
Foi um sorriso a medo
Que me deste.
Eu olhei e só desejei
Fechar-to
Com um beijo
Que recordasse o passado.
Um beijo vivo de memórias.
Manuel F. C. Almeida
Eu pertenço a um outro país que não o vosso, a um outro quarteirão, a uma outra solidão LÈO FERRÉ

O jipe parou junto de uma casa semelhante à que me estava destinada. Sempre ágil saiu do carro. Segui-a como um menino. Quando entramos em casa nem tive tempo pra ver as paredes. Enlaçamo-nos de imediato num beijo que levava parte de nós. Senti que o mundo desaparecia e que estava no paraíso. Quem precisa de uma, dez ou dez mil virgens no paraíso? Nós precisamos é de criar paraísos na terra. Paraísos feitos com pessoas. Pode ser um paraíso de amor platónico, de amor consequente ou de pura amizade, seja como for com ela tinha tudo. Era o conceito de três em um. E falava a mesma linguagem que eu. Sem pudores ou moralismos. Se queria uma coisa dizia-o se não queria, fazia sentir isso.
- Estás certa de tudo? – Perguntei – não te prometo mais que umas noites, sabes que não estou preparado para relações muito profundas. Tornam-se monótonas e acabam por nos entediar. Depois sempre acontecem as rotinas e o que é belo fica banal e por vezes pesado – terminei.
Olhou para mim. Sorriu. Estendeu-me o copo convidou-me a beber
- Manuel não penses. Vive agora. Se o faço é porque quero. Tu não me obrigas a nada e sei perfeitamente quais as regras do teu jogo. Não temas gosto de tanto de ti que nunca te pediria o que não me podes dar. – Disse de forma pausada e sempre decidida. – Mas o que puderes dar eu vou aproveitar - terminou com uma sonora gargalhada. Acto contínuo senti-me ser empurrado para um magnífico sofá.

Nunca se secam as palavras
Nos rios de peito do poeta
É nesse rio que tu lavras
A palavra simples e certa
De nada vale já não querer
Todas a letras no papel
O poeta tem que escrever
Trabalha a palavra a cinzel
É pois temível a maldição
De quem na palavra se encanta.
Bate forte o coração
Quando um poeta se canta.
Manuel F. C. Almeida





Tu foste em mim a luz do sol
Foste toda a beleza do mar
Por ti fui ao fim do mundo
Soletrei o verbo amar.
Tu foste em mim rosa florida
O rio de sal do meu olhar
Foste minha verdade polida
Meu ser, meu sentir, meu pensar.
Tu foste em mim mais do eu
Foste toda a vida a brilhar
Foste a faca que me deu
Um corte no meu sonhar.
Manuel F.C. Almeida







