
pintura de amoratus
http://amoratus.deviantart.com/gallery/
Porque gritam os poetas
Poemas sem dizer nada?
Gritam a alma feita estrada
Sentimentos feitos metas.
MANUEL F.C. ALMEIDA
Eu pertenço a um outro país que não o vosso, a um outro quarteirão, a uma outra solidão LÈO FERRÉ

pintura de amoratus
http://amoratus.deviantart.com/gallery/
Porque gritam os poetas
Poemas sem dizer nada?
Gritam a alma feita estrada
Sentimentos feitos metas.
MANUEL F.C. ALMEIDA




Nesta terra de encantar
Douta pessoa surgiu,
Alguém me veio segredar
Que de segredos fugiu.
Rapaz de vários ofícios
Capaz de tudo tratar
Se lhe faltam orifícios
Ele trata de os encontrar
Como é douto tem valor.
Mais fácil fazer o que quer.
O poder traz sempre o amor
Aos olhos de uma mulher
De falas mansas, cuidadas,
Com um ar sempre bem airoso
Trá-las sempre bem tratadas
Prova que não é um ranhoso
O douto tem sempre poder
E sabe mentir a preceito
Para uma dama comer
Ele lá vai dando o seu jeito
Quando fica incomodado
Move suas influências
Envias para outro lado
Pra não sentir flatulências
Mestre no bem porfiar
Dizem que usa um apito
Prás conseguir encantar
e assim lhes comer o pito.
em singela homenagem a bocage.
Manuel F. C. Almeida

Quero ser teu amigo
Nem demais e nem de menos
Nem tão longe e nem tão perto
Na medida mais precisa que eu puder
Mas amar-te como próximo, sem medida,
E ficar sempre em tua vida
Da maneira mais discreta que eu souber
Sem tirar-te a liberdade
Sem jamais te sufocar
Sem forçar a tua vontade
Sem falar quando for a hora de calar
E sem calar quando for a hora de falar
Nem ausente nem presente por demais,
Simplesmente, calmamente, ser-te paz.
É bonito ser amigo,
Mas confesso,
É tão difícil aprender,
Por isso, eu te peço paciência
Vou encher este teu rosto
De alegrias, lembranças!
Dê-me tempo
De acertar nossas distâncias!


Esta noite acordei em sobressalto, na casa do lado alguém gritava, o ruído fazia-se ouvir ao longe. Não sei que diziam, não sei que falavam. Sei apenas que gritavam. E o choro de uma criança também se fez ouvir. Na rua alguns bêbados tardios também ouviram e saudaram a algazarra com outra ainda maior. No meu quarto quedei-me a pensar na pessoa que gritava. Eu conheci-a, era jovem e bonita. Costumava deliciar-me a vê-la andar pela rua. Ela não andava, dançava; e o seu corpo de rapariga mulher sempre me despertou desejos inconfessáveis. E ali estava eu. Só. A ouvi-la gritar sem saber como ajudar. De repente o silêncio caiu sobre a noite. A criança calou-se. Os bêbados foram-se, os gritos pararam. Mas no meu cérebro milhares de vozes faziam-se ouvir. Milhares de pessoas obrigavam-me a ouvir o seu barulho. Puxei as mantas para cima de mim, numa vã tentativa de calar tudo. Mas as vozes não se foram. Ficaram ali. A zombar de mim. Pensei-me já louco. E no entanto os cisnes do quadro não se mexiam, nem as fotografias da mesa-de-cabeceira falaram para mim. Levantei-me. Estava com medo, com frio, e acima de tudo com aquela gente toda na cabeça. Ouvia crianças a chorar. Ouvia homens a chorar. Ouvia gente sem ver. Fui ver-me ao espelho. Cabelo desgrenhado, solto. Os olhos raiados de sangue. Fiquei ali a olhar-me. Finalmente todas as vozes se calaram. Estava eu e a minha imagem do espelho. Fixei-me, olhei nos meus olhos e de repente fui engolido por mim. Ainda hoje estou preso no espelho. Mas felizmente não há mais ruído.









Sonhei esta noite um poema
Feito com o som de um piano
De um lado… um teorema
N’outro lado um lindo plano
Eras céu da minha mente
E quando uma nuvem surgia
Soprava-la timidamente
E a nuvem depressa fugia.
Tua face enevoada
Estava sempre ali comigo
Afastou a trovoada
E fez de mim teu amigo
Não passo de um sonhador
Que leva a vida a sonhar
Comigo trago uma flor
Para um dia te agradar.
Manuel F.C. Almeida

Strawberry fields forever na minha versão.
Deixa-me ajudar, estende a tua mão
Deixa-te guiar em contra mão
Vais ver que tu vais gostar
De ver os campos flores a cantar
Sei que não estás só, também eu não estou
No pensamento, tudo ficou
Memória que o tempo vai levar
Que a vida vai apagar
Em campos de flores a cantar
Não. Não tenhas medo
Eu vou Guardar o segredo
Mas também te vou mostrar
Que há campos de flores a cantar.
Sei que não estás certa de nada
Vives receosa, acossada
Mas pode alguém estar
Livre de errar?
Só os campos de flores a cantar.
Deixa-me tocar a tua mão
Deixa que o olhar tudo leva
Um dia serei Adão
Um dia tu serás Eva
Há um grito de esperança no ar
Nos campos de flores a cantar.
Manuel F.C. Almeida













eu ontem fiquei a saber
uma nova realidade
que já não interessa amar
e nem tudo o que se diz é verdade
para eu tentar perceber
comportamentos neuróticos
inventaram um conceito
fomos amigos eróticos
escolhe-se então um amigo
e com um pouco de arte
dão-se umas quecas com ele
antes de o pôr de parte
sendo rapaz sempre pronto
aberto a novas experiências
vou passar a convidar
amigas pra “confidências”
e quando elas pensarem
que aquilo é coisa de amar
digo:- desculpa lá filha,
é erotismo a brincar



