segunda-feira, maio 15, 2017

´













Nada tenho, nada quero
Nem bens materiais
Nem valores morais
Só a liberdade tem peso.

E se um dia peço
Pra ser entendido.

E os dedos em riste
Teimam em me apontar
Culpas que não tenho
Porque culpa não sinto.

Agarro um lírio
Tomo-lhe o cheiro

Olho com simplicidade
O passado,
Retomo o meu caminho
Como se ave fora.

Mas jamais viverei
Na gaiola que me estendem.

Entre sorrisos e lençóis
De linho bordados
Onde mora o hábito
E o medo habita.


Manuel F. C. Almeida

segunda-feira, maio 08, 2017















Olha, se quiseres ver o pôr-do-sol
Por entre as vielas e becos da cidade
Não te coloques a meio da estrada.
Segue os passeios até ao jardim mais próximo,
Escolhe um banco qualquer
Junto a um lago com patos e crianças a brincar
E deixa-te levar pela hora do sonho.
Puxa a garrafa de bourbon, que guardas ciosamente
No bolso do casaco, e dá um trago,
Que sempre limpa a garganta e clareia as ideias.
Agora olha bem as sombras que vão caindo,
As jovens mães que vão partindo, levando
As crianças pela mão e te olham curiosas,
Sedentas de uma outra vida que lhes traga
Um sentido qualquer à vida que não desejam.
E o sol que se esgueira pelas árvores
Apresenta-se matizado de ramos e folhas escuras
E tu, aí, sentado nesse banco a beber,
Apenas te interessas pelo som dos patos
Pelo riso, das já poucas, crianças que restam
E pelas jovens mães, que teimam em passar
Desconfiadas da tua pessoa.
Estendes as pernas, coças o queixo por entre a barba
E pousas o olhar para lá de tudo.
Arrumas a garrafa no bolso do caso
E pareces entender que o pôr-do-sol mais não é
Que um sorriso de criança e um sentir
Que no mundo estamos todos ligados.

Manuel F. C. Almeida

terça-feira, maio 02, 2017


















Pergunto-me quantos “eus”
Existem em mim
E fixo o olhar no pensamento
Que me devolve imagens
De quem se perdeu
Algures no tempo.
E fico parado no meu pensar
Sem saber o que aconteceu
Não sei se me perdi ao navegar
Pelos corpos e faces que amei
Ou se me estou a questionar
Sobre os caminhos que trilhei.
Toca a campainha na porta
Fui abrir….era eu.

Manuel F. C. Almeida

quinta-feira, abril 27, 2017

´














Uniram os corpos contra os corpos
No silêncio das noites ventosas e geladas.
A chama que se ergueu por entre escombros
Era um grito de esperanças enjauladas
Na nostalgia que teimou em florescer,
Por uma noite, breves horas encantadas,
Foi o espanto de quem quis adormecer
Nos olhos de duas vidas mutiladas
E nas areias que teimam em se mover
Há sempre mil palavras amordaçadas.

Manuel F. C. Almeida

segunda-feira, abril 17, 2017

















O que vejo não é real.
A porta abre-se
E nada surge, no silencio da noite
Que me tomou os sentidos
E a alma
Vincada que foi pela ilusão
De quem habita o tempo
Como se o tempo em nada
Tocasse

O que vejo, não é o que está
É sempre o que foi
Mediado pelo tempo e pelos
Sentidos.
Cobre-se o olhar com um manto
Invisível
E pretendo acreditar que a vida
É apenas o que se dá

A ilusão dita os passos
De quem quer viver feliz



Manuel F. C. Almeida

terça-feira, abril 11, 2017





















Dei o corpo nu ao oceano
Fundi a vida com a vida
Soltei amarras e sonhos
E vaguei pelos corpos
Que me beijavam nas ondas

Por fim, cego, entreguei-me
Nos braços da maré,
Andei de costa em costa
A habitar o silêncio
No olhar de quem amei

Manuel F. C. Almeida

terça-feira, abril 04, 2017





















Eu vi-te partir.
Levavas contigo
O sabor dos nossos beijos,
Qual abelha que recolhe
O néctar de uma flor em fogo
E o guarda nas memórias
De uma tela.
E assim partiste de nós
Na procura incessante dos corpos
Nos lábios da liberdade
E nas águas coloridas de sonhos.



Manuel F. C. Almeida

quarta-feira, março 29, 2017















Na descoberta de mim
Naveguei pelo teu ventre
E percorri, nu
O furacão dos teus olhos
E só a tranquilidade
Dos teus lábios
Me devolveu
O gosto a sal
E a vida.



Manuel F. C. Almeida

sexta-feira, março 24, 2017


















E um dia mostrei-te a alma
Despi-me de murmúrios
Do passado
E tu foste o meu farol
Num oceano fustigado

De seguida despi a alma
Essa mesmo que tocaste
Levemente
E sem ela caminhei
A teu lado, lentamente

E foi sem medo e sem alma
Que enfrentei o Oceano
Da incerteza
E mergulhei na intempérie
Da tua certeza

Resgato hoje a minha alma
Levo-a pró meu
Abrigo
Vou pinta-la com mil cantos
E mil poemas de amigo



Manuel F. C. Almeida

segunda-feira, março 20, 2017

















Ao fj



que mais podes tu dizer poeta, 
quando todo o teu
 pensar e sentir 
se concentram 
num ponto de 
e da vida.
 Um ponto tão pequeno
 e tão grande
 que te ocupa todo o "ser".
 A poesia será 
nesse momento 
um momento 
de catarse
de purificação original 
e de mergulho 
nas águas tumultuosas 
do oceano. 
Ergue, pois, a mão
 e salva a obra

Manuel Almeida


Manuel F. C. Almeida

segunda-feira, março 13, 2017






















Quando dizemos que é “meu”
O que a ninguém pode estar preso,
Quando gritamos “liberdade”
Mas olhamos as coisas como nossas.
Deixamos de ser o que dizemos ser;
Somos apenas um falso quadro
Que nada deseja mudar
E muito menos dar aos outros
O que queremos para nós,
Porque a liberdade não é coisa
De conquistar,
A liberdade é para viver, sempre
Em nós e nos outros.


