terça-feira, janeiro 30, 2007



Tinhas no olhar uma chama imensa
Nas palavras, um medo que entendo
Afinal fui só mais um remendo?
Ou o sentir de uma ideia intensa?

Nas tuas palavras habitam cautelas
Provocadas por esse teu medo
Mas deixa que te diga um segredo
Também eu penso muito nelas

Porque já chega de sentir tristeza
Onde deveria sentir felicidade.
Amar-te na eternidade
É fazer um poema com tua beleza.

Manuel F. C. Almeida



Pelas noites
Que se vivem em silencio,
Os lobos uivam
E o universo fica vazio,
De sinais que não recordo.
Não suporto que o corpo
Se tenha zangado com o corpo.
Afinal tudo cansa.
A acabamos em trilhos
Estranhos
E adornados por espartilhos.

Manuel F.C. Almeida



Já sinto no ar
O teu aroma.
Escrevo nas águas
Versos para te cantar.
Versos de ternura
Infindável.

Agarro os teus
Movimentos no cérebro
E esqueço
A dor dos meus
Dias de angustia
Intolerável.

Paro ao primeiro sinal.
Olho-te nua
Numa movimento
De aguas sem caudal.
E aí ficaste… humanamente
Imperdoável.

Manuel F.C. Almeida


Ainda recordas as
Palavras simultâneas
Ditas no calor da paixão?
É sempre assim,
Idos os tempos
Deixa-se a mão
Que um dia
Se estendeu,
Cair no vazio.
E assim acontece
O amor.

Nunca é simples saber o lugar que escrevemos. Nada mais somos que alguém sem face mas a quem as palavras descrevem. E a nossa vida sempre se subsume noutra vida, á medida que nos conhecemos. Por vezes creio que a minha escrita nasce onde eu morri. Escritos de água que se espalham com o tempo, como uma onda. Recordas-te de te dizer que não desejava ser conhecido? Era mentira. Motiva-me a ambição de um dia, sim um dia, ver tudo isto publicado. Não vale a pena mascarar o que desejo. Quero morrer todos os dias nas mãos de um leitor anónimo. E ao morrer ressuscitar e trazer novos escritos, qual Fénix. Se mudou de dono um poema, escrevo outro e mais outro, como se uma cornucópia se tratasse. Claro, sei que dessa forma tudo se torna obscuro, já não sou eu que dou ao poema o seu valor conceptual, Mas que fazer? É a vida.
Ontem, por acidente, escrevi no vento um poema de aromas silvestres. Nem sei onde pára. Seres estranhos a mim ocuparam-me o espaço. Fiquei a olhar o ondular das searas,
O assalto das marés e o bambolear gracioso das ancas de uma mulher.
Recordas-te de te olhar como se foras uma traineira em noite de vendaval? É assim que eu a olhei. E de espanto em espanto descobri que afinal o mundo não é feito por poemas meus, antes sou parte de um poema sem título. Anónimo. Como se pode ficar admirado por coisas tão pequenas? Por vezes recordo-me daquelas tardes em que saciávamos os instintos no corpo do outro. Mas é só mesmo memória. E memórias, tenho tantas que confundo os cheiros com os corpos, as faces com o desejo e a suavidade de um olhar com a sinceridade das palavras. Sim as palavras ditas e não ditas costumavam assaltar-me o sono. Felizmente que outras palavras se chegaram, outras faces aconteceram e novos aromas se abriram. Abro agora uma garrafa de vinho. Um vinho saboroso. O vinho de quem ama a vida acima de tudo.

