
Vivo e acredito
No acaso do viver
Ao nascer sou já maldito.
Só me liberto ao morrer.
Manuel F. C. Almeida
Eu pertenço a um outro país que não o vosso, a um outro quarteirão, a uma outra solidão LÈO FERRÉ

É a esperança que
espalha
Um ramo no bico
de pomba.
Farei do corpo
a muralha
Do sonho
que nunca tomba.
Manuel F.C. Almeida.
foto:Fernando Baptista

foto:Nuno Bernardo
Liberto-me no andar
Pelo mundo,
Naquela centelha de tempo
Temperada na tempestade...
Nas sílabas da madrugada
Onde mora a liberdade.
Manuel F.C. Almeida

FLOR
Porque me escrevo plural?
Porque na escrita
Somos tempo
E flor
Somos vento
E amor.
Até o crepitar de um poema
Faz de nós
O seu cantor.
Manuel F.C. Almeida
foto:Daniel Pedrogam

Ser ou não ser
Estar ou não estar
Querer ou não querer
Amar ou não amar
De dúvida em dúvida
Te sinto.
Mas nunca te sinto chegar.
Manuel F. C. Almeida
foto:Giselle Negro Rocha


Desenhei-me sem mim
Numa tela ausente
Num tempo sem fim
Num tempo demente
Desenhei-me criança
E ao sol a sorrir
Meus olhos de esperança
Sonhavam partir
E os barcos do tempo
De velas abertas
Levavam no vento
Ideias desertas
E o desenho cresceu
Numa tela sem gente
E sem gente morreu
O meu sonho demente.
Manuel F. C. Almeida
Crónicas da Liberdade
na avenida da liberdade
É na noite que me sinto livre. Percorrendo as ruas e a avenida perco o olhar nas cores garridas do néon. Em cada anónimo que se cruza comigo adivinho um drama ou um segredo terrível. Também há os que têm histórias felizes. Mas na noite os olhares são todos iguais, por isso parto do princípio que todos comungam os mesmos segredos, os mesmos desejos, as mesmas tragédias.
Uma gaja pede-me lume. Olho para ela. Os lábios pintados, lábios de puta. Para mim, à noite, todas as gajas que comigo se cruzam são putas. Puxo de um velho e engordurado isqueiro e tento aceder aos seus desejos. Uma, duas três vezes dou ao dedo e nada. O cabrão do isqueiro não dá nada. Ela pede o isqueiro. Quer tentar ela. Tudo bem. Dá ao dedo e a chama surge, Acende o cigarro e puxa uma longa e demorada passa. Devolve-me o isqueiro e agradece. Eu tou fodido com o isqueiro. Mas olho para ela sem animosidade. Sorrimos os dois. Entendo de imediato que ambos estamos sós e dispostos a conversar um pouco. Sentamo-nos num velho banco da avenida. A conversa flui em torno do que fazemos. Não dizemos o nome. Isso não é importante. Pergunta que faço ao que respondo, nada. É verdade, não faço nada.
Sou aquilo que toda a gente apelida de parasita. Vivo de noite, e durmo de dia. Não suporto os magotes de gente com cara de sofrimento que a madrugada faz levantar do leito. Eles convencidos de que têm algo para dizer e fazer no mundo. Elas convencidas que o trabalho lhes trouxe mais direitos e as guindou a posições de notoriedade social. Uma merda de vida. Um cinzentismo impressionante. Olhar para esta gente dá-me vómitos. E os jovens? Os jovens numa correria louca através dos corredores de uma qualquer universidade na ânsia de terminar um cursinho qualquer, de forma a ganharem um lugar neste inferno em que transformaram a existência.
Estou implacável, a gaja nem abre a boca, vai fumando o seu cigarro e acenando com a fronha, como se aquilo para ela fosse algo também pensado.
Um velho passa a passear um cão seboso e tão velho quanto ele. Arrastam-se ambos numa caminhada penosa. A gaja sorri para o velho. O infeliz devolve a gentileza e o cão olha-me numa súplica pela morte. Não sei ao certo quem faz um favor a quem. Tenho a sensação de que o cão só vive para dar ao velho o prazer de sair de casa á noite e escapar á mais que previsível velha chata com quem vive. Um carro de polícia passa, devagar. Lá dentro dois polícias olham para nós demoradamente. Eu sou conhecido e com o dedo mando-os pró caralho. Sorriem. Aparentemente a gaja não os incomoda. Ignoram até a sua presença a avançam no seu gastar nocturno de dinheiro aos contribuintes. Filhos da puta, remato eu. Não fazem nada e ainda chulam as gajas que atacam por estas bandas. A tipa volta a pedir-me o isqueiro. Não disse mais nada até agora. Começo a suspeitar que é mais um larilas vestido de gaja, como tantos que deambulam por estas bandas. Outro cigarro. Logo á primeira o isqueiro funciona. De soslaio olho-a melhor. Nariz pequeno, mãos cuidadas, boas tetas. Já pouco tenho para dizer. O silêncio dela começa a irritar-me. Não sou curioso mas foda-se, se estive a falar, o mínimo que a tipa pode fazer é dizer alguma coisa. Começo a ficar nervoso e sem mais nada para dizer. Resolvo calar-me e apreciar o movimento de putas, paneleirios chulos, clientes e policias que, num frenesim, se movem pela avenida. E a puta que não fala. Anos atrás já lhe tinha metido o caralho na boca. Ainda ssim ao menos tava calada por ter a boca cheia. Mas esta merda agora tá mudada. Um gajo já nem pode bater nas putas ou obriga-las ao broche. Por um lado a polícia aparece logo e os chulos davam-me cabo do canastro, por outro lado o perigo da gaja me morder o marzápio era mais que presente. Levantei-me disse-lhe adeus. Então a tipa resolveu dizer-me obrigado. Que tinha sido uma noite agradável. Que há muito não tinha noite tão interessante. Se eu quisesse poderia ir no carro dela até sua casa continuar a conversa. Parei um pouco a pensar na proposta. Com um sorriso declinei o convite. A mim não há puta que me leve para casa. Ainda me recordava do que tinha acontecido ao João. Acedeu ao pedido de uma gaja para ir a casa dela e acabou na igreja, no banco a pedir dinheiro, num emprego e agora costuma passar aqui com uma trela no pescoço.


