
Eu pertenço a um outro país que não o vosso, a um outro quarteirão, a uma outra solidão LÈO FERRÉ
quinta-feira, abril 05, 2007

quarta-feira, abril 04, 2007

Tentei seguir o conselho dela, mas quando me sentei já o meu espírito deambulava pelo meu universo. Ali estava eu, junto a uma mulher maravilhosa, sedutora, adulta, que me desejava e que o dizia sem meias palavras. Ela sempre fora assim. Quando queria algo, alguém ou alguma coisa, simplesmente dizia. O vinho branco estava deliciosamente fresco. Ela tinha colocado um disco dos Doors. “ People are strange”, a memória trouxe de volta o meu passado. Como me sentia estranho dentro desta pele. Seria eu que estava ali? Ou um clone de mim? Nem eu sabia. Sem que o desejasse a imagem da Fernanda ocupou o espaço em mim. Costumávamos ouvir aquela música. Ia-mos acampar para a costa alentejana e passear pelo último refúgio da Europa. Era um prazer só nosso. Mas até esse prazer ia ficar interditado aos, que como nós, tanto o apreciavam. O tal poder local, supostamente democrático, preparava-se para invadir aquele maravilhoso local com resorts de golfe e milhares de camas turísticas. Tudo com a complacência e o silêncio dos governos eleitos. Que triste País, que triste povo. O meu espírito teimava em voar pelo passado.
terça-feira, abril 03, 2007

O jipe parou junto de uma casa semelhante à que me estava destinada. Sempre ágil saiu do carro. Segui-a como um menino. Quando entramos em casa nem tive tempo pra ver as paredes. Enlaçamo-nos de imediato num beijo que levava parte de nós. Senti que o mundo desaparecia e que estava no paraíso. Quem precisa de uma, dez ou dez mil virgens no paraíso? Nós precisamos é de criar paraísos na terra. Paraísos feitos com pessoas. Pode ser um paraíso de amor platónico, de amor consequente ou de pura amizade, seja como for com ela tinha tudo. Era o conceito de três em um. E falava a mesma linguagem que eu. Sem pudores ou moralismos. Se queria uma coisa dizia-o se não queria, fazia sentir isso.
- Estás certa de tudo? – Perguntei – não te prometo mais que umas noites, sabes que não estou preparado para relações muito profundas. Tornam-se monótonas e acabam por nos entediar. Depois sempre acontecem as rotinas e o que é belo fica banal e por vezes pesado – terminei.
Olhou para mim. Sorriu. Estendeu-me o copo convidou-me a beber
- Manuel não penses. Vive agora. Se o faço é porque quero. Tu não me obrigas a nada e sei perfeitamente quais as regras do teu jogo. Não temas gosto de tanto de ti que nunca te pediria o que não me podes dar. – Disse de forma pausada e sempre decidida. – Mas o que puderes dar eu vou aproveitar - terminou com uma sonora gargalhada. Acto contínuo senti-me ser empurrado para um magnífico sofá.
segunda-feira, abril 02, 2007

Nunca se secam as palavras
Nos rios de peito do poeta
É nesse rio que tu lavras
A palavra simples e certa
De nada vale já não querer
Todas a letras no papel
O poeta tem que escrever
Trabalha a palavra a cinzel
É pois temível a maldição
De quem na palavra se encanta.
Bate forte o coração
Quando um poeta se canta.
Manuel F. C. Almeida

- Pra minha casa, sempre esta mais arrumada e tenho um bom vinho branco no frigorifico à nossa espera. Sempre tinha gostado de vinho branco e ela sabia. Olhei-a de perfil. A fraca luminosidade dava-lhe um ar ainda mais sensual. Era estranho. Chegado aos 40 e tal anos continuava sem conhecer as mulheres. Que desejaria ela de mim? Fomos amantes, agora só amigos e daqui a algum tempo novamente amantes? Eu desejava-a, não tinha dúvidas, mas porquê? Seria só necessidade hormonal? Ou algum resto da loucura vivida por ambos? Não sabia. Nem queria saber. Todas as pessoas que me povoaram o espírito ficaram ausentes. Só ela existia.
- Que te deu? – Perguntou.
- Não sei, foi selvagem, instintivo – respondi
- Bem podias ter levado uma galheta. – disse a rir.
domingo, abril 01, 2007

sábado, março 31, 2007

Mas ela não era deste mundo. Isso estava já um pouco claro.
- Bom então passe uma boa noite. Foi um prazer conhece-lo espero que conversemos mais vezes. Eu venho algumas vezes aqui. Poucas porque não aprecio a companhia das pessoas. Já viu porquê. Não viu?
- Entendo, também não sou dado a sociabilizações mas terei todo o prazer em conversar consigo. - Então boa noite Manuel até um dia destes. – E saiu sem olhar para mais ninguém

O rapaz, consciente de que tinha agido mal, mas despeitado e ferido no seu ego de macho, só um tempo depois esboçou reacção, acho que mais para se justificar do que outra coisa, mas já era tarde. Trataram de o acalmar e ouvi várias pessoas a dizer:
- É bem feito luís, já sabes como ela é. Porque te foste meter onde não eras chamado? – No entanto julgo que estaria apaixonado, é o tipo de frase e de entoação que os amantes usam quando se sentem rejeitados. A rapariga preparava-se para sair:
- Será que os homens em Portugal primam pela idiotice? - Perguntou-me - Enquanto colocava as coisas na mala.
- Não sei fazer esse tipo de juízos mas nem sempre podemos julgar os outros de forma tão severa. Reconheço que a entrada dele foi rude e desagradável. E pelo que ouço não será a 1ª vez que algo semelhante lhe sucede. – Respondi.
Olhou bem para mim, era na verdade radiosa.
sexta-feira, março 30, 2007

