sexta-feira, março 02, 2007














Como é bom sentir-te assim,
Como a neblina do mar
Que Vai e vem sem ter fim

Como é bom ver-te ao partir
Uma caravela de sonhos
Que vai e vem a sorrir

Como é bom estar só contigo
Beber-te o sorriso nos olhos
Que vai e vem, como amigo

Como é bom ter estado aqui
Tocar tua alma em flor
Que vai e vem por ai

Como é bom viver em ti.


Manuel F. C. Almeida




- Então ainda dormes. Disse-me a Isabel, interrompendo as minhas reflexões.
- Claro que não, estava aqui a falar com os meus botões respondi. _ agora vê lá, nao te exponhas muito e acima de tudo tem cautela com as mulheres.

- porquê? acaso são muito diferentes das outras?
- Ainda não aprendeste nada na vida meu querido? Todas as mulheres são diferentes – disse a sorrir maliciosamente, enquanto caminhávamos para a porta da casa.
Só naquele momento olhei o edifício. Era uma velha, mas bem recuperada, casa de lavradores. Típica da região. Uma delicia arquitectónica, um legado de um tempo que supostamente estava enterrado.
A Isabel agarrou uma linda maçaneta de cobre e bateu. Pouco tempo depois uma senhora de meia-idade veio abrir:
- Entrem por favor, esperam-nos no salão. – a casa era magnifica, ricamente decorada, pejada de arte e de prata. Muita prata.

quinta-feira, março 01, 2007
















Ouve bem esta guitarra
Ouve a alma que ela tem
É a alma de um amigo
Alma que te quer bem

Parece estar a chorar
Lágrimas por te perder
Mas ela está a cantar
A alegria do teu ser

E na alegria do cantar
Ela parece um cometa
Sabe que o teu lugar
É todo este planeta.


Manuel F.C. Almeida


Era quase sempre assim. Quando chegava o poder tentava aliciar-me. Era, norma geral, uma tentativa de me condicionar. De norte a sul tinha vivido muitos momentos semelhantes. Sabia o que me esperava, ou pensava que sabia.
A viajem foi curta. Quase que não tinha tempo de acabar o meu cigarro. Um dos prazeres que não tinha deixado. Nesses tempos de radicalismos, fumar tinha-se tornado um “crime” em termos sociais. A velha Europa havia descoberto que ganhava milhões em impostos sobre o tabaco e que gastava ainda mais milhões para tratar de doenças provocadas pelo mesmo. No balanço de tudo isso, os governos tinham decidido contra os que fumavam. Fizeram dos fumadores criminosos. Pura hipocrisia, a industria nada sofreu, e um pouco por toda a parte os fumadores começaram a ser ostracizados.
Tempos negros de um moralismo abjecto. Tudo começou a ser contabilizado em termos de custos. Pessoalmente estava a atingir um ponto de saturação face à pequenez do País.
Não a pequenez geográfica, mas sim a pequenez cultural, social, mental. Sufocava-me pensar nisso. Estava a ficar com claustrofobia.

quarta-feira, fevereiro 28, 2007





















Há um tempo em que as palavras
Vivem de silêncios
Presas na tempestade dos
Sentidos.
Um tempo de luta
Um tempo de medos
Um tempo de mil segredos

Há um tempo para tudo
Acontecer
Até ter medo de dizer
O mais óbvio.
Há um tempo de te querer.
Há um tempo, que tem de se
Fazer.

Manuel F. C. Almeida

terça-feira, fevereiro 27, 2007




















ELEGIA.

Não é afeição, é algo mais
Não há palavras pró descobrir
Talvez deslumbre ou amizade
Talvez outro valor, outro sentir

Talvez memória, já saudade
Das belezas que me encantaram.
Talvez tempo, eternidade
De duas almas que se tocaram.

Talvez seja tudo e seja nada
Talvez só viver em cada passo
Talvez ver que nesta estrada
Nada acontece por acaso.


Manuel F. C. Almeida


Suspirei ao antever o tédio que me esperava com gente a dobrar-se para um lado e para o outro, não era meu uso sociabilizar-me com muita gente, mas lá teria de ir.
Arrumei as malas a um canto do quarto, e deitei-me a descansar. A viajem e o calor estavam a fazer mossa em mim. Embora me sentisse bem, os efeitos de uma intervenção cirúrgica efectuada anos atrás faziam sentir-se. Rapidamente adormeci.
O som do telemóvel acordou-me. Era a Isabel a perguntar se estava pronto. Disse-lhe que não, que ia tomar um duche mas que em 10 minutos estaria pronto. Era estranho estar de novo perto dela. O estar só e a fragilidade emocional começavam a fazer-se sentir. E depois era a sua pessoa, a sua beleza, e a armadilha das memórias. Estava ciente de tudo isto, mas ainda assim começava a sentir-me tentado.

segunda-feira, fevereiro 26, 2007





















Tenho um aperto no peito
O coração a sangrar
E as guitarras no meu leito
Não me deixam já cantar.

