quinta-feira, março 22, 2007












Ao meu amor eu quero tanto
Perdoar tudo o que vivi
Até as horas em que vacilando
Estendeu seu braço e eu me feri.

Viver é isto mesmo, acreditar
Que no mundo nada é fechado,
Que há sempre um tempo pra chorar
E outro pra esquecer, que foi chorado.

Mas sabe amor que outro sou.
Vivo mais triste, não vou negar
Eu Sou aquele que muito amou
E que agora terás de reconquistar.
Manuel F.C. Almeida








- vamos? Está a fazer-se tarde – disse.
- sim claro, estou cansado da viajem, a minha saúde é frágil – rematei.
Feitas as despedidas guardei a ultima para a pessoa certa. Esperava a minha passagem perto da porta. Enfrentei-a com o cansaço espelhado no olhar, mas ainda assim com um sorriso na cara. Era um porto de abrigo. Que estranho isto tudo. Sentia que poderia precipitar-me numa loucura, caso ela enviasse algum sinal mais explícito. Felizmente, ou não, o marido e a comitiva seguiam-me assim foi com algum cuidado que lhe peguei nas mãos, a olhei nos olhos e lhe agradeci a companhia. As minhas mãos suavam um pouco e as dela estavam a tremer. Uma fracção de segundos. O suficiente para entender.Despedi-me de todos, alguns já a denotar a presença de vapores etílicos em excesso. Mas e sempre um bando de abutres hierarquizados. Que nojo me davam. Entrámos no jipe e seguimos

quarta-feira, março 21, 2007


Nesta claustrofóbica casa
Num canteiro do planeta
Tento reparar uma asa
Pra alcançar um cometa

E cuido das minhas penas
Feitas de cetim e veludo
Afasto de mim problemas
E aos poucos, eu tudo mudo

E no meu sono profundo
Tive um sonho conselheiro:
- Não queiras mudar o mundo
Sem te mudares em primeiro.
Manuel F.C. Almeida





Aproximaram-se como ovelhas. Todos em rebanho. A visão deixou-me repugnado. Iam voltar as conversas de circunstância, sensaboronas e desinteressantes. Assim foi, num ápice estava rodeado pela fina-flor do concelho, a olhar para mim como se fosse um bicho. Duas pessoas eram diferentes. O padre porque percebeu tudo de uma assentada e estava vigilante o GNR porque era GNR, pouco mais se lhe poderia pedir. Tinha deixado de raciocinar. O que fazia era automático. Um GNR é apenas um cão do poder. Quando este ordena ele obedece. Não existia nele qualquer sinal de eloquência. Isto é deformação pessoal, mas é o que penso.
Assim passei cerca de uma hora em companhia de bêbados, interesseiros e lambe botas. A Isabel e a fátima tinham-se retirado do quadro e não as vi até ao momento em que a Isabel surgiu:

terça-feira, março 20, 2007


Num qualquer ponto suspenso
Do tempo
Vivo adiado de ti

O ponto consome
O tempo, no tempo em
Que estou ai.

E as palavras livres
Reprimem o sentido
Que se deseja vivo. Aqui.
Manuel F.C. Almeida

- Dtº então fugiu de nós? Prefere a companhia feminina como vejo – disse o dono da casa, simultaneamente o bando de abutres que o rodeava sorria como se a frase tivesse alguma piada. Olhei para eles. Todos mais jovens que ele. Só um se destacava pela independência mostrada. O capitão. Todos os outros eram lixo orgânico, seres acéfalos, medíocres e subservientes. Cachorros. E eu prefiro gatos. Jovens velhos, jovens mortos sem alma sem ideais. Fazem carreira em todo o lado. Não acreditam em nada que não seja dinheiro e poder. Outros menos jovens que se tinham vendido ao sistema, pragmáticos, ainda mais desprezíveis que os ignorantes. Estes têm a vantagem de não trair nada. São estúpidos naturalmente, os outros que se venderam sabem o que estão a fazer. São desprezíveis, obscenos. E todos são iguais independentemente da cor politica. A mediocridade era a regra deste país. Os bons homens eram esquecidos e em seu lugar surgiam estas figuras eleitas com base em feudos locais e familiares. Seria para rir caso não fosse tão trágico.

segunda-feira, março 19, 2007



Avidamente percorro
As linhas inexistentes de ti,
E luxuriosamente, o prazer
De não te ter
Amante,
Invade o meu ser.
Povoas-me o espírito,
Povoas-me o espaço.
Onde te querer?

