domingo, fevereiro 11, 2007

Diz-me, algum dia paraste a ver crianças a brincar? Ou ouviste as gotas de chuva e explodirem em mil pedaços? Ou algum dia tiveste coragem para perseguir uma borboleta? Ou sentiste falta do sol, quando a noite tomou conta da tua alma?
Não dances tão depressa, o tempo é curto e a musica não dura sempre.
Passas pelos dias depressa demais, passas como se fosses uma águia no seu voo picado. Quando perguntas “como estás?” consegues ouvir a resposta?
E quando o dia está terminado consegues deitar-te sem mentir e calar os milhões de perguntas que atravessam o teu cérebro? Sempre te disse que o tempo tudo trata, até as feridas feitas com omissões, feitas pelo olhar de pontas aguçadas como mil adagas.
Como sabes todos os pequenos golpes fazem morrer a amizade, e uma amizade só morre se nunca o foi.
Quando fugiste na procura de uma luz renovada sem ao menos dizer “olá” perdeste o melhor da festa. A tua parte ficou inacabada e com o tempo verás que a vida se tornou num presente por abrir.
Sabes a vida não deve ser uma corrida, procura senti-la enquanto podes. Ouve a musica que a natureza faz chegar a todos nós, ouve bem antes que ela acabe.

manuel almeida













Já tantos cantaram o amor
Por tantos olhares já foi visto
Com olhos de luz e de dor
Que não chamo canto a isto

Irei chamar-lhe um lamento
Por de ti ser já ausente
E recordar o momento
Em que em ti era presente

Daqueles dias luminosos
Em que me chamavas amor
Com olhos tão radiosos
Meigos, cheios de calor

Dos momentos sem palavras
Em que me olhavas com paixão
E dos mil beijos que me davas
Cheios com o teu coração

Resta-me pois recordar
Com carinho e com saudade
Os dias em que a amar
Conheci a felicidade

Manuel F. C. Almeida

quarta-feira, fevereiro 07, 2007


Há muito que me perseguiam. Dei conta disso ao virar o monte dos teus seios. Na tentativa de os despistar procurei esconder-me no teu corpo. Ainda assim o som que faziam chegava até mim. Fiquei escondido no aconchego da tua púbis, num vale de caudais incessantes e onde a vida brilhava como um estrela. Estavam cada vez mais próximos. Eles traziam cães de faro apurado e habituados e este trabalho de busca. Cães treinados para acossar pessoas como eu. Felizmente uma leve neblina levantou-se e durante algum tempo protegeu-me. Mas eu pressenti que ia ser sacrificado aos cães. Era uma questão de tempo. Ainda te perguntei se não seria melhor partir de imediato. Mas o teu olhar de mariposa acalmou-me e placidamente não quis acreditar no que era evidente. E adormeci até ao momento em que o silêncio me feriu o coração com tanta ausência. Um rio de prata saia do teu olhar e assim fiquei. Quieto, solicito, mansamente adormecido. E quase esqueci a caçada. Mas eles eram mais poderosos. Tinham notícias frescas e o charme discreto dos cães que vivem para o dono. Sim o dono. Estes cães vivem sempre em torno dos seus donos. Alimentam-se do sangue dos que o dono domina. Exercem a sua influência e com mandíbulas poderosas destroem tudo o que se lhes atravessa no caminho. Mas eu estava escondido, a neblina protegeu-me e fiquei quieto, escondido, adormeci um pouco. Mas eles já tinham entrado na tua casa, eu já era um estranho, um peso morto. Carregaste-me algum tempo, talvez por comodismo ou por agradecimento. Afinal eu sempre te tinha dado o arco-íris da sinceridade, do amor, da amizade. Tinhas percorrido comigo o mapa da tua fuga e juntos tínhamos enfrentado as tempestades mais agrestes. Mas eu não vi o teu querer estar ausente de mim. Nem a nova estrela que plantaste no olhar. Até que os cães me atacaram. Estava nu, como sempre estive para ti. E tu deixaste-os entrar, e nu fui sacrificado no altar do tempo, da omissão e da mentira. Talvez seja o que mais recordo. Aquela mentira nauseabunda que tresandava a esgoto. Uma mentira que não mais viverá perto de mim nem em mim. Escrevo isto exactamente para exorcizar o meu ser. Sarei as feridas, mas as marcas estão ainda presentes. E sei que vão sangrar, como um rio. Um rio amarelo com milhares de pequenas moléculas douradas, que se escapam de mim e vão tingindo o mundo que me rodeia. Mas como rio de caudal violento, não me deterei em lugar algum. Nasci rio na tua ausência, assim ficarei. Sem faltas porque a ausência, essa ausência de que falo, é minha na eternidade.
Manuel F. C. Almeida

Eu escrevo poemas sobre mim.
Poemas esdrúxulos, pintados
Pelos meus olhos. Talvez seja
Só para mim que escrevo poemas
Sem sentido para outros.
Se fosse um poeta
Todos entenderiam o que escrevo
Assim limito-me a escrever para mim.
Poemas, pedaços de mim
Poemas que não têm fim.

