segunda-feira, junho 29, 2009




















Diz-me lá agora
Onde estão as flores
Que teimas em esconder
E chamar de amores.
As pétalas que um dia
Desfolhei.
Os lábios com vida
Que beijei.


E agora que pensas tu fazer?
O mundo que fizeste
Vai morrer.
Eu… já nem sei mais o que pensar
Só quero sentar-me á beira-luar.
Olhar as ondas que morrem na areia
Limpar o passado desta correia
Começar de novo num outro corpo
Que este está velho, parece já morto.
Limpar a minha alma, limpar o meu ser
Encher a vida com outro viver
E nunca deixar de acreditar
Que tudo na vida é um rio a sonhar.

Manuel F.C. Almeida

fotoJET ...

sábado, junho 27, 2009














Caminho só
Caminho meu
Feito de pó
Como o meu céu

Caminho livre
Feito mortalha
Caminho fio
De uma navalha

Caminho claro
Caminho escuro
Desejo livre
Saltar o muro

Caminho novo
Caminho velho
Em todos eles
Existe um espelho

Caminho sombra
Caminho olhar
Trilho desenho.
Meu caminhar.

Manuel F. C. Almeida



fotoLena Queiroz

sexta-feira, junho 26, 2009















Já podem ler

AS CONDIÇÕES PARA AQUISIÇÃO EM:
(ou contacto com o autor)

quarta-feira, junho 24, 2009



















Os poetas são artífices da palavra.
Mineiros das jóias que se escondem
No sentido e no conceito.
São uma outra forma de artistas.
Dos seus dedos, as palavras soltam-se
Como as notas de um piano
Ou as figuras de um quadro.
Com o tempo, sempre ele,
Acabam por recriar a linguagem
E inventar novos sons.
Tingem de cores impossíveis
A sensibilidade e a razão.
Elaboram partituras inaudíveis
Mas sempre vivas, numa
Dialéctica que se solta, se liberta
E se esconde
Do senso comum.
Tal como uma ciência medieval
Permanece sempre misteriosa,
Inalcançável.
Assim a poesia é a arte da revelação
Impossível, da palavra em fuga,
Da magia infantil da inocência.

A poesia é toda a vida em criação.




Manuel F. C. Almeida



fotoLuis Mendonça

segunda-feira, junho 22, 2009










Crónicas da liberdade.

Encontrei-a junto ao rio. Passeava devagar enquanto atirava pedras para a água. As pequenas ondas perpetuavam-se por tempo indefinido. Sentei-me na muralha que serpenteava o rio. Ela aproximou-se e sem dizer palavras sentou-se a meu lado. O cheiro dela inundou-me o dia. Ali ficamos, parados e calados em comunhão silenciosa com o rio e com a solidão que nos atacava a existência. Só a vi anos volvidos, numa pequena aldeia de pescadores em plena costa vicentina. Preparava-me para publicar o meu livro e disse-lhe que um pouco daquele silêncio de outrora vivia nas paginas da obra. Os seus grandes olhos azuis pararam a olhar-me e senti o vento a tomar-me o cabelo. Lentamente passou a língua pelos lábios, tirou um violino da mochila e tocou para mim. Tocou Bach e Mozart. Enquanto tocava recordei a solidão vivida anos antes. A loucura do silencio. O terror de uma existência adormecida. Morta. Só o silêncio do violino me arrancou ao silêncio do pensamento.
Senti a sua mão quente, quando a pousou sobre minha. Os nossos lábios tocaram-se. O beijo deixado no ar havia anos, só naquele momento aconteceu. Toquei-lhe a alma quando nos separamos. Finalmente tínhamos dado vida ao silêncio.

Manuel F. C. Almeida


fotoDuarte Victor

sábado, junho 20, 2009













Guardei do tempo
A escrita das aves
De encontro ao azul.
Hoje, parado a olhar
O céu
Ainda vejo a escrita
Das aves.

E no espelho da lua
Entendo por fim
A minha escrita.
Graças às aves
Que sempre escreveram
Poesia.

