Eu pertenço a um outro país que não o vosso, a um outro quarteirão, a uma outra solidão LÈO FERRÉ
quarta-feira, janeiro 10, 2007

São quatro da manhã, teimosamente continuo acordado. A televisão do hotel passa um clássico do cinema. Casablanca. Bogart no seu melhor. Lá fora o frio faz-se sentir. Passeio o olhar pelas paredes do quarto como se fosse possível materializar ali alguém para conversar. Visto-me e desço ao bar. Sentados numa mesa um casal de namorados delicia-se a trocar beijos apaixonados e pelos vistos bêbados. Como estão belos naquela sua paixão. Na penumbra nem as suas caras vejo. Apenas os vultos. Chego ao balcão. Amplo, com uma garrafeira bem servida, é um bar aceitável, com uma funcionária linda. Os olhos verdes fazem-me lembrar uma deusa á muito partida. Peço um malte com gelo e fico a apreciar a beleza física daquela mulher. Ao fundo, sentada ao balcão, reparo pela 1ª vez numa outra mulher. Cabelos pretos e curtos, silhueta ainda jovem. Talvez na casa dos trinta. Tem um cigarro aceso numa mão e um copo na outra. Espero pela funcionária que me trás a bebida e pergunto-lhe quem é a senhora. Os olhos verdes e grandes sorriem e a sua resposta é enigmática, costuma aparecer, fuma, bebe e ocasionalmente conversa com quem está. Pouca coisa e nada de substancial. Agarro o meu copo e provo o sabor da bebida. É boa companhia a bebida. Sem que me aperceba a mulher aproxima-se e apresenta-se. Chamava-se Fátima e pergunta-me se pode fazer-me companhia. Aceito, embora com reservas. Não é usual serem as mulheres a tomar a iniciativa. Rapidamente nos apresentamos. Fico a saber que é nascida em 62 mas que gosta de dizer que nasceu em 66, pergunto-lhe porquê, responde que é uma questão psicológica. Ter 40 é diferente de ter 44. Sorriu de forma enigmática como todas as mulheres sorriem. Perguntou-me que fazia ali. Disse-lhe que nem eu sabia. Algo me tinha empurrado para aquele lugar e eu tinha vindo. De repente a sua pessoa pareceu-me surpreendentemente familiar. Algo naquela mulher me fazia recordar alguém. Os olhos, o cabelo, a face, tudo nela existia em mim. Fiquei assustado. Eu estava a milhares de km do meu passado e das pessoas que algum dia tinha conhecido. Pedi outra bebida, a mulher do bar veio, solícita, servir-me e voltei a reparar nos seus olhos cor esperança, lindos. Volto a atenção para a mulher enigmática. E reparo que aquela sensação de dejá vú se começa a dissipar. Trocamos palavras banais, sobre coisas banais. Rimos e nem ficamos a saber o nome do outro, Não me parece já tão familiar, ao invés a mulher do bar desperta-me para o que de belo a vida tem. Os seus olhos sorriem-me como á meses eu não via olhos a sorrir. A minha companhia despede-se, diz-me que é tempo de se recolher e agradece a conversa. Cordialmente despeço-me e encaro a funcionaria de frente. Os olhos eram lindos. O corpo apetecível, faltava agora conhece-la. Olhei para a porta do bar, novamente a figura que se afastava me parecia familiar. Olhou para traz, acenou-me e partiu. Olhei para o copo que tinha deixado. Preso ao mesmo, um papel com o meu nome escrito. Ainda nem sei como sabia o meu nome. No papel uma mensagem deixou-me curioso. People are strange whem you were a stranger. Faces are ugly whem you’re alone.
Manuel Filipe Carvalho de Almeida
terça-feira, janeiro 09, 2007
versos pra Malibú

