segunda-feira, outubro 06, 2008




ÁGUAS TUAS




O gozo proibido
Do teu corpo preso
Entre os lábios,
Na doce
Embriaguez
Dos sentidos;
Eu bebi.

Manuel F. C. Almeida


domingo, outubro 05, 2008



ACONTECER


Já caminhei lado a lado, sem chegar
A lado nenhum.
Deixei atrás um campo de flores
Abandonado à vontade de deuses.
Os deuses que abandonei
No meu caminhar
Na procura de um lugar
Que nunca encontrei.

Envolto em bruma
Fiz do meu caminhar um poema
Para ser lido, um dia,
Na plenitude da vida,
Sem fé nos deuses das flores
Ou na doença dos amores.
Um poema sobre o meu naufrágio
Nas rochas do tempo.

E na Fénix que me chegou no vento.


Manuel F. C. Almeida

sexta-feira, outubro 03, 2008


ATÉ QUANDO POVO PORTUGUÊS?
PORQUE ISTO NAO É SO NO BRASIL>



Não adianta olhar pro céu com muita fé e pouca luta
Levanta aí que você tem muito protesto pra fazer e muita greve
Você e pode e você deve, pode crer

Não adianta olhar pro chão, virar a cara pra não ver
Se liga aí que te botaram numa cruz e só porque Jesus sofreu
Num quer dizer que você tenha que sofrer

Até quando você vai ficar usando rédia
Rindo da própria tragédia?
Até quando você vai ficar usando rédia
Pobre, rico ou classe média?
Até quando você vai ficar levar cascudo mudo?
Muda, muda essa postura
Atá quando você vai ficando mudo?
Muda que o medo é um modo de fazer censura

Até quando você vai levando porrada, porrada?
Até quando vai ficar sem fazer nada?
Até quando você vai levando porrada, porrada?
Até quando você vai ser saco de pancada?

Até quando você vai levando porrada, porrada?
Até quando vai ficar sem fazer nada?
Até quando você vai levando porrada, porrada?
Até quando você vai ser saco de pancada?

Você tenta ser feliz, não vê que é deprimente
Seu filho sem escola, seu velho tá sem dente
Você tenta ser contente, não vê que é revoltante
Você tá sem emprego e sua filha tá gestante
Você se faz de surdo, não vê que é absurdo
Você que é inocente foi preso em flagrante
É tudo flagrante
É tudo flagrante

Até quando você vai levando porrada, porrada?
Até quando vai ficar sem fazer nada?
Até quando você vai levando porrada, porrada?
Até quando você vai ser saco de pancada?

Até quando você vai levando porrada, porrada?
Até quando vai ficar sem fazer nada?
Até quando você vai levando porrada, porrada?
Até quando você vai ser saco de pancada?

A polícia matou o estudante
Falou que era bandido, chamou de traficante
A justiça prendeu o pé-rapado
Soltou o deputado e absolveu os PM's de Vigário

Até quando você vai levando porrada, porrada?
Até quando vai ficar sem fazer nada?
Até quando você vai levando porrada, porrada?
Até quando você vai ser saco de pancada?

Até quando você vai levando porrada, porrada?
Até quando vai ficar sem fazer nada?
Até quando você vai levando porrada, porrada?
Até quando você vai ser saco de pancada?

A polícia só existe pra manter você na lei
Lei do silêncio, lei do mais fraco:
Ou aceita ser um saco de pancada ou vai pro saco

A programação existe pra manter você na frente
Na frente da TV, que é pra te entreter
Que pra você não ver que programado é você

Acordo num tenho trabalho, procuro trabalho, quero trabalhar
O cara me pede diploma, num tenho diploma, num pude estudar
E querem q'eu seja educado, q'eu ande arrumado q'eu saiba falar
Aquilo que o mundo me pede não é mundo que me dá

Consigo emprego, começo o emprego, me mato de tanto ralar
Acordo bem cedo, não tenho sossego nem tempo pra raciocinar
Não peço arrego mas na hora que chego só fico no mesmo lugar
Brinquedo que o filho me pede num tenho dinheiro pra dar

Escola, esmola
Favela, cadeia
Sem terra, enterra
Sem renda, se renda. Não, não

Até quando você vai levando porrada, porrada?
Até quando vai ficar sem fazer nada?
Até quando você vai levando porrada, porrada?
Até quando você vai ser saco de pancada?

