sexta-feira, janeiro 12, 2007
















Eu hoje estou cansado.
Tudo me dói
Dói-me o presente
Dói-me o passado
Dói-me o que penso e não penso
Dói-me a alma e a palavra mundo

Dói-me o ser e o não ser
Até me dói o simples querer
Voltar a ser, “ SER”

amar a vida num soneto





















Já sinto algo de novo, maresia
Um poema a brotar, novidade
Um olhar que se cruza, saudade
Uma manha renovada, alegria.

Um sol que renasce, outro dia
Um desejo presente, ansiedade
Uma luz que se acende, claridade
Uma força interior, que porfia.

E em cada momento que é passado
Está parte de mim, é o meu legado,
Uma canção que recorda o meu viver

Mas na vida tudo deve ser cantado,
Procurar nela sempre o melhor lado,
E ama-la sempre com todo o querer

Manuel F.C. Almeida

quinta-feira, janeiro 11, 2007

















Como foi possível o mundo mentir?
Talvez como eu menti.
E que foi que o mundo fez ao amor?
Ou eu?
Porque se deseja mal a outros?
Como eu desejei.
Porque se adora a destruição e o ódio
Como eu adorei?
Deixem-me dizer-vos
Que me não arrependo.
Que faria tudo igual.
Não tenho álibis de louco e
Muito menos de bêbado.

Confesso aqui as minhas
Culpas.
Como se de um espelho
Já vazio de ser,
Se tratasse.
Sim! assumo as minhas culpas
Por ter estado longe,
Arredado do mundo,
Preso nos meus moinhos
Ou nas minhas fortalezas
De papel de arroz.

Sim!
Confesso as minhas culpas
Por amar a vida.

Manuel F. C. Almeida

quarta-feira, janeiro 10, 2007

ouçam a musica e leiam o texto em baixo
















São quatro da manhã, teimosamente continuo acordado. A televisão do hotel passa um clássico do cinema. Casablanca. Bogart no seu melhor. Lá fora o frio faz-se sentir. Passeio o olhar pelas paredes do quarto como se fosse possível materializar ali alguém para conversar. Visto-me e desço ao bar. Sentados numa mesa um casal de namorados delicia-se a trocar beijos apaixonados e pelos vistos bêbados. Como estão belos naquela sua paixão. Na penumbra nem as suas caras vejo. Apenas os vultos. Chego ao balcão. Amplo, com uma garrafeira bem servida, é um bar aceitável, com uma funcionária linda. Os olhos verdes fazem-me lembrar uma deusa á muito partida. Peço um malte com gelo e fico a apreciar a beleza física daquela mulher. Ao fundo, sentada ao balcão, reparo pela 1ª vez numa outra mulher. Cabelos pretos e curtos, silhueta ainda jovem. Talvez na casa dos trinta. Tem um cigarro aceso numa mão e um copo na outra. Espero pela funcionária que me trás a bebida e pergunto-lhe quem é a senhora. Os olhos verdes e grandes sorriem e a sua resposta é enigmática, costuma aparecer, fuma, bebe e ocasionalmente conversa com quem está. Pouca coisa e nada de substancial. Agarro o meu copo e provo o sabor da bebida. É boa companhia a bebida. Sem que me aperceba a mulher aproxima-se e apresenta-se. Chamava-se Fátima e pergunta-me se pode fazer-me companhia. Aceito, embora com reservas. Não é usual serem as mulheres a tomar a iniciativa. Rapidamente nos apresentamos. Fico a saber que é nascida em 62 mas que gosta de dizer que nasceu em 66, pergunto-lhe porquê, responde que é uma questão psicológica. Ter 40 é diferente de ter 44. Sorriu de forma enigmática como todas as mulheres sorriem. Perguntou-me que fazia ali. Disse-lhe que nem eu sabia. Algo me tinha empurrado para aquele lugar e eu tinha vindo. De repente a sua pessoa pareceu-me surpreendentemente familiar. Algo naquela mulher me fazia recordar alguém. Os olhos, o cabelo, a face, tudo nela existia em mim. Fiquei assustado. Eu estava a milhares de km do meu passado e das pessoas que algum dia tinha conhecido. Pedi outra bebida, a mulher do bar veio, solícita, servir-me e voltei a reparar nos seus olhos cor esperança, lindos. Volto a atenção para a mulher enigmática. E reparo que aquela sensação de dejá vú se começa a dissipar. Trocamos palavras banais, sobre coisas banais. Rimos e nem ficamos a saber o nome do outro, Não me parece já tão familiar, ao invés a mulher do bar desperta-me para o que de belo a vida tem. Os seus olhos sorriem-me como á meses eu não via olhos a sorrir. A minha companhia despede-se, diz-me que é tempo de se recolher e agradece a conversa. Cordialmente despeço-me e encaro a funcionaria de frente. Os olhos eram lindos. O corpo apetecível, faltava agora conhece-la. Olhei para a porta do bar, novamente a figura que se afastava me parecia familiar. Olhou para traz, acenou-me e partiu. Olhei para o copo que tinha deixado. Preso ao mesmo, um papel com o meu nome escrito. Ainda nem sei como sabia o meu nome. No papel uma mensagem deixou-me curioso. People are strange whem you were a stranger. Faces are ugly whem you’re alone.