Manuel F. C. Almeida















Que cansaço. Diria que beijei
A alma de uma ninfa, e que vi
Brotar desse beijo uma pétala
Pintada de azul-marinho
Dói-me a alma, uma dor tão
Lancinante que me transformou
Num homem feito de palha.
Já não sei o que sinto ou se sinto.
Deixem-me dormir a eternidade.
Eu já não quero acordar.
Tenho um sarcófago feito de mar
Sim! Deixem-me encolher
Neste útero que é só meu
Vida, morte, já tudo aconteceu.
Para quê reviver?
Eu só quero adormecer.

Manuel F. C. Almeida

Estou a desagregar-me. Sinto-me como um relógio nas mãos de um pequeno curioso.
As peças soltam-se e já não se recuperam. Mecanismos que se perdem, que se deitam fora. Assim me sinto. Talvez me torne num anjo azul. Sim, azul, porque eu gosto de anjos azuis. Gosto da cor da sua pele, e gosto também das suas asas. Como lhes invejo as asas e a silhueta. São todos brancos os anjos, alguns também são azuis, é desses que gosto mais. Se me tornar num anjo quero ter asas azuis também. Azuis e transparentes para ninguém ver. Só eu saberei que sou um anjo. Não me interessam os outros. Serei um anjo egoísta. Sim, é isso que desejo. Ser um anjo azul e egoísta. Amar mil vezes e em todas morrer. Não vale a pena viver depois de amar. Ressuscitar quando se encontra um novo amor. É esse o segredo. Porque quando chega o amor é como uma leve brisa, incerto e incoerente. Uma pétala de sangue que nos sai do querer. Retirada da alma e desfolhada em malmequer até ao momento em que a mão que desfolha nos tira a ultima pétala e a sopra no vento, com um misto de impaciência e tédio. Fomos tudo, somos nada. Que mundo de merda. Todos somos flor e todos somos mão. Deixemos livres as pétalas que voam no vento, talvez os anjos azuis as façam reviver.
Manuel F.C. Almeida
















Tempos idos
Em que a vida sorria
Ao sol de cada dia
A terra era uma cornucópia
De flores, de frutos, de mel
Que eu sempre percorria.

Agora cavo
Funda a minha sepultura
E a minha enxada,
Revolve cada dia mais terra
Inerte.
Na busca de um tesouro
Que perdi.
Ao ver-te partir
No olhar da guerra.

Manuel F. C. Almeida

terça-feira, janeiro 30, 2007


















Humano sou, homem me fiz
Trago um sentir, de coração feito,
Sei falar e ouvir o que diz
Quem me viveu dentro do peito

Amo a poesia e a madrugada,
Amo o vento, o canto e o mar,
Amo a lua, minha namorada,
E trago em mim a brisa a cantar

Tenho um amor no meu passado
Que eu pretendi apagar
Um amor que tenho cantado
Na vã esperança de o negar.

Mas é tão nobre tudo o que sinto,
Tão dolorosa a sua ausência
Que ao mundo penso que minto
Quando nego esta evidencia

Mas amo todos os que são
Dignos da minha amizade
Toco-lhes o coração
Pra esquecer esta saudade.

E aos que costumam passar
Com suas tristezas e dor
Digo que saibam esperar
Talvez reencontrem o amor.

Mas canto e escrevo o sentir
De alguém que a vida tramou.
De alguém que não quis mentir
De alguém que se sacrificou.

Talvez não seja um amigo
Que se queira ter por perto
Trago fantasmas comigo
E o coração num aperto.




(a partir de um tema de Vinicius de Morais)
Manuel F.C. Almeida



Tinhas no olhar uma chama imensa
Nas palavras, um medo que entendo
Afinal fui só mais um remendo?
Ou o sentir de uma ideia intensa?

Nas tuas palavras habitam cautelas
Provocadas por esse teu medo
Mas deixa que te diga um segredo
Também eu penso muito nelas

Porque já chega de sentir tristeza
Onde deveria sentir felicidade.
Amar-te na eternidade
É fazer um poema com tua beleza.

