terça-feira, abril 03, 2007



O jipe parou junto de uma casa semelhante à que me estava destinada. Sempre ágil saiu do carro. Segui-a como um menino. Quando entramos em casa nem tive tempo pra ver as paredes. Enlaçamo-nos de imediato num beijo que levava parte de nós. Senti que o mundo desaparecia e que estava no paraíso. Quem precisa de uma, dez ou dez mil virgens no paraíso? Nós precisamos é de criar paraísos na terra. Paraísos feitos com pessoas. Pode ser um paraíso de amor platónico, de amor consequente ou de pura amizade, seja como for com ela tinha tudo. Era o conceito de três em um. E falava a mesma linguagem que eu. Sem pudores ou moralismos. Se queria uma coisa dizia-o se não queria, fazia sentir isso.
- Estás certa de tudo? – Perguntei – não te prometo mais que umas noites, sabes que não estou preparado para relações muito profundas. Tornam-se monótonas e acabam por nos entediar. Depois sempre acontecem as rotinas e o que é belo fica banal e por vezes pesado – terminei.
Olhou para mim. Sorriu. Estendeu-me o copo convidou-me a beber
- Manuel não penses. Vive agora. Se o faço é porque quero. Tu não me obrigas a nada e sei perfeitamente quais as regras do teu jogo. Não temas gosto de tanto de ti que nunca te pediria o que não me podes dar. – Disse de forma pausada e sempre decidida. – Mas o que puderes dar eu vou aproveitar - terminou com uma sonora gargalhada. Acto contínuo senti-me ser empurrado para um magnífico sofá.

segunda-feira, abril 02, 2007






Nunca se secam as palavras
Nos rios de peito do poeta
É nesse rio que tu lavras
A palavra simples e certa

De nada vale já não querer
Todas a letras no papel
O poeta tem que escrever
Trabalha a palavra a cinzel

É pois temível a maldição
De quem na palavra se encanta.
Bate forte o coração
Quando um poeta se canta.

Manuel F. C. Almeida


- Onde vamos? – Perguntei.
- Pra minha casa, sempre esta mais arrumada e tenho um bom vinho branco no frigorifico à nossa espera. Sempre tinha gostado de vinho branco e ela sabia. Olhei-a de perfil. A fraca luminosidade dava-lhe um ar ainda mais sensual. Era estranho. Chegado aos 40 e tal anos continuava sem conhecer as mulheres. Que desejaria ela de mim? Fomos amantes, agora só amigos e daqui a algum tempo novamente amantes? Eu desejava-a, não tinha dúvidas, mas porquê? Seria só necessidade hormonal? Ou algum resto da loucura vivida por ambos? Não sabia. Nem queria saber. Todas as pessoas que me povoaram o espírito ficaram ausentes. Só ela existia.
- Que te deu? – Perguntou.
- Não sei, foi selvagem, instintivo – respondi
- Bem podias ter levado uma galheta. – disse a rir.
- Duvido! quando te sentaste, foi como um regresso ao passado. Eu senti isso e tu também. - Respondi. Ela olhou-me e o seu sorriso era o mesmo que tinha quando nos despedimos

domingo, abril 01, 2007















Sim!
Sei que me vês como um louco
Um louco apaixonado.
Um dom Quixote qualquer
Sem rocinante nem
Sancho pança.
Um amante ridículo...
Pateticamente ridículo.

Sim!
Sei que sou tudo isso
Mas que me importa
Se te amo?

E ridículos são todos
Os que não sabem amar.