segunda-feira, janeiro 29, 2007


poema
EU VI A LUZ QUE TRANSPORTAS
SOBREVOAR A VIDA POR ENTRE
O RUMOR DA MULTIDÃO.
CAMINHAVAS SÓ.
DISCRETA, COMO UMAPRINCESA
NUM CONTO DE FADAS.
PAREI A OLHAR-TE.
MANIETADO.
NA ESPERANÇA DO MEU OLHAR
TOCAR TUA ALMA.
E TAL COMO AS ONDAS NO MAR
GRAVAR EM TI SULCOS
AO MORRER.
E TU SEGUIS-TE.
CHOREI NA ALMA.
CHOREI POR MIM
Manuel F.C. Almeida
2004

sábado, janeiro 20, 2007


Olha filho, eu sei que o mundo costuma corroer os olhos e a mente de todos. Eu sei como é, como ficamos estranhos a nós mesmos, como deixamos de nos reconhecer no espelho. Sei o que é a culpa e sei o que é vacilar. Não sou um super-homem cheio de certezas ou de glórias. Por isso filho não sigas os meus conselhos, cresce livre e consciente do que és. Cresce e vive o teu momento de vida. É teu, o meu é a minha vida, a minha escolha e não devo querer que vivas o que eu não fiz. Percorre o teu caminho, de cabeça erguida com orgulho em ser humano. E quando a vida parecer que te volta as costas, podes vir conversar comigo, como eu converso com o meu pai. E se eu estiver por perto, sempre terás um braço, um ombro onde pensar.

Manuel F.C. Almeida

Lá fora a noite desce sobre as casas, feitas da pele de outros homens. Argamassa orgânica. O vento, uivante, assola a planície, e o céu está coberto por um manto negro de nuvens, mais parece que irá cair-nos em cima. A chuva cai ininterruptamente, e no entanto tamanho vendaval não apagou o sol dentro de mim. Finalmente tudo esta a ser diferente, a paisagem e a minha alma já se tocam novamente, e foi tão simples de fazer. Limitei-me a mudar a imagem que me ocupava tempo demais. Foi-se o mau tempo, um novo dia despontou cheio de luz. Começo a ser gente outra vez.
E dai...


Acordo, olho o maldito relógio. É hora, mas hora de quê? De não fazer a ponta de um corno, de me recusar a pensar ou a agir. De não sorrir, de desejar estar só, de não esperar por nada ou por alguém. É hora de não ambicionar, de não sonhar mais, de nada desejar ter. É hora de olhar e ver que nada disto tem sentido, que não sou importante ao mundo ou há vida. É hora de “ não ser”. Mas se morro nesta hora terei de ressuscitar, renascer, de começar a reaprender a falar, a andar, a abraçar, a sorrir, a viver. E sobretudo (não é casaco não) a Amar. E isso está a ser feito.

noites
















Continuo sem sono. As noites são longas e frias. Deixo o tempo correr ao sabor do meu sentir.
Se escrevo um poema, apenas procuro uma forma de enganar o cérebro e dormir.
Teimosamente fico a converter esperanças em memórias e vice-versa. Deixo que o vento e o tempo cavalguem na minha vontade e no meu pensamento.
É tarde, a lua já está alta e estou cansado, revejo o último pensamento e fico feliz por ter sonhado acordado.

quarta-feira, janeiro 17, 2007





















Dá-me o nome
Sem pudor

Deixa teu corpo nu
Tua alma livre

Entrega-te
Nos meus lábios
Ávidos de ti.

Manuel F.C. Almeida















Sonhei em te ter aqui.
Agora,
Espero, falo só para te encontrar.
Um entardecer, sim
Dá-me o doce completo
Desse teu olhar
Sonhei em te ter aqui
Agora
Anseio, canto só para te beijar
Uma madrugada, sim
Dá-me os cheiros acres
Desse teu amar.
Sonhei em te ter aqui
Agora,
Sei pela certa que vamos cantar
Pela noite dentro, sim
Carícias e beijos
Vamos partilhar.

Manuel F.C. Almeida
















Não te esqueças meu amor
Das tardes
Passadas a ver o sol dançar.
E quando recordares o cheiro
Dos loendros em flor
Deixa-te impregnar de
Alentejo,
E deixa que as memorias
Repousem nas pedras
Da planície.
Sim!
Não deixes de recordar
O despertar de cada dia
Nem o canto alegre
E fresco da cotovia
Na manhã.
E quando um novo dia chegar
Deixa que a tua alma se encante
E segue-o no seu andar.