Manuel F. C. Almeida



Pelas noites
Que se vivem em silencio,
Os lobos uivam
E o universo fica vazio,
De sinais que não recordo.
Não suporto que o corpo
Se tenha zangado com o corpo.
Afinal tudo cansa.
A acabamos em trilhos
Estranhos
E adornados por espartilhos.

Manuel F.C. Almeida



Já sinto no ar
O teu aroma.
Escrevo nas águas
Versos para te cantar.
Versos de ternura
Infindável.

Agarro os teus
Movimentos no cérebro
E esqueço
A dor dos meus
Dias de angustia
Intolerável.

Paro ao primeiro sinal.
Olho-te nua
Numa movimento
De aguas sem caudal.
E aí ficaste… humanamente
Imperdoável.

Manuel F.C. Almeida


Ainda recordas as
Palavras simultâneas
Ditas no calor da paixão?
É sempre assim,
Idos os tempos
Deixa-se a mão
Que um dia
Se estendeu,
Cair no vazio.
E assim acontece
O amor.

Nunca é simples saber o lugar que escrevemos. Nada mais somos que alguém sem face mas a quem as palavras descrevem. E a nossa vida sempre se subsume noutra vida, á medida que nos conhecemos. Por vezes creio que a minha escrita nasce onde eu morri. Escritos de água que se espalham com o tempo, como uma onda. Recordas-te de te dizer que não desejava ser conhecido? Era mentira. Motiva-me a ambição de um dia, sim um dia, ver tudo isto publicado. Não vale a pena mascarar o que desejo. Quero morrer todos os dias nas mãos de um leitor anónimo. E ao morrer ressuscitar e trazer novos escritos, qual Fénix. Se mudou de dono um poema, escrevo outro e mais outro, como se uma cornucópia se tratasse. Claro, sei que dessa forma tudo se torna obscuro, já não sou eu que dou ao poema o seu valor conceptual, Mas que fazer? É a vida.
Ontem, por acidente, escrevi no vento um poema de aromas silvestres. Nem sei onde pára. Seres estranhos a mim ocuparam-me o espaço. Fiquei a olhar o ondular das searas,
O assalto das marés e o bambolear gracioso das ancas de uma mulher.
Recordas-te de te olhar como se foras uma traineira em noite de vendaval? É assim que eu a olhei. E de espanto em espanto descobri que afinal o mundo não é feito por poemas meus, antes sou parte de um poema sem título. Anónimo. Como se pode ficar admirado por coisas tão pequenas? Por vezes recordo-me daquelas tardes em que saciávamos os instintos no corpo do outro. Mas é só mesmo memória. E memórias, tenho tantas que confundo os cheiros com os corpos, as faces com o desejo e a suavidade de um olhar com a sinceridade das palavras. Sim as palavras ditas e não ditas costumavam assaltar-me o sono. Felizmente que outras palavras se chegaram, outras faces aconteceram e novos aromas se abriram. Abro agora uma garrafa de vinho. Um vinho saboroso. O vinho de quem ama a vida acima de tudo.

segunda-feira, janeiro 29, 2007


poema
EU VI A LUZ QUE TRANSPORTAS
SOBREVOAR A VIDA POR ENTRE
O RUMOR DA MULTIDÃO.
CAMINHAVAS SÓ.
DISCRETA, COMO UMAPRINCESA
NUM CONTO DE FADAS.
PAREI A OLHAR-TE.
MANIETADO.
NA ESPERANÇA DO MEU OLHAR
TOCAR TUA ALMA.
E TAL COMO AS ONDAS NO MAR
GRAVAR EM TI SULCOS
AO MORRER.
E TU SEGUIS-TE.
CHOREI NA ALMA.
CHOREI POR MIM
Manuel F.C. Almeida
2004

sábado, janeiro 20, 2007


Olha filho, eu sei que o mundo costuma corroer os olhos e a mente de todos. Eu sei como é, como ficamos estranhos a nós mesmos, como deixamos de nos reconhecer no espelho. Sei o que é a culpa e sei o que é vacilar. Não sou um super-homem cheio de certezas ou de glórias. Por isso filho não sigas os meus conselhos, cresce livre e consciente do que és. Cresce e vive o teu momento de vida. É teu, o meu é a minha vida, a minha escolha e não devo querer que vivas o que eu não fiz. Percorre o teu caminho, de cabeça erguida com orgulho em ser humano. E quando a vida parecer que te volta as costas, podes vir conversar comigo, como eu converso com o meu pai. E se eu estiver por perto, sempre terás um braço, um ombro onde pensar.

