quarta-feira, janeiro 17, 2007

















Não te esqueças meu amor
Das tardes
Passadas a ver o sol dançar.
E quando recordares o cheiro
Dos loendros em flor
Deixa-te impregnar de
Alentejo,
E deixa que as memorias
Repousem nas pedras
Da planície.
Sim!
Não deixes de recordar
O despertar de cada dia
Nem o canto alegre
E fresco da cotovia
Na manhã.
E quando um novo dia chegar
Deixa que a tua alma se encante
E segue-o no seu andar.

Manuel F. C. Almeida

terça-feira, janeiro 16, 2007















Comigo estão os meus versos
Companheiros sem ter fim.
Meus desejos estão dispersos
O meu mundo é feito assim

Canto os amores que perdi
E os que eu sinto nascer
Canto por mim e por ti
Pôr-do-sol, entardecer

E quem deles não gostar
Que tenha criticas a fazer
Convido-o agora a falar
Diga o que tem a dizer.

Fale bem na minha cara
Seja honesto e frontal
Que a amizade não para
Quando se é vertical



















Perdido de mim
Vivo na ausência
De uma presença
Que teve o seu fim
Tudo parece ser novo
Tudo é existência.

No ar há um novo cheiro
De alecrim.

Manuel F.C. Almeida




















Invado o meu
Próprio eu
De nada arrumado

No abandono
De mim
Redescubro
O outro

Lago de
Aguas plácidas
Um canto, um fado.

Manuel F.C. Almeida



















Dizem que amar é viver
E que o viver é lutar.
que de amor se pode morrer
só então, ressuscitar.

Dizem que ganhar é perder
Que perder é recordar
Que recordar é sofrer
E que sofrer é chorar

Dizem que chorar é sorrir
Que sorrir já é pedir
E que pedir é encontrar

Dizem que correr é cair,
Levantar é perseguir
o desejo de te amar.





















Os sonhos incompletos
São raios de luz
Ao acordar

Retomar o sono
E o mesmo sonho
É apenas ficar refém
Do despertar.



















Assim chegavam
As águas
A gritar bem
Bem junto ás rochas.

E as aves em tardes
Calmas
Esvoaçavam livres
Pela costa.

E a minha sombra
Parada
Sonhava com o teu seio
Desnudado.

Estás ai?

Manuel F.C. almeida

sexta-feira, janeiro 12, 2007

















Agora já tinha tudo nas mãos. A ele se devia o conjunto de fornos que intoxicavam o povoado. Orgulhoso olhou a beleza de uma nuvem de gás que se espalhava pela cidade e que aqui e ali provocava os desmaios de gentes e animais. Era agora o senhor do fumo. Olhou os dedos tapados de anéis com rubis e esmeraldas. Era rico. O presidente de burgo e todo o seu séquito dobravam-se á sua passagem. Ao longe o filho brincava num prado amarelo queimado pelas nuvens de acido, atirava um pau ao gato e o gato não morria. Ao canto sossegada, dona xica continuamente se assustava com os berros que o gato dava.
Voltou para dentro de casa. E consultou o desenho da sua casa de campo. O local era agradável. Um riacho nada poluído, diziam, montanhas a perder de vista cheias de árvores e até, diziam alguns, existiam aves reais por lá. Custava-lhe a crer, mas ter esperança não custa.
Subiu ao 1º andar para ver melhor a ruas. Um bando de estropiados arrastava-se num murmúrio sem fim. Odiava-os do fundo do coração. Comiam-lhe as vísceras e bebiam-lhe o sangue. Carregou a arma. Uma oferta do presidente para momentos destes. Recordou a medalha recebida e o título de comendador. Tanto que gostava dele. Apontou e disparou. Caíram três o que precipitou o resto do bando num festim nu. No ar elevaram-se urras e o sangue jorrou a rodos. Estavam descansados e entretidos. Resolveu ir mudar de fígado. O médico esperava-o e ia ser fácil. Entrou no carro e saiu de casa. A turba olhou para ele. Mas a gárgula pendurada no carro vomitou o resto do almoço. Uma rapariga resolveu passear com o sexo preso por uma trela. Diziam que era amor, não acreditava em coisas dessas. Afinal isso do amor fora a perdição dos seus antepassados. Abraços com doenças venéreas, todos tinham resolvido partir para a guerra contra os seres islâmicos, de pontos na cabeça e caudas de demónios. Felizmente ele tivera cuidado. E podia viver nas fronteiras do império. Sem notar atropelou uma orquídea. Imperdoável, talvez fosse o último exemplar. Mas quem se importava com isso? Guardou o ódio numa caixinha, e pediu à gargula que o engolisse para mais tarde regogitar. O carro parou. Olhou em frente e lá estavam dois cisnes brancos. Deu-lhes um tiro e transformaram-se em flamingos. Finalmente tinha poder.



















