
Uma capa fiz do canto
De baixo a cima
Bordada
De antigas mitologias;
Mas tomaram-na os tolos
Para exibi-la ao mundo
Como se fora por eles lavrada.
Deixa, canto, que a tomem,
Pois maior feito existe
Em andar nu
Eu pertenço a um outro país que não o vosso, a um outro quarteirão, a uma outra solidão LÈO FERRÉ







De seguro,
posso apenas dizer que havia um muro
e que foi contra ele que arremeti
a vida inteira.
nao, nunca o contornei.
nunca tentei
ultrapassá-lo de qualquer maneira
A honra era lutar
sem esperança de vencer.
e lutei ferozmente noite e dia,
apesar de saber
que quanto mais lutava mais perdia
e mais funda sentia
a dor de me perder.
MIGUEL TORGA

Quem quer que sejas, vem a mim apenas
De noite, quando as rosas adormecerem!
Vem quando a treva alonga as mãos morenas
E quando as aves de voar se esquecem.
Vem a mim quando, até nos pesadelos,
O amor tenha a beleza da mentira.
Vem quando o vento acorda em meus cabelos
Como em folhagem que, ávida, espira…
Vem como a sombra, quando a estrada é nua,
Num risco de asa, vem, serenamente
Como as estrelas quando não há lua
Ou como os peixes, quando não há gente…
Pedro Homem de Mello




Podia cantar o amor fugido
Cantar a intensidade acontecida
Mas esse amor é amor ido
Viveu comigo e está de partida
Todo passa, tudo vai, ate a dor
De quem viveu amargurado
Por ter dado tanto amor
E por esse amor ser só usado.
Por isso eu canto o amanhã
O dia que está para chegar
Uma bela e alegre manhã
Em que voltarei a amar.
Manuel F.C. Almeida



Temos então que amor/ódio apresentam a mesma génese: a memória e a razão.
E em face disto qual deles toma o papel central na vida humana. Estou em crer que de forma geral nenhum se sobreporá ao outro. O que por vezes acontece é que é somos forçados a recordar os piores momentos, umas vezes para encontrar-mos forças de forma a seguir em frente outras porque o nosso ego a isso nos obriga. Mas sempre como forma de sobreviver. Por outro lado a avalanche de más memórias é de tal forma intensa que tudo o resto é esquecido ou quando recordado apenas serve para alimentar ainda mais aquele sentimento perturbante de perca. Os bons momentos, as horas de dificuldade, os momentos de partilha, o cheiro e tudo o resto fica esquecido, escondido por detrás dos últimos momentos e acontecimento. Alguns de nós conseguem viver assim por tempo indeterminado, corroendo-se a si mesmos. Outros há, que não o fazem. Esses usam uma forma de psicologismo enviusada e de autodefesa a todos os níveis notável. Transferem o ódio ao outro de forma a ficarem limpos de ódio mas a provocarem esse mesmo ódio ou irritação no outro.
A questão é a de tentar perceber os mecanismos usados para esse projecto de transferência

É no frio das noites que acontecem
Que vivo o teu rosto
Construído de culpas e receios
E, no tempo que corre
E trata a ferida sempre aberta
Descubro a nostalgia de te ter
Sem te possuir.
Percorro o espaço vazio
E um leve rumor a frio
Dilacera os meus sentidos.
Recupero por fim
Os pedaços do teu rosto
Já sem culpas ou receios.
Olha para o lado
E encontro presente
Os odores do teu “eu”
Que o fado fez ausente.
Recolho-me,
Digo obrigado e adormeço
Com a tua alma fechada na mão,
E o teu corpo vivo na mente.
Manuel F.C. Almeida
Novembro de 2004

Amor, ódio, dois sentimentos aparentemente opostos e no entanto quantas vezes não se entrelaçam nas nossas vidas. Aparentemente antagónicos, alimentam-se de momentos diferentes da mesma matéria: a memória.
O amor apela ás memórias dos afectos, ao toque na pele, ao cheiro, ao gosto, ao prazer do sexo, etc. Emfim a todas as memórias boas que carregamos. O ódio remete para o que de menos nobre existe em nós. São as memorias dos maus momentos, da dor, da angustia, do não entender ou não querer faze-lo. No entanto ambos os estados têm a mesma origem: a memória. Ora isto desde logo afasta o possível antagonismo de um em relação ao outro. Mas o que me levou aespecular sobre isto é o de tentar entender a reacção dos humanos a esta realidade. É a sua razão que faz amar e odiar alguém e em muitos casos a mesma pessoa que antes se amava.
Qual será o sentimento mais forte aqui? O amor ou o ódio?
continua...

nao creias quando te dizem ter sido por acidente. Os jogos só se jogam quando sao desejados. A mentira é sempre a fuga mais fácil. Nao se ama por caso. Ama-se porque se deseja amar, porque nao há amor previo. nao vale apena falar em duvidas. Quando os nossos olhos se encantam é porque estavam vazios....
Manuel F.C. Almeida


Já me sopra uma brisa na face
Novidades vindas no vento
Dizem-me que espere plo tempo
Em que tudo vá e tudo passe
Mas esta brisa ligeira
Traz consigo a esperança
De dias em que a bonança
Seja minha companheira
Que tudo pode acontecer
Pra tudo existe uma hora
Seja amanhã ou agora
Outros amores virei a ter.
Manuel F. C. Almeida



pintura de amoratus
http://amoratus.deviantart.com/gallery/
Porque gritam os poetas
Poemas sem dizer nada?
Gritam a alma feita estrada
Sentimentos feitos metas.
MANUEL F.C. ALMEIDA




Nesta terra de encantar
Douta pessoa surgiu,
Alguém me veio segredar
Que de segredos fugiu.
Rapaz de vários ofícios
Capaz de tudo tratar
Se lhe faltam orifícios
Ele trata de os encontrar
Como é douto tem valor.
Mais fácil fazer o que quer.
O poder traz sempre o amor
Aos olhos de uma mulher
De falas mansas, cuidadas,
Com um ar sempre bem airoso
Trá-las sempre bem tratadas
Prova que não é um ranhoso
O douto tem sempre poder
E sabe mentir a preceito
Para uma dama comer
Ele lá vai dando o seu jeito
Quando fica incomodado
Move suas influências
Envias para outro lado
Pra não sentir flatulências
Mestre no bem porfiar
Dizem que usa um apito
Prás conseguir encantar
e assim lhes comer o pito.
em singela homenagem a bocage.
Manuel F. C. Almeida

Quero ser teu amigo
Nem demais e nem de menos
Nem tão longe e nem tão perto
Na medida mais precisa que eu puder
Mas amar-te como próximo, sem medida,
E ficar sempre em tua vida
Da maneira mais discreta que eu souber
Sem tirar-te a liberdade
Sem jamais te sufocar
Sem forçar a tua vontade
Sem falar quando for a hora de calar
E sem calar quando for a hora de falar
Nem ausente nem presente por demais,
Simplesmente, calmamente, ser-te paz.
É bonito ser amigo,
Mas confesso,
É tão difícil aprender,
Por isso, eu te peço paciência
Vou encher este teu rosto
De alegrias, lembranças!
Dê-me tempo
De acertar nossas distâncias!