Digo adeus a um amigo
Que parte, se vai embora
Mas deixa pra sempre comigo
O partilhar de uma hora.

Vai meu lindo rouxinol
Encantar outras paragens
Tens no teu olhar o sol
No teu canto, mil paisagens.

Fica em mim o teu cantar
Guardo-o numa caixinha
Para um dia o recordar
Dizer à caixa: - é minha

Manuel F.C. Almeida



- A limpeza é feita de dois em dois dias, e o melhor é que tratam de tudo, desde a louça à roupa. Não tens de te preocupar com mais nada.
- Desculpa – disse eu – mas onde posso conseguir uma secretária e um computador?
- Já temos tudo isso. Tens um portátil á tua espera, o departamento enviou-o ontem com o teu nome – disse ela.
Fiquei mais descansado, na verdade já não sabia viver sem computador. Hábitos que adquirem.
-Logo á noite tens de me contar algo mais sobre aquela história dos segredos da terra. – Disse eu.
Ela sorriu, os seus olhos brilharam – tens muito tempo para isso,.... ou é grande a pressa?
Respondeu. Senti na sua voz um misto de despeito e de diversão.
- Bom, agora vou. Dorme um pouco, logo á noite temos um jantar a convite da câmara. E não vale a pena tentares desculpas! Aqui tens de os gramar, nem que seja por uma noite. - Finalizou.

(continua)




















Hoje vi cair uma estrela, Corri para lhe tocar com a mão
E quando lhe toquei entendi, Que as estrelas quando se tocam
Enchem-nos
O coração de
De partilha.
E revivi a sensação de
Tocar a liberdade com os dedos, Olhar os seus cabelos
E dizer – obrigado. E na quietude do silencio ver a sua
Ascensão
Como dádiva
Do acontecer,
Tendo a felicidade
De um dia
Ser recordado
Na memória
De uma estrela
Linda
Como o mundo.

Manuel F. C. Almeida

domingo, fevereiro 25, 2007


O carro parou finalmente, diante de mim uma casa pequena pintada de branco com barras amarelas e com portas e janelas de madeira. A Isabel saiu do jipe com uma agilidade surpreendente. Segui-a com a mala na mão. Ela tinha a chave da casa. Entrámos. Senti o contraste do calor da rua com o fresco da casa. Belo, ao menos não ia necessitar de ar condicionado. Há anos que tinha alergias devido a isso. Olhei em redor. A decoração era frugal, a suficiente para mim. Tinha até uma televisão o tal aparelho que, segundo Leo Ferre, não passa de um polícia que temos em casa.
- Aqui vai ser o teu ninho enquanto estiveres connosco. Descansa, logo venho buscar-te para te apresentar o resto da equipa. - Disse ela.E fez questão em me mostrar todas as divisões da casa. Uma pequena casa de banho, uma cozinha com sala comum um quarto amplo e muito fresco

sábado, fevereiro 24, 2007





A POESIA. SEMPRE ELA A LIBERTAR-ME







Nas mil folhas
De cetim que guardas
No peito
Existe um rio
Feito de amor
E de olhares que
As águas esquecem.
Em ti me dilui e me
Desfiz.
Em ti sou apenas
Gota de orvalho
De uma madrugada
Esquecida.


Manuel F.C. Almeida

- Não te pergunto como nem onde foi – disse. – Basta de palavras que nos façam chorar. Vem vou levar-te à tua nova morada, tenho ali o jipe- disse, mas o seu semblante nao deixava margem para dúvidas. estava profundamente magoada, mas a Isabel era assim mesmo.
Seguimos a rua principal da terra. Casas brancas, de um branco imaculado, ladeavam a rua. Poucas pessoas davam àquele lugar um ar fantasmagórico. O calor fazia sentir-se de uma forma assustadora. De repente vi novamente a minha companheira de viajem. Estava a sair de uma casa imponente. Uma casa que deixava descobrir a sua origem social. Delicadamente acenei-lhe com a cabeça ao que ela retorquiu com um gesto breve e curto.
- Já fizeste amizades? – Perguntou a ela a sorrir – tem cuidado podes vir a dar-te mal – concluiu.
-porquê? – Perguntei
- Logo te digo, mas tem cuidado, esta terra tem segredos que não convém descobrir.
Aquela parte do diálogo fez disparar a minha curiosidade. Que segredos poderiam estar por detrás daquela mulher?
(continua)

sexta-feira, fevereiro 23, 2007

PORQUE A POESIA É UMA ADICÇÃO.


Há palavras que nos roubam horizontes
E nos precipitam da voragem dos sentidos
Agora só, ante mim mesmo tenho
Uma vida colada á pele
À mesma pele onde nos dias
De primavera
Tu passavas o teu olhar de mulher
Apaixonada.
e saciavas a tua sede de amar.
Agora, neste Inverno que é o meu
Sarcófago
Tenho de encerrar o que poderia ser.
E sinto-me como um grão de areia
Face ao Oceano
Um dia nada restará dele.
Um dia nada restará de mim.
A erosão dos sentimentos também
Mata.