Na liberdade de te livre

Saber.

Manuel F.C. Almeida



- Lamento vê-lo tão frio, mas em face da companhia entendo que preferiria outro tipo de debate – disse ele com um sorriso. Tinha entendido. Mais uma surpresa. Este estava a revelar-se perspicaz. Estendeu-me a mão. Ainda pensei se corresponderia ao gesto de forma cordial. Senti que aquelas mãos estavam carregadas de sangue de milhares de inocentes. Não tive coragem de ser sincero. Apertei-lhe a mão. Merda de vida esta. As piores traições que fazemos são as que praticamos com nós mesmos.
Finalmente partiu, tendo-se despedido da senhoras e com particular atenção da Fátima, a noite ia já adiantada e nem tempo tive de conversar com ela. Quando me vltei a concentrar nela, senti que estava ausente, a minha atitude perante a religião tinha-a assustado ou algo de estranho tinha acontecido entretanto. A Isabel também notou que tudo se tinha alterado. Ao cimo das escadas vi surgir o resto dos convivas.

domingo, março 18, 2007
















Bebemos nos caminhos da palavra
O elixir da vivência
E tomamos os sentidos
por existência.

Cortamos sempre a direito
Sem nunca olharmos para o lado
E assim vamos fazendo o
sentido amordaçado

Andamos sempre á procura
Do mundo por nós desejado
Dizemos cheios de pena-
mas que triste é o meu fado

E ficamos como estatuas
Num jardim pintado a preceito
Com rosas de todas as cores, roubadas
ao nosso peito.


Manuel F. C. Almeida


- a mesma razão que leva as pessoas a separem os seus caminhos. A incoerência patenteada entre a tésis e a praxis.
Fiquei-me por aqui. Não me apetecia falar. Nem me apetecia dissertar sobre o valor real que dava à Religião na história humana. Recordei com nostalgia uma frase de uma amiga sobre o tema, costumava dizer que “ não existem religiões apenas religião” radicalmente correcta.
- Mas os caminhos de Deus não devem ser confundidos com a voracidade das sociedades – respondeu. Reconheci mérito ao termo voracidade. Na verdade vivia hoje num mundo mais pobre. Menos espiritual. Tudo se compra, tudo se vende. O advento das novas formas de comunicação apenas tinha colocado a nu o vazio que cada um de nós encerra. Muitas vezes questiono-me sobre o resultado da desumanização provocada pelo falar com alguém através de um monitor.
Olhei novamente o meu interlocutor, senti o olhar das mulheres em mim. Não era agradável começar uma discussão com quem não me iria entender. Resolvi dar por terminada a conversa.
- Os caminhos da religião chacinaram milhões de seres humanos. Dispenso-os. – Respondi rápido e incisivo. Queria acabar aquilo, estava a roubar-me tempo.

sábado, março 17, 2007



- Dtº é um prazer conhece-lo. – Disse o padre. Não comungava da mesma opinião e na frieza que mostrei ficou tudo bem patente.
- Sim e a que devo a honra de tanta atenção? – Perguntei.
Olhou para mim de forma curiosa. Senti que fazia um esforço de avaliação, tentava enquadrar-me nos seus esquemas mentais. Finalmente respondeu:
- Curiosidade, simples curiosidade. Sei que não aprecia as pessoas da igreja, o que não me impede de sentir curiosidade pela sua forma de estar.
Foi surpreendentemente honesto. Coisa rara nestes personagens.
- Curiosidade em quê? – Perguntei
- em saber a razão que terá levado um homem educado no seio da igreja a trilhar outro caminho - respondeu. Mais uma vez honesto. Estava surpreendido, o mundo tem destas coisas. E o espanto é o motor do mundo segundo os gregos.
A resposta foi curta e cruel:

sexta-feira, março 16, 2007



















Na noite que me levaram ao outro lado da terra
Eu vi mortos, eu vi guerra
Vi homens com aço nos olhos
Vi todos sonhos desfeitos
De mil corpos estropiados,
Vi a morte bem presente nuns olhos amordaçados.

