas palavras
Teus olhos, de tanto chorar
Nunca paravam onde estavas
Teus amores e desencantos
Teus homens, tuas paixões
Trouxeram-te horas de prantos
Engalanaram tuas canções
Mas tanta dor e sofrimento
Tanta genealidade vivida
Terminaram no momento
Em que te subtraíste à vida.
Manuel F. C. Almeida