Manuel F. C. Almeida

segunda-feira, março 06, 2017

















De manhã vestia a capa
Logo, logo ao acordar
Uma capa tão perfeita
Que nem o deixava pensar
E assim sempre viveu
Anos e anos a fio
Fosse noite, fosse dia
Estivesse calor ou frio
Não mudava de rotinas
E nada fazia prever
Que o homem que assim vivia
Assim não quisesse viver

O tempo sempre a correr
E o homem que assim vivia
Assim continuou a viver
Na ilusão de que no seu tempo
Nunca é tempo para morrer

Um dia já velho e cansado
De manha ao acordar
Resolveu não se vestir
E a capa não mais usar
Foi olhado como louco
Tratado como demente…
vestiu-se com um sorriso
Era feliz finalmente.
Assim partiu como um pássaro
Sem saber para onde iria
Mas o que o fazia feliz
Era saber que vivia.



Manuel F. C. Almeida

segunda-feira, fevereiro 27, 2017

















Permaneço aqui, neste mundo só
O meu existir é feito de pó,
E neste mistério faço o meu caminho,
Sem mágoa sem dor, sem casa sem ninho.
Cantem os oceanos cânticos do mar,
Onde as ondas dançam sem nunca parar
E morrem nas praias em areias de ouro,
Em mil cristais que são um tesouro.
Não quero andar e não quero fugir
Tudo o que acontece, é puro existir.
Sangra-me a face na máscara usada,
Sou o que não sou, nesta vida adiada.
Espero que a noite me faça viver.
Sou o que só é, sou apenas “ser”.
aos ventos grito para me libertar,
Desta letargia que pintei no olhar.
E a minha alma vive per si
Numa pauta que vai de dó até mi
Mas o meu olhar já não tem mais flores
Toda a minha vida é tela sem cores
E eu sou quem quero.
Viajante só.
E do mundo espero,
Nada mais que pó.


Manuel F. C. Almeida 

segunda-feira, fevereiro 20, 2017
















Porquê confundir o Amor
Com promessas eternas
Saídas da vontade,
Quando esta mais não é
Que o sentir do desejo agora,
E a eternidade é tanto tempo
Que nos esquecemos que
Amanhã é outro dia…
E que nada resiste à madrugada.

Nem mesmo as juras eternas.


Manuel Almeida

segunda-feira, fevereiro 13, 2017













Não!
De corpos me basto eu,
De vontades a minha.
Nada me impele para
Ter outros como adereços
De enfeitar o ego
Ou os olhares sociais.
Sou como sou
E se a liberdade quero
Para e em mim
Pela mesma lutarei
Para todos
Até ao fim.
E se este malmequer
Se desfolhar
Na procura de respostas
Aqui dadas
Resta colar as pétalas caídas
E retomar da vida
As estradas.


Manuel F. C. Almeida

segunda-feira, fevereiro 06, 2017






Canto ao passar dos dias.









Teimo em ficar quieto
Sentado junto à janela
E pensar nas pessoas
Que passam junto a ela
A bocejar e a beber chá
Vindo não se sabe de onde.

O gato teima em me fazer
Companhia, sentado em mim
A olhar pela janela
E a receber a minha mão
Ao correr do corpo.
Só não bebe chá.

Nesta rua da cidade
A minha janela é o meu mundo
Ajeito a manta nas pernas
E o gato ajeita-se nela
Somos velhos companheiros
Sabemos comunicar com os olhos.

A manhã foi-se tal como o chá.
O gato levantou-se para comer.
Encarcerado no meu velho corpo
Aceito a mão que me estende a canja
E com o olhar baço sinto a revolta
De ainda saber o que quero.

O gato voltou a sentar-se
Já não me apetece beber mais chá
Um pombo pousa na árvore em frente
O gato agita-se no meu colo
Mas a idade não nos permite
Sonhar com a vida.


Manuel Almeida

terça-feira, janeiro 31, 2017

















Recorda sempre que já fomos jovens.
Que os dias não tinham horas,
Que agarrávamos o tempo no olhar
Sem que o olhar nos desse
Mais que um minuto.
Recorda como abríamos os braços
E tínhamos o mundo nas mãos.

Começa a ser tempo de despedidas
O olhar é agora um telescópio temporal
Antecipa as horas e torna o tempo tão curto
Que quase sentes chegada a ultima canção
Da vida.
Os braços erguem-se, agora num acto
De liberdade, e milhares de pétalas
Coloridas saem de ti, num perpétuo
Movimento de renascimento e partida.


Manuel Almeida

terça-feira, janeiro 24, 2017


















Entre as tuas coxas
De cetim
E os teus seios
De veludo
Encontrei o que resta
De mim,
E do pouco que achei
Dei tudo.




Manuel F. C. Almeida

segunda-feira, janeiro 16, 2017






















Não te sabia
Tão singela
Nem do risco
De te ter
Guardada em
Mil poemas
Que só eu
Sei ler
Poemas
De erotismo
E rimas
De sedução
Que nunca
Irás entender
Ou guardar
No coração.

Guardo pois
Do teu olhar
O convite para
Me perder
Num canto
A mel e a mar
No som das marés
A morrer
Nas areias
Que se perdem
No leito de todo
O teu ser
E nos beijos
Adiados
Que são vida
A correr


Manuel F. C. Almeida