Manuel Filipe Carvalho de Almeida

terça-feira, janeiro 09, 2007

versos pra Malibú





















Recitavam Brecht e Baudelaire as duas aves canoras que se passeavam pela Av. da Liberdade. Curiosas as pessoas iam chegando em grupos de dois e nunca mais de 5.
E ouviam extasiadas as duas aves canoras a recitar. Assisti a tudo do alto de um candeeiro, da Av. da Liberdade. A polícia resolveu interromper aquele momento de cultura.
Uma das aves recitou Brecht:

-do rio que tudo arrasta se diz que é violento.
-Mas ninguém diz violentas
-As margens que o comprimem.

E olhou o polícia. Um mar de sangue brotou-lhe da cabeça. Tinha sido atingido por uma bala disparada para o ar. A multidão enfurecida esventrou o polícia e num ápice ordas de sem abrigos iniciaram o banquete. A outra ave quedou-se pálida a olhar o amigo no chão. A multidão estava enfurecida. Porque razão não deixavam as aves recitar? Corajosa a outra ave agarrou no livro de Brecht e recitou mais um poema.

- Dos tubarões fugi eu
- Os tigres matei-os eu
- Devorado fui eu
- Pelos percevejos.

A multidão despedaçou os últimos homens de farda e quedou-se espantada a olhar. Dois cisnes brancos destacaram-se. Eram eles. Alguém de turba os agarrou, arrancou-lhe as asas e voou. Mal o vi passar. Queixava-se de dores de cabeça. E disse-me que tinha uma casa em Malibú. Foda-se, outro com poder.

segunda-feira, janeiro 08, 2007

LILIPUT






















Acordou com a cara fria e molhada. Abriu os olhos. A tempo de ver a próxima onda a aproximar-se. A água bateu-lhe na face e ajudou-o a despertar. Onde estava? Parecia uma praia, mas não sabia onde. Nada recordava da noite anterior. Umas vozes ao fundo despertaram-lhe os sentidos. Dois vultos ao longe brincavam na areia da praia deserta. Pareciam estar a divertir-se. Que lhe importava isso? Ele só queria recordar. Sentia o cérebro ainda meio adormecido. Uma gaivota passou e saudou-o com o seu canto. Afastou-se das ondas. Não ouvia nada. Só o troar amigo do mar lhe dava a certeza de estar vivo. As duas figuras estavam agora por detrás de uma duna. Calmos e deitados. Que se fodam, pensou. Olhou a escarpa que o esperava de braços abertos. Ao cimo um pequeno ogre fazia adeus. Nem se dignou a acenar. Baixou a cabeça e um tufo de erva estava a seus pés. Cheiro-a. Era erva da boa. Com um bocado de papel higiénico tratou de fazer um charro. Acendeu aquilo mas a boca ficou a saber mal. Baixou-se para apagar o charro. Quando se levantou á sua frente estavam dois cisnes brancos. Foda-se, pensou, mas ainda aqui andam? Rápido como um lince cortou-lhes a goela e ficou a vê-los esvaírem-se em sangue. A areia tingiu-se de verde, cortou-lhes as asas colocou-as e voou em direcção a LILIPUT, lá acreditava, seria feliz. Não fora a dor de cabeça e tudo seria ainda melhor. Só não tinha era um mapa até LILIPUT

domingo, janeiro 07, 2007

she. uma grande canção

dois senhores.






