E os homens levavam bandeiras, hinos e mapas na mão
Levavam réguas e esquadros Pra dividir o quinhão
E tudo estava arrumado
Preparada outra guerra
Soltámos a besta no mundo
E Libertámos a fera


E em tantos anos de história afinal nada mudou:
- Um homem naquele lugar em nome de deus se imolou
- Há uma criança a morrer p’la doença que o tomou
- O herói condecorado porque outro homem matou
- O pobre que arrasta a vivência na fome que o baptizou
- O rico que nada em suor, no dinheiro que roubou.

Somos o mesmo selvagem que tudo isto alagou.

Manuel F. C. Almeida



Como já afirmei tenho urticária a estas personagens. Este ainda me fazia mais. Magro, com óculos, um pouco calvo, de aparência cuidada, relativamente novo e sem a farpela que os costuma caracterizar. Estava disfarçado. Foi sem admiração que viajei até á minha meninice e ao colégio de Salesianos que frequentei em criança. Espartanos, repressivos, castradores mas claramente mais eficazes como educadores que os dias de hoje. Detinha-me por vezes a pensar nisso. Que mudança horrenda tinha acontecido neste País. A liberdade por decreto traz destas coisas. E um povo culturalmente idiota a quem entregam a liberdade numa bandeja só pode ter uma forma de agir: destruir a liberdade. O comportamento dos jovens indiciava isso mesmo, o dos professores assustava. Alguns professores formados nas fábricas de produção em massa a que chama-mos faculdades, nunca leram nada de nada. Se lhes falar-mos em Victor Hugo, Descartes , Kant, Sartre ou Platão julgam que tratamos de gente do desporto, ou de alguma banda dos anos 60. Uma tristeza.

quinta-feira, março 15, 2007



( leiam o texto rápido, nao soube dar-lhe a pontuação correcta. resultaria bem em palco com alguns arranjos) foi de rajada.será um esboço a trabalhar.


Ás vezes tenho destas coisas! Vivia mais um dia sem sabor, igual a todos os outros, quando dei comigo a pensar como seria bom não amar. sim não amar. Ou antes, amar sem amar. Sei que é complicado pensar nestes termos. Afinal ama-se ou não se ama? Pode amar-se no passado, o que não implica amar no presente. Pode amar-se no presente amando o eterno passado. Pode inda amar-se o futuro, amando o nosso presente sem renegar o passado. Dirão: - complicado. Mas não, a reflexão é coisa séria. Nada disto é a brincar. Pensam que escrevo estas coisas prá vida vos complicar? Não pensem isso de mim. Não quero mudar as pessoas. Aqui está cada um por si. Com as minhas asas não voas!
Eu só pretendo afinal que pensemos mais um pouco, se existe sentido na vida e creiam que não estou louco. E faço perguntas ao mundo. Coloco várias questões. Será licito viver agarrado a ilusões? Depois vem a questão de saber o que se trata, será errado o prazer de ver quem em potencia nos mata. Mas que coisa esta agora, porque falei eu da morte. Mas eu Já sei porque foi. Há tempos eu descobri quem morreu e se fez forte. Eu explico. Existem alguns seres Humanos que em nome da sua verdade, viram as costas ao mundo, fazem do ódio vontade. É claro que se consomem na esperança de matar, os fantasmas que criaram e vivem para os julgar. Não julguem ser coisa rara, em cada pessoa que passa, existe um mundo de medos, de tragédias e de graça. Mas isto já vai compridinho e não vejo como sair, desta terrivel questão de onde todos vão fugir. Porque isto, pensar o amor vivendo cheio de mágoa e como estar no deserto e não ter onde beber..... Água. Estamos mortos sem saber. Vivemos numa prisão. Odiamos todo o mundo. Num mundo que é nosso irmão. Ou então deambulamos no meio da multidão, saciamos nossos corpos mas nunca o coração.
E aqueles que nos querem trazer palavras cheias de esperanças, são sempre -nossos inimigos, querem matar-nos as lembranças. Por ultimo resta dizer que há casos mais complicados, são casos de gente que ama uma só vez. Casos desesperados, porque de isto de amar muitas vezes só me revela afinal, que quem muitas vezes diz que amou, nunca teve o gosto pra tal.

