
Fiz do meu caminho
Um carreiro de indiferença
Ao mundo.
Nem me dei conta
Da morte dos deuses
Indiferentes
A tudo...
Como eu.
Manuel F.C. Almeida
Eu pertenço a um outro país que não o vosso, a um outro quarteirão, a uma outra solidão LÈO FERRÉ


foto by: Nuno Abreu
Nesta ferida que
Sinto
Em mim a pulsar,
Vive o teu amor,
Em sangue
Num rio que corre
Para a luxúria dos
Corpos
Na noite
A amar.
Manuel F.C. Almeida

foto by:Duarte Almeida
Em todo o poema há um rio
De aguas escritas.
Descobrir as palavras que se
Diluem,
E as imagens que se
Projectam,
É como retirar do rio
As notas de um piano
Que se renovam
E se repetem.
Manuel F.C. Almeida




FOTO BY: A.Z.
Nossas mãos
E nossos dedos
Tecem horas de luxúria
No silencio dos lençóis
Em que espraiamos
Os corpos.
Manuel F.C. Almeida

FOTO BY: Rui's Illustrated
Tomei-te o corpo
Pelas ancas de veludo.
E no frenesim da dança
Senti o teu ventre
Desfazer-se em mil
Tentáculos
De prazer.
Manuel F.C. Almeida

FOTO BY Amanda Com
Despe o nome
Que te deram
E não escolheste.
Desnuda a alma.
Liberta os seios
Ao toque
Do meu desejo
Obsceno,
Que em silencio
Te celebra
E te afaga
O cio.
Manuel F.C. Almeida


foto by: Marta Ferreira - www.mfotografia.com
O ódio alimenta-se do medo.
Aquele medo que temos
Do desconhecido.
Do diferente.
Do imprevisto.
O ódio vive do medo
bem dentro de nós.
Manuel F.C. Almeida

foto by:Nuno Belo
Tudo me parecia magia
Naquela barca de ar
Da noite fizemos dia
A barca estava a voar
E de velas soltas ao vento
Cavalgámos o olhar.
O capitão é o tempo
O nosso destino, amar.
Manuel F.C. Almeida

foto by: Marta Ferreira -
Quando na noite me perco
Em teus cheiros, teus favores,
É na noite que me quero
Numa overdose de sabores
E sinto no teu corpo, calor
A ele me colo e me fundo
Em ti, desperto uma flor
Em mim, descubro outro mundo.
Manuel F.C. Almeida

FOTO BY:rosalina afonso
É! Quando amados por um dia completo
Que se diz no dia seguinte?
Que já não somos o que fomos?
Que os votos de eternidade são
Como todos os votos. Algo a renegar, a esquecer?
É isto que me irás dizer um dia?
Que tudo foi apenas e só
Um sonho, um desejo meu.
Fazemos da verdade cobardia,
Erguida no que nunca foi...
Sinceridade.
Mas eu sei que não devo perguntar
Os reais alicerces da verdade.
Não quero um dia pensar o que
Pensas. Nem pensar como tu
Pensas.
Porque eu amo a frontalidade.
Manuel F. C. Almeida

foto by: daniel camacho
Era tempo de colocar o passado atrás de nós e ser honestos. Como sempre fomos. Amizade era o melhor que tínhamos escrito a dois. E alguma loucura. Eu não era a mesma pessoa. Ela também não. Por vezes nem imaginamos as mudanças que o tempo e a distância opera em cada um de nós. Eu sentia claramente que era diferente desde há 6 meses quanto mais desde há anos.
A Elouise mantinha-se calada. Estava a leste do nosso diálogo e das minhas cogitações, mas entendia. As mulheres entendem sempre quando o seu tempo não é o nosso. Os homens são mais complicados. Acreditam sempre que a sua presença pode mudar os outros. Como se os outros existissem em função deles.
O silencio instalado era maior que o sentido por um peixe num aquário. Veio-me á memoria uma canção linda. The sound of silence. Na verdade existe. Um som que se propaga pela alma, que a inunda, que a embriaga. Não há na vida nada tão triste que ouvir o som do silêncio. Mas era a minha escolha.
Nessa noite terminei o relatório. Entreguei uma cópia à Isabel e na manhã seguinte parti. Sem glória, sem esperança, sem vida. Só o silencio se ouvia.
Manuel F.C. Almeida
Fim sem glória.