Recitavam Brecht e Baudelaire as duas aves canoras que se passeavam pela Av. da Liberdade. Curiosas as pessoas iam chegando em grupos de dois e nunca mais de 5.
E ouviam extasiadas as duas aves canoras a recitar. Assisti a tudo do alto de um candeeiro, da Av. da Liberdade. A polícia resolveu interromper aquele momento de cultura.
Uma das aves recitou Brecht:
-do rio que tudo arrasta se diz que é violento.
-Mas ninguém diz violentas
-As margens que o comprimem.
E olhou o polícia. Um mar de sangue brotou-lhe da cabeça. Tinha sido atingido por uma bala disparada para o ar. A multidão enfurecida esventrou o polícia e num ápice ordas de sem abrigos iniciaram o banquete. A outra ave quedou-se pálida a olhar o amigo no chão. A multidão estava enfurecida. Porque razão não deixavam as aves recitar? Corajosa a outra ave agarrou no livro de Brecht e recitou mais um poema.
- Dos tubarões fugi eu
- Os tigres matei-os eu
- Devorado fui eu
- Pelos percevejos.
A multidão despedaçou os últimos homens de farda e quedou-se espantada a olhar. Dois cisnes brancos destacaram-se. Eram eles. Alguém de turba os agarrou, arrancou-lhe as asas e voou. Mal o vi passar. Queixava-se de dores de cabeça. E disse-me que tinha uma casa em Malibú. Foda-se, outro com poder.
segunda-feira, janeiro 08, 2007
LILIPUT

Acordou com a cara fria e molhada. Abriu os olhos. A tempo de ver a próxima onda a aproximar-se. A água bateu-lhe na face e ajudou-o a despertar. Onde estava? Parecia uma praia, mas não sabia onde. Nada recordava da noite anterior. Umas vozes ao fundo despertaram-lhe os sentidos. Dois vultos ao longe brincavam na areia da praia deserta. Pareciam estar a divertir-se. Que lhe importava isso? Ele só queria recordar. Sentia o cérebro ainda meio adormecido. Uma gaivota passou e saudou-o com o seu canto. Afastou-se das ondas. Não ouvia nada. Só o troar amigo do mar lhe dava a certeza de estar vivo. As duas figuras estavam agora por detrás de uma duna. Calmos e deitados. Que se fodam, pensou. Olhou a escarpa que o esperava de braços abertos. Ao cimo um pequeno ogre fazia adeus. Nem se dignou a acenar. Baixou a cabeça e um tufo de erva estava a seus pés. Cheiro-a. Era erva da boa. Com um bocado de papel higiénico tratou de fazer um charro. Acendeu aquilo mas a boca ficou a saber mal. Baixou-se para apagar o charro. Quando se levantou á sua frente estavam dois cisnes brancos. Foda-se, pensou, mas ainda aqui andam? Rápido como um lince cortou-lhes a goela e ficou a vê-los esvaírem-se em sangue. A areia tingiu-se de verde, cortou-lhes as asas colocou-as e voou em direcção a LILIPUT, lá acreditava, seria feliz. Não fora a dor de cabeça e tudo seria ainda melhor. Só não tinha era um mapa até LILIPUT
domingo, janeiro 07, 2007

A lua fez a sua aparição. Estava a olhar para o céu. Perdido, diriam que estava louco. Ninguém sabia. No ar havia um cheiro pestilento. Nauseabundo. A cidade estava mergulhada na penumbra e as luzes eram fracas. Sentou-se nos degraus de uma escadaria. Á sua frente duas raparigas faziam o possível e impossível para lhe chamar a atenção. Nem as olhava. Ou antes, ele via para lá delas. Eram transparências no cérebro. Nada mais. Ao fundo soou uma sirene. Alguém deitara fogo a um consultório de advogados. Nada de mais. Era até moda. Durante anos senhores, em dias estupores. Suou que tudo começara com um advogado em zanzibar. Nunca se preocupara com isso. A porta atrás de si abriu-se. De rompante um frade, de habito logo e austero, saiu para a rua. Trazia cm ele uma cruz e um relicário. Mais um ladrão pensou. Há Séculos que faziam isto. Um carro parou. As duas miúdas foram-se com o carro. A rua voltava a estar deserta. Baixou a cabeça apanhou uma beata do chão e acendeu-a. Quando voltou a erguer os olhos, viu dois cisnes brancos. Irritado queimou-os logo ali. Antes arrancou-lhes as asas. Tudo corria bem. Não fora a puta da dor de cabeça e estaria tudo em ordem. Mas a merda dos cisnes outra vez. Parecia obsessão
sexta-feira, janeiro 05, 2007