Manuel F.C. Almeida

-tens um lenço? Sou um incorrigível chorão – disse.
- Aqui está – retorquiu – sim ainda me recordo bem, foste dos poucos homens que vi chorar num filme – e sorriu como que a convidar-me a fazer o mesmo.
Sequei as lágrimas, esperei que a sensação perturbadora se fosse. E voltei a olha-la de frente. A mesma face bonita, os mesmos olhos cheios de vida, o cabelo mais curto mas sempre cuidado, o corpo pequeno e franzino faziam dela uma boneca de porcelana. Recordei os dias em que a seu lado percorria, alegremente, as areias da ilha de Tavira, ou a loucura que tinha sido o nosso namoro nas ruas do Barreiro. Tinha-mos vivido tanta coisa juntos. Quando nos pareceu que tudo tinha acabado, despedimo-nos com um longo beijo, selando uma amizade que o tempo nunca iria apagar. Continuava linda. Sempre fora uma mulher bonita e jovial mas agora estava mais velha e parecia mais bela ainda.

quinta-feira, fevereiro 22, 2007


HOJE NAO ESCREVO NADA MAIS, FAZ ANOS QUE PERDI UM AMIGO QUE NOS DIZIA:
"AMIGO MAIOR QUE O PENSAMENTO
POR ESSA ESTRADA AMIGO VEM
NAO PERCAS TEMPO QUE O VENTO
É MEU AMIGO TAMBÉM"
Hoje estão de luto todos aqueles que um dia acreditaram no sonho que o Zeca cantava. O mundo livre é cada vez mais uma utopia. Mas saibamos sonhar e ela nunca morrerá.
Manuel F.C. Almeida

quarta-feira, fevereiro 21, 2007

sexta-feira, fevereiro 16, 2007




-como está a Fernanda – perguntou
Obviamente não sabia, respirei fundo. Ela adivinhou que algo não estaria bem.
- que foi? Estás bem?
- a Fernanda morreu num acidente de viação a camiho de Tavira- retorqui.
Ficou a olhar para mim sem querer acreditar no que ouvia. Tinha sido ela a apresentar-me a minha companheira. Tinham sido colegas na faculdade e tinham sido cúmplices em muitos momentos da vida. As lágrimas correram nas nossas faces e foi naturalmente que nos abraçámos um ao outro. Senti-me confortado, amparado. O último ano tinha sido difícil para mim. A morte dos meus pais e a morte da mulher que amava precipitaram a minha vida num inferno do qual começava timidamente a sair.

- Bem-vindo Dtº, foi boa a viajem?
Quem se me dirigiu assim foi a funcionária do departamento de historia natural sediado naquele lugar.
A voz era conhecida. Senti o coração a acelerar. Não podia ser. Rodei sobre mim mesmo e encarei-a de frente. Era ela sim. Um pouco mais velha, mas a cara de menina mantinha-se a mesma. Tive dificuldade em responder. Ela apercebeu-se:
- Então já não falas a uma velha amiga –
Acto contínuo piscou-me o olho. Quase que me apanhava desprevenido. Tive vontade de a beijar como anos antes fizera. Recuperei o sangue frio. E finalmente retorqui:
-Olá Isabel, sempre linda e bem disposta.
O sorriso franco e aberto com que sempre me presenteara abriu-se ainda mais. Recordei a forma bonita como tinha terminado a nossa relação. O mesmo sorriso. Beijámo-nos na face como dois desconhecidos. O aproximar do seu cheiro e as minhas memórias fizeram sentir-se em mim. Aspirei bem o seu odor. Sempre me tinha deixado louco e ainda assim era.
(continua)

Conto


A mulher olhou-me com espanto. Tinha-lhe dito que não acreditava em deuses nem na vida depois da morte. Logo não acreditava na justiça de Deus. O seu olhar reflectia um misto de condenação, revolta e curiosidade. Afinal quem era eu? Um perfeito desconhecido, vestido de forma diferente e que trazia com ele hábitos e costumes estranhos.
Não retorquiu, tal a convicção que viu nas minhas palavras. O som dos travões do comboio interrompeu aquele momento de algum embaraço para ambos. Havia chegado ao meu destino. Também ela se apressou a sair. Infelizmente calculou mal a altura do degrau e caso eu não a tivesse amparado teria caído. Olhou-me com agradecimento e um leve rubor na face denunciou o quanto se encontrava embaraçada. Devolvi o olhar com um sorriso franco e aberto. Olhei agora de forma demorada a sua face. Era branca, coisa que a escuridão da carruagem não tinha deixado ver. Extremamente magra, a sua silhueta assemelhava-se à de uma bailarina. A iluminar a face uns olhos verdes como nunca tinha visto e um cabelo negro, de um negro poderoso. A minha estadia naquele lugar poderia tornar-se interessante.
(continua)