foto by:João Viegas
Louco. Sim sei que sou louco
Uma, duas, três vezes louco
Louco por amar,
Louco por cantar,
Serei louco uma vez mais
Por dizer.
Serei louco em pretensos poemas
Que teimo em escrever.
E escrevo o flamejar dos olhos.
O crescendo das partituras
um dia feitas nome…
Criaturas.
E canto o exorcismo da minha alma
Em fusão com o verbo amar.
Mas não há poemas que me libertem
Desta loucura com nome.
Louco. Sim serei louco
Para sempre.
Por te amar e te cantar.
Manuel F.C. Almeida

foto by: marta
Nua, levitavas numa dança
Tantrica de pernas abertas
E sexo de romã.
E foi em mim que saciaste
O fruto, a sede, a cor.
Ontem, hoje, amanhã.
Manuel F.C. Almeida


foto by: Dani
E era assim mesmo. Vivia preso aos meus sonhos e aos meus fantasmas. Começar ou tentar começar, recomeçar tudo me parecia impossível. Depois o recomeço é sempre carregado de memórias, de lembranças nem sempre boas. Fica sempre presente a ultima palavra. Seja ela qual for.
Era grande a angustia que me assaltava até ao momento em que a Isabel me interrompeu
- Andas mesmo em baixo meu querido. Estes ares fazem-te mal.
- Eu sei. Termino o relatório hoje e amanhã mesmo parto.
Foi patente a tristeza no seu olhar. Mas ambos sabíamos que não deveríamos recomeçar.

foto by:http://www.paulocesar.eu
Tenho um rio feito de poesia
Que me sai do ventre
Quando se faz dia.
Um rio de vento
Que me sopra na face
Ao passar do tempo.
Um rio a sonhar
Que me vive na alma
Por tanto te amar.
Manuel F.C. Almeida

foto by:Miguel Delgado e Silva
Ó deuses, vinde até mim
Eu bem sei que me avisaram
Mas esta paixão sem ter fim
Até os meus olhos cegaram.
Manuel F. C. Almeida

foto by: Eliara
Fiz do deserto o meu refugio
Nas horas de revolta do meu lar
E num balão de ar quente plantei,
Corais reluzentes da cor do mar
Que se davam como mulheres
A quem os vinha cheirar
Fiz do deserto o meu refugio
Nas horas ternas de te amar.
Manuel F.C. Almeida

foto by: Padroense
Olhei para a Elouise. Era maravilhosa. Livre e nada hipócrita. Uma senhora, noutra situação seria interessante aproximar-me dela. Mas com o espírito cheio de outra pessoa seria infame da minha parte. Ninguém merece isso. Ser uma muleta que se abandona depois de nos curar-mos. Eram estes os meus valores. A honestidade intelectual face aos outros. Muito kantiano, diriam alguns, conservador, diriam outros, poucos descortinariam na minha atitude um profundo amor pelos outros e por aquilo que são. E um profundo respeito por mim mesmo.
Mais uma vez fui interrompido nas minhas cogitações.
- Então! O peixe está bom? – Perguntou a Isabel.
- Delicioso – respondi
- está muito calado, parece que não aprecia a nossa companhia disse a Elouise.
- não pense assim, eu sou mesmo calado. Já fui diferente mas aprendi a viver dentro de mim. Não gosto de incomodar os outros com banalidades ou pensamentos meus. Vivo num mosteiro que é o meu “eu”.

FOTO BY:Erika Assumpção
Foi numa pétala que te achei
E te recolhi no tempo.
Teu aroma embriagou-me,
Tomou-me os sentidos
E voluptuosamente
Entreguei-me á doce loucura
De te amar.
Manuel F.C. Almeida

Foto by: http://www.paulocesar.eu
Que fazemos nós
Da luta dos corpos no
Silencio das noites?
Quando fechamos os olhos
Ao outro
E no egoísmo dos espasmos
Reencontramos a graciosidade
Da palavra
Vivida a dois.
Manuel F.C. Almeida


foto by: miguel pereira
Eu sempre te amei e não sabia
A cor do cabelo, do teu olhar,
Eras ideia que eu sempre via
No meu dormir, no meu sonhar.
Eu sempre soube que te amava
Faltava uma face, um caminhar
Mas naquele dia, que te olhava
Foste um farol a despertar.
Eu sei, tu sabes, ambos sabemos
Que nem tudo é fácil de reconstruir
Mas se sabemos o que queremos
O futuro é feito sempre a sorrir.
Manuel F.C. Almeida

