
Eu pertenço a um outro país que não o vosso, a um outro quarteirão, a uma outra solidão LÈO FERRÉ

Amor, ódio, dois sentimentos aparentemente opostos e no entanto quantas vezes não se entrelaçam nas nossas vidas. Aparentemente antagónicos, alimentam-se de momentos diferentes da mesma matéria: a memória.
O amor apela ás memórias dos afectos, ao toque na pele, ao cheiro, ao gosto, ao prazer do sexo, etc. Emfim a todas as memórias boas que carregamos. O ódio remete para o que de menos nobre existe em nós. São as memorias dos maus momentos, da dor, da angustia, do não entender ou não querer faze-lo. No entanto ambos os estados têm a mesma origem: a memória. Ora isto desde logo afasta o possível antagonismo de um em relação ao outro. Mas o que me levou aespecular sobre isto é o de tentar entender a reacção dos humanos a esta realidade. É a sua razão que faz amar e odiar alguém e em muitos casos a mesma pessoa que antes se amava.
Qual será o sentimento mais forte aqui? O amor ou o ódio?
continua...

nao creias quando te dizem ter sido por acidente. Os jogos só se jogam quando sao desejados. A mentira é sempre a fuga mais fácil. Nao se ama por caso. Ama-se porque se deseja amar, porque nao há amor previo. nao vale apena falar em duvidas. Quando os nossos olhos se encantam é porque estavam vazios....
Manuel F.C. Almeida


Já me sopra uma brisa na face
Novidades vindas no vento
Dizem-me que espere plo tempo
Em que tudo vá e tudo passe
Mas esta brisa ligeira
Traz consigo a esperança
De dias em que a bonança
Seja minha companheira
Que tudo pode acontecer
Pra tudo existe uma hora
Seja amanhã ou agora
Outros amores virei a ter.
Manuel F. C. Almeida



pintura de amoratus
http://amoratus.deviantart.com/gallery/
Porque gritam os poetas
Poemas sem dizer nada?
Gritam a alma feita estrada
Sentimentos feitos metas.
MANUEL F.C. ALMEIDA




Nesta terra de encantar
Douta pessoa surgiu,
Alguém me veio segredar
Que de segredos fugiu.
Rapaz de vários ofícios
Capaz de tudo tratar
Se lhe faltam orifícios
Ele trata de os encontrar
Como é douto tem valor.
Mais fácil fazer o que quer.
O poder traz sempre o amor
Aos olhos de uma mulher
De falas mansas, cuidadas,
Com um ar sempre bem airoso
Trá-las sempre bem tratadas
Prova que não é um ranhoso
O douto tem sempre poder
E sabe mentir a preceito
Para uma dama comer
Ele lá vai dando o seu jeito
Quando fica incomodado
Move suas influências
Envias para outro lado
Pra não sentir flatulências
Mestre no bem porfiar
Dizem que usa um apito
Prás conseguir encantar
e assim lhes comer o pito.
em singela homenagem a bocage.
Manuel F. C. Almeida

Quero ser teu amigo
Nem demais e nem de menos
Nem tão longe e nem tão perto
Na medida mais precisa que eu puder
Mas amar-te como próximo, sem medida,
E ficar sempre em tua vida
Da maneira mais discreta que eu souber
Sem tirar-te a liberdade
Sem jamais te sufocar
Sem forçar a tua vontade
Sem falar quando for a hora de calar
E sem calar quando for a hora de falar
Nem ausente nem presente por demais,
Simplesmente, calmamente, ser-te paz.
É bonito ser amigo,
Mas confesso,
É tão difícil aprender,
Por isso, eu te peço paciência
Vou encher este teu rosto
De alegrias, lembranças!
Dê-me tempo
De acertar nossas distâncias!


Esta noite acordei em sobressalto, na casa do lado alguém gritava, o ruído fazia-se ouvir ao longe. Não sei que diziam, não sei que falavam. Sei apenas que gritavam. E o choro de uma criança também se fez ouvir. Na rua alguns bêbados tardios também ouviram e saudaram a algazarra com outra ainda maior. No meu quarto quedei-me a pensar na pessoa que gritava. Eu conheci-a, era jovem e bonita. Costumava deliciar-me a vê-la andar pela rua. Ela não andava, dançava; e o seu corpo de rapariga mulher sempre me despertou desejos inconfessáveis. E ali estava eu. Só. A ouvi-la gritar sem saber como ajudar. De repente o silêncio caiu sobre a noite. A criança calou-se. Os bêbados foram-se, os gritos pararam. Mas no meu cérebro milhares de vozes faziam-se ouvir. Milhares de pessoas obrigavam-me a ouvir o seu barulho. Puxei as mantas para cima de mim, numa vã tentativa de calar tudo. Mas as vozes não se foram. Ficaram ali. A zombar de mim. Pensei-me já louco. E no entanto os cisnes do quadro não se mexiam, nem as fotografias da mesa-de-cabeceira falaram para mim. Levantei-me. Estava com medo, com frio, e acima de tudo com aquela gente toda na cabeça. Ouvia crianças a chorar. Ouvia homens a chorar. Ouvia gente sem ver. Fui ver-me ao espelho. Cabelo desgrenhado, solto. Os olhos raiados de sangue. Fiquei ali a olhar-me. Finalmente todas as vozes se calaram. Estava eu e a minha imagem do espelho. Fixei-me, olhei nos meus olhos e de repente fui engolido por mim. Ainda hoje estou preso no espelho. Mas felizmente não há mais ruído.