Era chegada a hora. Finalmente as ultimas gotas de orvalho tinham desaparecido. Meteu a mão nos bolsos e procurou ansiosamente o último livro. Encontrou-o num compartimento pequeno ao lado da última join. Era um livro de poemas sobre a importância de ser crisálida. Leu um pequeno verso:
“ Rastejei por mil locais, em mil locais me encontrei. Fechei-me no meu casulo e dele estou quase liberta”.
Era estranho o mundo das crisálidas. Guardou o livro. Incomodava-o sem saber porquê. Felizmente que ar estava prenhe de fumo e o horizonte era composto pelas fachadas de enormes edifícios. O anonimato estava garantido. Caminhou ao longo da avenida. Deserta de gente. Deserta de tudo. Um velho ao fundo, vestido de forma andrajosa, acenou-lhe. Ignorou o gesto. Na porta à sua frente duas garotas ensaiavam os 1ª passos da obra o lago dos cisnes. Outra vez os malditos cisnes. O velho foi-se. Uma negra, com a pele linda de um azul que só os negros têm, surgiu a seu lado. Tinha os olhos negros e tristes. Sentou-se a olhar os olhos dela. Estendeu a mão. Ela com cuidado partiu uma maçã que trazia no peito e deu-lhe metade. Suculenta. Não conseguiu articular palavra. E ali ficou até o sol lhe queimar a pele. A negra foi-se. Cambaleante acendeu a joint. De repente tudo começou a fazer sentido. Viu o Drº chegar, vestir a bata branca, agarrar os cisnes pela cabeça e decepa-la. E assim todos os dias novas asas lhe chegavam. Não fora a merda da dor de cabeça e as coisas corriam pelo melhor.
quinta-feira, janeiro 04, 2007
Os cisnes

Finalmente o autocarro chegou. Era o último passageiro, na última paragem. Olhei para o motorista, um tipo calvo que me recordava um tipo calvo que anos antes conhecera.
As luzes da cidade eram agressivas, e as putas deambulavam por ali. O motorista fez-me sinal para sair. Desci do autocarro onde fui o último passageiro. Um cisne aproximou-se e lançou-me um olhar fulminante. Não costumo falar com eles. E também desta vez não lhe falei. Não gosto de cisnes falantes. São chatos. Do círculo de putas uma se destacou e logo o cisne a insultou. Bati-lhe. Como já disse não gosto de cisnes falantes e ainda por cima moralistas. A puta agradeceu. Beijei-a nos olhos. Toda a gente gosto de beijos nos olhos. Ofereceu-me o seu corpo. Declinei a oferta. Ainda não sei porquê. Era honesta. Não me pediu filhos, nem passeatas, nem fez juras de amor. Queria apenas agradecer-me. Tinha olhos cor de romã. Era bonita, como são as pessoas honestas. Mas eu não queria mais nada que um braço para me afagar o diafragma. Ficou comigo, de mão dada. Passou um carro e outro e outro. E ela ali, parada a olhar para mim. Não trabalhou nessa noite. Uma desconhecida aproximou-se. Não trazia toga nem o livro das leis. Perguntou-me se desejava voar um pouco. Eu aceitei. Beijei a mulher que estava de mão dada comigo e arranquei as asas ao cisne. Transformou-se numa hárpia. Ajeitei as asas ao corpo e voei.
É, isto de voar requer sempre que se arranquem as asas dos cisnes. Vão ver como mudam.
Manuel F.C. Almeida
where

Tenho na voz um novelo
Feito de dias.
Calaram-se as palavras
Que voam.
Só o querer quebra
Os silêncios.
Uma gaivota plana
Não ar.
Há pedaços de mim
Em mil lugares,
E no bar os homens cantam
Ao sabor de Baco...
(cantam os homens)
" Tens contigo a maldição
Da dança macabra da morte.
Dá-nos o teu coração
E voltarás a ter sorte."
(fim)
Tenho na voz um novelo
Feito de imagens.
Umas chegam, outras partem,
Outras que se alimentam
Do tempo presente.
Mas todas são apenas
Miragens.
E tu estas ai?
Manuel F. c. Almeida
terça-feira, janeiro 02, 2007
tank you
want
segunda-feira, janeiro 01, 2007
HOJE MERECEM UM BOM POETA
and grow up
domingo, dezembro 31, 2006
REBORN
Mundos

