
São quatro da manhã, teimosamente continuo acordado. A televisão do hotel passa um clássico do cinema. Casablanca. Bogart no seu melhor. Lá fora o frio faz-se sentir. Passeio o olhar pelas paredes do quarto como se fosse possível materializar ali alguém para conversar. Visto-me e desço ao bar. Sentados numa mesa um casal de namorados delicia-se a trocar beijos apaixonados e pelos vistos bêbados. Como estão belos naquela sua paixão. Na penumbra nem as suas caras vejo. Apenas os vultos. Chego ao balcão. Amplo, com uma garrafeira bem servida, é um bar aceitável, com uma funcionária linda. Os olhos verdes fazem-me lembrar uma deusa á muito partida. Peço um malte com gelo e fico a apreciar a beleza física daquela mulher. Ao fundo, sentada ao balcão, reparo pela 1ª vez numa outra mulher. Cabelos pretos e curtos, silhueta ainda jovem. Talvez na casa dos trinta. Tem um cigarro aceso numa mão e um copo na outra. Espero pela funcionária que me trás a bebida e pergunto-lhe quem é a senhora. Os olhos verdes e grandes sorriem e a sua resposta é enigmática, costuma aparecer, fuma, bebe e ocasionalmente conversa com quem está. Pouca coisa e nada de substancial. Agarro o meu copo e provo o sabor da bebida. É boa companhia a bebida. Sem que me aperceba a mulher aproxima-se e apresenta-se. Chamava-se Fátima e pergunta-me se pode fazer-me companhia. Aceito, embora com reservas. Não é usual serem as mulheres a tomar a iniciativa. Rapidamente nos apresentamos. Fico a saber que é nascida em 62 mas que gosta de dizer que nasceu em 66, pergunto-lhe porquê, responde que é uma questão psicológica. Ter 40 é diferente de ter 44. Sorriu de forma enigmática como todas as mulheres sorriem. Perguntou-me que fazia ali. Disse-lhe que nem eu sabia. Algo me tinha empurrado para aquele lugar e eu tinha vindo. De repente a sua pessoa pareceu-me surpreendentemente familiar. Algo naquela mulher me fazia recordar alguém. Os olhos, o cabelo, a face, tudo nela existia em mim. Fiquei assustado. Eu estava a milhares de km do meu passado e das pessoas que algum dia tinha conhecido. Pedi outra bebida, a mulher do bar veio, solícita, servir-me e voltei a reparar nos seus olhos cor esperança, lindos. Volto a atenção para a mulher enigmática. E reparo que aquela sensação de dejá vú se começa a dissipar. Trocamos palavras banais, sobre coisas banais. Rimos e nem ficamos a saber o nome do outro, Não me parece já tão familiar, ao invés a mulher do bar desperta-me para o que de belo a vida tem. Os seus olhos sorriem-me como á meses eu não via olhos a sorrir. A minha companhia despede-se, diz-me que é tempo de se recolher e agradece a conversa. Cordialmente despeço-me e encaro a funcionaria de frente. Os olhos eram lindos. O corpo apetecível, faltava agora conhece-la. Olhei para a porta do bar, novamente a figura que se afastava me parecia familiar. Olhou para traz, acenou-me e partiu. Olhei para o copo que tinha deixado. Preso ao mesmo, um papel com o meu nome escrito. Ainda nem sei como sabia o meu nome. No papel uma mensagem deixou-me curioso. People are strange whem you were a stranger. Faces are ugly whem you’re alone.
Manuel Filipe Carvalho de Almeida
