foto:Catarina Cesteiro
Chegaste com a brisa do sul
No mistério do tempo e
Diluíste-te na linha invisível
Do horizonte,
E eu contemplo a tua face
Nua.
O teu odor e o teu cabelo
Teimam em se revelar
Na tela do teu corpo
Que se debruça sobre
A minha adolescência
Tardia.
Manuel F. C. Almeida
foto:X.Maya
Todo o destino se faz
No agir
Nem deuses, nem anjos
Para culpar
A minha vontade cumpre
O meu cantar
E os meus poemas
Espelham o meu sentir.
Manuel F. C. Almeida

foto:http://www.paulocesar.eu%20-%20paulo%20cesar/
O sabor da tua boca, esse teu riso
Que trocas comigo, rente ao luar
A cor desses teus lábios, um sorriso
Que se transforma no momento do gozar
O canto dos teus olhos, que preciso
Para sentir na minha noite o teu calor
O deleite do teu corpo onde me fixo
No momento de te dar o meu amor
E vencidas que são as madrugadas
Na ternura cristalina do sonhar
Crescem em nós mil alvoradas
E nelas mil poemas vão voar.
Manuel F.C. Almeida

foto:Daniel Oliveira
E se os lábios percorrem
As avenidas do teu corpo
Só param no florir
Da maré.
Manuel F. C. Almeida

foto:DDiArte
Em silêncio
Liberta-se o olhar
Do desejo,
Ergue-se um altar
Aos corpos
E aguarda-se
Pelo renovar
Da primavera.
Manuel F. C. Almeida

foto: Marta Ferreira - www.mfotografia.com
A pele contra pele
Suaviza
A vontade
E o ventre em
Fogo
Celebra a saudade…
De nós.
Manuel F. C. Almeida