Manuel F. C. Almeida

Com um o passo certo e altivo. Fiquei a olhar com um misto de admiração, curiosidade e algo mais indefinido. A chegada a esta terra tinha-me feito algo diferente. Até todo o carinho e luxúria vividos com a Isabel estavam agora a assaltar-me os sentidos. E quedei-me a olhar para ela. Estava agora na casa dos 38 ou 39 anos era mais nova que eu alguns anos. Tinha a idade certa, por outras palavras estava bonita, linda, deslumbrante. Pedi um café, a Isabel apercebeu-se que eu tinha ficado só e resolveu aproximar-se.
- Então conheceste a elouise no que de melhor tem de si mesma. Gosto muito dela. É frontal, não liga a ninharias nem perde tempo com banalidades – dizia ao mesmo tempo que se sentava bem junto a mim. O calor do corpo dela agradava-me, o cheiro também. Não era dada a perfumes, o cheiro que tinha era mesmo o dela. Não sei como reagiam os outros homens. Sei como reagi. Aproximei-me dela e, como se fora dizer-lhe um segredo, beijei-a levemente na orelha. Não fez menção de se afastar, bem pelo contrário, fez questão em me pegar na mão. Olhámos um para o outro. Já éramos crescidos e ambos sabíamos ler no olhar o que se quer. Levantei-me, pagámos, despedi-me de todos e partimos.

sábado, março 31, 2007


- Pois não. Também não é a primeira vez que me agridem. Quando assim é, respondo sempre. – E os seus olhos ganharam vida e cor. A voz elevou-se um pouco. A face iluminou-se. Gostava de agitar, gostava de marcar a diferença, aliás nem sei se teria consciência disso. Era de outra cultura que não a nossa. Nós somos mais pacíficos. Em bom português somos um povo sereno. Por isso somos tratados como esterco, pelo poder, tenha ele a cor que tiver, se é que em Portugal, tirando a direita e a esquerda, alguém tem consciência de alguma coisa. O centro do espectro político alberga toda a cáfila de oportunista, vazios de ideias e cheios de sonhos de poder. Não mentiria se disse-se que na população portuguesa, em 80% dos casos, existe um potencial ditador e um potencial escravo. Acho que é genético.
Mas ela não era deste mundo. Isso estava já um pouco claro.
- Bom então passe uma boa noite. Foi um prazer conhece-lo espero que conversemos mais vezes. Eu venho algumas vezes aqui. Poucas porque não aprecio a companhia das pessoas. Já viu porquê. Não viu?
- Entendo, também não sou dado a sociabilizações mas terei todo o prazer em conversar consigo. - Então boa noite Manuel até um dia destes. – E saiu sem olhar para mais ninguém

Cada minuto dos
Teus olhos,
Sabe a frutos
Do paraíso.
Cada segundo no
Teu corpo,
Cala o desejo
Em que vivo.
Mas esta falta
Que sinto
De me sentir
Em ti,
Mata esta tela
Que pinto.

Manuel F.C. Almeida











O rapaz, consciente de que tinha agido mal, mas despeitado e ferido no seu ego de macho, só um tempo depois esboçou reacção, acho que mais para se justificar do que outra coisa, mas já era tarde. Trataram de o acalmar e ouvi várias pessoas a dizer:
- É bem feito luís, já sabes como ela é. Porque te foste meter onde não eras chamado? – No entanto julgo que estaria apaixonado, é o tipo de frase e de entoação que os amantes usam quando se sentem rejeitados. A rapariga preparava-se para sair:
- Será que os homens em Portugal primam pela idiotice? - Perguntou-me - Enquanto colocava as coisas na mala.
- Não sei fazer esse tipo de juízos mas nem sempre podemos julgar os outros de forma tão severa. Reconheço que a entrada dele foi rude e desagradável. E pelo que ouço não será a 1ª vez que algo semelhante lhe sucede. – Respondi.
Olhou bem para mim, era na verdade radiosa.

sexta-feira, março 30, 2007











Tu foste em mim a luz do sol
Foste toda a beleza do mar
Por ti fui ao fim do mundo
Soletrei o verbo amar.

Tu foste em mim rosa florida
O rio de sal do meu olhar
Foste minha verdade polida
Meu ser, meu sentir, meu pensar.

Tu foste em mim mais do eu
Foste toda a vida a brilhar
Foste a faca que me deu
Um corte no meu sonhar.