Manuel F. C. Almeida

quinta-feira, junho 18, 2009


















Olhar o tempo
Beijar a lua

Ouvir o vento
Amar-te nua

Sentir a vida,
A latejar
Na eternidade
Do teu olhar.

Manuel F. C. Almeida



fotoMiguel Moura

terça-feira, junho 16, 2009

Culture Unplugged Video

ONDE ESTÁ O MUNDO LINDO QUE NOS ANDAM A PROMETER?

segunda-feira, junho 15, 2009













Do ouro e do trigo
Nos fala o pão
Num lamento,
Grito
Alentejo... coração

Manuel F. C. Almeida


fotoFrancisco Fadista


sábado, junho 13, 2009



















É em ti que eu penso
Quando o ruído da batalha
Esmorece e me revejo
Nas flores espalhadas no chão

No espelho desenho o teu
Corpo e num acesso de
Raiva incontida
Quebro-te em mil pedaços.

O sangue das flores mancha
Enfim o campo de batalha
Vinguei finalmente o corpo
Só o cheiro das flores ficou

Quando em ti penso.

Manuel F. C. almeida

fotoPauloVieira galeria de Nu

quinta-feira, junho 11, 2009















A luta resiste ao tempo
E ao corpo
Moldemos o vento,
Soltemos o fogo.
É hora de percorrer
O caminho que construímos.
Exigir o mundo
Num tempo impossível

Manuel F. C. Almeida




foto JET ...

terça-feira, junho 09, 2009












Mil tempestades imensas
Abrigam-se no nosso olhar
Soltam-se os nossos sentidos
Que se derramam no mar

Nem tu os vais entender
Nem eu os quero domar.

Manuel F. C. Almeida.



fotoLuis Gaio

domingo, junho 07, 2009












Guardo no meu olhar
A ternura que
Vivi,
Quando numa noite
De verão
Pelos teus lábios
Bebi
O calor de uma
Paixão.
Que teima em querer-te
Aqui.

Manuel F. C. Almeida



fotoTHE ANYWHEN EXPERIMENT

sexta-feira, junho 05, 2009



















Como dizer-te que o amor
Com o amor se alimenta
Quando o amor para ti
Se escreve numa sebenta.

Manuel F. C. Almeida

quarta-feira, junho 03, 2009



















Das memórias escondidas
Saltam os contornos da cidade,
O som caótico dos dias,
E o sabor a canela do teu
Corpo.

Manuel F. C. Almeida



fotonegateven

segunda-feira, junho 01, 2009


















Percorri com os lábios
Os vales encantados
Do teu corpo.
E nas quedas de água
Do teu ser
Matei a sede de viver.

Manuel F.C. Almeida


foto negateven

sábado, maio 30, 2009













Os meus dedos, camponeses do ser,
Que descobrem em ti terras encantadas
Usam magia em vez de enxadas
A cultivar o teu corpo de prazer
Em campos de papoilas aveludadas.

Manuel F. C. Almeida



fotoSusana Febra Ferreira

quinta-feira, maio 28, 2009

DESCULPEM MAS NÃO POSSO DEIXAR DE POSTAR ISTO. PODE SER TEORIA DA CONSPIRAÇÃO MAS NÃO DEIXA DE APONTAR ALGUNS FACTOS CURIOSOS.



















Tremes sob o peso do vento
Gritas o nome do mundo
Vives no intervalo do tempo
Morres num sono profundo

Iças, a bandeira da vida
Queimas os pulmões ao nascer
Mostras a face escondida
No momento de morrer

E vives sem nunca entender
Que o amor é uma ilusão
Um quadro pra te prender
Na galeria da paixão.



