Eu pertenço a um outro país que não o vosso, a um outro quarteirão, a uma outra solidão LÈO FERRÉ
sexta-feira, maio 01, 2009
quarta-feira, abril 29, 2009

Afago a palavra,
O verbo.
Mergulho cego
No sentido.
Sou do conceito
Servo.
Das falácias
Foragido.
Manuel F. C. Almeida
foto:José d' Almeida & Maria Flores
segunda-feira, abril 27, 2009

foto:joaopires
E em desespero
Confundiste
A alma com o
Corpo
E a chama de
Outono
Consumiu-me
A face.
Manuel F. C. Almeida
sexta-feira, abril 24, 2009
quarta-feira, abril 22, 2009

Das sinfonias agitadas
Nos dedos
Restam os momentos
Da água nos lábios.
E a sede que matei em ti
Renova-se na tua sombra.
Manuel F. C. Almeida
foto:Mariana Bravo
segunda-feira, abril 20, 2009

Estendo no ar, o olhar
Procuro na noite o meu dia
Um rio que passa a cantar
Soletra a minha agonia
Procuro sentido prá vida
Nesta vida sem sentido
A centelha já perdida
De morto sem ter morrido
Manuel F.C. Almeida
foto:Daniel Pedrogam
sábado, abril 18, 2009
quarta-feira, abril 15, 2009

Á minha frente o caminho
Abriu portas ao destino
(Se é que tal coisa existe)
E o cansaço tomou-me
O corpo nu.
Nos olhos, o mar
Florido e cintilante
Devolveu-me
A flor de prata
Numa pérola...
Tu.
Manuel F. C. Almeida
foto:Nuno Bernardo
segunda-feira, abril 13, 2009
sábado, abril 11, 2009

É a esperança que
espalha
Um ramo no bico
de pomba.
Farei do corpo
a muralha
Do sonho
que nunca tomba.
Manuel F.C. Almeida.
foto:Fernando Baptista
quinta-feira, abril 09, 2009

foto:Nuno Bernardo
Liberto-me no andar
Pelo mundo,
Naquela centelha de tempo
Temperada na tempestade...
Nas sílabas da madrugada
Onde mora a liberdade.
Manuel F.C. Almeida
terça-feira, abril 07, 2009

FLOR
Porque me escrevo plural?
Porque na escrita
Somos tempo
E flor
Somos vento
E amor.
Até o crepitar de um poema
Faz de nós
O seu cantor.
Manuel F.C. Almeida
foto:Daniel Pedrogam
sexta-feira, abril 03, 2009

Ser ou não ser
Estar ou não estar
Querer ou não querer
Amar ou não amar
De dúvida em dúvida
Te sinto.
Mas nunca te sinto chegar.
Manuel F. C. Almeida
foto:Giselle Negro Rocha
quarta-feira, abril 01, 2009
sábado, março 28, 2009
quinta-feira, março 26, 2009

No jardim da liberdade
Era doce a sensação de estar ali. Á minha frente, um pequeno lago artificial servia de refugio a alguns patos coloridos que me pareciam os mesmos de há anos atrás. No meio do lago um bar. Tempos houve em que não existia, e o silêncio daquele jardim era ouro para uns quantos grupos de rapazes e raparigas que faziam daquele jardim o seu refúgio das realidades familiares ou simplesmente o seu refúgio para uma boa noite de conversa. Também recordo os tempos em que o bar se transformou no aglutinar de novas gentes e de lindas trocas de olhos, de cumplicidades ingénuas e de enamoramento.
Agora ali estava eu. Sozinho, e as vozes que ouvia não eram desconhecidas. Eram vozes daqueles tempos. Foda-se. Foi tão bom ter vivido ali, ter os amigos que tive. Os jovens nunca se apercebem da importância dos lugares, antes de deixarem de ser jovens.
Perdido na imensidão das memórias, nem dei pela presença de uma figura feminina que se tinha aproximado. Só quando perguntou se podia sentar-se, olhei para ela. Não muito alta, de cabelos pretos e compridos, nariz não muito grande mas arrebitado, um ainda belo par de tetas. Vestia umas jeans e uma camisa branca, um casaco de cabedal, ou a imitar, protegia-a do frio.
Respondi que sim, que o lugar era de todos, como sempre tinha sido. Nunca se negou a ninguém o direito a se sentar ali. Perguntou-me se tinha lume. Procurei nos bolsos e encontrei um velho isqueiro. Não pude deixar de sorrir, era o meu velho isqueiro alimentado a petróleo. Uma raridade e preciosidade. Acendi-lhe o cigarro que ela tinha colocado nos lábios. Uns lábios cheios, carnudos que me faziam recordar alguém. Mas a noite era das minhas memórias. Não me apetecia falar, por isso permaneci em silêncio. Um silêncio que ela interrompeu quando me perguntou onde vivia. Olhei para ela devagar e sem pensar muito respondi que ali, aquele lugar era a minha casa. Ficou espantada, há anos que frequentava o sítio, quando vinha passear o seu cão, e não se recordava de me ver. Eu quis então saber se o há anos representava muitos ou poucos. Trinta e cinco, respondeu, com um sorriso. Mentalmente voltei aos meus doze ou treze anos e fui percorrendo o caminho das memórias nos anos que se seguiram. Nada. Não me recordava dela, ou pelo menos de nenhuma miúda com uma face semelhante. Só os lábios me faziam aproximar de alguém, disse-lhe que desde há muitos anos, embora ausente daquele lugar, lá tinha deixado a minha alma. Sorriu-me com um brilho nos lábios e no olhar. Olhou para o chão e quando voltou a levantar os olhos eu sabia o que ela ia dizer. Manel! Disse, já nem dos amigos te recordas? Fiquei sem palavras, quem seria esta mulher que me conhecia tão bem e que eu aparentemente desconhecia? Voltou a sorrir face ao meu espanto. Apanhou o cabelo com as mãos tornando-o um pouco menos volumoso, comecei a recordar a face de uma menina, a irmã mais nova de uma das minhas melhores amigas. Olhei novamente pra ela, agora sim recordava aquela miúda franzina que costumava aparecer agarrada á irmã.
Afinal a minha casa ainda tinha gente conhecida. E pelo aspecto dela valia a pena passar a noite ali, a conversar sobre o tempo em que o tempo não existia.
Manuel F. C. Almeida
terça-feira, março 24, 2009
domingo, março 22, 2009

Desenhei-me sem mim
Numa tela ausente
Num tempo sem fim
Num tempo demente
Desenhei-me criança
E ao sol a sorrir
Meus olhos de esperança
Sonhavam partir
E os barcos do tempo
De velas abertas
Levavam no vento
Ideias desertas
E o desenho cresceu
Numa tela sem gente
E sem gente morreu
O meu sonho demente.
Manuel F. C. Almeida