A lua fez a sua aparição. Estava a olhar para o céu. Perdido, diriam que estava louco. Ninguém sabia. No ar havia um cheiro pestilento. Nauseabundo. A cidade estava mergulhada na penumbra e as luzes eram fracas. Sentou-se nos degraus de uma escadaria. Á sua frente duas raparigas faziam o possível e impossível para lhe chamar a atenção. Nem as olhava. Ou antes, ele via para lá delas. Eram transparências no cérebro. Nada mais. Ao fundo soou uma sirene. Alguém deitara fogo a um consultório de advogados. Nada de mais. Era até moda. Durante anos senhores, em dias estupores. Suou que tudo começara com um advogado em zanzibar. Nunca se preocupara com isso. A porta atrás de si abriu-se. De rompante um frade, de habito logo e austero, saiu para a rua. Trazia cm ele uma cruz e um relicário. Mais um ladrão pensou. Há Séculos que faziam isto. Um carro parou. As duas miúdas foram-se com o carro. A rua voltava a estar deserta. Baixou a cabeça apanhou uma beata do chão e acendeu-a. Quando voltou a erguer os olhos, viu dois cisnes brancos. Irritado queimou-os logo ali. Antes arrancou-lhes as asas. Tudo corria bem. Não fora a puta da dor de cabeça e estaria tudo em ordem. Mas a merda dos cisnes outra vez. Parecia obsessão

sexta-feira, janeiro 05, 2007





















Era chegada a hora. Finalmente as ultimas gotas de orvalho tinham desaparecido. Meteu a mão nos bolsos e procurou ansiosamente o último livro. Encontrou-o num compartimento pequeno ao lado da última join. Era um livro de poemas sobre a importância de ser crisálida. Leu um pequeno verso:
“ Rastejei por mil locais, em mil locais me encontrei. Fechei-me no meu casulo e dele estou quase liberta”.
Era estranho o mundo das crisálidas. Guardou o livro. Incomodava-o sem saber porquê. Felizmente que ar estava prenhe de fumo e o horizonte era composto pelas fachadas de enormes edifícios. O anonimato estava garantido. Caminhou ao longo da avenida. Deserta de gente. Deserta de tudo. Um velho ao fundo, vestido de forma andrajosa, acenou-lhe. Ignorou o gesto. Na porta à sua frente duas garotas ensaiavam os 1ª passos da obra o lago dos cisnes. Outra vez os malditos cisnes. O velho foi-se. Uma negra, com a pele linda de um azul que só os negros têm, surgiu a seu lado. Tinha os olhos negros e tristes. Sentou-se a olhar os olhos dela. Estendeu a mão. Ela com cuidado partiu uma maçã que trazia no peito e deu-lhe metade. Suculenta. Não conseguiu articular palavra. E ali ficou até o sol lhe queimar a pele. A negra foi-se. Cambaleante acendeu a joint. De repente tudo começou a fazer sentido. Viu o Drº chegar, vestir a bata branca, agarrar os cisnes pela cabeça e decepa-la. E assim todos os dias novas asas lhe chegavam. Não fora a merda da dor de cabeça e as coisas corriam pelo melhor.