Amar as palavras simples que escreves
Neste mundo louco, estranho e até frio
É algo de novo e um pouco sombrio
Na terra que em tempos teve almocreves
Gente que fala e sonha com o tempo
Palavras sem “ser” sem côr, emoção
Palavras gélidas, sem coração
Sinfonias criadas em contratempo
Árias que cantam só um momento
Poemas que vivem na palma da mão
Letras que gritam a solidão.
Promessas impressas que voam no tempo.
E assim somos estranhos, já conhecidos.
Gente que vive num mundo ideal,
Onde o “ acontece” pode ser tão fatal
Como podem ser miragens nossos sentidos.
Manuel F.C.Almeida
sábado, dezembro 30, 2006
tolos
sexta-feira, dezembro 29, 2006
aqui estou

nada de entusiasmos
a foto nao é minha
E eis me aqui todo nu,
Despido de mim
E do mundo.
Solitário,
Caminho entre campos de
Giestas e de estevas
De flores brancas e
Amarelas que
Se dão a cheirar.
E ouço o gemido
Da manhã,
No seu despertar.
E já nem tenho
Frio
Apenas uma leve
Sensação de arrepio
Me recorda que “sou”
E eis me aqui todo nu
Despido de mim
Já pronto
Para voltar a cantar
Manuel F.C. Almeida
quinta-feira, dezembro 28, 2006
esta noite

Deixem que vos conte um segredo. Esta noite matei o meu fantasma. Sim …. Estrangulei-o! Sempre a chatear, sempre a chatear. Apanhei-o distraído e fodi-o.
Estava a ouvir beatles, olhei-o de soslaio e ele lá estava. A vigiar-me. Silencioso. Já não o suportava. Num ápice agarrei-lhe o pescoço e partilhe a traqueia. Filho da puta, não me largava. Isto começou á 3 meses, durante anos convivemos em silencio mas agora estava chato. Foda-se já tava plos cabelos. Que merda esta de vida. Quando não são as porras da falta de guito, são estas merdas dos fantasmas. Há…., mas desta vez acabei com ele. Sempre aqui a ocupar-me a cabeça, e a foder-me os cornos. Até a tusa me afectou.
E depois esta merda de um gajo ter de ser “ socialmente correcto” cansa.
- Tem de ser bonzinho, dizem uns- enquanto outros nos fodem vida a torto e a direito, e ainda se ficam a rir.
-Tem de ser pessoa honesta e séria; fodam-se todos…., sim…. Fodam-se todos! Tou farto desta merda de ser bem comportado, de cumprir com esta merda toda, que ganho eu? Sim que ganho eu? Os filhos da puta do poder e os seus lacaios banqueteiam-se com tudo. Nada fica pra mim e pró resto da maralha. Caralho de vida esta pá! foda-se!
Sim… um gajo escreve umas poesias todas delicodoces, é honesto no trato com os outros, é honesto consigo mesmo e depois?
Depois fode-se! Sim fode-se! E ainda ficam fantasmas de merda a azucrinar a cachimónia. Mas ontem acabei-lhe com o cagar. Até dormi melhor.
De manha olhei pró local onde o deixei. Continuava lá. Bem morto claro, já não chateia o filho da puta.
Pensei que ainda me olhava, o cabrão, mas não já não pia. Ta fodido de vez e não há cá mais merdas de conselhos bonitinhos que tou farto disso.
Andaram-me amigos a dizer:
-não vale a pena vinganças, temos de ser boas pessoas, temos de saber esquecer e perdoar, ser pessoas civilizadas. Sabem que vos digo? Estão-se a enganar. Que se foda isso tudo das boas maneiras. Eu quero é ficar bem. Matei-o e pronto. Sim fui eu. Fui eu que fodi isto tudo. Eu sou um gajo radical. Se fosse terrorista era o caralho, bombas pra cima e pra baixo, foder tudo e todos. Comigo não há meios-termos. Nada de negociações, isso é para o social, isso é o medo da lei. É o medo de ser preso.Eu quero que a lei se foda. Se um dia puder arrebento-me com explosivos e fodo uma data de gajos. Gajada do poder e o putedo que tiver com eles. Que esses gajos atrem sempre muita gaja. Não sei que lhes passa pela cabeça. É o dinheiro claro. Aquele italiano o albinoni ou o caralho é que a sabe bem. zurze-as a todas de putas pra cima. (Educadamente que o cabrão gosta é de vender). Mas sabem eu acho que isto ta mesmo tudo fodido. Não há ponta por onde se pegue.
Manuel F.C. Almeida






