
Descubro
Em todo o lado
A paisagem
Do assombro,
Tingida pela
Lascívia dos corpos
Estáticos
Entre casas fechadas e
Abismos na alma.
Que o tempo teima em manter.
Manuel F. C. Almeida
Eu pertenço a um outro país que não o vosso, a um outro quarteirão, a uma outra solidão LÈO FERRÉ







Quantas noites sem sentido habitaram
Os olhares curiosos que se perderam
No vazio da escuridão?
A perversão imensa dos objectos inanimados
Que se confundem com corpos sem alma
Solenemente deitados. Ali quietos. Num, existir
Sem acontecer.
A morte das paixões é a vitória do vazio
E a glória do abandono útil.
Manuel F. C. Almeida

Já nem dos sonhos te manténs desperto
Nem dos tempos recuperas a sorte.
Tudo o que demandas é a paz do ego
Solta e livre sem derrota e sem vitória.
Altivo o querer deixa-te ser o que és.
Se erras não escondes o olhar nas palavras
Arrependidas da culpa. Porque a não conheces.
Desenhas na vida um arco de esperança
E continuas o teu caminhar, no som breve
Das palavras, na inconstância de existir
E na glória de viver quem és.
Manuel F. C. Almeida


No caminho ergueste o prazer
Em torno de silêncios e palavras mudas
Afloraste os sentidos e o corpo
Com olhares de entrega e desejo
Sangraste a paixão libertando assim
A ânsia sôfrega da posse.
E á noite, quando as memórias
Sangram o tempo e as mãos
Se perdem vazias na doçura
De tactear o passado, estendes
A alma e os teus segredos
No tapete que bordaste à mão.
Olhas quem te tomou o corpo
Mas nunca o espírito, quem te
Desfolha e te seca a carne,
Mas nunca esqueces quem
Te pintou as pétalas do olhar
E livre te deixou para voar.
Porque as memórias são o presente
Que a vida nos dá no caminho.
Manuel F. C. Almeida



Presente nas palavras,
Escondido nos conceitos
O poema resolve-se
No abrir dos lábios em chama
E nos olhares que se
Ausentam
Dos dias e das noites
De paixão, como o anjo
Que reproduz a dualidade
Divina e a isenta de culpa.
Manuel F. C. Almeida



Quando amar se resolve
Na liberdade de amar
Outra dimensão nos envolve
No reencontro do olhar
Um olhar da liberdade
Que tantas vezes nomeamos
Um olhar feito vontade
Um sentir de quem amamos
E só assim se pode amar
Com toda a essência de ser
Na liberdade de olhar
Quem em liberdade nos quer
E nesse querer sem medida
Nesse amar para lá de ter
Reside o segredo da vida
Sentir que amar é viver.
Manuel F. C. Almeida


O olhar cerrado grita
O silêncio da loucura
Que se mascara em sorriso.
Nada fica
Tudo parte.
E os pássaros que voam ao sul
Esquecem o céu
E a cor dos loendros.
E o silêncio permanece
Um mistério do olhar cerrado
E de cada vez
Que os olhos se entreabrirem
É a visão da loucura e
O medo do homem que acorda,

Já nem sei se poderei
Iluminar estas sombras
Que dentro do meu pensar
Se condensam em nuvens
De cinzas.
Já nem posso reaver
O canto das águas
Nas memórias que
Guardam as chaves
Do tempo.
Do nosso tempo.
Daquele tempo em que
Os olhares sorriam e se
Perdiam nas cascatas
Dos corpos em êxtase.
Já nem reconheço os
Cheiros, ou os recantos
Dos nossos segredos
Das nossas cumplicidades.
Ficou de tudo uma brisa suave
Uma brisa de mar
Que vai e vem ao sabor
Das marés, desencontradas.
Manuel F.C. Almeida