Até quando você vai levando porrada, porrada?
Até quando vai ficar sem fazer nada?
Até quando você vai levando porrada, porrada?
Até quando você vai ser saco de pancada?

Muda que quando a gente muda o mundo muda com a gente
A gente muda o mundo na mudança da mente
E quando a mente muda a gente anda pra frente
E quando a gente manda ninguém manda na gente

Na mudança de atitude não há mal que não se mude nem doeça sem cura
Na mudança de postura a gente fica mais seguro
Na mudança do presente a gente molda o futuro

Até quando você vai levando porrada?
Até quando vai ficar sem fazer nada?
Até quando você vai ficar de saco de pancada?
Até quando você vai levando

quinta-feira, outubro 02, 2008







Contraluz



Foto by: Espírito da Luz






Silhueta
Contraluz,
Teia feita
De palavras,
Corpo que me
Seduz,
Luxúria na terra
Que lavras.


Manuel F.C. Almeida

terça-feira, setembro 30, 2008






Quadra


foto by:Hugo Macedo

Tens a esperança no olhar,
Nos lábios a cor da romã.
E o teu corpo ao acordar
Tem o sabor da maçã.


Manuel F. C. Almeida

domingo, setembro 28, 2008






selvagem







Funde-se com o olhar a imagem
Que guardamos dentro de nós.
Memórias vivas, miragem,
Segredos que não têm voz.

Só na noite e no silencio,
Que vive quando encontramos,
O momento de estar sós…,

Se liberta, enfim, no vento
O corcel que vive em nós,
Que cavalga o frio e o tempo
Em que calámos a voz.


Manuel F. C. Almeida

sexta-feira, setembro 26, 2008





SER



Foto by:bruno silva


Envergonhadas, as tardes de Setembro,
Recordam-me o rebentar das ondas,
O momento único e explosivo
Do fim.

Em cada molécula de água mantém-se
O meu desespero,
Em cada átomo vivo
Eu nada sou e tudo espero.

Manuel F. C. Almeida

quarta-feira, setembro 24, 2008





"O CAMINHO"











Caminho devagar por este trilho
Desenhado em plena época das flores
Quando me sentava a teu lado,
E as tuas mãos de pai
Me afagavam os cabelos
Soltos de menino,
E me apontavam
Os caminhos que marcaste.
Naquele lugar erguemos uma fortaleza
De muralhas silenciosas.
Agora é nesse lugar que me
Costumo sentar com o meu filho
Numa linguagem de gestos e olhares
Cumplices,
Com que abraçamos o mundo e a vida.


Manuel F. C. Almeida

segunda-feira, setembro 22, 2008



Mergulho





Teimei em olhar as águas paradas do lago. A cidade projectava-se em mil espelhos de luz e no silêncio da noite, ouvia de forma clara o ondular das ondas contra as margens.
O luar marcava o tempo. O coração batia compassadamente e o meu olhar fixou as marcas de água. Deixei o corpo ficar nas margens e embarquei, sem rumo, até ao fundo de ti.

Manuel F. C. Almeida

sábado, setembro 20, 2008





Segredo














Fixo o olhar no firmamento
As plêiades teimam em não se mover
E o meu desejo neste momento
É voar sem me mexer

Pequeno contra o universo imenso
Imagino mundos que nunca verei
Nas asas transporto os cheiros de incenso
Tirados ao sonho que nunca sonhei

E de estrela em estrela, no meu universo
Eu planto uma flor, canto uma canção
E na liberdade viva em cada verso
Descrevo o meu querer, o meu coração.