Tu foste em mim a luz do sol
Foste toda a beleza do mar
Por ti fui ao fim do mundo
Soletrei o verbo amar.
Tu foste em mim rosa florida
O rio de sal do meu olhar
Foste minha verdade polida
Meu ser, meu sentir, meu pensar.
Tu foste em mim mais do eu
Foste toda a vida a brilhar
Foste a faca que me deu
Um corte no meu sonhar.
Manuel F.C. Almeida

- Dr. então já conhece a beldade mais selvagem da terra? – Perguntou um jovem estagiário que deixava adivinhar encanto e ressentimento na voz.
- Desculpe? – Disse-lhe. Antes que dissesse algo mais ela esbofeteou-o com toda a naturalidade. Levantei-me de imediato de forma a por cobro ao que previa que sucedesse a seguir. Mas a atitude dela nem tinha permitido reacção alguma. À agressão de que tinha sido vitima, respondeu com a mesma violência. Mais uma vez denotava um enorme grau de consciência e também toda a imaturidade de quem age de forma voluntária. Ele há coisas que nunca devem ser perdidas. A dignidade e a capacidade de ignorar personagens que nos incomodam eram de há anos a esta parte tudo o que tentava preservar. Vi de imediato que os valores dela eram diferentes dos meus.
quinta-feira, março 29, 2007

Quando timidamente
Me ressurgiste vinda do nada
Tremi por não saber o que dizer.
Afinal tudo foi fácil.
Recomeçámos no desejo
Incontido de um beijo.
E deixamos o silêncio
Correr a imensidão de um olhar
E espraiar-se na nossa alma.
E do silêncio se fez musica.
E a mais bela canção que escrevi
Fez-se vida em teus lábios.
Manuel F. C. Almeida

E os cidadãos concordam com tudo. Vivem no medo como, ela dizia. O estado está ao serviço dos poderosos e serve apenas os seus interesses. Era uma vergonha, mas revoluções por decreto dão nisto invariavelmente.
Ela tinha continuado a falar sem se dar conta de que me tinha ausentado.
- Depois sabe estou cansada das mentalidades. Cresci na Bélgica, num meio em que se preservam valores culturais, comportamentais e éticos que nada têm com Portugal. –
Disse a terminar.
- Desculpe não ouvi tudo – disse eu. - Estava mais uma vez com os meus botões, é um defeito meu. – Terminei.- Não se desculpe por pensar. Se algo de errado fizesse era não o fazer – respondeu-me a sorrir. Era bom ver alguém a sorrir genuinamente, sem constrangimentos
quarta-feira, março 28, 2007

- Trabalho de coordenação arqueológica, e você que faz aqui? – Respondi.
- Não sei, vegeto – respondeu.
- Mesmo profissionalmente?
- Sim em Portugal e especialmente neste local qualquer pessoa com ideias é segregada, vive-se no medo com medo e para o medo. É horrível – terminou
Reconhecia nas suas palavras a realidade cruel. Vivia-mos num estado de medo. o poder tinha, de alguma forma, feito regressar as pessoas ao medo do dia 24 de Abril de 74. esse medo sentia-se em tudo. Ninguém ousava levantar a voz contra um estado cada vez mais totalitário. Um totalitarismo neoliberal onde todos éramos sacrificados. Jovens, velhos crianças. O ensino era e é em Portugal mais que medíocre, a sistema de saúde, desmantelado e implodido pelos sucessivos governos, estava um caos, o desemprego alastrava em todas as classes sociais. Diria que éramos e somos um povo triste, sem esperança, governado por terroristas, aliás este é o tempo do terror. De um lado os governos, do outro grupelhos, alimentados não se sabe por quem e nem porquê, praticam actos que apenas têm como consequência a perca de liberdades dos cidadãos.

O teu cheiro.
Doces como as pétalas do teu
Corpo,
Embriagantes como o néctar colhido
Em teu vaso.
E foram prenhes de tempo e de sonhos
suspensos.
E como eu gosto
De pintar o céu pela madrugada.
Com a cor do sol
Estilhaçado.
Livre, solto, eternamente
Apaixonado, pelo
terça-feira, março 27, 2007

Deixemos os olhos alimentar a alma,
E as aves povoarem o pensamento.
Brindemos ao que somos, ao que fomos.
Façamos poemas ao mundo e aos amigos.
Saibamos abraçar as almas que passam
E descobrir vielas em cada olhar.
Sejamos certos e sempre honestos
Quando no espelho nos encontrarmos.
Sós.
Não usemos a mascara do medo e do tédio
Saibamos tocar o sol e as estrelas
Pelo simples prazer de os tocar.
Não sujemos com o nosso egoísmo
O mundo dos outros a quem queremos bem
Façamos de cada momento da vida
Um momento de orgulho e comunhão
Saibamos ser gente, saibamos ser homens, saibamos ser
Nós.




