
A maldição renova-se.
Um novo frenesim se manifesta
E se precipita na
Ânsia de um novo poema
A nascer.
Tudo se assemelha a uma
epidemia .
O poema,
Todos os poemas.
Ser poeta é estar doente.
Manuel F. C. Almeida.
Eu pertenço a um outro país que não o vosso, a um outro quarteirão, a uma outra solidão LÈO FERRÉ



Foto by:
Se um dia desejares juntar-te a mim, deixo-te um segredo. Estarei sempre ao sul. No sul de Corto Maltese.
E só mais uma coisa. Diz aos meus amigos, mas aos que tu sabes que o eram de verdade, que estou na estrada que escolhi, que aparentemente estarei sozinho mas que guardo sempre comigo, a voz, a imagem dos que comigo pugnaram de perto. A minha única riqueza são as memórias que tenho. E os amigos que sempre terei.
Agora chega. Nada mais há a dizer.
Até um dia………………………..
Rodrigo Almeida
“Estarei sempre ao sul. No sul de Corto Maltese”. Argentina ou algures na América do sul?. Isto ficou-me na cabeça. Ele estava a dizer-me onde estava ou poderia estar.
Não dei pelo tempo passar, a Isabel e a Elouise interromperam-me o pensamento. Era tempo de almoçar. Fomos no jipe. Eu ia em silêncio. A minha tarefa estava terminada. Rápido demais. Teria de justificar a vinda com um relatório.

foto by: carlos pereira
Vem! Surpreende-me com o teu ar
De felino na caçada.
Toma-me numa cornucópia
De luxúria insaciável.
Sacia a tua sede neste oásis
Que sempre fui em ti.
Mata a tua fome de corpo
Em mim.
Agora sabemos os dois a cor do
Frio nas noites tristes
Quando voltámos as costas ao outro.
Vamos refazer aquela tela que ambos
Pintámos de natureza.
Vamos colocar o coração no
Lugar do coração.
E fazer das nossas mãos
Minhas mãos e tuas mãos.
Manuel F.C. Almeida


foto by: www.paulocesar.
Escrevo páginas com o teu nome.
Debruado com palavras mágicas,
Aquelas palavras que tudo dizem,
E nada fazem sozinhas.
Invento assim novas frases
Sem rumo certo, antes palavras sós,
Incoerentes, inconsequentes.
Frases sem sentido, que se querem
Vivas, reais e presentes.
Manuel F. C. Almeida

foto by
A vinda para este lugar, o contacto com pessoas de mundos diferentes e com perspectivas diferentes acabou por me acordar. Embrenhei-me na vida como nunca o tinha feito. Dei largas à minha paixão pela poesia e pela filosofia. Apaixonei-me, vivi relações fantásticas com pessoas fantásticas. Acima de tudo aprendi a ouvir. E foi a ouvir que descobri um mundo que me esperava algures. Um mundo onde os jovens não se hipotecam aos bancos desde tenra idade, um mundo onde a noite não é passada em frente de uma caixa colorida. Não sou naif, sei que essas pessoas, provável mente, desejarão tudo isto, mas a verdade é que o seu mundo ainda está livre de tudo isto. Vivem com muitas dificuldades e superam-nas. É para um local desses que vou. Não vale a pena procurar-me, se desejar ser encontrado eu darei sinais. Tens agora a espinhosa tarefa de encerrar o que julgo vir a ser um problema de polícia. Só tu o podes fazer de forma a evitar mais complicações. Soube antes de partir da tragédia que te sucedeu. Lamento, mas a vida para ti não acabou.