Caí em mim.
Na sedução da penumbra
A silhueta move-se
Numa dança natural.
E o meu corpo,
Numa lascívia antecipação,
Espera o encontro
Com o universo do desejo.
Manuel F. C. Almeida

foto Valter Okumoto
Soltas no vento, as folhas dançam
Ao sabor dos dias de invernia
E em teus olhos as aves cantam
Canções passadas, melancolia
Não trazes flores presas no olhar
E nas mãos dissolves o ocaso
Teus lábios recordam a cantar
Aquele amor vivido por acaso
Pudesse eu esquecer o teu sabor
Seria livre, e não um escravo
Das memórias vivas, teu amor
Dos mil odores, rubro cravo
Manuel F. C. Almeida

foto:SAGHER
Os olhos. Sim
Os olhos de quem
Me escreveu
São olhos
Que me contam
Os segredos de um Outono
De folhas caídas,
De gotas que
Vivem nas teias
Da madrugada
E se escondem na
Dança obscena
Do ventre.
Manuel F. C. Almeida

foto:nuri
Perco a face
Nos limites da memória
E se as mãos
Se encontram
No respirar do ventre
Só o teu olhar
Me liberta
Do esquecimento.
Manuel F. C. Almeida

OS DEDOS
foto:angelica
Ao meu olhar,
Os teus dedos
São flechas
Hábeis
Nos jogos
Imperceptíveis
Do prazer.
Manuel F. C. Almeida



PORNO SATIRICA
FOTO:Daniel Oliveira
Mariana, brincalhona
Danada prá brincadeira
Adorava dar à cona
E rapar a pintelheira
No broche era rainha
E de nalguinhas pró ar
Dava o cú e a coninha
A quem a quisesse papar
As mamas, dois marmelos
Do melhor que há pra colher
Dava vontade come-los
E no meio deles foder
A cara ainda menina
Era um quadro pra beijar
Mas a falsa pequenina
Muito adorava mamar
Tinha nascido com ela
A arte de dar ao corpinho
Era da natureza dela
Não dar descanso ao coninho.
Manuel F. C. Almeida

foto: PauloVieira galeria de Nu
Beijei o tempo,
A memória,
O ser.
Cantei o amor,
A imagem,
O querer.
E foi assim
Que o luar de abriu
E o teu corpo
Sorriu.
Manuel F. C. Almeida

PENUMBRA
foto:Ed Ferreira
Na pele a
Língua encontra
A seda. Como
Uma nuvem branca
Entre os lábios,
Desenha a
Penumbra
Doce
Do teu cálice.
Manuel F. C. Almeida

foto: Ricardo Jorge Miguel Soares
Desejo ser
Um arco-íris
Num céu cinzento,
Sobre a esperança
Que ontem deixei
Presa na vida.
Sorriso envergonhado
A olhar o passado
Que um dia vivi.
Manuel F. C. Almeida

foto:jose ferreira
A noite
Esconde a nu
A raiz do medo.
Só na madrugada
Te descreves
Viva.
Manuel F. C. Almeida

foto:Sara Sa
Há sempre um dia
Em que os espelhos
Se quebram.
Só então se descobre
Que o amor
Significa verdade
Que as imagens baças
Também podem ser
Transparentes.
Manuel F. C. Almeida





foto:PauloVieira galeria de Nu
Nem o teu cheiro
Afasta os beijos
Nem os meus lábios
Se sobressaltam
Com o sabor
Do teu ventre.
Manuel F. C. Almeida

foto:Francisco Tico
Quando partir
Não me vou esquecer de
Fechar a porta.
Prometo!
Deixarei a chave
No sitio.
E tu… fecha as janelas
Não vá o vento
Roubar-te as memórias
Que guardas em silencio.
Manuel F. C. Almeida


foto:angelica
Nu, te dei de mim
O fogo, a água, a terra e o ar
E no arco-íris do sonho
Dei também o respirar
Dei o corpo, dei a alma
Dei os olhos e o olhar
Dei os dedos, dei os lábios
Para teu corpo beijar.
Manuel F. C. Almeida

foto:João Félix
Porque não podem dizer
Verdadeira
Mente
O que na alma se esconde.
Natural
Mente
Seria tudo mais fácil…
Simples
Mente.
Porque viver por viver
Sincera
Mente.
Só trás o eterno adiar e
Final
Mente,
Faz-nos viver dia a dia…
Aparente
Mente.
Manuel F. C. Almeida
