
Do vento.
Soprei-me nas imagens
Do tempo.
Beijar-te foi o despertar…
Num lamento.
Manuel F. C. Almeida
Eu pertenço a um outro país que não o vosso, a um outro quarteirão, a uma outra solidão LÈO FERRÉ

INTERROGAÇÕES
FOTO BY: Heliz
Tenho uma estrada à porta de casa. Uma estrada que me leva para lá dos sonhos vazios e inócuos onde ninguém pode viver. E é assim a vida, corre num sentido só. Ilusoriamente pensamo-nos donos do caminho que se estende sem horizontes. Olhamos os espelhos e pensamo-nos livres nas escolhas, mas não há liberdade na vida, não há liberdade no drama da existência. Mais tortuoso e longo é o caminho cabalístico dos teoremas indecifráveis, segredos de vida, gravados a sangue na pele ao nascer. Choramos no desespero do oxigénio que nos consome as células virgens num primeiro minuto de infelicidade que se perpetuará no tempo até ao derradeiro sopro libertador.
Manuel F. C. Almeida

Fui eu
foto by: Carla Broekhuizen
Sim fui eu que fechei as cortinas
Antes do nascer das águas
E da morte lunar por detrás dos montes.
Quando olhei
Já o sol subia nas asas de uma gaivota
Ao som dos regatos escondidos
No colorido das harpas ao vento
Numa alvorada marinha.
Das margens deste lago invisível
Uma espada cruzou o tempo
E quedou-se
Parada entre a frescura
Da carne e o medo
Da morte.
Quando olhei
Vi o gume dobrar
O poema da vida,
E a canção das areias
Correr em vagas de luz,
Agonizante e bela
Ao encontro da sombra
De mim.
Manuel F. C. Almeida

COMO?
FOTO BY:Nuno Belo
Castanhos, os teus olhos
Entraram em mim e
Devastaram a verdade
Que tinha.
Trocámos as mãos
E os corpos,
Mas o medo do tédio,
E do passado dançava
Diante de nós.
Só este sentir mais que sentir
Pode vencer os fantasmas.
Só ele pode levar-nos de
Viajem.
Manuel F. C. Almeida



CONCEITOS
FOTO BY: Fernando Figueiredo
Nas minhas palavras os nomes surgem dos escombros das memórias e do frio das sombras projectadas em jardins mortos nas ilhas intemporais. Nas minhas palavras as azinheiras crescem lentamente sem sentido e os olhares escondem algumas verdades cruéis. Palavras que se escondem no segredo das palavras contidas noutros olhares. A crueldade dos silêncios faz crescer a crueldade dos olhares. As mãos tingem-se com o sangue derramado nas omissões egoistas que desejamos conseguir.
Como odeio a caridade altruista que se pinta de boas intenções.
Manuel F. C. Almeida




CARMIM
foto: Ana Rita Vaz Cruz
Canto o silêncio do mundo.
O abrir ruidoso das orquídeas
Nos campos incógnitos do sul.
As madrugadas de orvalho
Caídas no nosso olhar.
Canto a dúvida da vida
No seu lento despertar
E os teus lábios de carmim
Marcados por me beijar.
Eu canto o silêncio do mundo
Numa sonata ao luar.
Manuel F. C. Almeida

Amigos
FOTO BY:angelica
Em paz com o cosmos
Reencontro-me na memória
Terna de um coração amigo.
Venci a distância na recusa
De esquecer.
Agora sei que
Nada pode sangrar a imagem
Do nome amigo, e do seu coração
De filigrana encantada.
Manuel F C. Almeida


Regresso da guerra
Das ruas de Bagdad, de Cabul
Ou de New Orleans,
Transporto no olhar o
Respirar lento dos que
Desesperam
E as lágrimas dos que
Chamam a morte.
Regresso cobardemente
Sorridente,
E trago comigo a lembrança
Dos olhares audazes
Dos mil heróis que pereceram
Por nada.
Trago também o colorido
Das medalhas
E o som abafado da fome
No olhar das crianças.
Regresso com o peso
Dos que ficaram
Dos que erguem a bandeira
Estúpida dos hinos e
Das cores garridas
Tatuadas na fé.
Regresso sujo pelo pó
Das vitimas colaterais
No Sudão, na Sérvia ou
São Paulo.
Marcado em brasa nas
Memórias lancinantes
Dos gritos de revolta
Do Tibete em silêncio.
Regresso com um rastilho
Nas palavras e a
Revolta de fogo nas mãos
Assassinas.
Manuel F.C. Almeida


Margens
Foto by:Alba Luna
As margens deste rio apertam-se na linha do horizonte desenhando trilhos e caminhos secretos na procura do meu elo perdido. Os cisnes, brancos, desfilam nas aguas serenas, desenhando ondas que se repetem sem cessar como raios de sol. Sentado nas margens, fixo o olhar na plenitude do rio e na serenidade sensual da corrente. Encontrei o limite das minhas memórias neste espelho sem fim que se alonga na paisagem. As águas devolvem-me o olhar com a interrogação que lhes coloco. Nada mais pode interromper este último acto. Fecho os olhos na esperança de que tudo encontre o seu lugar dentro de mim. O ar, a terra, o fogo, a água. Finalmente sinto-me eu. Acaricio na memória o teu cabelo e tomo-te o corpo num sonho presente.
Serás para sempre.
Uma primeira ultima vez.
Manuel F. C. Almeida