FOTO BY: Miguel Delgado e Silva
Tomei-te o rosto
De um trago
Aspirei-te o perfume
De fêmea
E desfiz contigo
As nuvens
Do meu horizonte.
Manuel F. C. Almeida

foto by:Paulo Penicheiro
Entrámos num lugar rústico. Agradavelmente decorado com materiais da região. A dona de imediato cumprimentou a Isabel e a Elouise. Indicou-nos uma mesa e por artes mágicas fez surgir uma travessa com queijos e enchidos da região. Olhei para tudo e não consegui evitar uma sensação de revolta. Afinal eu não podia comer nada daquilo e o aspecto era magnífico.
- Em que pensas – perguntou a Isabel
- Em nada de especial, nas minhas limitações.
- Mas que tem? – Perguntou a Elouise.
De forma breve resumi a minha história clínica, que infelizmente não é famosa. Estava a meio da história quando, para espanto meu, a senhora me traz um bom peixe grelhado e para as senhoras umas boas migas com entrecosto de porco preto. Era injusto mas fiquei espantado. A Isabel explicou-me que tinha tomado a liberdade de encomendar peixe para mim. Era uma delícia. Aliás ambas eram uma delícia mas não mais que isso. Eu estava a viver um drama enorme. O trabalho que me propunha fazer estava feito. Era só elaborar um relatório e podia partir. No entanto apetecia-me ficar ali mais uns dias. A companhia da Isabel era tão agradável. Sabia que não era mais que isso. Mas sentia-me em casa quando estava perto dela.
http://www.paulocesar.eu homenagem aos G.N.R
Vou sonhar que te amei
Que te encontrei
Numa gruta iluminada
Vou cheirar que te amei
Que te tomei
Numa estrela abandonada
Vou cantar que te amei
E que te achei
Á boleia nesta estrada.
E sempre que te olhar
Vou-me encontrar.
Nesta vida amortalhada
E sempre que te olhar
Vou-me encontrar
Nesta vida adiada.
Vou sonhar que te amei
Que te olhei
Estavas nua, convidada
Vou sonhar que te amei
E que cheirei
Tua púbis orvalhada
Vou sonhar que te amei
Que te beijei
Numa ânsia entesada.
E sempre que te olhar
Vou recordar
Uma promessa adiada.
E sempre que te olhar
Vou recordar
Uma face calculada.
Vou sonhar que te amei
Que te matei
Numa hora malfadada.
Vou sonhar que te amei
Que te deixei
A canção está terminada.
Manuel F.C. Almeida

Foto by: helena margarida pires de sousa
A teu favor tinha,
A sensação de verdade.
O querer acreditar ser possível
Nem sabia se tinha o teu amor
Impossível.
A meu favor, tinha
A honestidade do olhar
O querer estar, acreditar
E todo este amor
Pronto explodir.
A nosso favor tínhamos
Tudo e nada
E quando vislumbrámos um rochedo
Eu… fiquei só.
Tu foste... o meu olhar ganhou medo.
A meu favor só me posso ter a mim
O caminho feito só, feito segredo..
Manuel F. C. Almeida
(a partir de alexandre O'Neill)


foto by: helena margarida pires de sousa
Tenho um sonho:
Um dia vou fugir de todos vós.
Vou fugir de todas as coisas.
Das obrigações, das obrigações..
Irei em direção ao sol
Para o esquecer,
Subirei a montanha
Para a perder
Olharei o céu
Para ficar ausente.
E só,
lograrei fugir de mim
Lograrei fugir de mim………
No presente, para sempre.
Manuel F. C. Almeida.





Foto by:
Se um dia desejares juntar-te a mim, deixo-te um segredo. Estarei sempre ao sul. No sul de Corto Maltese.
E só mais uma coisa. Diz aos meus amigos, mas aos que tu sabes que o eram de verdade, que estou na estrada que escolhi, que aparentemente estarei sozinho mas que guardo sempre comigo, a voz, a imagem dos que comigo pugnaram de perto. A minha única riqueza são as memórias que tenho. E os amigos que sempre terei.
Agora chega. Nada mais há a dizer.
Até um dia………………………..
Rodrigo Almeida
“Estarei sempre ao sul. No sul de Corto Maltese”. Argentina ou algures na América do sul?. Isto ficou-me na cabeça. Ele estava a dizer-me onde estava ou poderia estar.
Não dei pelo tempo passar, a Isabel e a Elouise interromperam-me o pensamento. Era tempo de almoçar. Fomos no jipe. Eu ia em silêncio. A minha tarefa estava terminada. Rápido demais. Teria de justificar a vinda com um relatório.