Manuel F.C. Almeida



fotoJET ...

terça-feira, maio 26, 2009




















Perder o tempo nos dentes e cagar-me.
Colher chatos nos tomates.
Contingências
Intemporais?
. Esta é a sublime interrogação da poesia pós modernista ou como diria o ministro:
- Isto é o expoente máximo entre o ser e o ter, uma equação infalível, um teorema matemático. A derradeira interrogação filosófica cabalista.
A reflexão ministerial, como sempre feita a preceito, levantou uma onda de protestos sem precedente. Intelectuais de todos os quadrantes resolveram protestar, eles com uma manifestação junto á assembleia da república, na qual o orador apelou à masturbação colectiva de forma a tornar as escadas escorregadias, facto não totalmente conseguido dado a avançada idade de alguns dos participantes que ao invés de se virem acabaram por se ir, elas avançaram para uma forma de protesto mais radical, mascaram-se de 1º ministro, o que lhes valeu uma noite com bebidas pagas em bares de reputação duvidosa e, pelo menos num caso, o convite para um filme gay, coisa a que a convidada acedeu tendo os participantes do filme protestado pela falta de tratamento igual.
Também nos meios académicos e estudantis a revolta foi grande. Invocaram-se argumentos retirados da suma teológica e da obra poética Pessoana para contrariar as palavras do ministro. Algumas faculdades chegaram mesmo a fazer excursões organizadas ao jardim zoológico, nas quais levavam farnel de feijoada, vinho tinto, cebola crua e arroz de polvo de forma a evitar a flatulência leve. Um caso houve de dois estudantes que chegaram a comer sopa de legumes com lentilhas e acabaram numa sinfonia anal sem precedentes na história da nação.
A revolta alastrou também aos meios operários e camponeses e aqui atingiu uma violência extrema. Em cidades fortemente marcadas pela consciência operária nada foi poupado. As ruas viraram autenticas passadeiras de preservativos tal a violência do protesto. Farto de serem fodidos, os comités operários passaram a foder tudo e todos, havendo inclusive um caso de um operário ter fodido a mulher o que revela a selvajaria do protesto.
Nos campos, a mentalidade mais conservadora levou a episódios rocambolescos nos quais se deu conta da violação de galinhas, porcos, vacas e ovelhas, coisa banal nestas bandas, mas que neste caso assumiu proporções descontroladas e a noticia de um maioral ter sido apanhado a enrabar um padre evangélico foi a gota de água que levou o exercito a intervir.
Numa 1º fase os soldados bem armados conseguiram avanços significativos na repressão à violência instalada, mas mais tarde e em face da aparição de uma prostituta de Lisboa, vestida com roupa de saldos, a parecer uma banal mãe de família, acabaram por mudar a sua posição e deram inicio a uma das mais ferozes e sanguinárias revoluções do mundo. Tudo acabou depressa com uma disseminação de gonorreia por todo o lado, tendo os membros do governo sido infectados através das axilas, um marinheiro cego e barbudo estava infectado.
Por fim o ministro lá explicou que afinal a água mineral gaseificada sempre servira para alguma coisa.
Deu o seu arroto e cagou-se como um valente. Vai ser canonizado na próxima semana devido ao milagre produzido.



Manuel F.C. Almeida

sábado, maio 23, 2009



EM JUNHO















O meu caminho
É feito de terra
Crua, nua
Em guerra.
Planície pintada
No pó.
Caminho meu…
Só.

Manuel F. C. almeida



fotoSAGHER

quinta-feira, maio 21, 2009






A Alberto Pimenta.











Colhi o mundo e plantei-o no meu cérebro.
Dentro do meu cérebro está o mundo todo
Que colhi.
Mas se o mundo todo está no meu cérebro!
Puta que pariu!
Que fazes ai?


Manuel F. C. Almeida

terça-feira, maio 19, 2009





O MINISTRO

(tentar imaginar isto declamado por Mário Viegas)



Hoje o Sr. Ministro arrotou!
Inesperadamente arrotou!
Nada fazia prever tal acontecimento.
Em resultado disso o secretário do Sr. Ministro
Abriu um rigoroso inquérito
Para apurar como tinha acontecido
O ministerial arroto.
Foi criada uma comissão de inquérito
Composta por 10 membros
Responsável pela elaboração de um relatório.
O prazo é de dez dias após a tomada de posse.
Durante esse tempo
Cada membro da comissão
Terá direito a carro, subsídio de renda de casa,
Despesas de representação, subsidio para almoço
E telemóvel sem limite.
Pode ainda nomear uma secretária e contratar
Os serviços de uma call girl.