Abandono o texto
Na brancura de uma pagina.
Esquecido algures
Repousa o texto.
Incógnito.
Espera por quem
O encontre,
Como sempre acontece
Com os textos.

E a esperança que encontrem
O texto que vive na alma
Renova-se
Em cada olhar que cruzamos.




















Saibamos escrever
A nossa lápide
Amar a vida
Amar viver
Morrer é só
Mais um acto.


A vida é um instante
E já nasceste.
A vida é outro instante
E já morreste.
Ficas só com o cheiro
A flores.
















Eu hoje estou cansado.
Tudo me dói
Dói-me o presente
Dói-me o passado
Dói-me o que penso e não penso
Dói-me a alma e a palavra mundo

Dói-me o ser e o não ser
Até me dói o simples querer
Voltar a ser, “ SER”

amar a vida num soneto





















Já sinto algo de novo, maresia
Um poema a brotar, novidade
Um olhar que se cruza, saudade
Uma manha renovada, alegria.

Um sol que renasce, outro dia
Um desejo presente, ansiedade
Uma luz que se acende, claridade
Uma força interior, que porfia.

E em cada momento que é passado
Está parte de mim, é o meu legado,
Uma canção que recorda o meu viver

Mas na vida tudo deve ser cantado,
Procurar nela sempre o melhor lado,
E ama-la sempre com todo o querer

Manuel F.C. Almeida

quinta-feira, janeiro 11, 2007

















Como foi possível o mundo mentir?
Talvez como eu menti.
E que foi que o mundo fez ao amor?
Ou eu?
Porque se deseja mal a outros?
Como eu desejei.
Porque se adora a destruição e o ódio
Como eu adorei?
Deixem-me dizer-vos
Que me não arrependo.
Que faria tudo igual.
Não tenho álibis de louco e
Muito menos de bêbado.

Confesso aqui as minhas
Culpas.
Como se de um espelho
Já vazio de ser,
Se tratasse.
Sim! assumo as minhas culpas
Por ter estado longe,
Arredado do mundo,
Preso nos meus moinhos
Ou nas minhas fortalezas
De papel de arroz.

Sim!
Confesso as minhas culpas
Por amar a vida.

Manuel F. C. Almeida

quarta-feira, janeiro 10, 2007

ouçam a musica e leiam o texto em baixo
















São quatro da manhã, teimosamente continuo acordado. A televisão do hotel passa um clássico do cinema. Casablanca. Bogart no seu melhor. Lá fora o frio faz-se sentir. Passeio o olhar pelas paredes do quarto como se fosse possível materializar ali alguém para conversar. Visto-me e desço ao bar. Sentados numa mesa um casal de namorados delicia-se a trocar beijos apaixonados e pelos vistos bêbados. Como estão belos naquela sua paixão. Na penumbra nem as suas caras vejo. Apenas os vultos. Chego ao balcão. Amplo, com uma garrafeira bem servida, é um bar aceitável, com uma funcionária linda. Os olhos verdes fazem-me lembrar uma deusa á muito partida. Peço um malte com gelo e fico a apreciar a beleza física daquela mulher. Ao fundo, sentada ao balcão, reparo pela 1ª vez numa outra mulher. Cabelos pretos e curtos, silhueta ainda jovem. Talvez na casa dos trinta. Tem um cigarro aceso numa mão e um copo na outra. Espero pela funcionária que me trás a bebida e pergunto-lhe quem é a senhora. Os olhos verdes e grandes sorriem e a sua resposta é enigmática, costuma aparecer, fuma, bebe e ocasionalmente conversa com quem está. Pouca coisa e nada de substancial. Agarro o meu copo e provo o sabor da bebida. É boa companhia a bebida. Sem que me aperceba a mulher aproxima-se e apresenta-se. Chamava-se Fátima e pergunta-me se pode fazer-me companhia. Aceito, embora com reservas. Não é usual serem as mulheres a tomar a iniciativa. Rapidamente nos apresentamos. Fico a saber que é nascida em 62 mas que gosta de dizer que nasceu em 66, pergunto-lhe porquê, responde que é uma questão psicológica. Ter 40 é diferente de ter 44. Sorriu de forma enigmática como todas as mulheres sorriem. Perguntou-me que fazia ali. Disse-lhe que nem eu sabia. Algo me tinha empurrado para aquele lugar e eu tinha vindo. De repente a sua pessoa pareceu-me surpreendentemente familiar. Algo naquela mulher me fazia recordar alguém. Os olhos, o cabelo, a face, tudo nela existia em mim. Fiquei assustado. Eu estava a milhares de km do meu passado e das pessoas que algum dia tinha conhecido. Pedi outra bebida, a mulher do bar veio, solícita, servir-me e voltei a reparar nos seus olhos cor esperança, lindos. Volto a atenção para a mulher enigmática. E reparo que aquela sensação de dejá vú se começa a dissipar. Trocamos palavras banais, sobre coisas banais. Rimos e nem ficamos a saber o nome do outro, Não me parece já tão familiar, ao invés a mulher do bar desperta-me para o que de belo a vida tem. Os seus olhos sorriem-me como á meses eu não via olhos a sorrir. A minha companhia despede-se, diz-me que é tempo de se recolher e agradece a conversa. Cordialmente despeço-me e encaro a funcionaria de frente. Os olhos eram lindos. O corpo apetecível, faltava agora conhece-la. Olhei para a porta do bar, novamente a figura que se afastava me parecia familiar. Olhou para traz, acenou-me e partiu. Olhei para o copo que tinha deixado. Preso ao mesmo, um papel com o meu nome escrito. Ainda nem sei como sabia o meu nome. No papel uma mensagem deixou-me curioso. People are strange whem you were a stranger. Faces are ugly whem you’re alone.