Manuel F.C. Almeida








- Dr. então já conhece a beldade mais selvagem da terra? – Perguntou um jovem estagiário que deixava adivinhar encanto e ressentimento na voz.
- Desculpe? – Disse-lhe. Antes que dissesse algo mais ela esbofeteou-o com toda a naturalidade. Levantei-me de imediato de forma a por cobro ao que previa que sucedesse a seguir. Mas a atitude dela nem tinha permitido reacção alguma. À agressão de que tinha sido vitima, respondeu com a mesma violência. Mais uma vez denotava um enorme grau de consciência e também toda a imaturidade de quem age de forma voluntária. Ele há coisas que nunca devem ser perdidas. A dignidade e a capacidade de ignorar personagens que nos incomodam eram de há anos a esta parte tudo o que tentava preservar. Vi de imediato que os valores dela eram diferentes dos meus.

quinta-feira, março 29, 2007


















Quando timidamente
Me ressurgiste vinda do nada
Tremi por não saber o que dizer.

Afinal tudo foi fácil.
Recomeçámos no desejo
Incontido de um beijo.

E deixamos o silêncio
Correr a imensidão de um olhar
E espraiar-se na nossa alma.

E do silêncio se fez musica.
E a mais bela canção que escrevi
Fez-se vida em teus lábios.

Manuel F. C. Almeida









E os cidadãos concordam com tudo. Vivem no medo como, ela dizia. O estado está ao serviço dos poderosos e serve apenas os seus interesses. Era uma vergonha, mas revoluções por decreto dão nisto invariavelmente.
Ela tinha continuado a falar sem se dar conta de que me tinha ausentado.
- Depois sabe estou cansada das mentalidades. Cresci na Bélgica, num meio em que se preservam valores culturais, comportamentais e éticos que nada têm com Portugal. –
Disse a terminar.
- Desculpe não ouvi tudo – disse eu. - Estava mais uma vez com os meus botões, é um defeito meu. – Terminei.- Não se desculpe por pensar. Se algo de errado fizesse era não o fazer – respondeu-me a sorrir. Era bom ver alguém a sorrir genuinamente, sem constrangimentos

quarta-feira, março 28, 2007


Se tu soubesses como
É bonito amar
Tecias com as mãos
Um quadro de sol
E com a boca desenhavas
Todo o meu corpo.

Manuel F. C. Almeida

- Mas que tem o Manuel a fazer neste fim de mundo? – Perguntou.
- Trabalho de coordenação arqueológica, e você que faz aqui? – Respondi.
- Não sei, vegeto – respondeu.
- Mesmo profissionalmente?
- Sim em Portugal e especialmente neste local qualquer pessoa com ideias é segregada, vive-se no medo com medo e para o medo. É horrível – terminou
Reconhecia nas suas palavras a realidade cruel. Vivia-mos num estado de medo. o poder tinha, de alguma forma, feito regressar as pessoas ao medo do dia 24 de Abril de 74. esse medo sentia-se em tudo. Ninguém ousava levantar a voz contra um estado cada vez mais totalitário. Um totalitarismo neoliberal onde todos éramos sacrificados. Jovens, velhos crianças. O ensino era e é em Portugal mais que medíocre, a sistema de saúde, desmantelado e implodido pelos sucessivos governos, estava um caos, o desemprego alastrava em todas as classes sociais. Diria que éramos e somos um povo triste, sem esperança, governado por terroristas, aliás este é o tempo do terror. De um lado os governos, do outro grupelhos, alimentados não se sabe por quem e nem porquê, praticam actos que apenas têm como consequência a perca de liberdades dos cidadãos.