Manuel F.C. Almeida

Lá fora a noite desce sobre as casas, feitas da pele de outros homens. Argamassa orgânica. O vento, uivante, assola a planície, e o céu está coberto por um manto negro de nuvens, mais parece que irá cair-nos em cima. A chuva cai ininterruptamente, e no entanto tamanho vendaval não apagou o sol dentro de mim. Finalmente tudo esta a ser diferente, a paisagem e a minha alma já se tocam novamente, e foi tão simples de fazer. Limitei-me a mudar a imagem que me ocupava tempo demais. Foi-se o mau tempo, um novo dia despontou cheio de luz. Começo a ser gente outra vez.
E dai...


Acordo, olho o maldito relógio. É hora, mas hora de quê? De não fazer a ponta de um corno, de me recusar a pensar ou a agir. De não sorrir, de desejar estar só, de não esperar por nada ou por alguém. É hora de não ambicionar, de não sonhar mais, de nada desejar ter. É hora de olhar e ver que nada disto tem sentido, que não sou importante ao mundo ou há vida. É hora de “ não ser”. Mas se morro nesta hora terei de ressuscitar, renascer, de começar a reaprender a falar, a andar, a abraçar, a sorrir, a viver. E sobretudo (não é casaco não) a Amar. E isso está a ser feito.

noites
















Continuo sem sono. As noites são longas e frias. Deixo o tempo correr ao sabor do meu sentir.
Se escrevo um poema, apenas procuro uma forma de enganar o cérebro e dormir.
Teimosamente fico a converter esperanças em memórias e vice-versa. Deixo que o vento e o tempo cavalguem na minha vontade e no meu pensamento.
É tarde, a lua já está alta e estou cansado, revejo o último pensamento e fico feliz por ter sonhado acordado.

quarta-feira, janeiro 17, 2007





















Dá-me o nome
Sem pudor

Deixa teu corpo nu
Tua alma livre

Entrega-te
Nos meus lábios
Ávidos de ti.

Manuel F.C. Almeida















Sonhei em te ter aqui.
Agora,
Espero, falo só para te encontrar.
Um entardecer, sim
Dá-me o doce completo
Desse teu olhar
Sonhei em te ter aqui
Agora
Anseio, canto só para te beijar
Uma madrugada, sim
Dá-me os cheiros acres
Desse teu amar.
Sonhei em te ter aqui
Agora,
Sei pela certa que vamos cantar
Pela noite dentro, sim
Carícias e beijos
Vamos partilhar.

Manuel F.C. Almeida
















Não te esqueças meu amor
Das tardes
Passadas a ver o sol dançar.
E quando recordares o cheiro
Dos loendros em flor
Deixa-te impregnar de
Alentejo,
E deixa que as memorias
Repousem nas pedras
Da planície.
Sim!
Não deixes de recordar
O despertar de cada dia
Nem o canto alegre
E fresco da cotovia
Na manhã.
E quando um novo dia chegar
Deixa que a tua alma se encante
E segue-o no seu andar.

Manuel F. C. Almeida

terça-feira, janeiro 16, 2007















Comigo estão os meus versos
Companheiros sem ter fim.
Meus desejos estão dispersos
O meu mundo é feito assim

Canto os amores que perdi
E os que eu sinto nascer
Canto por mim e por ti
Pôr-do-sol, entardecer

E quem deles não gostar
Que tenha criticas a fazer
Convido-o agora a falar
Diga o que tem a dizer.

Fale bem na minha cara
Seja honesto e frontal
Que a amizade não para
Quando se é vertical



















Perdido de mim
Vivo na ausência
De uma presença
Que teve o seu fim
Tudo parece ser novo
Tudo é existência.

No ar há um novo cheiro
De alecrim.

Manuel F.C. Almeida




















Invado o meu
Próprio eu
De nada arrumado

No abandono
De mim
Redescubro
O outro

Lago de
Aguas plácidas
Um canto, um fado.

Manuel F.C. Almeida



















Dizem que amar é viver
E que o viver é lutar.
que de amor se pode morrer
só então, ressuscitar.

Dizem que ganhar é perder
Que perder é recordar
Que recordar é sofrer
E que sofrer é chorar

Dizem que chorar é sorrir
Que sorrir já é pedir
E que pedir é encontrar

Dizem que correr é cair,
Levantar é perseguir
o desejo de te amar.





















Os sonhos incompletos
São raios de luz
Ao acordar

Retomar o sono
E o mesmo sonho
É apenas ficar refém
Do despertar.