Manuel Filipe Carvalho de Almeida

terça-feira, janeiro 09, 2007

versos pra Malibú





















Recitavam Brecht e Baudelaire as duas aves canoras que se passeavam pela Av. da Liberdade. Curiosas as pessoas iam chegando em grupos de dois e nunca mais de 5.
E ouviam extasiadas as duas aves canoras a recitar. Assisti a tudo do alto de um candeeiro, da Av. da Liberdade. A polícia resolveu interromper aquele momento de cultura.
Uma das aves recitou Brecht:

-do rio que tudo arrasta se diz que é violento.
-Mas ninguém diz violentas
-As margens que o comprimem.

E olhou o polícia. Um mar de sangue brotou-lhe da cabeça. Tinha sido atingido por uma bala disparada para o ar. A multidão enfurecida esventrou o polícia e num ápice ordas de sem abrigos iniciaram o banquete. A outra ave quedou-se pálida a olhar o amigo no chão. A multidão estava enfurecida. Porque razão não deixavam as aves recitar? Corajosa a outra ave agarrou no livro de Brecht e recitou mais um poema.

- Dos tubarões fugi eu
- Os tigres matei-os eu
- Devorado fui eu
- Pelos percevejos.

A multidão despedaçou os últimos homens de farda e quedou-se espantada a olhar. Dois cisnes brancos destacaram-se. Eram eles. Alguém de turba os agarrou, arrancou-lhe as asas e voou. Mal o vi passar. Queixava-se de dores de cabeça. E disse-me que tinha uma casa em Malibú. Foda-se, outro com poder.

segunda-feira, janeiro 08, 2007

LILIPUT






















Acordou com a cara fria e molhada. Abriu os olhos. A tempo de ver a próxima onda a aproximar-se. A água bateu-lhe na face e ajudou-o a despertar. Onde estava? Parecia uma praia, mas não sabia onde. Nada recordava da noite anterior. Umas vozes ao fundo despertaram-lhe os sentidos. Dois vultos ao longe brincavam na areia da praia deserta. Pareciam estar a divertir-se. Que lhe importava isso? Ele só queria recordar. Sentia o cérebro ainda meio adormecido. Uma gaivota passou e saudou-o com o seu canto. Afastou-se das ondas. Não ouvia nada. Só o troar amigo do mar lhe dava a certeza de estar vivo. As duas figuras estavam agora por detrás de uma duna. Calmos e deitados. Que se fodam, pensou. Olhou a escarpa que o esperava de braços abertos. Ao cimo um pequeno ogre fazia adeus. Nem se dignou a acenar. Baixou a cabeça e um tufo de erva estava a seus pés. Cheiro-a. Era erva da boa. Com um bocado de papel higiénico tratou de fazer um charro. Acendeu aquilo mas a boca ficou a saber mal. Baixou-se para apagar o charro. Quando se levantou á sua frente estavam dois cisnes brancos. Foda-se, pensou, mas ainda aqui andam? Rápido como um lince cortou-lhes a goela e ficou a vê-los esvaírem-se em sangue. A areia tingiu-se de verde, cortou-lhes as asas colocou-as e voou em direcção a LILIPUT, lá acreditava, seria feliz. Não fora a dor de cabeça e tudo seria ainda melhor. Só não tinha era um mapa até LILIPUT