Límpidas as horas em que recordei
O teu cheiro.
Doces como as pétalas do teu
Corpo,
Embriagantes como o néctar colhido
Em teu vaso.
E foram prenhes de tempo e de sonhos
suspensos.
E como eu gosto
De pintar o céu pela madrugada.
Com a cor do sol
Estilhaçado.
Livre, solto, eternamente
Apaixonado, pelo
passado
Manuel F. C. Almeida

terça-feira, março 27, 2007


Que se calem os silêncios agora.
Deixemos os olhos alimentar a alma,
E as aves povoarem o pensamento.
Brindemos ao que somos, ao que fomos.
Façamos poemas ao mundo e aos amigos.
Saibamos abraçar as almas que passam
E descobrir vielas em cada olhar.
Sejamos certos e sempre honestos
Quando no espelho nos encontrarmos.
Sós.
Não usemos a mascara do medo e do tédio
Saibamos tocar o sol e as estrelas
Pelo simples prazer de os tocar.
Não sujemos com o nosso egoísmo
O mundo dos outros a quem queremos bem
Façamos de cada momento da vida
Um momento de orgulho e comunhão
Saibamos ser gente, saibamos ser homens, saibamos ser
Nós.
Manuel F.C. Almeida

- Incomodei-o? – Perguntou. – Não claro que não, por vezes fico preso nas minhas armadilhas mentais e remeto-me ao silêncio, peço desculpa – disse eu.
- Não tem de quê – disse frontalmente. Gostei da atitude dela, era decidida. Movido pela mórbida curiosidade humana não resisti e perguntei-lhe: - como se chama?
Olhou-me nos olhos e disse:
- Elouise, e não fique pasmado, não nasci em Portugal. Nasci na Bélgica. Estou farta que fiquem de olhos e boca aberta quando digo o meu nome – não consegui evitar um sorriso. – E você como se chama? – Perguntou.
- Manuel, nascido em Portugal, mas não nacionalista - respondi a sorrir.
- Então já conheces a Elouise? – Perguntou a Isabel que entretanto se aproximara. – Olá Elouise, tudo bem? – disse dirigundo-se à minha companhia ocasional.
- Sim tudo, acabo de conhecer o Manuel – disse
- Contava apresentar-to mas parece que o acaso fez esse trabalho por mim. É um grande amigo que vem passar uns dias connosco- repondeu a Isabel, enquanto me piscava o olho.

segunda-feira, março 26, 2007


A palavra rasa
Tudo o que se diz.
Na orla do mar
D’uma alvorada
Feliz.
Manuel F.C. Almeida

Era directa, não tinha medo de falar. Sentou-se perto depois de cumprimentar os presentes. Não parecia muito sociável, cigarro na mão, procurava um isqueiro na mala. Adiantei-me e ofereci o meu isqueiro. Olhou-me de frente e com uma voz agradável e límpida agradeceu.
- Obrigado – disse. – Não o conheço, está de passagem?
- Sim – respondi – ando sempre de passagem – atirei para o ar. Ela sorriu de forma estranha.
- Que faz? – Perguntou.
- Pertenço ao departamento de história da faculdade e colaboro com o ministério. E você?
- Eu? Não faço nada. Estou desempregada. Tenho um curso superior mas de nada vale em Portugal. Estou a pensar seriamente em partir.
Era e é o drama dos jovens em Portugal. O desemprego. Terminam os estudos e seja qual for o grau académico o desemprego é a colocação certa. Por isso nos tínhamos tornado num povo triste. Sem esperança. Vitimas da mediocridade dos políticos e da pouca preparação do nosso povo. O golpe de estado tinha-lhes trazido a liberdade por decreto. Infelizmente a liberdade é um valor que tem de ser cultivado culturalmente. Este Portugal onde estava era ainda salazarista, nas mentalidades e nos actos, muitas vezes pensava se a democracia não seria uma armadilha dos poderosos. A meu ver só servia mesmo o interesse dos mesmos. Retirava legitimidade a quem lutasse pela liberdade e controlados os centros de decisão e a comunicação social, liberdade era apenas uma palavra mais. Com papas e bolos se enganam os tolos.

domingo, março 25, 2007


No silencio
Que te esconde
Há o desespero
De te não achar
De te não ver.
De não te amar
De te não ter.
No silencio
Que te esconde
Sinto que me estou
A perder…
Pra me vencer.
Manuel F.C. Almeida