Manuel F. C. Almeida

quinta-feira, setembro 18, 2008







INTERLUDIO



Foto b: Joana






Um Inverno…
Um piano…
O canto das ondas
No olhar de um homem.
E dos dedos gelados,
Libertam-se as notas de abismos
E algas ancoradas nos sonhos.
E nos ventos sibilantes
O grito surdo de uma partitura
Em espera…
Desespera.


Manuel F.C. Almeida

terça-feira, setembro 16, 2008






AUSÊNCIA



Foto by:Dorival Zucatto







Do suave pousar dos teus olhos
Ficou em mim a marca da tua
Ausência, uma primavera sem cor,
Uma paz sem harmonia,

Uma valsa
Em contratempo, um momento,
De agonia.

No suave pousar dos teus olhos...

Minha noite faz-se dia


Manuel F. C. Almeida

domingo, setembro 14, 2008







Quadra



foto by:Eliana Braga




Eu colhi um malmequer
Folha a folha o desnudei
Pra saber se quem me quer
Foi quem um dia beijei.


Manuel F. C. Almeida


sexta-feira, setembro 12, 2008






AREIAS



foto by:Dorival Zucatto






Acaso julgas que eu ignoro a verdade sobre o deserto? Tão leve como o canto das areias e o delírio presente nos ventos, só a aurora do teu corpo, coberto de mistérios, me traz o real da vida.


Manuel F. C. Almeida



quarta-feira, setembro 10, 2008






SIMPLICIDADE



foto by:Luis Mendonça







O que de belo tem o mundo
No seu rodopiar temporal
É a simplicidade que tem
Tudo o que é natural

Estrelas, galáxias planetas
Plantas, pedras, animais.
Somos apenas matéria
E em tudo à matéria iguais.

Manuel F. C. Almeida

terça-feira, setembro 09, 2008

DEDICADO AO BARREIRO E AO MEU GRANDE AMIGO CHAPA





Barreiro. tempos de vida plena de descoberta, encontro, tempos de amores e desamores, de excessos e moralidade, de revolução sonhada, de homens sem rosto, cansada de nada e pronta para tudo. Barreiro... como te sinto vivo ao ouvir esta banda. Também eles me construiram, também eles me fizeram crescer. Mas foi graças a tudo o que é e foi o Barreiro que me conheci.

segunda-feira, setembro 08, 2008





O VERBO



foto by:ricardo canhoto








O verbo é a doença do ser e do não ser
canto entusiasmado da noite em que a lua
é a esperança da vida e da memória dos
dias em fonte. E o verbo foi o início dos tempos
de angustia, da terra iluminada de razões
que se fundem insondáveis, que a razão
ultima não se vislumbra numa pedra
suspensa no universo gravitacional.

Nem no conjunto de átomos animados
pela magia do carbono.

Manuel F. C. Almeida

sábado, setembro 06, 2008





foto by



ABrito








Só mortos,
Os heróis
Cumprem a sua função.

Se vivos
contradição

Um fruto
Potencialmente
Corrompido.

Salvemos os
Nossos heróis…
Na ponta das espadas.

Manuel F.C. Almeida

quinta-feira, setembro 04, 2008








foto by: paulo cesar










Acordo ao beijar
O teu rosto, e o silêncio
Que cobre o teu corpo.

Acordo com o odor
De corpos em luta
Na noite que aconteceu.


Manuel F.C. Almeida

terça-feira, setembro 02, 2008




O Canto


foto by:nuno chacoto





Perde-se o olhar
Ao correr da seara
Que se colhe,
E o cantar, o cantar
Espalha-se pelos
Campos de fogo
Celeste, erguidos
Pelas brumas
Da manhã.

Manuel F.C. Almeida