Isto porque o Sr. Ministro arrotou...
Imaginem agora se ele se tem peidado!


Manuel F. C. Almeida

domingo, maio 17, 2009



SEXO













O sexo,
Anexo,
Sem nexo
Ou complexo;
É só reflexo

Do tesão
Corporal
Convexo...

o sexo.


Manuel F. C. Almeida


sexta-feira, maio 15, 2009













“Na Natureza nada se perde, nada se cria, mas tudo se transforma.”

"Lavoisier"

Eu sempre fui, sempre serei
Sempre existi, sempre irei estar
Sou imortal, agora que sei
Que sou só matéria sempre a mudar

Eu era presente no começo do tempo
No instante zero da existência
Meus átomos foram soprados ao vento
Até se encontrarem em coerência

Por isso não creio na vida e na morte
Não creio nos Deuses, no bem ou no mal,
Existir como “ser” é uma questão de sorte
Viver nada tem de transcendental.

Manuel F.C. Almeida

quarta-feira, maio 13, 2009


















Foi com ela que abri
As portas do paraíso,
Engalanadas com balões
E papel de embrulho
Colorido.
Foi com ela que encontrei
A imortalidade dos sentidos
Revelados nos beijos
Que animavam nossos corpos.

E foi com ela que perdi
A fé nos amores eternamente
Incertos.

Manuel F. C. Almeida



fotoJoão Camilo

segunda-feira, maio 11, 2009




















Só a lua é testemunha
Do meu gesto.
Agarro o luar na ponta
Dos dedos.
E com eles encanto o
Teu ventre
Que como uma flor
Se descobre…
Para mim.

Manuel F.C. Almeida


foto:Nuno Bernardo

sábado, maio 09, 2009















PORQUE HOJE É DIA DE MUDANÇA


UM POETA DO TAMANHO DO MUNDO



Segue o teu destino



Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.



A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-próprios.



Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.



Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.



Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.



Ricardo Reis

sexta-feira, maio 08, 2009














Escrevo
Para te escrever.
Ocaso nu.
Torso a crescer.
Centelha de vida.
Eternamente esquecida.

Manuel F. C. Almeida


foto:DDiArte

quarta-feira, maio 06, 2009

















Já não me ouvem
Nos becos da cidade
Nem nas avenidas perdidas
Da memória.

O regresso marcado
Nas pedras da calçada
Perdeu-se no rasto
Do tempo de uma vida
Cheia de nada.

Manuel F.C. Almeida

segunda-feira, maio 04, 2009














O mar
Funde-se com o olhar.
E euperco-me no labirinto
Da palavra...
Universo

Manuel F. C. Almeida


foto:Nuno Miguel Silva

sábado, maio 02, 2009














Só. Estou cada dia mais só.
O mundo passa a correr por mim,
E eu parado, vejo as imagens desfilarem
Em quadros, pequenas telas
Animadas de vida.
Tudo me foge, o tempo
A música, o mar.
Aqui estou. Sentado num abismo
Que me é cada dia que passa
Mais exclusivamente meu.
Mas que se passa comigo?
Onde enterrei as orquídeas
Que me animavam?
Onde deixei as canções
Do olhar?
Talvez um dia volte a entrar
Naquele comboio voraz em que
Vejo outros deslizarem.

Mas não quero.
E ninguém se importa com isso…
Felizmente

Manuel F. C. Almeida

sexta-feira, maio 01, 2009

PORQUE HOJE É DIA DO TRABALHADOR:

CELEBRAR MAIO É MANTER VIVA A ESPERANÇA DE UM PLANETA MELHOR

quarta-feira, abril 29, 2009


















Afago a palavra,
O verbo.
Mergulho cego
No sentido.
Sou do conceito
Servo.
Das falácias
Foragido.


Manuel F. C. Almeida
foto:José d' Almeida & Maria Flores

segunda-feira, abril 27, 2009


















foto:joaopires

E em desespero
Confundiste
A alma com o
Corpo
E a chama de
Outono
Consumiu-me
A face.