Manuel F. C. Almeida

terça-feira, janeiro 16, 2007















Comigo estão os meus versos
Companheiros sem ter fim.
Meus desejos estão dispersos
O meu mundo é feito assim

Canto os amores que perdi
E os que eu sinto nascer
Canto por mim e por ti
Pôr-do-sol, entardecer

E quem deles não gostar
Que tenha criticas a fazer
Convido-o agora a falar
Diga o que tem a dizer.

Fale bem na minha cara
Seja honesto e frontal
Que a amizade não para
Quando se é vertical



















Perdido de mim
Vivo na ausência
De uma presença
Que teve o seu fim
Tudo parece ser novo
Tudo é existência.

No ar há um novo cheiro
De alecrim.

Manuel F.C. Almeida




















Invado o meu
Próprio eu
De nada arrumado

No abandono
De mim
Redescubro
O outro

Lago de
Aguas plácidas
Um canto, um fado.

Manuel F.C. Almeida



















Dizem que amar é viver
E que o viver é lutar.
que de amor se pode morrer
só então, ressuscitar.

Dizem que ganhar é perder
Que perder é recordar
Que recordar é sofrer
E que sofrer é chorar

Dizem que chorar é sorrir
Que sorrir já é pedir
E que pedir é encontrar

Dizem que correr é cair,
Levantar é perseguir
o desejo de te amar.





















Os sonhos incompletos
São raios de luz
Ao acordar

Retomar o sono
E o mesmo sonho
É apenas ficar refém
Do despertar.



















Assim chegavam
As águas
A gritar bem
Bem junto ás rochas.

E as aves em tardes
Calmas
Esvoaçavam livres
Pela costa.

E a minha sombra
Parada
Sonhava com o teu seio
Desnudado.

Estás ai?

Manuel F.C. almeida

sexta-feira, janeiro 12, 2007

















Agora já tinha tudo nas mãos. A ele se devia o conjunto de fornos que intoxicavam o povoado. Orgulhoso olhou a beleza de uma nuvem de gás que se espalhava pela cidade e que aqui e ali provocava os desmaios de gentes e animais. Era agora o senhor do fumo. Olhou os dedos tapados de anéis com rubis e esmeraldas. Era rico. O presidente de burgo e todo o seu séquito dobravam-se á sua passagem. Ao longe o filho brincava num prado amarelo queimado pelas nuvens de acido, atirava um pau ao gato e o gato não morria. Ao canto sossegada, dona xica continuamente se assustava com os berros que o gato dava.
Voltou para dentro de casa. E consultou o desenho da sua casa de campo. O local era agradável. Um riacho nada poluído, diziam, montanhas a perder de vista cheias de árvores e até, diziam alguns, existiam aves reais por lá. Custava-lhe a crer, mas ter esperança não custa.
Subiu ao 1º andar para ver melhor a ruas. Um bando de estropiados arrastava-se num murmúrio sem fim. Odiava-os do fundo do coração. Comiam-lhe as vísceras e bebiam-lhe o sangue. Carregou a arma. Uma oferta do presidente para momentos destes. Recordou a medalha recebida e o título de comendador. Tanto que gostava dele. Apontou e disparou. Caíram três o que precipitou o resto do bando num festim nu. No ar elevaram-se urras e o sangue jorrou a rodos. Estavam descansados e entretidos. Resolveu ir mudar de fígado. O médico esperava-o e ia ser fácil. Entrou no carro e saiu de casa. A turba olhou para ele. Mas a gárgula pendurada no carro vomitou o resto do almoço. Uma rapariga resolveu passear com o sexo preso por uma trela. Diziam que era amor, não acreditava em coisas dessas. Afinal isso do amor fora a perdição dos seus antepassados. Abraços com doenças venéreas, todos tinham resolvido partir para a guerra contra os seres islâmicos, de pontos na cabeça e caudas de demónios. Felizmente ele tivera cuidado. E podia viver nas fronteiras do império. Sem notar atropelou uma orquídea. Imperdoável, talvez fosse o último exemplar. Mas quem se importava com isso? Guardou o ódio numa caixinha, e pediu à gargula que o engolisse para mais tarde regogitar. O carro parou. Olhou em frente e lá estavam dois cisnes brancos. Deu-lhes um tiro e transformaram-se em flamingos. Finalmente tinha poder.