foto by Luis Miguel Mateus
Nem sempre me recordo dos minutos
Bebidos em teus seios.
Muitas vezes abandono-te e fico refém
Dos meus medos, meus receios.
Nem sempre me recordo dos tempos
Perdidos em teu sexo.
Muitas vezes deixo-me só…
Revelo-me complexo.
Pois!
Nem sempre te recordo ou me recordo
Dos dias de inocência
Muitas vezes só está presente
A cor da nossa imprudência….
Manuel F. C. Almeida



foto by Carlos Carpier
- E que lhe interessava isso? Ele não pediu a ninguém para o procurar se o fizeram e fazem é por curiosidade e como ele dizia por egoísmo.
- Egoísmo? Eu desde que o caso sucedeu que sinto necessidade de obter respostas, tinha-me por amigo dele, nunca me conformei com o vazio.
- Ele sabia que você viria um dia, sempre me disse isso. Descrevia-o como um bom amigo, alguém em quem se pode confiar. Por isso confidenciou-me uma coisa.
Acto contínuo dirigiu-se ao armário e retirou um livro. “ A Critica da Razão Pura”. Kant, o sistema, o método. O livro tinha uma capa dupla, bonita, protegida. Rapidamente rasgou a capa e na sua mão surgiu uma carta. Era endereçada à minha pessoa.
- Esperei que viesse tal como o Rodrigo me pediu. Disse sempre que viria. – Disse ao mesmo tempo que me estendia a carta.
- Porque não a entregou à polícia? – Perguntei.
- Porque o Rodrigo desejava que fosse entregue a si quando viesse, não gostava de polícias nem de autoridade em geral. Costumava dizer que a autoridade reconhece-se não se impõe. e que não é pelo facto de alguém usar uma farda que ele reconhece-se nesse alguém, qualquer tipo de autoridade.

FOTO BY MARIAH
Costumo cantar a amizade
E o amor sempre presente
Também canto a liberdade
Canto a mudança premente
Canto um mundo de valores
Que fui cultivando ao crescer
Canto um universo de amores
Que vivem no meu viver.
Canto a liberdade a passar.
Um mundo a existir
Canto o eterno mudar
Neste constante devir.
Faço da vida um cantar
Tento fazê-lo com arte
Sou coerente a amar
Amigo do amigo que parte.
Manuel F.C. Almeida

foto by João Camilo
Suave como a paisagem
Nos campos do sul
Tu vieste como sempre
Foste;
E do choque do passado
Com o presente
Ousámos reconstruir
O futuro,
Num querer que nos
Enlaçou num oceano de
Duvidas e temores.
Mas que sabor teria a vida
Se de certezas tratássemos?
Manuel F.C. Almeida

foto by Angelica
Olhei para ela. Parecia tão certa de tudo o que dizia respeito ao desaparecimento do Rodrigo que pela certa saberia muito mais. Era estranho, afinal eu não conhecia nada do rapaz. Cada passo, pequenino que fosse, revelava-se um mundo novo, um homem desconhecido.
- Porque diz isso com tanta certeza? – Perguntei.
- Pelo simples facto de ter sido a confidente dele durante meses. De ter partilhado os seus sonhos, os seus medos um pouco da sua vida. – Respondeu
- Amaram-se?
- Sim! Como amigos, confidentes, como ombro do outro. Nada físico, éramos profundamente semelhantes em muita coisa, no entanto a paixão romântica nunca nos tocou. Devorávamos as horas a conversar, excomungámos muitos fantasmas, enfim, de alguma forma éramos almas gémeas que se encontraram, mas unicamente amigos.
- se sabe assim tanto sobre ele saberá ao menos porque simplesmente resolveu desaparecer sabendo que isso iria trazer trabalhos a muita gente?

foto by:
MARIAH
Chegaste no ventre do
Tempo,
Como um qualquer
Alquimista do amor.
Transmutas-te o teu ser
Em mil sentidos
Numa alegoria cabalista
E eu bebi-te num cálice
De escrituras celestes
Saído da dança previsível
Dos planetas.
E enlaçados numa valsa
De olhares
Fizemos dos sonhos
acontecimentos, lugares.
Manuel F.C. Almeida