Manuel F. C. Almeida

sexta-feira, abril 24, 2009















ABRIL

Eu sonho Abril do meu cantar
A liberdade descoberta
A esperança viva no olhar
A mordaça que liberta

Eu sonho um povo a caminhar
Na madrugada encoberta
Rubra flor em rubro andar
Porta fechada, logo aberta.

Sonho a revolução a criar

Sempre renovada e desperta.


Manuel F.C. Almeida

quarta-feira, abril 22, 2009



















Das sinfonias agitadas
Nos dedos
Restam os momentos
Da água nos lábios.
E a sede que matei em ti
Renova-se na tua sombra.

Manuel F. C. Almeida



foto:Mariana Bravo

segunda-feira, abril 20, 2009















Estendo no ar, o olhar
Procuro na noite o meu dia
Um rio que passa a cantar
Soletra a minha agonia
Procuro sentido prá vida
Nesta vida sem sentido
A centelha já perdida
De morto sem ter morrido


Manuel F.C. Almeida


foto:Daniel Pedrogam

sábado, abril 18, 2009











Primavera


Na primavera reinvento a vida
E tudo começa a brilhar.
Num sopro
Toda a paisagem se altera,
O verde nas árvores,
As mil cores na terra.
E no ar,
O canto das aves
Traz música
Ao olhar.




Manuel F.C. Almeida

quarta-feira, abril 15, 2009


















Á minha frente o caminho
Abriu portas ao destino
(Se é que tal coisa existe)
E o cansaço tomou-me
O corpo nu.
Nos olhos, o mar
Florido e cintilante
Devolveu-me
A flor de prata
Numa pérola...
Tu.


Manuel F. C. Almeida


foto:Nuno Bernardo

segunda-feira, abril 13, 2009















Vivo e acredito
No acaso do viver
Ao nascer sou já maldito.
Só me liberto ao morrer.



Manuel F. C. Almeida


foto:António Manuel Pinto da Silva

sábado, abril 11, 2009




















É a esperança que
espalha
Um ramo no bico
de pomba.
Farei do corpo
a muralha
Do sonho
que nunca tomba.


Manuel F.C. Almeida.



foto:Fernando Baptista

quinta-feira, abril 09, 2009








foto:Nuno Bernardo










Liberto-me no andar
Pelo mundo,
Naquela centelha de tempo
Temperada na tempestade...
Nas sílabas da madrugada
Onde mora a liberdade.

Manuel F.C. Almeida

terça-feira, abril 07, 2009












FLOR





Porque me escrevo plural?
Porque na escrita
Somos tempo
E flor
Somos vento
E amor.
Até o crepitar de um poema
Faz de nós
O seu cantor.


Manuel F.C. Almeida


foto:Daniel Pedrogam

domingo, abril 05, 2009















Vivo na ilusão de uma luz
Eterna!
Nascida nas sombras da culpa.




Manuel F. C. Almeida



foto:Nuno Duarte

sexta-feira, abril 03, 2009


















Ser ou não ser
Estar ou não estar
Querer ou não querer
Amar ou não amar
De dúvida em dúvida
Te sinto.

Mas nunca te sinto chegar.


Manuel F. C. Almeida


foto:Giselle Negro Rocha

quarta-feira, abril 01, 2009
















Comprei uma máscara
De azul e carmim
Escondi-me do ter
Do ser e de mim
Vivi sem viver
Convencido que era
Um pobre cordeiro
Em paz e sem guerra
Mas a mão do real
De um sonho saída
Tirou-me o disfarce
Devolveu-me á vida



Manuel F. C. Almeida

segunda-feira, março 30, 2009









foto:Fabi Olive






Só a liberdade
Não tem guias.
Nem mapas
Ou receitas mágicas.




