
Desencontro
Encanto
Desencanto
E em tudo o mais
Apenas um tempo
Bordado de ilusões
E iluminado
Pela vaidade
Humana.
Manuel F.C. Almeida
Eu pertenço a um outro país que não o vosso, a um outro quarteirão, a uma outra solidão LÈO FERRÉ





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E teus olhos ficaram tão brilhantes
Depois daquelas horas encantadas
Que pensei ver neles diamantes
Mas eram apenas pedras disfarçadas
Foi nesse momento que entendi
A maleita de que todo o ser padece
E se há coisa que então aprendi
É que só "somos" enquanto acontece .
Manuel F. C. almeida
fotoCarlos Sillero




Dentro de mim
Habitam madrugadas
De janelas abertas e
Varandas para o oceano,
Onde me debruço
E aspiro o perfume
Almiscarado
Da memória.
Manuel F. C. Almeida
foto pedro nossol


Diz-me lá agora
Onde estão as flores
Que teimas em esconder
E chamar de amores.
As pétalas que um dia
Desfolhei.
Os lábios com vida
Que beijei.
E agora que pensas tu fazer?
O mundo que fizeste
Vai morrer.
Eu… já nem sei mais o que pensar
Só quero sentar-me á beira-luar.
Olhar as ondas que morrem na areia
Limpar o passado desta correia
Começar de novo num outro corpo
Que este está velho, parece já morto.
Limpar a minha alma, limpar o meu ser
Encher a vida com outro viver
E nunca deixar de acreditar
Que tudo na vida é um rio a sonhar.
Manuel F.C. Almeida
fotoJET ...

Caminho só
Caminho meu
Feito de pó
Como o meu céu
Caminho livre
Feito mortalha
Caminho fio
De uma navalha
Caminho claro
Caminho escuro
Desejo livre
Saltar o muro
Caminho novo
Caminho velho
Em todos eles
Existe um espelho
Caminho sombra
Caminho olhar
Trilho desenho.
Meu caminhar.
Manuel F. C. Almeida
fotoLena Queiroz

Os poetas são artífices da palavra.
Mineiros das jóias que se escondem
No sentido e no conceito.
São uma outra forma de artistas.
Dos seus dedos, as palavras soltam-se
Como as notas de um piano
Ou as figuras de um quadro.
Com o tempo, sempre ele,
Acabam por recriar a linguagem
E inventar novos sons.
Tingem de cores impossíveis
A sensibilidade e a razão.
Elaboram partituras inaudíveis
Mas sempre vivas, numa
Dialéctica que se solta, se liberta
E se esconde
Do senso comum.
Tal como uma ciência medieval
Permanece sempre misteriosa,
Inalcançável.
Assim a poesia é a arte da revelação
Impossível, da palavra em fuga,
Da magia infantil da inocência.
A poesia é toda a vida em criação.
Manuel F. C. Almeida
fotoLuis Mendonça

Crónicas da liberdade.
Encontrei-a junto ao rio. Passeava devagar enquanto atirava pedras para a água. As pequenas ondas perpetuavam-se por tempo indefinido. Sentei-me na muralha que serpenteava o rio. Ela aproximou-se e sem dizer palavras sentou-se a meu lado. O cheiro dela inundou-me o dia. Ali ficamos, parados e calados em comunhão silenciosa com o rio e com a solidão que nos atacava a existência. Só a vi anos volvidos, numa pequena aldeia de pescadores em plena costa vicentina. Preparava-me para publicar o meu livro e disse-lhe que um pouco daquele silêncio de outrora vivia nas paginas da obra. Os seus grandes olhos azuis pararam a olhar-me e senti o vento a tomar-me o cabelo. Lentamente passou a língua pelos lábios, tirou um violino da mochila e tocou para mim. Tocou Bach e Mozart. Enquanto tocava recordei a solidão vivida anos antes. A loucura do silencio. O terror de uma existência adormecida. Morta. Só o silêncio do violino me arrancou ao silêncio do pensamento.
Senti a sua mão quente, quando a pousou sobre minha. Os nossos lábios tocaram-se. O beijo deixado no ar havia anos, só naquele momento aconteceu. Toquei-lhe a alma quando nos separamos. Finalmente tínhamos dado vida ao silêncio.
Manuel F. C. Almeida
fotoDuarte Victor

Olhar o tempo
Beijar a lua
Ouvir o vento
Amar-te nua
Sentir a vida,
A latejar
Na eternidade
Do teu olhar.
Manuel F. C. Almeida
fotoMiguel Moura

É em ti que eu penso
Quando o ruído da batalha
Esmorece e me revejo
Nas flores espalhadas no chão
No espelho desenho o teu
Corpo e num acesso de
Raiva incontida
Quebro-te em mil pedaços.
O sangue das flores mancha
Enfim o campo de batalha
Vinguei finalmente o corpo
Só o cheiro das flores ficou
Quando em ti penso.
Manuel F. C. almeida

A luta resiste ao tempo
E ao corpo
Moldemos o vento,
Soltemos o fogo.
É hora de percorrer
O caminho que construímos.
Exigir o mundo
Num tempo impossível
Manuel F. C. Almeida
foto JET ...

Mil tempestades imensas
Abrigam-se no nosso olhar
Soltam-se os nossos sentidos
Que se derramam no mar
Nem tu os vais entender
Nem eu os quero domar.
Manuel F. C. Almeida.
fotoLuis Gaio

Das memórias escondidas
Saltam os contornos da cidade,
O som caótico dos dias,
E o sabor a canela do teu
Corpo.
Manuel F. C. Almeida
fotonegateven

Percorri com os lábios
Os vales encantados
Do teu corpo.
E nas quedas de água
Do teu ser
Matei a sede de viver.
Manuel F.C. Almeida
foto negateven