Manuel F. c. Almeida








- Bom! Temos várias realidades neste país. Se olhar-mos para a orla costeira, deveriam ser todos presos. Os atentados ao meio ambiente e às pessoas foram tantos que me deixam chocado. As cidades costeiras perderam qualidade de vida. As pessoas foram despejadas lá sem preocupações de qualquer espécie. Por isso são locais violentos e nos quais a aculturação é gritante. Se olharmos para o interior verificamos uma outra realidade. O êxodo das pessoas facilitou a vida aos autarcas, de um modo geral mantiveram-se fiéis a si mesmos e o resultado foi um melhorar das condições de vida da população. Mas ainda assim existem coisas que deixam muito a desejar e que encerram alguns mistérios.
A Isabel limitava-se a ouvir com um sorriso a pairar-lhe na face.
- Tão critico e mordaz doutor. - disse o padre acabado de surgir sem se saber de onde.















Eu canto todo o meu ser
Meu mundo de aventuras;
Canto as gentes, as figuras
Presentes no meu querer

Canto alegrias, tristezas
Amores e desventuras
Canto risos e agruras
Segredos de mil belezas

Faço da vida o meu canto
Em toda a beleza que tem
Na procura de um alguém
Que faça de mim… o seu espanto.

Manuel F. C. Almeida

quarta-feira, março 14, 2007


















Que pensas fazer com as palavras?
Deixa-las presas a silêncios por abrir?
E nós? Seguiremos amarrados a elas?
Ou deixaremos soltar as asas que escondem,
E iremos beber a Ambrósia
Que escorre dos corpos?

Que faremos nós com as palavras?
Não sei,
Mas quero apenas falar.

Manuel F. C. Almeida


Eu tinha notado isso havia algum tempo e estava a ficar incomodado. Felizmente estavamos já nas sobremesas. E não me apetecia comer mais nada. Estava bem. Olhei para a Isabel. Pareceu-me incomodada. Eu também o estava, sentia que algo não estava certo. Não sabia o quê. Mas era a sensação que tinha. Os convivas, que mal tinham falado para mim começaram a levantar-se. Ao canto da sala uma caixa de charutos. Num ápice grande parte dos presentes ostentavam na mão um charuto imenso e nauseabundo que pretendiam fumar com prazer. Como é idiota a sociabilização. Tudo tem horas próprias. Esqueci-me deles e virei a atenção para as duas pessoas lindas que estavam comigo. Tínhamos saído de casa, passeávamos pelo jardim da casa. Bem cuidado e muito bonito.
- Manuel, posso chamar-lhe assim?
- Claro que sim - respondi.
- Diga-me que pensa do poder local?
Era uma questão difícil. Eu tinha visto o melhor e o pior. Gente honestíssima e gente cuprrupta. Gente com verticalidade e gente que tinha cedido em tudo. Foi com naturalidade que respondi:

terça-feira, março 13, 2007











Eu escrevia-te versos todos os dias
Na candura de um olhar apaixonado
Mas tu não estavas
Tudo era só passado.

E eu encantei-me nas palavras,
Nos gestos de grinalda colorida.
E quando foste,
Nem vi que estiveste sempre
De partida

Manuel F.C. Almeida









- Não come mais nada – perguntou a Fátima – não aprecia as nossas comidas pelo que vejo – rematou.
- Não é isso, sabe que há uns anos fiz uma operação delicada, desde então tenho muito cuidado como que como. – Respondi, olhando novamente os seus olhos em todo o esplendor que os mesmos tinham. De cada vez que os olhava ficava mais incomodado e cada vez mais preso. Era melhor despachar o que tinha ali a fazer e partir. Fugir das garras da paixão era o que melhor sabia fazer. Ninguém entenderia o facto de amar a minha falecida companheira e em simultâneo me apaixonar por alguém vivo. As pessoas tendem a exigir mais que o nosso amor. Tendem a exigir o nosso mundo todo, passado, presente e futuro. trágico mas é assim.
- Então que tipo de alimentação faz? – Era ela novamente.
- Usualmente alimento-me de peixe e de muitas saladas - Isso não alimenta ninguém – disse o chefe da polícia sendo seguido por quase todos com exclamações de riso e de aprovação. Apenas o padre não concordou. Estava com demasiada atenção em mim.