Manuel F.C. Almeida

sábado, março 28, 2009


















Conchas de luz
Um olhar frio
No som de um búzio
Roubado ao rio
Esperei pela lua
Agitando varas
Curei a cegueira
Transplantando caras
Agarrei uma flauta
Toquei-a bem alto
Da outra falésia
Libertou-se um salto
A concha partiu-se
O olhar aqueceu
O canto do búzio
Segui-me e morreu.
Manuel F. C. Almeida

quinta-feira, março 26, 2009




Crónicas da liberdade





No jardim da liberdade

Como sempre a noite torna a vida mais completa. Tinha andado o tempo suficiente para apreciar um velho banco de jardim. Não era um banco qualquer nem um jardim qualquer, era o meu banco e o meu jardim. Meu e de todas as memórias que tinha. O banco dos Chapas, das Anas, das Beatrizes, das Isabeis, dos Migueis, dos Marrecos e de tantos outros que se consumiam no tempo sem darem noticia de que o tempo é uma avenida na qual só se caminha num sentido.
Era doce a sensação de estar ali. Á minha frente, um pequeno lago artificial servia de refugio a alguns patos coloridos que me pareciam os mesmos de há anos atrás. No meio do lago um bar. Tempos houve em que não existia, e o silêncio daquele jardim era ouro para uns quantos grupos de rapazes e raparigas que faziam daquele jardim o seu refúgio das realidades familiares ou simplesmente o seu refúgio para uma boa noite de conversa. Também recordo os tempos em que o bar se transformou no aglutinar de novas gentes e de lindas trocas de olhos, de cumplicidades ingénuas e de enamoramento.
Agora ali estava eu. Sozinho, e as vozes que ouvia não eram desconhecidas. Eram vozes daqueles tempos. Foda-se. Foi tão bom ter vivido ali, ter os amigos que tive. Os jovens nunca se apercebem da importância dos lugares, antes de deixarem de ser jovens.
Perdido na imensidão das memórias, nem dei pela presença de uma figura feminina que se tinha aproximado. Só quando perguntou se podia sentar-se, olhei para ela. Não muito alta, de cabelos pretos e compridos, nariz não muito grande mas arrebitado, um ainda belo par de tetas. Vestia umas jeans e uma camisa branca, um casaco de cabedal, ou a imitar, protegia-a do frio.
Respondi que sim, que o lugar era de todos, como sempre tinha sido. Nunca se negou a ninguém o direito a se sentar ali. Perguntou-me se tinha lume. Procurei nos bolsos e encontrei um velho isqueiro. Não pude deixar de sorrir, era o meu velho isqueiro alimentado a petróleo. Uma raridade e preciosidade. Acendi-lhe o cigarro que ela tinha colocado nos lábios. Uns lábios cheios, carnudos que me faziam recordar alguém. Mas a noite era das minhas memórias. Não me apetecia falar, por isso permaneci em silêncio. Um silêncio que ela interrompeu quando me perguntou onde vivia. Olhei para ela devagar e sem pensar muito respondi que ali, aquele lugar era a minha casa. Ficou espantada, há anos que frequentava o sítio, quando vinha passear o seu cão, e não se recordava de me ver. Eu quis então saber se o há anos representava muitos ou poucos. Trinta e cinco, respondeu, com um sorriso. Mentalmente voltei aos meus doze ou treze anos e fui percorrendo o caminho das memórias nos anos que se seguiram. Nada. Não me recordava dela, ou pelo menos de nenhuma miúda com uma face semelhante. Só os lábios me faziam aproximar de alguém, disse-lhe que desde há muitos anos, embora ausente daquele lugar, lá tinha deixado a minha alma. Sorriu-me com um brilho nos lábios e no olhar. Olhou para o chão e quando voltou a levantar os olhos eu sabia o que ela ia dizer. Manel! Disse, já nem dos amigos te recordas? Fiquei sem palavras, quem seria esta mulher que me conhecia tão bem e que eu aparentemente desconhecia? Voltou a sorrir face ao meu espanto. Apanhou o cabelo com as mãos tornando-o um pouco menos volumoso, comecei a recordar a face de uma menina, a irmã mais nova de uma das minhas melhores amigas. Olhei novamente pra ela, agora sim recordava aquela miúda franzina que costumava aparecer agarrada á irmã.
Afinal a minha casa ainda tinha gente conhecida. E pelo aspecto dela valia a pena passar a noite ali, a conversar sobre o tempo em que o tempo não existia.


Manuel F. C. Almeida