quinta-feira, janeiro 04, 2007

Os cisnes

















Finalmente o autocarro chegou. Era o último passageiro, na última paragem. Olhei para o motorista, um tipo calvo que me recordava um tipo calvo que anos antes conhecera.
As luzes da cidade eram agressivas, e as putas deambulavam por ali. O motorista fez-me sinal para sair. Desci do autocarro onde fui o último passageiro. Um cisne aproximou-se e lançou-me um olhar fulminante. Não costumo falar com eles. E também desta vez não lhe falei. Não gosto de cisnes falantes. São chatos. Do círculo de putas uma se destacou e logo o cisne a insultou. Bati-lhe. Como já disse não gosto de cisnes falantes e ainda por cima moralistas. A puta agradeceu. Beijei-a nos olhos. Toda a gente gosto de beijos nos olhos. Ofereceu-me o seu corpo. Declinei a oferta. Ainda não sei porquê. Era honesta. Não me pediu filhos, nem passeatas, nem fez juras de amor. Queria apenas agradecer-me. Tinha olhos cor de romã. Era bonita, como são as pessoas honestas. Mas eu não queria mais nada que um braço para me afagar o diafragma. Ficou comigo, de mão dada. Passou um carro e outro e outro. E ela ali, parada a olhar para mim. Não trabalhou nessa noite. Uma desconhecida aproximou-se. Não trazia toga nem o livro das leis. Perguntou-me se desejava voar um pouco. Eu aceitei. Beijei a mulher que estava de mão dada comigo e arranquei as asas ao cisne. Transformou-se numa hárpia. Ajeitei as asas ao corpo e voei.
É, isto de voar requer sempre que se arranquem as asas dos cisnes. Vão ver como mudam.

Manuel F.C. Almeida

where




Tenho na voz um novelo
Feito de dias.
Calaram-se as palavras
Que voam.
Só o querer quebra
Os silêncios.
Uma gaivota plana
Não ar.
Há pedaços de mim
Em mil lugares,
E no bar os homens cantam
Ao sabor de Baco...


(cantam os homens)
" Tens contigo a maldição
Da dança macabra da morte.
Dá-nos o teu coração
E voltarás a ter sorte."
(fim)


Tenho na voz um novelo
Feito de imagens.
Umas chegam, outras partem,
Outras que se alimentam
Do tempo presente.
Mas todas são apenas
Miragens.
E tu estas ai?


Manuel F. c. Almeida

terça-feira, janeiro 02, 2007

tank you
















Tank you pela chuva que cai
Tank you pela brisa que corre
Tank you pela vida que vai
Tank you pelo sonho que morre

Tank you pelo sopro do ar
Tank you pela bela madrugada
Tank you pela beleza do mar
Tank you pela mulher amada

Tank you por tudo e por nada


Manuel F.C. Almeida

want



Há uma brisa que corre
Ao sabor dos dias.
Nos olhares que se cruzam
Só o tempo parece
Dar sentido à existência,
Que teima em não se encontrar.
O verme da aparência,
Perfura os sentidos.
Até o olhar se desvanece
E mortifica.
Tudo se resume
A ser,
A querer ser,
unicamente

humano.

Manuel F.C. Almeida

segunda-feira, janeiro 01, 2007

HOJE MERECEM UM BOM POETA

















Nos jardins municipais
As flores também são flores.
Assim, na vida e no mais,
Que a vida é de estupores

Podemos todos ser nossos
E fluir como quem somos.
Quando a casa é só destroços
É que fruta é só de gomos.

FERNANDO PESSOA

and grow up





















O ano novo já chegou
E o ano velho já partiu
E quando este chorou
O novo então sorriu

Manuel F.C. Almeida

domingo, dezembro 31, 2006

REBORN





















O novo ano esta pra chegar
O velho está pra partir
Que o novo nos faça sonhar
E o velho nos faça sorrir.

Manuel F.C.Almeida

Mundos














Amar as palavras simples que escreves
Neste mundo louco, estranho e até frio
É algo de novo e um pouco sombrio
Na terra que em tempos teve almocreves

Gente que fala e sonha com o tempo
Palavras sem “ser” sem côr, emoção
Palavras gélidas, sem coração
Sinfonias criadas em contratempo

Árias que cantam só um momento
Poemas que vivem na palma da mão
Letras que gritam a solidão.
Promessas impressas que voam no tempo.

E assim somos estranhos, já conhecidos.
Gente que vive num mundo ideal,
Onde o “ acontece” pode ser tão fatal
Como podem ser miragens nossos sentidos.

Manuel F.C.Almeida

sábado, dezembro 30, 2006

tolos
















Uma capa fiz do canto
De baixo a cima
Bordada
De antigas mitologias;
Mas tomaram-na os tolos
Para exibi-la ao mundo
Como se fora por eles lavrada.
Deixa, canto, que a tomem,
Pois maior feito existe
Em andar nu